segunda-feira, março 31, 2014

Podemos continuar comendo tanta carne?

Passa da hora de repensar isso
A carne se tornou indispensável na nossa comida. Parece que não podemos viver sem ela. Se até há poucos anos o seu consumo era um privilégio, uma comida de dias de festa, hoje se tornou um ato cotidiano. Quiçá, inclusive, demasiado cotidiano. Precisamos comer tanta carne? Que impacto tem isso no meio ambiente? Que consequências para o bem-estar animal? Para os direitos dos trabalhadores? E para a nossa saúde? O consumo de carne está associado ao progresso e à modernidade. De fato, no Estado espanhol entre 1965 e 1991, sua ingestão foi multiplicada por quatro, especialmente a de carne de porco, segundo dados do Ministério da Agricultura. Nos últimos anos, no entanto, o consumo nos países industrializados estagnou ou até diminuiu, devido, entre outras questões, aos escândalos alimentares (vacas loucas, gripe das aves, frangos com dioxinas, carne de cavalo em vez de carne de vaca, etc.) e a uma maior preocupação com o que comemos. De qualquer modo, há que recordar que também aqui, e ainda mais num contexto de crise, muitos setores não podem optar por alimentos frescos nem de qualidade ou escolher entre dietas com ou sem carne.

A tendência nos países emergentes, como Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, os chamados BRICS, pelo contrário, é para aumento. Eles concentram 40% da população mundial e entre 2003 e 2012 seu consumo de carne aumentou 6,3%, e espera-se que entre 2013 e 2022 cresça 2,5%. O caso mais espetacular é o da China, que passou em poucos anos, de 1963 a 2009, de consumir 90 quilocalorias de carne por pessoa por dia para 694, como indica o Atlas da Carne. Os motivos? O aumento da população nesses países, a sua urbanização e a imitação de um estilo de vida ocidental por parte de uma ampla classe média. De fato, definir-se como “não vegetariano” na Índia, um país vegetariano por antonomásia, converteu-se, em alguns setores, num status social.

Mas o incremento da ingestão de carne no mundo não é gratuito e, pelo contrário, sai muito caro, tanto em termos do meio ambiente como sociais. Para produzir um quilo de carne de vitela, por exemplo, são necessários 15.500 litros de água, enquanto que para produzir um quilo de trigo são necessários 1.300 litros, e para um quilo de cenouras 131 litros, segundo o Atlas da Carne. Então, se para satisfazer a atual procura de carne, ovos e derivados lácteos em todo mundo são necessários por ano mais de 60 bilhões de animais de criação, engordá-los sai caríssimo. De fato, a criação industrial de animais gera fome, já que 1/3 das terras de cultivo e 40% da produção de cereais no mundo são destinados a alimentá-los, em vez de dar de comer diretamente às pessoas. E nem todos podem pagar por um pedaço de carne da agroindústria. Segundo dados do Grupo ETC, 3,5 bilhões de pessoas, metade dos habitantes do planeta, poderiam se nutrir com o que esses animais consomem.

Além disso, vacas, porcos e galinhas, no atual modelo de produção industrial e intensivo, são alguns dos principais geradores de mudança climática. Quem diria! Calcula-se que a pecuária e seus subprodutos gerem 51% das emissões globais de gases de efeito de estufa. De fato, uma vaca e seu bezerro, num estabelecimento de criação pecuária, emitem mais que um carro com treze mil quilômetros, segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). Ao comer carne, somos corresponsáveis.



O mau trato é o lado mais cruel da pecuária industrial, onde os animais deixam de ser seres vivos para se tornar coisas e mercadorias. O documentário Samsara, sem cenas de violência explícita, mostra a brutalidade oculta, extrema, dos estabelecimentos de produção de carne e leite, onde os animais mal vivem e os trabalhadores os esquartejam, golpeiam, estripam como se fossem objetos. Um modelo produtivo que tem sua origem nos matadouros de Chicago, no início do século 20, onde a produção em linha permitia, em apenas 15 minutos, matar e cortar uma vaca. Um método tão “eficiente” que Henry Ford o adotaria para a produção de automóveis. Para o capital, não há diferença entre um carro e um ser com vida. E para nós? A distância entre o campo e o prato se tornou tão grande nos últimos anos que, como consumidores, muitas vezes já não estamos conscientes de que por trás de uma salsicha, de uma lasanha ou de um esparguete à carbonara havia vida.

As condições laborais de quem trabalha nesses estabelecimentos deixa muito a desejar. De fato, entre os animais que são sacrificados e os empregados que lá trabalham há mais pontos em comum do que estes últimos possam imaginar. Upton Sinclair, em sua brilhante obra A Selva, na qual retrata a precária vida dos trabalhadores dos matadouros de Chicago nos primeiros anos do século passado, deixa claro: “Ali sacrificavam-se homens tal como se sacrificava gado: cortavam seus corpos e suas almas em pedaços e convertiam-nos em dólares e cêntimos.” Hoje, muitos matadouros contratam imigrantes em condições precárias, mexicanas nos Estados Unidos, como retrata o excelente filme de Richard Linklater “Fast Food Nation”, ou do Leste Europeu, nos países do centro da União Europeia. Cem anos depois, a obra de Sinclair continua a ter plena atualidade.

A indústria pecuária tem, além do mais, um efeito nefasto sobre a nossa saúde. O fornecimento sistemático de remédios aos animais, de maneira preventiva para que possam sobreviver em péssimas condições nos estábulos até ao matadouro, e para obter uma engorda mais rápida, e com menos custo para a empresa, leva a que se desenvolvam bactérias resistentes a esses fármacos. Algumas bactérias que facilmente podem passar às pessoas através da cadeia alimentar, entre outras formas.

Na atualidade, segundo a Organização Mundial da Saúde, são dados mais antibióticos a animais sãos que a pessoas doentes. Na China, por exemplo, calcula-se que são dados aos animais mais de 100 mil toneladas de antibióticos por ano, a maioria sem qualquer tipo de controle, e nos Estados Unidos, 80% dos antibióticos vão para o gado, como indica o Atlas da Carne. E isso não é tudo. A própria FAO reconhece que nos últimos 15 anos, 75 % das doenças humanas epidérmicas têm sua origem nos animais, como a gripe das aves ou a gripe porcina, consequência de um modelo insalubre de produção pecuária.

Quem ganha com esse modelo? Obviamente que nós não, ainda que nos queiram fazer crer o contrário. Algumas multinacionais controlam o mercado: Smithfield Foods, JBS, Cargill, Tyson Foods, BRF, Vion. E obtêm importantes lucros com um sistema que contamina o meio ambiente, provoca mudanças climáticas, explora os trabalhadores, maltrata os animais e nos faz adoecer.

Uma pergunta se impõe: Podemos continuar comendo tanta carne?

(Artigo publicado inicialmente em catalão em Etselquemenges.cat, em 18 de fevereiro de 2014.Tradução do espanhol para português de Carlos Santos para Esquerda.net)

Nota: O livro Atlas da Carne pode ser baixado aqui.





Gravidade: um manifesto contra a poluição do espaço

Vazio por fora e por dentro
Você consegue imaginar sua vida sem GPS? Talvez você até consiga, mas os pilotos de avião e comandantes de navio não mais. Consegue imaginar um mundo sem telecomunicações, sem telefonia para outros países ou mesmo transmissão de TV via satélite? Essas facilidades do mundo moderno podem ter fim a qualquer momento, e tudo por culpa do lixo produzido pelos seres humanos. Para chamar atenção para essa realidade (não tão exagerada quanto no filme, mas real), o diretor mexicano Alfonso Cuarón levou às telas o filme “Gravidade”, estrelado por Sandra Bullock e George Clooney. Para quem gosta de filmes espaço-siderais, um prato cheio. Para quem gosta de precisão científica, valeu o esforço dos produtores (o filme chega bem perto de retratar com precisão a realidade das viagens orbitais e os perigos envolvidos nessas empreitadas, mas não sem erros praticamente inevitáveis). Indicado a dez Oscar, “Gravidade” também traz à tona discussões filosóficas e até teológicas. [Continue lendo]

A teoria da evolução combina com o judaísmo?

Rabino Tzvi Freeman
Pergunta: Sempre recebo respostas conflitantes sobre a Teoria da Evolução e o Judaísmo. Você poderia esclarecer?

Resposta: Se você está recebendo respostas conflitantes, o mais provável é que você esteja perguntando a judeus. Como eles dizem, para cada dois judeus há três opiniões. Isso é apenas parte de ser judeu. Mas agora você está me perguntando, portanto, darei minha opinião. Não posso imaginar como alguém que entende evolução e entende Torá poderia imaginar que são compatíveis. A evolução é uma tentativa de explicar a vida em termos puramente materialísticos. A Torá, por outro lado, nos diz que a mão de D’us e Seu sopro de vida estão em todas as coisas e em todos os eventos. Ou coloque desta maneira: Evolução e Gênesis ambos concordam que o homem começou como um punhado de barro. A evolução diz que se você deixar barro suficiente por tempo suficiente, aquilo terminará se tornando um ser humano que vai construir computadores e naves espaciais. O Gênesis diz que você precisa de uma força inteligente para que isso aconteça.

Ou para simplificar ainda mais: a Evolução diz que a origem do Universo é matéria inerte, e que a inteligência é um acidente. O Gênesis coloca a inteligência no centro do Universo, e diz que matéria inerte é uma ilusão.

Simplificando: a Evolução diz que um universo inerte pode criar seres inteligentes. Gênesis diz que um universo inteligente pode às vezes parecer tolo, até que você observa melhor.

Por outro lado, não estou pronto para acreditar que o criacionismo é ciência [comento isso abaixo. – MB]. Como foi, exatamente, que uma inteligência supercósmica extraiu todos esses seres a partir do barro primitivo é algo ainda além da nossa ciência. Talvez um dia tenhamos teorias que possam explicar um pouco disso em termos que possamos apreender. Ou talvez não. Agora, no entanto, a evolução materialística é totalmente deficiente em explicar qualquer coisa.

Fazendo justiça à sua pergunta, eu deveria acrescentar que deve ter havido aqueles que tentaram alinhar Judaísmo e Evolução, alguns deles respeitáveis eruditos de Torá. Nenhum deles, porém, conseguiu fazer uma leitura plausível de Gênesis com suas teorias. O erro deles brota da crença de que a evolução de certa forma foi cientificamente provada. Esse simplesmente não é o caso. Embora as teorias de Darwin e seus similares modernos possam ter provado ser um paradigma útil para determinados estudos, eles não podem de maneira alguma ter o rigor pelo qual uma teoria deve ser colocada no mundo acadêmico a fim de ser aceita como “provada”. Sua única alegação é o medo patológico da mente humana de dizer: “Eu não entendo.”

(Rabino Tzvi Freeman, Chabad.org)

Nota: Gostei da resposta do rabino, mas ele poderia ter dito que o criacionismo não é totalmente científico, e não que simplesmente não é científico. Não é porque é um modelo religioso/filosófico, mas também conta com argumentos científicos e lida com dados empíricos. O evolucionismo, de maneira semelhante, trabalha com a ciência à luz de uma cosmovisão filosófica, o naturalismo. [MB]

domingo, março 30, 2014

Isaac & Charles: construção humana?

Conheça a página da tirinha no Facebook e o blog.

Dez razões para não ter saudades da ditadura

Esse aí disse o que não devia no Face
[Não gosto dessa “democracia” instalada em nosso país. Parece que o que mais se democratizou foi o acesso à corrupção. E entendo que as ditaduras comunistas genocidas foram - e são - uma praga da humanidade. Mas também não posso conceber que algumas pessoas, por causa da desilusão e da indignação, tenham saudades de um tempo em que a discordância era resolvida com censura, prisão e tortura. Um texto como este abaixo, por exemplo, possivelmente levasse seu autor – e a mim também – ao pau-de-arara (foto ao lado). E as redes sociais certamente também não estariam à disposição para falarmos o que quiséssemos (portanto, a legenda dessa foto aí poderia ser verdadeira). Retorno às ditaduras - militares ou comunistas - nunca será uma solução e não deveria ser uma opção. O melhor protesto se faz nas urnas – mas um povo que adora BBBs, novelas e festança carnavalesca e futebolística não sabe como usar essa “arma” democrática, e é massa de manobra fácil nas mãos da esquerda, da direita, dos liberais, dos conservadores, enfim, de quem quer que tenha o poder nas mãos e a capacidade e os meios de oferecer o pão e o circo. – MB]

1. Tortura e ausência de direitos humanos. As torturas e assassinatos foram a marca mais violenta do período da ditadura. Pensar em direitos humanos era apenas um sonho. Havia até um manual de como os militares deveriam  torturar para extrair confissões, com práticas como choques, afogamentos e sufocamentos. Os direitos humanos não prosperavam, já que tudo ocorria nos porões das unidades do Exército. “As restrições às liberdades e à participação política reduziram a capacidade cidadã de atuar na esfera pública e empobreceram a circulação de ideias no país”, diz o diretor-executivo da Anistia Internacional Brasil, Atila Roque. Sem os direitos humanos, as torturas contra os opositores ao regime prosperaram. Até hoje a Comissão Nacional de Verdade busca dados e números exatos de vítimas do regime. [...]

2. Censura e ataque à imprensa. Uma das marcas mais conhecidas da ditadura foi a censura. Ela atingiu a produção artística e controlou com pulso firme a imprensa. Os militares criaram o Conselho Superior de Censura, que fiscalizava e enviava ao Tribunal da Censura os jornalistas e meios de comunicação que burlassem as regras. Os que não seguissem as regras e ousassem fazer críticas ao país, sofriam retaliação - cunhou-se até o slogan “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Não são raras histórias de jornalistas que viveram problemas no período. [...] As redações eram visitadas quase que diariamente por policiais federais. [...]

3. Amazônia e índios sob risco. No governo militar, teve início um processo amplo de devastação da Amazônia. O general Castelo Branco disse, certa vez, que era preciso “integrar para não entregar” a Amazônia. A partir dali, começou o desmatamento e muitos dos que se opuseram morreram. “Ribeirinhos, índios e quilombolas foram duramente reprimidos tanto ou mais que os moradores das grandes cidades”, diz a jornalista paraense e pesquisadora do tema, Helena Palmquist. A ideia dos militares era que Amazônia era “terra sem homens”, e deveria ser ocupada por “homens sem terra do Nordeste”. Obras como as usinas hidrelétricas de Tucuruí e Balbina também não tiveram impactos ambientais ou sociais previamente analisados, nem houve compensação aos moradores que deixaram as áreas alagadas. Até hoje, milhares que saíram para dar lugar às usinas não foram indenizados. [...]

4. Baixa representação política e sindical. Um dos primeiros direitos outorgados aos militares na ditadura foi a possibilidade do governo suspender os direitos políticos do cidadão. Em outubro de 1965, o Ato Institucional número 2 acabou com o multipartidarismo e autorizou a existência de apenas dois: a Arena, dos governistas, e o MDB, da oposição. O problema é que existiam diversas siglas, que tiveram de ser aglutinadas em um único bloco, o que fragilizou a oposição. “Foi uma camisa-de-força que inibiu, proibiu e dificultou a expressão político-partidária. A oposição ficou muito mal acomodada, e as forças tiveram que conviver com grandes contradições”, diz o cientista político da Universidade Federal de Pernambuco, Michael Zaidan. As representações sindicais também foram duramente atingidas por serem controladas com pulso forte pelo Ministério do Trabalho. Isso gerou um enfraquecimento dos sindicatos, especialmente na primeira metade do período de repressão. [...]

5. Saúde pública fragilizada. Se a saúde pública hoje está longe do ideal, ela ainda era mais restrita no regime militar. O Inamps (Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social) era responsável pelo atendimento, com seus hospitais, mas era exclusivo aos trabalhadores formais. “A imensa maioria da população não tinha acesso”, conta o cardiologista e sindicalista Mário Fernando Lins, que atuou na época da ditadura. Surgiu então a prestação de serviço pago, com hospitais e clínicas privadas. “Somente após 1988 é que foi adotado o SUS (Sistema Único de Saúde), que hoje atende a uma parcela de 80% da população”, diz Lins. [...] Não existiam planos de saúde, e o saneamento básico chegava a poucas localidades. [...]

6. Linha dura na educação. A educação brasileira passou por mudanças intensas na ditadura. “O grande problema foi o controle sobre informações e ideologia, com o engessamento do currículo e da pressão sobre o cotidiano da sala de aula”, sintetiza o historiador e professor da Universidade Federal de Alagoas, Luiz Sávio Almeida. As disciplinas de filosofia e sociologia foram substituídas pela de OSPB (Organização Social e Política Brasileira, caracterizada pela transmissão da ideologia do regime autoritário, exaltando o nacionalismo e o civismo dos alunos e, segundo especialistas, privilegiando o ensino de informações factuais em detrimento da reflexão e da análise) e Educação, Moral e Cívica. Ao mesmo tempo, com o baixo índice de investimento na escola pública, as unidades privadas prosperaram. [...]

7. Corrupção e falta de transparência. No período da ditadura, era praticamente impossível imaginar a sociedade civil organizada atuando para controlar gastos ou denunciando corrupção. Não havia conselhos fiscalizatórios e, com a dissolução do Congresso Nacional, as contas públicas não eram analisadas, nem havia publicidade dos gastos públicos, como é hoje obrigatório. “O maior antídoto da corrupção é a transparência. Durante a ditadura, tivemos o oposto disso. Os desvios foram muitos, mas acobertados pela força das baionetas”, afirma o juiz e um dos autores da Lei da Ficha Limpa, Márlon Reis. [...] “Durante a ditadura, a corrupção não foi uma política de governo, mas de Estado, uma vez que seu principal escopo foi a defesa de interesses econômicos de grupos particulares.”

Protestos contra a ditadura eram "resolvidos" na pancada
8. Nordeste mais pobre e migração. A consolidação do Nordeste como região mais pobre do país teve grande participação do governo dos militares. “Nenhuma região mudou tanto a economia como o Nordeste”, diz o doutor em economia regional Cícero Péricles Carvalho, professor da Universidade Federal de Alagoas. Com as políticas adotadas, a região teve um crescimento da pobreza. “Terminada a ditadura, o Nordeste mantinha os piores indicadores nacionais de índices de esperança de vida ao nascer, mortalidade infantil e alfabetização. Entre 1970 e 1990, o número de pobres no Nordeste aumentou de 19,4 milhões para 23,7 milhões, e sua participação no total de pobres do país subiu de 43% para 53%”, afirma Péricles. O crescimento urbano registrado teve como efeito colateral a migração desregulada. “O modelo urbano-industrial reduziu as atividades agropecuárias, que eram determinantes na riqueza regional, com 41% do PIB, para apenas 14% do total em 1990”, diz Péricles. [...] “A migração gerou mais pobreza nas cidades, sem diminuir a miséria no campo. A população do campo reduziu-se a um terço entre 1960 e 1990”, acrescenta Péricles. 

9. Desigualdade: bolo cresceu, mas não foi dividido. “É preciso fazer o bolo crescer para depois dividi-lo.” A frase do então ministro da Fazenda Delfim Netto é, até hoje, uma das mais lembradas do regime militar. Mas o tempo mostrou que o bolo cresceu, sim, ficou conhecido como “milagre brasileiro”, mas poucos comeram fatias dele. A distribuição de renda entre os estratos sociais ficou mais polarizada durante o regime: os 10% dos mais ricos que tinham 38% da renda em 1960 e chegaram a 51% da renda em 1980. Já os mais pobres, que tinham 17% da renda nacional em 1960, decaíram para 12% duas décadas depois. Assim, na ditadura houve um aumento das desigualdades sociais. “Isso levou o país ao topo desse ranking mundial”, diz o professor de Economia da Universidade Federal de Alagoas, Cícero Péricles. Entre 1968 e 1973, o Brasil cresceu acima de 10% ao ano. Mas, em contrapartida, o salário mínimo - que vinha recuperando o poder de compra nos anos 1960 - perdeu com o golpe. “Em 1974, em pleno ‘milagre’, o poder de compra dele representava a metade do que era em 1960”, acrescenta Péricles. [...]

Programa "Ilusões da mídia" (compacto)

sexta-feira, março 28, 2014

Médico de homens e de almas

Dr. Luiz Fernando Sella
Importância da mensagem de saúde defendida pela Igreja Adventista do Sétimo Dia

Médico de Homens e de Almas é o título do famoso livro escrito por Taylor Caldwell, mas bem poderia servir para identificar o Dr. Luiz Fernando Sella, um médico ex-ateu, hoje totalmente envolvido no ministério médico-missionário adventista. Luiz nasceu em Concórdia, SC, em 1983. Formado em medicina pela Universidade Federal de Santa Catarina, foi médico visitante da University of Miami School of Medicine, em 2006 e 2007, e certificado pela Educational Commission for Foreign Medical Graduates, em 2007. Estudou também no Wildwood Lifestyle Center & Hospital, também nos EUA. Atuou como médico no Programa Saúde da Família, em Santa Catarina, com enfoque em medicina preventiva e estilo de vida, e tem experiência em organização de cursos de Medicina Preventiva e Feiras de Saúde no Brasil, Estados Unidos, Japão e África. Casado com a médica Daniela Tiemi Kanno, atualmente é diretor clínico do Centro Adventista de Vida Saudável (Cevisa), em Engenheiro Coelho, SP. Nesta entrevista, concedida ao jornalista Michelson Borges, o Dr. Luiz fala de sua conversão, da importância da mensagem de saúde defendida pela Igreja Adventista do Sétimo Dia e do seu livro Universo Paralelo, recém-lançado pela Casa Publicadora Brasileira e escrito em parceria com a Dra. Daniela. [Continue lendo.]

A assinatura do Artista nas asas das borboletas

Borboletas e algumas mariposas são símbolos quase universais de beleza natural. Um dos grandes motivos para isso, obviamente, são suas asas coloridas e charmosas. É exatamente isso que você vê nas fotos abaixo; maravilhosas macrofotografias feitas por pelo bioquímico e fotógrafo Linden Gladhill, que nos mostram essa maravilha em um nível não observável pelo olho humano. As borboletas e mariposas pertencem à ordem Lepidoptera, que significa “asa escamosa”. As imagens altamente ampliadas (entre sete e 17 vezes do tamanho natural) mostram essas escamas que cobrem as delicadas asas dos insetos, com seus padrões belíssimos. (Hypescience)













59% dos brasileiros se incomodam com beijo gay

Quem se importa com a maioria?
A maioria dos brasileiros ainda se incomoda ao ver um beijo de um casal gay em locais públicos. De acordo com pesquisa divulgada nesta quinta-feira pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), 59,2% dos entrevistados se disseram incomodados ao verem dois homens ou duas mulheres se beijando na boca em público. Segundo o estudo - uma nova edição do Sistema de Indicadores de Percepção Social sobre tolerância social à violência contra as mulheres -, metade dos brasileiros (50,1%) se mostra favorável a casais do mesmo sexo terem os mesmos direitos dos outros casais. Para 51,7%, no entanto, o casamento gay deve ser proibido. Quando não se mencionam direitos ou casamento, mas somente a possibilidade de uma relação afetiva entre pessoas do mesmo sexo, a aceitação é menor: somente cerca de 41% dos entrevistados concordaram que “um casal de dois homens vive um amor tão bonito quanto entre um homem e uma mulher”.

De acordo com os pesquisadores, “no sentido mais abstrato, no momento de concordar com a igualdade de direitos, uma parcela maior da população mostra-se mais tolerante, mas esses direitos não parecem incluir a demonstração de afeto em ambientes públicos”. Segundo os resultados do estudo, jovens apresentam tolerância maior à homossexualidade, e os idosos mostram-se mais intolerantes. A religião também teve parcela significativa nas respostas. Os católicos só se mostraram intolerantes além da média no que toca à ideia de proibir o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Os evangélicos, por sua vez, se sobressaem como grupo mais intolerante à homossexualidade. Segundo os pesquisadores, a chance de esses fiéis tenderem a concordar total ou parcialmente com a proibição do casamento é 3,5 vezes maior do que a de não católicos ou não evangélicos, enquanto a dos católicos é 1,4 vez maior. Já a chance de evangélicos serem neutros ou discordarem da possibilidade de o amor entre homossexuais ser belo é 2,2 vezes maior que a dos não evangélicos, inclusive católicos. E a chance de esse grupo se sentir incomodado com o beijo homossexual é 2,1 vezes maior.

A pesquisa ouviu 3.810 pessoas em todas as regiões do País. O estudo completo faz recorte regional, de gênero, de religião, além de idade, escolaridade e renda.


Nota: Mas do jeito que o marketing pró-homossexualismo vai, em pouco tempo muito mais gente será convencida a aceitar o “casamento” gay e as manifestações de afeto públicas entre homossexuais, inclusive as pornográficas, protagonizadas durante as paradas gays. E quem se importa com o que pensa ou sente a maioria das pessoas? [MB]

quinta-feira, março 27, 2014

Artigo “misterioso” se opõe à evolução e é retirado do ar

Situação no mínimo inusitada
O The Journal of Biology and Life Science, publicado pelo Instituto Macrothink, retirou um artigo que admitiu: “Fósseis não fornecem [sic] evidências convincentes e diretas para a evolução”, sem motivo alegado. O anúncio completo para a retirada do artigo “Evidências fósseis (Paleontologia) opostas à teoria de Darwin”, supostamente escrito por Abdul Ahad Md., da Universidade Hajee Mohamed Danesh de Ciência e Tecnologia, em Bangladesh, e Charles D. Michener, da Universidade de Kansas foi: “O conselho editorial comunica que esse artigo foi retirado em 25 de fevereiro de 2014. Se você tiver alguma dúvida, por favor contate-nos em: jbls@macrothink.org” Esse anúncio parece ter desaparecido da web, mas está disponível no Google Cache. O mesmo vale para o artigo, que parece ter sido publicado em algum momento neste ano. Aqui está o resumo dele (e aqui o paper completo):

“A Teoria de Darwin é um tema central da biologia e de todas as teorias da evolução. A Paleontologia, o estudo dos fósseis, fornece evidências convincentes e diretas para a evolução [mas também há evidências contraditórias, é bom lembrar]. Se os organismos de mesma classe surgem a partir do mesmo ancestral, como Darwin opina, o registro fóssil deve fornecer uma série de fósseis do progressivo para os depósitos mais antigos, que mostram o estágio intermediário entre os modernos (existentes) organismos vivos especializados, mas estes não foram encontrados. No entanto, a madeira petrificada é um exemplo familiar de fósseis de plantas. Invertebrados não têm partes duras, por isso eles raramente formam fósseis, mas alguns insetos foram encontrados em âmbar como fósseis. Todos os fósseis de vertebrados são ossos fragmentados. Por exemplo, os fósseis de dinossauros são osso da coxa, osso dos braços, dentes, pegadas, rastros, mordidas, etc., e fósseis de ancestrais dos humanos são fragmentos de crânio, dentes, maxilares, etc. Mesmo esses fósseis são em quantidade insignificante e não são encontradas no formato original, mas são moldes, projeções, compressões, impressões, etc. O único fóssil inalterado é o mamute lanoso. Além disso, fósseis de transição não foram encontrados; fósseis reivindicados como de transição do Archaeopteryx e Seymouria não são transitórios, eles são verdadeiramente ave e réptil, respectivamente.

“[Ao se] obter de fósseis, são fósseis de organismos atuais ou são [eles] fósseis de organismos extintos que podem se formar durante um dilúvio universal. Evidências fósseis provam que os seres humanos não evoluíram de um animal inferior simiesco. O próprio Darwin concordou em The Descent Of Man que a origem do ser humano não pode ser explicada pela ciência. O codescobridor da seleção natural, Alfred Russel Wallace, nunca acreditou que humanos evoluíram de um animal inferior. Além disso, a estimativa de idade do fóssil ou da idade da Terra por método radiométrico e a elaboração da tabela de tempo geológico (escala) é imaginária, uma vez que olha para 3,5 bilhões anos.

“Extinção de organismos vivos nunca produz quaisquer novas espécies; se produzir, não há a necessidade de conservação da biodiversidade convencionada para evitar a extinção. Fósseis vivos provam que não há nenhuma relação evolutiva entre os fósseis e organismos existentes. Os pais da paleontologia e da geologia moderna opõem-se à evolução. Consequentemente, a paleontologia não fornece convincentes, fortes, verificadas e diretas evidências para a evolução, bem como as evidências fósseis são opostas à Teoria de Darwin. Além disso, os cientistas da maior parte dos países, exceto alguns, não têm facilidade para trabalhar com os fósseis, devido à falta de tecnologia, e eles também não têm mesmo a chance de ver os fósseis. É por isso que os evolucionistas, bem como os paleontólogos ardilosamente mostraram os fósseis como evidências diretas da evolução orgânica. Darwin afirmou que, se o registro geológico for perfeito, então a principal objeção de sua teoria da seleção natural será muito reduzida ou desaparecerá, e ele, que rejeita essas visões sobre a natureza do registro geológico, poderia justamente rejeitar toda a sua teoria.”

A conclusão: “É visto a partir de diferentes literaturas que os fósseis não fornecem evidências convincentes e diretas para a evolução; ao invés disso, a evidência fóssil é extremamente pobre e tendenciosa. Como os fósseis são em quantidade insignificante e de ossos fragmentados, assim, como os organismos vivos, não há classificação taxonômica, como ordem, família e assim por diante, exceto os dinossauros, cuja classificação é hipotética. No entanto, os evolucionistas fizeram extrema publicidade sobre fósseis para convencer os não evolucionistas. Além disso, os cientistas da maior parte dos países, exceto alguns, não têm viabilidade para trabalhar com fósseis, devido à falta de tecnologia e outros recursos. Também eles não têm chance de ver os fósseis. É por isso que os evolucionistas, bem como os paleontólogos, ardilosamente mostraram os fósseis como evidências diretas e sonoras para a evolução orgânica. Como resultado, Ho (1988) apontou que o símbolo da seleção natural é derivado da ideologia socioeconômica dominante da era vitoriana, agora rejeitado por quase toda a humanidade. De fato, grande parte da razão para o sucesso instantâneo da teoria de Darwin é que ela foi cortada do próprio tecido da era vitoriana ou sociedade inglesa. Não há motivo para ainda se agarrar a essa metáfora, pois ela não pode servir a outros fins que não para apoiar essas injustiças que lhe deram origem. Assim, artigos de pesquisa são necessários se outras evidências da evolução e teoria darwiniana da seleção natural (em A Origem das Espécies), bem como a seleção sexual (em The Descent of Man) se mostrarem verdadeiras ou falsas.”

Nos pareceu um pouco estranho que alguém como Charles Michener – um entomologista premiado que escreveu a introdução para uma edição de A Origem das Espécies de Darwin, em 1993 – fosse o coautor de um artigo como esse, por isso questionamos-lhe o que tinha acontecido. Acontece que lhe pareceu um pouco estranho também. Ele explicou:

“O documento foi apresentado com o meu nome como coautor, mesmo que eu não tivesse conhecimento do artigo e nunca tenha contribuído de alguma forma para a sua escrita ou ideias. Eu estava completamente surpreso ao descobrir o meu nome como coautor de um artigo sobre o qual eu não sabia nada. Meu desejo é  que se remova o meu nome como coautor de um artigo ao qual eu não tenha feito nenhuma contribuição. Eu também solicitei que o meu nome não fosse citado como um colaborador dentro do artigo. Foi provavelmente o editor da revista que escreveu sobre a rejeição do documento, e não apenas a remoção de meu nome como coautor.”

Nós contatamos o autor Ahad e a revista para mais detalhes, e atualizaremos com tudo o que descobrirmos.

Update, 07:45 Ocidental, 3/25/14: editora da revista nos enviou esta resposta inútil: “Revista de Biologia e Ciências da Vida vai publicar o jornal online antes da data de publicação. Por exemplo, para a edição de fevereiro de 2014, os artigos aceitos durante agosto de 2013 e janeiro 2014 serão selecionados para serem publicados nessa edição. No entanto, vamos fazer o upload dos documentos online, uma vez que foram aceitos em vez de esperar a data de fevereiro de 2014. Em seguida, os leitores podem revisar o artigo e nos dar feedbacks, e nós poderíamos finalmente avaliar o valor do artigo. Com o [artigo] que você indicou há algum problema com a aceitação por parte do coautor, antes da data de publicação final (28 de fevereiro, 2014). Portanto, nós publicamos um anúncio e retiramos o artigo do site.”

(Retraction Watch; tradução de Alexsander Silva)

Crise na Crimeia pode originar nova ordem mundial?

Os líderes dos países mais industrializados expulsaram a Rússia do bloco
O G7 está de volta depois que os países mais industrializados do mundo, agrupados no chamado G8, decidiram excluir a Rússia na última segunda-feira. Sob a liderança do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, os presidentes do grupo - que também inclui Alemanha, Canadá, França, Japão, Itália e Reino Unido - se reuniram em Haia, na Holanda, sem a delegação russa, em represália à anexação da Crimeia por Moscou. O ministro de Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov, assegurou que a decisão é uma “grande tragédia” para seu país. Os acontecimentos na Ucrânia mudaram profundamente as percepções ocidentais em relação à Rússia, e é muito difícil imaginar uma volta rápida à normalidade. Ao chegar à Holanda para a reunião, Obama disse que os EUA e a Europa haviam se unido na imposição de sanções que trariam “consequências significativas para a economia russa”.

O ex-embaixador da ONU em Moscou, Michael McFaul, escreveu que o presidente russo, Vladimir Putin, “se aproveita do embate com o Ocidente... (e) mudou sua estratégia”. Mesmo assim, o ministro das Relações Exteriores da Suécia, Carl Bildt, disse no Twitter que o prognóstico sombrio de McFaul subestima o problema já que o presidente russo estava “se baseando em ideias ortodoxas profundamente conservadoras”. Quando os responsáveis pelas boas relações entre Oriente e Ocidente falam dessa forma, não é um bom sinal.

Será que isso é uma segunda Guerra Fria ou apenas um reajuste na política mundial? A resposta dependerá em boa parte das decisões que serão tomadas nos próximos dias: uma invasão do leste da Ucrânia poderia gerar uma grande guerra, mas a consolidação da mão firme russa na Crimeia, com ações secretas de apoio a grupos militares russos em Donetsk ou Jarkov, criaria um dilema ainda mais difícil para os governos ocidentais.

Mesmo assim, como o Kremlin parece não ter intenção de mudar de posição quanto à Crimeia e abriu a possibilidade de uma intervenção para apoiar os russos na Moldávia ou nas repúblicas do mar Báltico (que são membros da OTAN), é evidente que o novo clima de tensão não vai ser atenuado rapidamente e ainda pode se agravar.

Até agora, a percepção pública da dependência europeia em relação ao comércio com a Rússia levou muitas pessoas a considerarem improvável que sejam impostas sanções significativas. Mas quem tem essa opinião pode estar subestimando o quanto os líderes europeus estão em acordo (até o momento de forma privada) sobre tomar medidas mais duras. Ou o quanto de culpa sentem por não ter agido com mais eficiência há anos.

As “medidas específicas” promulgadas até o momento pelos EUA e a União Europeia (UE) simplesmente penalizam alguns amigos de Putin e seus aliados políticos. As sanções que foram a princípio combinadas entre os líderes da UE na semana passada contra empresas russas poderiam levar a uma verdadeira guerra comercial.

Também na semana passada, a Comissão Europeia se comprometeu a intensificar seu esforço em reduzir a dependência energética em relação à Rússia. E é nesta área que os líderes europeus têm mostrado seu ressentimento por terem sido enganados por Putin e terem permitido que as coisas voltassem ao normal.

A interrupção do fornecimento de gás russo em 2006 e a guerra de 2008 com a Geórgia já haviam levado a promessas de reduzir a dependência energética. Mas, na época, muitos culparam a Geórgia por provocar os militares russos e queriam rapidamente voltar a fazer negócios com os países do bloco conhecido como BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), que estavam em seu auge.

Agora, a possibilidade de reduzir as importações de gás russo vem sendo levada a sério, destacando-se a capacidade da Ucrânia de fazer o mesmo, e de tomar essas medidas antes da próxima movimentação russa, não depois.

Como disse o primeiro-ministro sueco, Fredrik Reinfeldt, ao programa Newsnight da BBC, no início do mês, uma guerra comercial pode ferir mais à Rússia que à UE. A Rússia representa 7% das exportações europeias, mas o que o país importa do resto do continente representa 21% de seu comércio.

Angela Merkel é quem personifica mais essa sensação de querer evitar ser enganada de novo pelo Kremlin. Sua posição política se endureceu nos últimos dias. Não está claro até onde vai isso, inclusive se medidas militares serão tomadas pela Rússia contra a Ucrânia ou a Moldávia.

Se o projeto da UE de reduzir sua dependência da Rússia der frutos, é possível que o recente crescimento do comércio que atravessa a antiga cortina de ferro retroceda. Outros debates ainda dominarão as conversas dos líderes do G7 nos corredores do edifício Berlaymont, sede da Comissão Europeia e da OTAN: Em que medida os compromissos diplomáticos firmados anteriormente com Putin agora são prejudiciais? Como é possível reforçar a aliança com a Ucrânia? A grande queda com gastos de defesa pela Europa deve ser revista?

Algumas das respostas são cada vez mais claras. Não haverá reunião do G8 em Sochi, já que a Rússia não faz mais parte desse clube exclusivo, que se tornou, assim, o novo G7. Poderá haver novas medidas contra o círculo próximo de Putin e se manterá o aumento das forças levadas pela OTAN às repúblicas bálticas.

Mas existe muita incerteza, inclusive no patamar mais extremo dessas conjecturas, sobre se uma ação militar russa poderia levar a sanções em grande escala, a um aumento das tropas americanas na Europa e a uma nova era de gelo da diplomacia internacional.


Nota: Em pouco tempo, a atitude de um único líder pode redirecionar a História... [MB]

Portaria restringe trabalho aos domingos

Leis mais restritivas
As empresas que precisam abrir as portas aos domingos e feriados terão ainda mais dificuldade para obter autorização do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Os empregadores que tiverem mais de uma irregularidade registrada sobre jornada de trabalho, saúde ou segurança, nos últimos cinco anos, estarão automaticamente proibidos de funcionar nesses dias, ainda que isso seja essencial para suas atividades. A medida está na Portaria nº 375, do MTE, publicada na segunda-feira. No caso de apenas uma irregularidade nos últimos cinco anos, de acordo com a portaria, o Ministério do Trabalho e Emprego iniciará uma fiscalização – sem data ou prazo fixo para ser concluída – e só depois avaliará o pedido de autorização para trabalho aos domingos e feriados. As novas condições preocupam as empresas. Isso porque 317.693 companhias foram autuadas (incluindo reincidências) nos últimos cinco anos, conforme Ministério do Trabalho. Representantes da indústria e dos trabalhadores ficaram surpresos com a publicação da norma e criticaram sua redação.

Até então, para se obter a autorização do Ministério do Trabalho, era preciso apenas a concordância dos empregados e do sindicato de trabalhadores que os representassem, além de laudo técnico emitido por instituição competente ligada ao poder público municipal, estadual ou federal confirmando a necessidade. Outra exigência que permanece é a de que as escalas de trabalho respeitem as normas e legislações vigentes, garantindo, por exemplo, o descanso semanal remunerado, que deve ser usufruído no domingo em pelo menos uma de cada sete semanas. Agora, além de todas essas exigências, determinou-se que não se pode ter irregularidades na área de saúde, segurança e jornada de trabalho. [...]


Nota: Legislações restritivas e favoráveis ao descanso dominical serão cada vez mais comuns. Essa é uma tendência prevista já no século 19, por Ellen White. Leia, por exemplo, o livro O Grande Conflito, para confirmar isso. [MB]

quarta-feira, março 26, 2014

Por que o religioso vence a discussão?

O "espantalho" e o debate perigoso
[Leia este texto com seu detectômetro de falácias ligado e depois o comentário abaixo.] Vencer um religioso num debate é sempre muito difícil. O fato de você ter argumentos melhores do que ele não o imuniza contra a possibilidade de ser derrotado. Tome-se como exemplo o apologista cristão William Lane Craig, o virtuose cristão na arte de fazer absurdos parecerem críveis. Craig acredita que Deus um dia se fez homem, que, apesar de ser imortal, veio ao nosso planeta para morrer pelos nossos pecados, porque aparentemente sua sabedoria não o habilitou a conceber outra maneira de nos redimir, e que, depois de ser crucificado, provou que tudo não passava de uma farsa ressuscitando, o que, entretanto, não nos dispensa de lhe sermos gratos, sob pena de sermos condenados ao inferno... Mas, apesar de acreditar em todas essas maluquices, que capacitariam qualquer pessoa a ser internada num hospício, Craig se sai muito bem nos debates, vencendo a maioria deles. Isso nos leva a uma pergunta: Se as crenças religiosas são manifestamente ridículas, de onde vem o talento dialético dos devotos?

Talvez haja várias respostas para isso. Não pretendo examinar aqui todas elas. Limito-me a apontar a pista deixada por Marcos na famosa disputa entre Cristo e os saduceus. Eis o trecho em que ela aparece: “Ora, vieram ter com ele os saduceus, que afirmavam não haver ressurreição, e perguntaram-lhe: ‘Mestre, Moisés prescreveu-nos: Se morrer o irmão de alguém, e deixar mulher sem filhos, seu irmão despose a viúva e suscite posteridade a seu irmão. Ora, havia sete irmãos; o primeiro casou e morreu sem deixar descendência. Então o segundo desposou a viúva, e morreu sem deixar posteridade. Do mesmo modo o terceiro. E assim tomaram-na os sete, e não deixaram filhos. Por último, morreu também a mulher. Na ressurreição, a quem destes pertencerá a mulher? Pois os sete a tiveram por mulher.’ Jesus respondeu-lhes: ‘Errais, não compreendendo as Escrituras nem o poder de Deus. Na ressurreição dos mortos, os homens não tomarão mulheres, nem as mulheres, maridos, mas serão como os anjos nos céus’” (12,18-25).

Considero essa passagem formidável, nem tanto pela “sabedoria” da resposta de Cristo, mas porque ela sintetiza, com poucas palavras, o que acontece quando um cético se põe a discutir com um religioso. Ora, no momento em que esse diálogo ocorre, a possibilidade da ressurreição, objeto da controvérsia, ainda não havia sido provada. De fato, ela só seria provada - caso você aceite os evangelhos como um relato histórico - depois de Cristo ser crucificado e ter ressuscitado. Portanto, naquela altura do campeonato, o ceticismo dos saduceus era legítimo, e o desafio lançado por eles teria sido irrespondível se Cristo não tivesse se socorrido da sua astúcia dialética: a sobreposição de ficções. Observe no trecho citado que, embora considerado o vencedor do debate, ele não prova nenhuma das duas afirmações que faz: nem que a ressurreição é real, nem que viveremos como anjos nos céus. Seu método consiste em salvar uma ficção com outra, como se empilhar ficções fosse um método válido para provar a verdade de alguma coisa.

Marcos não informa qual foi a reação dos saduceus diante dessa resposta ladina, mas não é difícil imaginar. Eles devem ter ficado tão perplexos com a fantasia que perderam a voz. E talvez tenha sido melhor assim: se tivessem continuado a pressionar seu adversário, o filho de Deus teria inventado uma terceira ficção para salvar a segunda, uma quarta para salvar a terceira, uma quinta para salvar a quarta, e assim por diante.

Os cristãos aprenderam muito bem esse truque. Quem já duelou com eles sabe que é preciso ter um fôlego descomunal para levar uma discussão até o fim, uma vez que a imaginação desses romancistas é sempre muito fértil. Diante de uma nova dificuldade, eles não têm qualquer dificuldade em acrescentar outros capítulos. Imagine-se o seguinte diálogo entre um ateu e um religioso a respeito do chamado argumento da sintonia fina, uma bobagem muito popular entre os que querem acreditar:

R: Há muitos indícios fornecidos pela ciência de que o Universo está finamente ajustado para acomodar a vida. A Terra tem certa inclinação, está localizada a tal distância do Sol, as forças nucleares forte e fraca possuem determinado valor e assim por diante. Se qualquer um desses parâmetros fosse diferente, a vida seria impossível.
A: Mas, se tudo foi ajustado para que houvesse vida, por que tudo morre, incluindo nós? Deus teve tanto trabalho para ajustar o Universo em benefício de futuros cadáveres?
R: Mas não existe morte, pelo menos para nós. A morte é apenas uma aparência. Somos todos dotados de uma alma imortal.
A: E onde está essa alma que nunca ninguém viu?
R: Ela é invisível.
A: E o que acontece com ela depois que nós morremos?
R: Ela vai para o paraíso ou para o inferno, conforme foram boas ou más as ações do homem aqui na Terra.
A: Mas e se uma pessoa morrer antes de ter tido tempo de praticar boas ou más ações. Para onde é que ela vai?
R: Para o paraíso.
A: E como é que você sabe?
R: Porque Deus é infinitamente misericordioso. Ele não mandaria para o inferno um ser tão frágil etc., etc.

O fato de sermos mortais deveria ter arruinado a hipótese de que o mundo foi ajustado para possibilitar a vida. Mas o religioso a salvou com a afirmação não provada de que a alma é imortal, que por sua vez foi salva pela afirmação não provada de que ela é invisível, que por sua vez se salvou com a afirmação não provada de que existem um inferno e um paraíso, que se salvou por fim com a afirmação não provada de que a misericórdia de Deus é infinita...


Comentário do amigo Frank Mangabeira: “Quem realmente é mais racional numa discussão que envolve visões de mundo antagônicas: o ateu ou o religioso? O que é racionalidade? Ela pertence exclusivamente à mente ateia? Como podemos ser racionais utilizando as Escrituras para ‘explicar’ o sobrenatural e as proposições religiosas do cristianismo? Artigos de fé podem ser tratados racionalmente? O texto acima não faz jus à realidade do debate; apenas cria um espantalho para depois atacá-lo. Só concordo numa coisa: a doutrina do inferno defendida no maciço mundo cristão (cujo fundamento é a errônea doutrina da imortalidade da alma), além de antibíblica é antirracional. Ela constitui um ‘bom motivo’ para se desprezar Deus. No entanto, o ateísmo poderia reconsiderar a discussão; em vez de rejeitar Deus deveriam rejeitar aquilo que Ele nunca declarou em Sua Palavra. No demais, com um bom testemunho e uma boa argumentação purificada de heresias, os religiosos pensantes ainda são imbatíveis num debate. É tanto que os ateus andam preocupados com cristãos que raciocinam, pois a própria racionalidade, que eles arvoram como exclusividade sua, tem, e muito, ajudado na defesa da existência de Deus. Difícil não é vencer um debate; difícil é o homem abandonar seu orgulho e reconhecer a força das evidências. Difícil, para essa natureza humana altiva, é dobrar-se racional, existencial e emocionalmente perante Deus. Mas Ele ainda convida: ‘Vinde, pois, e arrazoemos’ (Isaías 1:18). Acho que os ateus fundamentalistas e autocentrados no seu ‘eu racional’ desconversam, pois não estão muito ‘a fim de papo’. Para eles, esse ‘trololó’ parece muito chato, desinteressante, antirracional, destituído de sentido, irrelevante e... perigoso. Todavia, parecer não é ser. Sendo assim, o diálogo permanece aberto. Para benefício da razão.” 

Uma droga de causa

Quebram tudo pelo direito de se drogar
Enquanto algumas pessoas, desiludidas com estes governantes que estão aí (e quem não está?) ficam se manifestando nas redes sociais em favor dos governos militares, querendo trocar o monstro “democrático” pelo monstro da ditadura, estudantes da Universidade Federal de Santa Catarina quebram carros e invadem a reitoria (leia mais aqui). Por quê? Para lutar por melhorias na educação? Para protestar contra o preço das refeições no restaurante do campus? Para reivindicar mais bolsas para pesquisa? Nada disso. Protestaram porque a Polícia Federal “invadiu” o campus e prendeu alunos por porte de drogas. Pelo visto, em vinte anos, nada mudou por lá (e em outras federais). Sei disso porque estudei na UFSC e no meu tempo a “maresia” também era forte. Muitos Centros Acadêmicos eram verdadeiros “fumódromos”. Colegas consumiam drogas na maior cara de pau e se jactavam de que a polícia local nada podia fazer, porque a universidade é uma área federal. O tempo que deveriam devotar aos estudos para se tornarem profissionais úteis à sociedade era desperdiçado na ilegalidade do consumo de entorpecentes. E pior: incentivando o tráfico e toda a sua cadeia destruidora de vidas. Depois de formados, esses jornalistas “noias” vão escrever sobre a prisão do traficante que eles ajudaram a financiar. Médicos maconheiros vão tratar de pessoas degradadas pelo vício ou de inocentes atingidos por balas perdidas disparadas em alguma guerra de traficantes. Advogados “cheiradores” terão que lidar com a triste e desesperadora situação de um sistema prisional que não sabe o que fazer com tanta gente envolvida no “negócio” das drogas. E por aí vai.

A polícia cometeu excessos, é verdade. Foi desnecessariamente truculenta, tendo usado balas de borracha, gás lacrimogênio e spray de pimenta - e parece que foi ela quem começou com as agressões; sem contar que provavelmente houve motivações políticas por trás de todo o incidente. Mas e os excessos desses estudantes baderneiros que lutam por uma droga de causa; por liberdade para se drogar sem que alguém os importune? Que destroem patrimônio público financiado com dinheiro de quem não tem nada a ver com seus vícios. Estudantes que deveriam ser mais inteligentes e responsáveis por saber que seu “prazer” financia a morte de um monte de gente.

Enquanto o mercado de trabalho for inundado com pessoas com esse tipo de mentalidade inconsequente, o que podemos esperar deste país? Do outro lado, infelizmente, vai ter gente pensando: “Melhor era no tempo dos militares, em que os maconheiros ‘tomavam pau’ e iam direto pra cadeia.” Não nos esqueçamos de que a liberdade irresponsável pode levar à perda dela.

Michelson Borges