quarta-feira, março 09, 2011

Brasil: este não é um país para crianças

Cada vez que volto do Brasil demoro mais para me recuperar dos seus efeitos... É claro que eu não deixo de sentir profundamente, toda vez que piso novamente em Portugal, a perda temporária de todos aqueles que amo, especialmente a minha filha, mas a estupefação e o sentimento de impotência diante da decadência ostensiva do país deixam sequelas cada vez mais duradouras a cada viagem. [...] O professor Olavo de Carvalho costuma dizer que dar sentido à história é algo totalmente relativo ao ponto de vista do observador, seja a sensação de “avanço” ou “decadência”, mas é óbvio que, em períodos determinados, a sensação da entropia torna-se autoevidente. O Brasil é um desses casos.

A propaganda em nível mundial de um país que “acabou com a pobreza” sob o governo messiânico de Lula da Silva não tem qualquer contato com a realidade, assim que se desembarca em qualquer aeroporto brasileiro. Mesmo assim, concedendo o argumento ao “outro lado”, resolvi me questionar se essa sensação não é apenas a casmurrice de quem torce o nariz para a pós-modernidade e os “novos valores morais” implantados à “alma do homem sob o socialismo”. Quem sabe mesmo tenha estado a ver o país de óculos escuros? Será que existe uma forma de medir se decadentes estamos ou se na verdade nunca “neste país” estivemos tão bem?

Pensando nisso, concluí que a forma mais concreta para definir essa situação seria verificar o que o país (as palavras de ordem “cidadania” e “justiça social” se incrustaram de modo indelével) tem a oferecer ou como influencia parte da população que irá definir seu futuro: as crianças. Seria o Brasil um país saudável para as crianças? Sob esse aspecto avaliei o tempo em que permaneci no Brasil. Depois de mais de ano sem pisar em terras brasileiras, por lá fiquei por exatos dez dias – no Rio Grande do Sul, para ser mais exato – e tirei um retrato da situação atual.

A primeira coisa que me “surpreendeu” é que se pode dizer que falta de segurança não é problema no Brasil. O problema é o seu excesso: há “segurança” em todo o lugar, de bancos à repartição pública, postos de gasolina e até lojinha 1,99. Vi mais armas em dois dias na rua no Brasil do que nos filmes arrasa-quarteirão de Hollywood que vi na TV. O absurdo é que para a maioria da população isso é invisível. Tão invisível que há sociólogos promovendo a “não violência” por perseguir programas de televisão e armas de brinquedo. Parece uma paródia, mas não é. Pode parecer que sou a favor das campanhas pelo desarmamento da população. Sou sim, mas da população criminosa, sendo o desarmamento do restante da população uma consequência natural disso.

Outro fato que me espanta e que nessa época de carnaval isso se acentua, é como jogamos nossas crianças à mercê dos predadores sexuais com uma ingenuidade suicida. Ver crianças emulando as caras e bocas e rebolado sensual de passistas de samba ao som de sucessos que só incentivam a pedofilia é algo que me revolta profundamente. Ainda havia – não sei se ainda existem – aqueles programas de auditório que promoviam concursos tipo “É o Tchan – infantil”.

Outro aspecto a notar é que, nas novelas, os escritores teimam em fazer reprogramação mental nas crianças – sem o nosso consentimento – trazendo para dentro de casa temas com os quais as crianças não estão preparadas para lidar, como tórridas cenas amorosas hetero ou (parece que é moda) homoeróticas, em nome da tal modernidade ou “da vida como ela é”. Certamente que esses fatos existem na vida das pessoas e nossos filhos são ou serão confrontados com eles. Mas é tarefa dos pais comentar sobre esses fatos e orientar seus filhos dentro do contexto educacional e religioso da família, e não a televisão. Outro aspecto é que, sim, fatos como esses acontecem, assim como mortes violentas, abusos sexuais e guerras também, todos os dias, e não é por isso que temos de mostrar essas cenas às crianças para sermos “educacionais”. Isso não é entretenimento, é doutrinação. Assim como o que se chama de “educação” também não passa de linha lateral de apoio às políticas governamentais de condicionamento social. É nesse ambiente “cultural” que nossos filhos têm de conviver hoje, no Brasil.

Mas o aspecto pedófilo da cultura brasileira é algo a examinar com mais cuidado. Minha percepção é que quanto mais fundo a cultura se afunda na apologia da pedofilia (seja em termos lúdicos ou não), mais o Estado tenta aprovar leis “duras” contra os supostos pedófilos, tudo para satisfazer a opinião pública. O caso Escola Base é o emblema desse tipo de ação midiática e brancaleônica, assim como parece ser esse outro caso. De nada adianta criar leis mais “duras” para esses crimes se a ação é errônea em sua condução e se não se atacam suas raízes. O Brasil parece ser um país em que o único tipo de nudez “aceito” pela mídia é aquele com sentido sexual, e com isso prestam um belo serviço a favor de uma erotização da cultura que só pode estimular mais abusos. Nesse sentido, o Brasil é um “caldo natural” de cultura para criminosos de todo o tipo, mas especialmente os abusadores sexuais.

Para terminar, é sábado de carnaval e o sinal da Rede Globo, durante dez dias, estará aberto em Portugal. Manchete no jornal mostra a nudez da “Globeleza” < link > e a chamada: “Venha curtir o carnaval brasileiro na Globo”. Definitivamente, o Brasil não é um país para crianças.

(Luís Afonso Assunção, Mídia Sem Máscara)

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