sábado, abril 25, 2009

Davi, Jônatas, Veja, Pitt e Clooney

Interessante a crítica de cinema da Veja desta semana, “O ‘bromance’ está no ar”, de Isabela Boscov. Trata de certo tipo de amizade entre homens que chega a parecer um romance, mas sem nenhuma pulsão (homo)sexual. O que me chamou a atenção no artigo foi o tom adequadamente respeitoso para tratar desses relacionamentos referentes a duplas tanto fictícias como reais (Ben Affleck e Matt Damon, Brad Pitt e George Clooney). Na minha infância, eu já havia observado o fenômeno: Laurel e Hardy eram amicíssimos na vida real, e seus personagens, o Gordo e o Magro, chegavam a partilhar a mesma cama em alguns episódios, sem que o mais maldoso detrator os tratasse com a mesma severidade reservada ao par Bruce Wayne e Dick Grayson do seriado clássico “Batman”, nos anos 60.

Pena que a “inteligentzia” cultural do mainstream não seja tão reverente quando o tema envolve personagens bíblicos. Por exemplo, Davi e Jônatas: “Ora, acabando Davi de falar com Saul, a alma de Jônatas ligou-se com a alma de Davi; e Jônatas o amou como à sua própria alma. E desde aquele dia Saul o reteve, não lhe permitindo voltar para a casa de seu pai. Então Jônatas fez um pacto com Davi, porque o amava como à sua própria vida. E Jônatas se despojou da capa que vestia, e a deu a Davi, como também a sua armadura, e até mesmo a sua espada, o seu arco e o seu cinto” (1Sm 18:1-4).

“Falou, pois, Saul a Jônatas, seu filho, e a todos os seus servos, para que matassem a Davi. Porém Jônatas, filho de Saul, estava muito afeiçoado a Davi” (1Sm 19:1).

“Logo que o moço se foi, levantou-se Davi da banda do sul, e lançou-se sobre o seu rosto em terra, e inclinou-se três vezes; e beijaram-se um ao outro, e choraram ambos, mas Davi chorou muito mais. E disse Jônatas a Davi: Vai-te em paz, porquanto nós temos jurado ambos em nome do Senhor, dizendo: O Senhor seja entre mim e ti, e entre a minha descendência e a tua descendência perpetuamente.” (1Sm 20:41-42).

“Lamentou Davi a Saul e a Jônatas, seu filho, com esta lamentação (...) Angustiado estou por ti, meu irmão Jônatas; muito querido me eras! Maravilhoso me era o teu amor, ultrapassando o amor de mulheres” (2Sm 1:17,26).

Certa vez, na primeira metade dos anos 90, entrei em uma livraria e passei a folhear algumas recomendações do mostruário. Uma delas me chamou a atenção – felizmente não guardei o título nem o autor. Tratava-se de uma biografia não-autorizada do rei Davi, com tintas nitidamente panfletárias e antissemitas. Naquele pastiche, Davi era chamado de traidor do seu povo, gigolô do rei, da filha do rei e do filho do rei. Mais não pude avançar, tenho o estômago meio fraco para testemunhar porcos pisoteando pérolas.

Por essa época, li em uma Veja a opinião de determinados “clérigos” liberais afirmando que o espinho na carne do apóstolo Paulo seria nada menos que seu homossexualismo reprimido (fico devendo o link; não consegui a matéria no acervo eletrônico da editora, mas asseguro de que a li).

Já em janeiro de 2005, a revista publicou matéria do livro do psicólogo C. A. Tripp sustentando que Abraham Lincoln seria homossexual, prática que se vem tornando comum entre historiadores e pesquisadores ligados ao movimento gay (sic). Interessante que tal militância tente atribuir homossexualismo a figuras positivamente célebres, mas rejeite definitivamente esse rótulo para vultos históricos infames, como Hitler (nesse caso específico, o antropólogo Luiz Mott foi categórico: “Se nos empurrarem Hitler, então queremos Jesus Cristo do nosso lado”, disse ele, aludindo ao carinho todo especial do Mestre pelo discípulo João). A respeito da relação entre Mott e as Sagradas Escrituras, recomendo os contundentes e devastadores artigos de Olavo de Carvalho: “O Evangelho segundo Luiz Mott” e “Conspiração de iniquidades”.

Mas o ponto para o qual eu queria chamar a atenção é a invulnerabilidade de certas entidades midiáticas em contraposição ao gosto de se impingir ilações escandalosas a personagens bíblicas. Dado o nosso zeitgeist, Pitt, Clooney, Damon e Affleck não precisam de quem lhes defenda a masculinidade. Ainda que fossem homo ou bissexuais (sic), seriam igualmente célebres, bem-sucedidos e endinheirados. Já os servos de Deus não têm o mesmo tratamento. Ninguém mais dá pelota para o caráter violento e intolerante assumidamente confesso por Paulo. Já a suposição de ele ter tido uma atração carnal enrustida por seu pupilo Timóteo... Bom, se o boato rende mais que o fato, publique-se o boato e todos se divertem. Sobretudo, o príncipe deste mundo.

(Marco Antonio Dourado, Curitiba, PR)