domingo, agosto 31, 2014

Articulista da Folha acusa Marina Silva de fundamentalista

O defeito dela é crer na Bíblia?
A inesperada candidatura da Sra. Marina Silva à Presidência da República deixa perplexos tanto a população como a opinião pública, inclusive os mais avisados. Todos reconhecem sua honestidade e inquestionável obstinação pelo progresso do homem brasileiro. Mas, por que então esse embaraço? Essa inquietação? Detecto, em casos extremos, cidadãos bem-intencionados que dizem que votarão em Marina, mas que, consciente ou inconscientemente, preferem que ela perca. Por que essa ambivalência? Não é por causa de seu apego a questões ecológicas, certamente, pois percebemos que as circunstâncias e as necessidades materiais imporão limites realistas a eventuais ações nesse campo. Não é por medo de inadequação em gestão, pois sua equipe, principalmente aquela que a assistia quando montava o seu partido, a Rede, inclui executivos, economistas e intelectuais reconhecidamente competentes.

Resta considerar suas crenças mais íntimas, inclusive religiosas. Minha convicção é a de que o comentarista não tem o direito de especular sobre a religião das pessoas que analisa. Todavia, há exceções quando se suspeita que essas crenças possam ter influência no bem-estar do povo. É o caso de fundamentalismos, inclusive o criacionismo.

Marina Silva, no passado, admitiu essa sua convicção. Ultimamente, evita discussões sobre o problema. Pois bem, não me sinto confortável em ter como presidente uma pessoa que acredita concretamente que o Universo foi criado em sete dias há apenas 4.000 anos [sic], aproximadamente.

Pois, para isso, é preciso ignorar a montanha de dados cientificamente incontornáveis e todo o patrimônio intelectual que a humanidade acumulou durante séculos. Percebo no fundamentalista cristão uma arrogância incomensurável, que apenas pode ser entendida como uma perversão intelectual, que não pode deixar de impor tendências cujos limites são imprevisíveis.

Muitos de seus seguidores vão perguntar qual seria a explicação para o fato de que tantos intelectuais (ou seriam pseudointelectuais) tivessem se integrado à Rede? Pois bem, Marina é um tesouro eleitoral, arrasta com ela uma multidão de eleitores bem-intencionados. Teria sido pelas suas ideias que esses economistas e intelectuais aderiram à Rede ou seria por causa do caudal aurífero eleitoral que, na sua liderança, perceberam?

Outros vão interpor contestações subjetivas como aquelas relacionadas às suas incontestáveis qualidades, tais como articulação oral, capacidade como debatedora, eloquência, etc. Ora, o fenômeno que foi chamado originariamente “idiot-savant” (savantismo) é hoje universalmente aceito.

A ciência reconhece que o cidadão pode atuar de maneira coerente em um campo, ser mesmo genial, enquanto em outras áreas do comportamento mostra-se incapaz, por vezes incontrolável. Ou seja, pior ainda. O fundamentalismo de Marina Silva não decorre da ignorância, mas de um defeito de percepção. Os especialistas chamam essa condição de desordem do desenvolvimento neural. Essa é a razão por que espero que Marina não ganhe esta eleição.

(Rogério Cezar de Cerqueira Leite, 83, físico, é professor emérito da Universidade Estadual de Campinas [Unicamp] e membro do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia e do Conselho Editorial da Folha; publicado na Folha de S. Paulo de 31/8/2014)

Nota: Será que Rogério se sentiria “confortável” com um presidente adepto do candomblé (já tivemos), do espiritismo (há inúmeros políticos espíritas) ou defensor da eugenia, como o ateu Richard Dawkins? Essas subjetividades religiosas também não representariam um risco? Marina se torna inapta pelo simples fato de crer no que a Bíblia ensina sobre a criação? Além de reforçar a ideia injusta segundo a qual os criacionistas seriam fundamentalistas (o que os aproximaria dos terroristas islâmicos), Rogério dá a entender que os criacionistas teriam algum tipo de debilidade intelectual! Ele ignora deliberadamente o rol de cientistas criacionistas que deixaram grande legado à humanidade, gente do quilate de Louis Pasteur, Blaise Pascal, Isaac Newton e vários outros. Eles também não eram dignos de confiança?

Rogério é, no mínimo, injusto em sua avaliação. Marina já deixou claro que concorda que tanto o evolucionismo quanto o criacionismo sejam ensinados nas escolas. Duvido que a tal “inquietação” a que o articulista se refere seja causada pelo fato de Marina ser religiosa, ou, na opinião dele, fundamentalista. A maioria das pessoas não está nem aí para isso. Essa “inquietação” pode se dever ao fato de que Marina despontou de repente (após a morte de Eduardo Campos) como potencial ameaça aos dois principais candidatos à Presidência da República. Talvez alguns a considerem inexperiente ou que ela poderá ter dificuldades para estabelecer parcerias necessárias à governabilidade.

De qualquer forma, Rogério parece preferir gente ligada à corrupção, aos desmandos políticos e às alianças espúrias, a alguém que tem um currículo aparentemente ilibado, boa família e fé consistente. Na verdade, alguém que é capaz de ser fiel ao seu Deus e a suas convicções (algo que ninguém vai cobrar dela) será também muito provavelmente fiel ao seu país. (Erro e injustiça semelhantes são cometidos por empregadores que dispensam guardadores do sábado pelo fato de essas pessoas colocarem acima de tudo sua fidelidade ao Criador. Com isso, esses empregadores perdem funcionários que certamente lhes seriam ainda mais leais.)

Se eu fosse cometer injustiça semelhante à de Rogério, poderia dizer que Hitler era darwinista (e quem disse isso foi a própria secretária dele) e Lênin, ateu. Mas não quero enveredar por esse caminho...

O texto de Rogério é simplesmente lamentável, e parece até encomendado para despertar o medo dos eleitores numa candidata cujo maior defeito, na visão enviesada dele, é crer que Deus criou o Universo e a vida. [MB]

Em tempo: Situação semelhante parece estar ocorrendo nos Estados Unidos (será que por causa da candidatura de outro criacionista, o Dr. Ben Carson?), onde ateus estão se organizando para fazer frente aos políticos religiosos. [Confira]

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