As dobras do Grand Canyon: evidência contra os milhões de anos?

Uma das imagens mais impressionantes do Grand Canyon são suas camadas rochosas dobradas como se fossem folhas maleáveis. Mas há um problema sério aqui – um problema que atinge o coração da cronologia geológica convencional. Segundo a geologia tradicional, o arenito Tapeats teria sido depositado há cerca de 500 milhões de anos, endurecido (litificado) e, somente muito depois – cerca de 70 milhões de anos atrás – dobrado por forças tectônicas. Mas será que rochas duras se comportam assim?

Esse tema foi amplamente estudado por Andrew Snelling, doutor em geologia pela University of Sydney e pesquisador associado à Answers in Genesis. Snelling tem se dedicado por décadas ao estudo das formações do Grand Canyon, com foco especial nas evidências relacionadas ao modelo do Dilúvio bíblico.

O próprio princípio básico da geologia estrutural é claro: rochas sólidas, quando submetidas a pressão, tendem a fraturar, não a se curvar suavemente. Entretanto, no Grand Canyon vemos algo diferente: camadas dobradas de forma suave, contínua – como se fossem dobradas enquanto ainda estavam moles. Foi exatamente essa questão que motivou os estudos de Snelling.

A evidência microscópica

Após anos de coleta e análise de amostras, Snelling concluiu algo surpreendente:

  • Os grãos minerais permanecem intactos
  • O cimento de quartzo não apresenta sinais de ruptura
  • Não há evidência de metamorfismo (esperado se a rocha endurecida fosse dobrada)

Segundo sua pesquisa, as evidências “são consistentes apenas com deformação enquanto o sedimento ainda estava macio” . Em outras palavras: as camadas foram dobradas antes de endurecerem completamente.

E aqui está o ponto crucial: se o arenito tivesse realmente passado por centenas de milhões de anos antes de ser dobrado, ele já estaria totalmente rígido. Nesse caso, a dobra deveria produzir fraturas extensas, recristalização mineral e sinais claros de deformação tectônica tardia. Mas esses sinais não aparecem de forma consistente nas análises apresentadas.

Isso leva a uma conclusão direta dentro do modelo criacionista: não houve intervalo de centenas de milhões de anos entre deposição e dobra.

Uma leitura à luz do Dilúvio

Snelling propõe uma explicação coerente com o modelo bíblico:

  1. Deposição rápida do arenito no início do Dilúvio
  2. Enterramento rápido por outras camadas sedimentares
  3. Dobramento ainda durante o evento, quando o material estava úmido e plástico
  4. Endurecimento posterior das camadas

Esse cenário elimina a necessidade de longas eras geológicas e se harmoniza com um evento catastrófico global.

Há controvérsia?

Sim. Críticos argumentam que há fraturas em alguns pontos e que a deformação pode ter ocorrido em rochas já endurecidas. Mas isso não resolve o problema principal: Como explicar grandes dobras suaves sem evidência consistente de metamorfismo?

Essa continua sendo uma das questões mais debatidas.

O que está em jogo aqui não é apenas uma formação rochosa, mas uma cosmovisão:

  • Uniformitarismo: processos lentos ao longo de milhões de anos
  • Catastrofismo bíblico: eventos rápidos e globais

As dobras do Grand Canyon se tornaram um campo de batalha entre essas duas interpretações. As rochas “dobradas como massa” desafiam a ideia de que tudo ocorreu lentamente ao longo de eras imensuráveis. Elas parecem sussurrar outra história: uma história de processos rápidos, forças intensas e um passado muito mais recente do que muitos imaginam.

Talvez o Grand Canyon não seja apenas um monumento ao tempo profundo – mas também um testemunho silencioso de um mundo que foi julgado pelas águas.

Gênesis 1: Universo jovem ou vida jovem?

Têm sido propostos dois modelos para a criação do Universo:

Modelo da Terra Jovem: o primeiro modelo, em geral, defende a criação da Terra – incluindo a sua modelagem para ter as condições necessárias para a existência da vida, bem como a própria vida em todas as suas manifestações – em seis dias, na semana da Criação, juntamente com a criação do Universo e do nosso Sistema Solar. Nesse primeiro caso, a semana da Criação corresponde, portanto, ao período da criação do Universo, juntamente com a modelagem da Terra para abrigar a vida, tendo os demais planetas e luas do Sistema Solar (criados nessa semana simultaneamente com a Terra) permanecido sem forma e vazios.[1: p. 23]

Modelo do intervalo passivo: em seu livro Origens, o zoólogo e paleontólogo Dr. Ariel Roth, ex-diretor do Geoscience Research Institute, nos informa que esse modelo é considerado uma variação do criacionismo da Terra Jovem.[2: p. 330] O modelo defende que Deus criou o Universo (espaço-tempo), estrelas e sistemas planetários, incluso a matéria da Terra (partículas elementares) em eras anteriores (época indeterminada), mas preparou a Terra para a vida e criou a vida somente poucos milhares de anos atrás, em seis dias (note a semelhança com o modelo geral da Terra Jovem).[3]

Nesse segundo caso, a semana da Criação relatada em Gênesis corresponde, portanto, somente ao período de modelagem da Terra (que sucedeu o período indeterminado desde a criação do Universo) para ter as condições necessárias para a existência da vida, bem como a própria vida em todas as suas manifestações.[4, 5] Nesse segundo caso, ainda, os demais planetas e luas do Sistema Solar teriam permanecido em seu estado original, sem forma e vazios, como eram desde o início da época indeterminada que precedeu a semana da Criação.[1: p. 23]

Richard Davidson, professor de Antigo Testamento da Universidade Adventista de Andrews, afirmou em artigo publicado na Revista da Sociedade Teológica Adventista que “várias considerações [o] levam a preferir o ‘intervalo passivo’ em relação ao modelo ‘sem intervalo’ [Terra jovem].”[6: p. 21; 7] Ademais, outros teólogos adventistas também concordam que um padrão de criação divina em dois estágios emerge de uma análise escriturística.[3, 5, 8, 9]

Dr. Ruben Aguillar, professor de Antigo Testamento da Faculdade Adventista de Teologia do Centro Universitário Adventista de São Paulo (UNASP) comenta sobre a relação do verso 1 de Gênesis com o modelo do intervalo passivo: “uma das palavras da Bíblia Hebraica bem estudadas e que ao mesmo tempo provoca interpretações polemicas é aquela com a qual começa o relato do Gênesis: bereshith, ‘no princípio’. A primeira sílaba é uma preposição inseparável traduzida sem dificuldades como ‘em’. Na língua portuguesa aparece acrescido com o artigo ‘o’ e que resulta em “no”. O termo reshith, traduzido como ‘principio’, encontra sua raiz no vocábulo r’osh, ‘cabeça’. Segundo o léxico hebraico, esse termo significa também: ‘começo’, ‘tempo primordial’, ‘estado primordial’, ‘tempo remoto’, ‘primeiro da sua classe’ em relação a tempo. Auxiliado pelas alternativas de tradução que o léxico apresenta o primeiro verso de Gênesis pode ser assim traduzido: ‘no tempo primordial Deus criou’, ou também ‘no tempo remoto Deus criou’; que concede ao verso um sentido de antiguidade de maior profundidade em termos de expressão temporal.”[10: p.15]

Professor Aguillar acrescenta que a análise do verso 2 de Gênesis reforça um entendimento coerente acerca da criação em dois estágios: “a ideia do intervalo passivo se fortalece ao analisar o verso 2 no texto hebraico, onde aparecem as palavras tohu vabohu, ‘sem forma e vazia’, sobre as quais está inserido o acento gramatical rebi’a. Os acentos na língua hebraica tem a função de relacionar uma palavra com as outras. Essa relação pode ser de união ou de separação. O acento rebi’a, que aparece nas palavras mencionadas é disjuntivo, da segunda classe superior, ou seja, a sua função é fazer separação ou indicar pausa. Observando através dessa lente, pode-se ver que a frase ‘estava sem forma e vazia’ faz separação entre as frases ‘no princípio criou Deus os céus e a terra’ do verso 1, com as que descrevem a semana da criação.”[10:p.13]

Para fins de esclarecimento, é importante mencionar que o modelo do intervalo passivo, citado acima, não deve ser confundido com o modelo do intervalo ativo (também chamado de Ruína-Restauração), proposto por Thomas Chalmers (1780-1847), famoso teólogo escocês, o qual defendia – sem qualquer evidência direta, científica ou escriturística – que a vida teria sido criada por Deus na Terra em passado distante pré-adâmico.[2: p. 330; 11] Segundo a página ADVindicate, editada pelo geólogo Monte Fleming, doutorando em Geologia pela Universidade de Loma Linda, esse modelo ainda diz que, após Satanás ter sido julgado, ele teria sido arremessado à Terra e destruído essa vida pré-adâmica supostamente existente. Essa destruição teria finalmente sido seguida pela criação descrita em Gênesis 1 e 2.[11]

Um problema frequentemente associado a ambos os modelos criacionistas (Terra Jovem e Intervalo Passivo) devido à ignorância, primeiro por parte de seus defensores leigos; depois, por parte de seus opositores, diz respeito à questão da criação da “luz” durante a semana da Criação.[2: p. 308] Muitas pessoas se utilizam do argumento de que Deus teria “criado” os luminares somente no quarto dia (Gênesis 1:14). Mas uma análise alternativa nos mostra que Deus poderia já ter criado a luz no primeiro dia (Gênesis 1:3); portanto, nesse sentido, o sistema solar já existia.

O erguimento parcial de uma densa nuvem no primeiro dia da semana da criação iluminou a Terra, porém, o Sol, a Lua e as estrelas, embora presentes, não eram visíveis a partir da Terra. A luz era semelhante à de um dia muito nublado. Uma retirada completa da cobertura de nuvens, no quarto dia, fez com que o Sol, a Lua e as estrelas, preexistentes, se tornassem plenamente visíveis da superfície da Terra. Daí os luminares serem mencionados somente no quarto dia. Ou então o Sol e a Lua podem ter sido criados no quarto dia, ao contrário das demais estrelas, que são mencionadas de forma parentética por Moisés, indicando que elas já existiam.

Os dois primeiros versos do livro de Gênesis também possibilitam uma segunda interpretação aceita, diga-se de passagem. por uma parcela significativa de adventistas criacionistas.[2: p. 309-310] A ideia aqui é a de que a declaração “Deus criou os céus e a Terra”, no verso 1 de Gênesis, diz respeito a um pequeno resumo ou introdução sobre o relato da criação da Terra e arredores que viria a seguir, acompanhada pela descrição, no versículo 2, de que “a Terra era sem forma e vazia e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas”. Isto indicaria materialidade anterior à semana da Criação, embora não estivesse diretamente relacionado a questões sobre o Universo (espaço-tempo). Essa descrição se aplica coerentemente a uma Terra pré-existente, sinalizando, indiretamente, que o Universo foi criado antes da semana da criação, juntamente com o tempo.

A maioria das traduções bíblicas propicia, de fato, uma afirmação ambígua, em vista de que o hebraico dos manuscritos bíblicos dá margem a mais de uma interpretação. No entanto, a descrição de uma Terra vazia, envolvida em trevas originais, é reforçada por descrições semelhantes em outras passagens bíblicas que falam de uma Terra original envolvida em “escuridão” (Jó 38:9) com uma veste de nuvens, e de uma Terra que “surgiu da água” (2 Pedro 3:5).

Em artigo publicado na Revista Adventista pelo pastor e mestre em Ciências da Religião Glauber Araújo vemos a explicação de que “acreditar que o Universo seja mais antigo do que a vida em nosso planeta não tem que ver com o pensamento evolucionista, mas com as evidências bíblicas”.[12: p.20] Isso corrobora o que ponderou John Lennox, declarado criacionista e professor de matemática da Universidade de Oxford, no livro Seven Days That Divide the World: “É logicamente possível crer nos dias de Gênesis como de 24 horas (ou uma semana terrestre) e crer que o Universo é antigo. E […] isso não tem nada que ver com ciência. Tem que ver com o que o texto está de fato nos dizendo” (p. 53).

O professor Richard Davidson [13: p. 51], no livro He Spoke and It Was, afirma ainda que as “análises recentes do discurso de Gênesis 1 […] indicam que a gramática do discurso desses versículos aponta para uma criação em dois estágios. A história principal não começa antes do versículo 3. Isso implica uma condição anterior dos ‘céus e Terra’ em seu estado ‘sem forma e vazio’, antes do início da semana da criação”.

Partindo dessa visão, Provérbios 8:26 diz que houve uma época em que nem sequer o princípio do pó deste mundo existia. O livro de Hebreus 11:3 diz que Deus criou as eras (tempo, eternidade). Ainda sobre o tempo, o astrofísico Eduardo Lütz afirma que “o tempo é um dos atributos do Universo. Existe uma profunda conexão entre a criação do tempo e a criação do Universo, não tem como separá-los. Se o tempo não teve um início, Deus não criou o que chamamos hoje de Universo, pois o tempo depende do Universo para existir”. Em outras palavras, segundo o astrofísico, “tempo pode existir sem matéria, mas matéria não pode existir sem tempo”.

O livro de Jó também aponta nessa direção. Ali encontramos dois textos que claramente sugerem a existência de outros seres criados além de nós (leia mais sobre isso aqui). Em primeiro lugar, quando Satanás compareceu perante o Senhor (Jó 1:6, 7), o texto faz referência a outros “filhos de Deus”, dando a entender que nosso planeta não era o único habitado.[12] É claro que, como afirma o astrofísico Eduardo Lütz, “a identidade dos ‘filhos de Deus’ em Jó 38:7 não é relevante para o argumento de que a Bíblia sugere a existência do Universo antes da criação da Terra. É apenas uma curiosidade tocada de passagem. Mas o que conta é que alguém criado por Deus comemorava ‘quando’ Ele lançava os fundamentos da Terra”. Em outras palavras, segundo Lütz, Jó 38:7 contradiz a interpretação de que a Terra tem a mesma idade do Universo, mas não contradiz Gênesis 1: “Não há qualquer base bíblica para se afirmar que o Universo tenha cerca de seis mil anos de idade ou que Gênesis 1 se refira à criação do Universo. Muito pelo contrário. Certos textos bíblicos (como Jó 38:4-7) sugerem que, quando o Criador ‘lançou os fundamentos da Terra’, já existiam até mesmo seres inteligentes em outras partes do Universo [como plateia]. E, mesmo que não aceitemos isso por alguma razão obscura, pelo menos precisamos reconhecer que Gênesis 1 não nos dá qualquer informação sobre quando e como o Universo foi criado.”[14: p. 6, 7]

Ao longo do meu trabalho de pesquisa e divulgação do criacionismo, tenho percebido que boa parte dos criacionistas da “Terra jovem” não consegue aceitar a interpretação de que apenas a “vida no planeta Terra seja jovem”, sendo o Universo e a matéria (partículas elementares) do planeta antigos. Mas, sem querer ser polêmico, percebemos que uma análise escriturística em conjunto com os dados atuais do conhecimento científico nos mostra que essa possibilidade existe, é razoável e deve ser introduzida na discussão sobre as origens.

Essa posição está em consonância com a declaração emitida pela Sociedade Criacionista Brasileira (SCB), órgão máximo sobre criacionismo no Brasil, em sua análise editorial, como se segue: “À luz dos conhecimentos atuais, a criação dos céus e da Terra é algo posterior à criação do Universo.” [1: p. 18] Logo, a SCB conclui: “A criação de nossa Terra de maneira nenhuma deve ser confundida com a criação do Universo.”[1: p. 23]

Em suma, portanto, a principal distinção entre a interpretação do “intervalo passivo” e a interpretação “sem intervalo” é devida à questão de quando se deu o início absoluto dos “céus e da Terra” (Gênesis 1:1).[3] Enquanto o último interpreta Gênesis 1:1, 2 como parte do primeiro dia da criação de sete dias, o primeiro interpreta Gênesis 1:1, 2 como uma unidade cronológica separada por uma lacuna no tempo do primeiro dia da criação, como descrito em Gênesis 1:3. Segundo o que nos diz o astrofísico Lütz, “não tem como provar pela Bíblia que o Universo seja jovem. Também não tentamos provar pela Bíblia que o Universo seja ‘muito’ antigo. Apenas mostramos fortes indicações de que o Universo é mais velho do que a Terra”.

Diante do exposto, a pergunta que fica é a seguinte: Você se considera um criacionista da Terra jovem convencional ou um criacionista do intervalo passivo?

Obs.: o NUMAR-SCB não tem uma posição definitiva sobre o assunto, e nem poderia bater o martelo sobre a questão de o universo ser antigo (conforme apontam as evidências escriturísticas) ou jovem (também apoiado em evidências tanto científicas quanto escriturísticas), uma vez que não se tem um consenso na comunidade teológica e, mais especificamente, na criacionista. O objetivo do texto é o de apenas apresentar ao nosso público esse modelo criacionista da Terra jovem, mas que aceita um “intervalo passivo” antes da semana da Criação literal descrita em Gênesis, e que já vem sendo discutido e aceito há décadas em outros países. Achei válido, de igual modo, inseri-lo nas discussões sobre as nossas origens aqui no Brasil. Mas é válido frisar que essa é uma área em que ainda são necessários mais estudos.

(Everton Alves)

Referências:

[1] Editores. Antes da semana da criação: vida em outros planetas do sistema solar? Revista Criacionista 2003; 32(69):18-23.

[2] Roth AA. Alternativas entre a Criação e a Evolução. Capítulo 21, pp.328-41. In: Roth AA. Origens. 2. Ed. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2016.

[3] Sanghoon J. Interpretations of Genesis 1:1. Journal of Asia Adventist Seminary 2011; 14(1): 1-14.

[4] Coffin HG. Origin by Design. Hagerstown, MD: Review and Herald, 1983, 292–293.

[5] Widmer M. Older than creation week? Adventist Review 1992; 169(4):454-62.

[6] Davidson RM. The Biblical Account of Origins. Journal of the Adventist Theological Society 2003; 14(1):4-43.

[7] Davidson RM. In the Beginning: How to Interpret Genesis 1. Dialogue 1994; 6(3):9-12.

[8] Terreros MT. What is an Adventist? Someone Who Upholds Creation. Journal of the Adventist Theological Society 1996; 7(2):147–149.

[9] Moskala J. Interpretation of Bereʼšît in the context of Genesis 1:1-3. Andrews University Seminary Studies 2011; 49(1):33-44.

[10] Aguilar R. Os Céus, o Intervalo e a Semana da Criação. Parousia. 2010; 9(1):7-18.

[11] Brent Shakespeare. Esboço das teorias propostas para Gênesis 1:1-2. Advindicate (14/03/2013). Disponível em: http://advindicate.com/articles/2996

[12] Glauber Araújo. A Idade da Terra. Revista Adventista. Abril de 2016, pp. 20-23.

[13] Davidson RM. The Genesis account of origins. In: Klingbeil G. (Ed.). He spoke and it was: divine creation in the Old Testament. Oshawa: Pacific Press Publishing Association, 2015.

[14] Lütz E. O criacionismo e a grande explosão inicial. Revista Criacionista 2003; 32(69):5-17.

Laminina, polilaminina e fé: entre a boa ciência e o fideísmo

Design inteligente: argumentos fortes ou símbolos forçados?

Volta e meia circulam nas redes sociais imagens da laminina – uma proteína do corpo humano – destacando que ela tem “formato de cruz” e sugerindo que isso seria uma evidência direta da assinatura de Deus na biologia. A descoberta recente da polilaminina e suas aplicações promissoras na regeneração nervosa reacenderam o debate. Afinal, estamos diante de uma prova científica da fé cristã? Ou precisamos tratar o assunto com mais cuidado?

O que é laminina e qual o seu formato?

A laminina é uma proteína estrutural essencial da matriz extracelular, especialmente da membrana basal. Ela ajuda a organizar tecidos, sustentar células e orientar crescimento celular. Estruturalmente, é composta por três cadeias (alfa, beta e gama) que se unem formando uma molécula com aparência cruciforme em representações tridimensionais.

Sim, é fato: a laminina tem formato semelhante a uma cruz. Isso é descrito na literatura científica e pode ser observado em modelos estruturais. Trata-se de um dado morfológico, não de interpretação teológica.

Mas é preciso lembrar: proteínas assumem formas variadas – espirais, globulares, filamentosas, ramificadas – conforme sua função e organização molecular. A forma da laminina decorre de sua arquitetura bioquímica, não de uma intenção simbólica detectável pela ciência.

E o que é polilaminina?

A polilaminina é uma forma polimerizada da laminina, desenvolvida em laboratório. Em vez de uma molécula isolada, trata-se de uma rede tridimensional organizada, capaz de formar uma matriz mais estável e funcional.

Pesquisas recentes indicam que a polilaminina pode estimular regeneração axonal, melhorar a adesão e crescimento celular, auxiliar em modelos experimentais de lesão medular.

Os estudos são promissores, especialmente na área de neuroregeneração, mas ainda estão em fases experimentais. Não se trata de uma terapia consolidada para tetraplegia ou paraplegia, embora os resultados iniciais animem a comunidade científica.

A pesquisadora brasileira Dra. Tatiana Sampaio, envolvida nesse campo, tem destacado que a polilaminina representa uma linha de investigação promissora, mas que mais estudos são necessários antes de qualquer conclusão clínica definitiva. Essa postura cautelosa é típica da boa ciência.

Entrevista no Roda Viva: ciência e seus limites

Em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, um repórter da Folha de S. Paulo tentou confrontar a Dra. Tatiana sobre o fato de cristãos enxergarem na laminina um “sinal de Deus”. A resposta dela foi notavelmente equilibrada.

Ela afirmou que, sim, a laminina tem formato de cruz – isso é inegável, é um fato estrutural. Mas acrescentou algo ainda mais importante: “Eu sei onde termina a ciência, mas os limites da ciência não são os limites do ser humano.”

E completou que pessoas religiosas podem se apropriar da imagem da laminina como metáfora daquilo em que acreditam – e que não cabe ao cientista julgar se isso está certo ou errado.

Foi uma resposta madura. Ela deixou claro que a ciência descreve estruturas e processos, a fé interpreta significado e propósito, os domínios são distintos, mas não necessariamente excludentes.

O repórter tentou sugerir conflito inevitável entre ciência e religião. A resposta dela mostrou que essa oposição é muitas vezes artificial.

O perigo do fideísmo “biomolecular”

Como criacionistas, precisamos tomar cuidado com um fenômeno recorrente: o fideísmo baseado em coincidências visuais. Há quem veja o nome de Deus em hebraico no DNA, símbolos religiosos em padrões moleculares, códigos bíblicos escondidos em sequências genéticas. Esse tipo de argumento pode até impressionar em um primeiro momento, mas costuma ser metodologicamente frágil. A tendência humana de reconhecer padrões (pareidolia) pode levar a interpretações forçadas.

A fé cristã não precisa de “coincidências gráficas” para se sustentar. Existem evidências muito mais robustas de design inteligente na vida:

  • A complexidade irredutível de sistemas moleculares.
  • A informação funcional altamente especificada no DNA.
  • A sintonia fina das constantes físicas.
  • A origem abrupta de informação biológica no registro fóssil (explosão cambriana).
  • A integração sistêmica dos organismos vivos.

Esses são argumentos estruturais e funcionais – não meramente visuais ou simbólicos.

Ciência e fé: rivais ou complementares?

A entrevista da Dra. Tatiana ilustra um ponto importante: os limites da ciência não são os limites da realidade. A ciência trabalha com observação, mensuração, experimentação, modelos explicativos naturais. Já questões de significado, propósito, valor moral, transcendência ultrapassam o escopo metodológico da investigação empírica.

Quando alguém afirma que a laminina “prova” o cristianismo, está extrapolando o método científico. Mas quando alguém afirma que a existência de Deus é invalidada pela ciência, também está indo além do que o método permite concluir. Ambos os extremos erram.

Equilíbrio é sinal de maturidade

A laminina tem formato de cruz? Sim. Isso é prova científica de Deus? Não. Cristãos podem usar essa imagem como metáfora daquilo que creem? Podem. A pesquisa com polilaminina é promissora? Sim. Já é solução definitiva para lesões medulares? Ainda não. A postura equilibrada da Dra. Tatiana Sampaio é um bom exemplo de maturidade intelectual: reconhecer fatos científicos com precisão, delimitar o campo da pesquisa e respeitar o espaço da fé sem reduzi-lo ao laboratório.

Para nós, criacionistas, o desafio é semelhante: defender a existência de design na natureza com argumentos sólidos, evitando atalhos retóricos ou “provas” fáceis demais. A fé cristã não precisa de símbolos escondidos no DNA para existir. Ela pode dialogar com a ciência com serenidade, reconhecendo que onde a ciência humana termina, a reflexão filosófica e teológica começa – e isso não é contradição, é complementaridade.

Fotoreceptores “híbridos”: nova prova da evolução ou mais um salto interpretativo?

Um artigo recente publicado na revista Science Advances descreve uma descoberta científica interessante: larvas de algumas espécies de peixes de águas profundas possuem fotoreceptores “híbridos” – células que combinam características moleculares de cones com morfologia de bastonetes – o que poderia representar uma trajetória alternativa de desenvolvimento visual em ambientes de luz intermediária. Do ponto de vista estritamente evolucionista, os autores interpretam esses achados como evidência de plasticidade adaptativa e evolução de um novo tipo de célula visual em resposta a pressões ambientais específicas no habitat mesopelágico. No entanto, uma análise crítica criacionista pode relativizar essa conclusão por várias razões:

1. Inserção de uma narrativa evolucionista além dos dados. Embora os pesquisadores descrevam diferenças no desenvolvimento de fotoreceptores, isso não é evidência direta de macroevolução no sentido de que uma espécie “transforma-se” em outra por mutações e seleção natural ao longo do tempo. O estudo documenta variação dentro de um grupo de peixes e adaptações à ecologia do ambiente – algo que a biologia criacionista reconhece como fenômeno de ajustamento biológico ou plasticidade ecológica, não necessariamente evolução de novas espécies ou linhas de descendência comum.

2. Assumir evolução adaptativa como explicação padrão. Os autores interpretam a existência de fotoreceptores híbridos como “evolução de uma estratégia alternativa de desenvolvimento visual” (i.e., evolução de um novo tipo de fotoreceptor). Contudo, sob a ótica criacionista, a presença de variações estruturais ou funcionais dentro de um grupo de organismos não prova evolução em grande escala. Variações filogenéticas em estruturas sensoriais podem refletir design funcional dentro dos limites de cada “espécie criada”, sem exigir uma explicação evolutiva para a origem fundamental dessas estruturas.

3. Universalizar interpretações sem considerar causas alternativas. A evolução é frequentemente apresentada como a única explicação possível para tais adaptações, mas outras explicações funcionais e mecanicistas também são plausíveis – por exemplo, diferenças no padrão de ativação gênica em resposta a ambientes variáveis. A biologia criacionista argumenta que programas genéticos complexos podem ter sido originalmente configurados para permitir respostas adaptativas dentro de cada tipo biológico sem necessidade de mudanças evolutivas profundas.

4. Limitações do estudo. O artigo é valioso como descrição científica de variações anatômicas e genéticas em peixes, mas não constitui evidência conclusiva de evolução em larga escala – o tipo de macroevolução que postulados como a ancestralidade comum exigem. Adaptabilidade, plasticidade e diversidade funcional dentro de tipos criados podem explicar os achados sem recorrer à evolução darwiniana como narrativa unificadora.

Apesar da utilidade dos dados sobre o sistema visual de peixes, conclusões evolucionistas amplas não são justificadas apenas com base nesses achados. Para uma compreensão coerente com a fé e com uma interpretação bíblica da origem da vida, tais pesquisas devem ser interpretadas com cuidado, reconhecendo a diferença entre variação funcional dentro de um tipo criado e suposta evolução de um tipo para outro.

Zichichi: o físico que desafiou o darwinismo e confrontou os mitos da ciência naturalista

A morte do físico italiano Antonino Zichichi, noticiada recentemente pelo Vatican News, reacende o debate sobre uma das vozes mais corajosas – e menos convencionais – do cenário científico europeu. Ex-presidente da Federação Mundial de Cientistas, Zichichi não foi apenas um pesquisador respeitado na área da física de altas energias; foi também um crítico contundente de certos dogmas culturais travestidos de ciência. Católico convicto, ele dedicou parte de sua produção intelectual a discutir a relação entre fé e razão, posicionando-se de maneira firme contra o cientificismo e contra o darwinismo apresentado como verdade incontestável.

Em seu livro Por Que Acredito NAquele que Fez o Mundo, Zichichi critica duramente a teoria da evolução biológica – algo que contrasta com a postura dos últimos papas, que têm defendido alguma forma de evolução teísta. Quando li essa obra pela primeira vez, tive a impressão de estar diante de algo equivalente, no campo da física e da filosofia da ciência, ao que A Caixa Preta de Darwin, de Michael Behe, representou para a biologia. Zichichi desmonta, com argumentos epistemológicos, a pretensão de que o evolucionismo seja uma consequência necessária da ciência galileana.

Segundo ele, há flagrantes mistificações no edifício cultural moderno que passam despercebidas do público em geral. Entre elas, a ideia de que ciência e fé são inimigas; de que ciência e técnica são a mesma coisa; de que o cientificismo nasceu no coração da ciência; de que a lógica matemática descobriu tudo e, se não descobre o “Teorema de Deus”, é porque Deus não existe; de que a ciência já explicou tudo e, se não encontra Deus, é porque Ele não existe; de que não há problemas na evolução biológica, apenas certezas; e de que somos filhos do caos, sendo o caos a última fronteira da ciência.

Para Zichichi, a raiz dessas confusões está na incompreensão do que é ciência. Ele afirma: “Nem a matemática nem a ciência podem descobrir Deus pelo simples fato de que estas duas conquistas do intelecto humano agem no imanente e jamais poderiam chegar ao Transcendente.” E vai além: “A teoria que deseja colocar o homem na mesma árvore genealógica dos símios está abaixo do nível mais baixo de credibilidade científica. […] Se o homem do nosso tempo tivesse uma cultura verdadeiramente moderna, deveria saber que a teoria evolucionista não faz parte da ciência galileana. Faltam-lhe os dois pilares que permitiriam a grande virada de 1600: a reprodução e o rigor. Em suma, discutir a existência de Deus com base no que os evolucionistas descobriram até hoje não tem nada a ver com a ciência. Com o obscurantismo moderno, sim.”

São declarações ousadas – especialmente vindas de um cientista católico de projeção internacional. Em um ambiente acadêmico frequentemente avesso a críticas ao paradigma evolucionista, Zichichi demonstrou independência intelectual rara. Concorde-se ou não com todas as suas conclusões, é inegável que ele desafiou o consenso e convidou seus leitores a refletirem sobre os limites da ciência e sobre o uso ideológico que muitas vezes se faz dela.

Sua morte encerra uma trajetória marcada por pesquisa, liderança e coragem. Mas suas perguntas permanecem. Talvez o maior legado de Zichichi não esteja apenas nas equações ou nos laboratórios, mas no convite a pensar criticamente.

(Michelson Borges é jornalista, pós-graduado em Biologia Molecular e mestre em Teologia pelo Unasp e pelas Faculdades EST)

Descansa uma grande defensora do criacionismo: Nair Ebling

Com pesar e profunda gratidão, registramos o falecimento, no dia 27 de janeiro de 2026, da professora Nair Elias dos Santos Ebling (1944-2026), uma das vozes mais respeitadas do criacionismo no Brasil. Educadora dedicada, cientista cuidadosa e cristã coerente, Nair Ebling marcou gerações de alunos e leitores ao unir fé bíblica e rigor acadêmico, mostrando que pensar cientificamente não é incompatível com crer no Deus Criador.

Nair formou-se em História Natural em 1966, em São José do Rio Preto, em uma faculdade que pertencia à Universidade de São Paulo (USP), e teve sólida atuação acadêmica na área de genética, educação e estudos sobre as origens, a professora Nair construiu uma trajetória acadêmica sólida, atuando por muitos anos no ensino superior e na formação de professores. Sua produção intelectual foi expressiva, com livros, capítulos e artigos voltados à defesa do criacionismo bíblico, à reflexão sobre as origens e ao diálogo honesto entre ciência e fé. Suas obras tornaram-se referência para estudantes, educadores e leitores interessados em compreender os limites do naturalismo e as evidências de um projeto inteligente na natureza.

O historiador Elder Hosokawa lembra que, “com o apoio de figuras como o pastor Nevil Gorski e a colaboração estreita do professor Admir Josafá Arrais de Matos, Nair aceitou o desafio hercúleo de escrever o próprio material didático. O processo não foi isento de batalhas. Durante a estruturação dos primeiros volumes destinados ao ensino fundamental, enfrentou resistências internas amargas, incluindo reuniões tensas em que colegas de profissão tentaram impedir a publicação do material por divergências conceituais. No entanto, sua resiliência e a de Admir Arrais prevaleceram. Em 1985, foi publicado pela Casa Publicadora Brasileira o livro Ciências, Programa de Saúde para a 5ª série, seguido por uma coleção completa que se estenderia até a 8ª série e, posteriormente, cobriria as quatro primeiras séries iniciais”.

“A publicação desses livros desencadeou uma tempestade na imprensa e na academia. Reportagens contundentes na Folha de S. Paulo e editoriais agressivos na Revista Ciência e Cultura, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, tentaram reduzir o trabalho de Nair e Admir. Contudo, o efeito foi o oposto do esperado pelos críticos. A polêmica gerou curiosidade e uma demanda sem precedentes. Professores de escolas públicas e particulares de todo o país passaram a buscar o material, e até mesmo o MEC, na época, chegou a adquirir edições completas. Nair assistiu, com surpresa e gratidão, como sua obra se espalhou como folhas de outono, levando a mensagem do Criador a lugares onde a fé raramente penetrava. Participou ativamente da abertura da Faculdade Adventista de Ciências em 1989″, completa Hosokawa.

Mais do que títulos e publicações, Nair Ebling deixa o legado de uma vida vivida com integridade, humildade intelectual e compromisso com a verdade. Sua contribuição ao criacionismo brasileiro permanece viva em seus escritos, em seus alunos e em todos aqueles que aprenderam com ela a pensar, questionar e crer. À família, amigos e à comunidade acadêmica e cristã, fica nossa solidariedade e a certeza de que sua obra continua falando, mesmo após seu descanso. Que a esperança da ressurreição por ocasião da breve volta de Jesus console a todos.

Entre as muitas histórias que revelam a estatura intelectual e moral da professora Nair, há uma que ouvi dela pessoalmente e que ilustra tanto sua honestidade científica quanto sua integridade de fé.

Nair costumava recordar sua convivência acadêmica com Theodosius Dobzhansky, um dos mais influentes geneticistas do século 20 e figura central na consolidação da genética evolutiva no Brasil. Em meio às tensões vividas por ela como jovem estudante adventista na Universidade de São Paulo (USP), dividida entre a fé criacionista e o ambiente universitário fortemente evolucionista, ocorreu um diálogo que marcaria profundamente sua vida.

Segundo seu próprio relato, em 1966, durante atividades de campo em São Paulo e em conversas informais, Dobzhansky fez repetidas referências ao “Criador” ao contemplar a natureza, sem ironia aparente. Em uma dessas ocasiões, ao serem confrontados pela complexidade e beleza do mundo natural, ele lhe perguntou se realmente acreditava que tudo aquilo pudesse ser fruto do acaso. Diante da resposta negativa de Nair, Dobzhansky a aconselhou de forma direta e surpreendente: que permanecesse criacionista e não abandonasse sua convicção por causa do que ele havia escrito ou ensinado.

Ainda segundo o testemunho de Nair, ao ser questionado sobre a influência que exercera – e continuaria exercendo – sobre gerações de estudantes, Dobzhansky encerrou a conversa com uma confissão carregada de peso pessoal: disse que ela era jovem, que não precisava seguir o caminho que ele havia trilhado, e que ele próprio já tinha ido longe demais para voltar atrás.

Esse relato, que por muito tempo foi tratado por alguns como “lenda urbana”, encontra eco no próprio texto mais famoso de Dobzhansky, publicado em 1973, no qual ele se declara simultaneamente criacionista e evolucionista, afirmando entender a evolução como o método de criação de Deus ou da natureza – ainda que, paradoxalmente, descreva esse processo como “criativo, porém cego”.

Ao compartilhar essa experiência, Nair nunca buscou sensacionalismo nem disputas ideológicas. Seu objetivo era testemunhar que a ciência, mesmo em seus mais altos níveis, não está imune a conflitos existenciais profundos, e que a fidelidade à consciência pode custar caro – mas vale a pena.

Para ela, essa vivência não enfraqueceu sua fé; ao contrário, ajudou a firmá-la. E é assim que sua memória permanece: como a de uma educadora que transitou com coragem entre ciência e crença, sem jamais abrir mão da honestidade intelectual nem da confiança no Criador.

A declaração de Dobzhansky: “Only a creative but blind process could produce… the tremendous biologic success that is the human species… The organic diversity becomes, however, reasonable and understandable if the Creator has created the living world not by caprice but by evolution propelled by natural selection. It is wrong to hold creation and evolution as mutually exclusive alternatives. I am a creationist and an evolutionist. Evolution is God’s, or Nature’s method of creation. Creation is not an event that happened in 4004 BC; it is a process that began some 10 billion years ago and is still under way” (Dobzhansky, Theodore [1973], “Nothing in Biology Makes Sense Except in the Light of Evolution”, The American Biology Teacher, 3:125-129, March. p. 127). Portanto, o famoso cientista acabou por se declarar um evolucionista teísta.

O Experimento Nigeriano: darwinismo versus cristianismo e as consequências do domínio colonial

Qual é a melhor opção para o florescimento humano: a ideia darwiniana de que os humanos são produto de uma evolução cega, impulsionada por variações aleatórias e pela sobrevivência do mais apto, ou a ideia cristã de que os humanos de todas as cores, culturas e crenças são feitos à imagem de um Deus amoroso e racional que morreu por seus pecados? Poderíamos teorizar, é claro, e decidir com base nas implicações lógicas de cada visão de mundo, mas também seria útil realizar um experimento para ver como as ideias de cada posição se aplicam na prática. Idealmente, faríamos o seguinte: pegaríamos um país, o dividiríamos e o colocaríamos nas mãos de pessoas de fora, de uma cultura tecnologicamente mais avançada. Colocaríamos uma parte sob o controle de darwinistas e a outra parte sob o controle de cristãos. No experimento, escolheríamos darwinistas que de fato se comportassem de acordo com os princípios do darwinismo, e não segundo quaisquer princípios cristãos aos quais pudessem ter sido expostos na infância. Também procuraríamos líderes cristãos que se esforçassem para viver de acordo com os princípios explícitos das Escrituras, em vez de distorcê-las, interpretá-las erroneamente ou ignorá-las. Então, esperaríamos cem anos para ver o que aconteceria.

Foi basicamente isso que aconteceu com a Nigéria.

A partilha da África

No fim do século 19, a Grã-Bretanha, os Estados Unidos e doze nações europeias se uniram e dividiram a África entre si. As fronteiras foram traçadas de forma bastante aleatória, sem levar em consideração os grupos étnicos que já viviam na região e se autogovernavam. Como observou o primeiro-ministro britânico Lord Salisbury: “Estivemos empenhados em traçar linhas em mapas onde jamais pisaram os pés de um homem branco.”

Por que fizeram isso? Porque estavam ávidos pelos recursos naturais e pelos mercados da África. Isso ficou conhecido como a “Partilha da África”. A Grã-Bretanha assumiu o controle do que hoje é conhecido como Nigéria. Algumas partes do país foram colocadas sob o controle de cristãos, enquanto o norte da Nigéria foi entregue a agnósticos que seguiam explicitamente os preceitos do darwinismo social no desenvolvimento de suas políticas públicas.

O acadêmico e pastor nigeriano Olufemi Oluniyi discute esse experimento social massivo e não intencional, bem como seus resultados dolorosamente claros, em seu livro Darwin Chega à África: Darwinismo Social e Imperialismo Britânico no Norte da Nigéria.

Darwinismo social

Para entendermos o que aconteceu na Nigéria – e o que ainda está acontecendo lá e em outros lugares – precisamos compreender a conexão entre o darwinismo como teoria científica e o darwinismo social como um guia para interagir com outros grupos.

A teoria científica de Darwin sobre mutação aleatória e seleção natural aplica-se à biologia, a organismos simples como as células e a organismos mais complexos como os animais, incluindo os seres humanos. Na visão darwiniana, todos evoluíram de um ancestral comum e todos são moldados pela visão darwiniana do mundo biológico como, em sua essência, uma luta impiedosa pela sobrevivência, em que os fortes dominam e destroem os fracos. Existem muitas variações da teoria da evolução, mas, em linhas gerais, a teoria de Darwin incentivou amplamente as seguintes ideias na biologia:

• Existe uma escala evolutiva, e alguns organismos são mais evoluídos do que outros.

• Os organismos precisam competir por recursos limitados.

• Os mais fortes tendem a sobreviver e os mais fracos a desaparecer.

• Isso é bom. Quanto mais forte, melhor. O processo gera organismos mais aptos.

Aplicados à sociedade humana, esses princípios foram traduzidos da seguinte forma:

• Alguns grupos étnicos são mais evoluídos do que outros.

• Os grupos étnicos precisam competir por recursos limitados.

• Os grupos mais evoluídos sairão vitoriosos.

• Isso é bom. Cria seres humanos melhores. 

Isso é darwinismo social.

O darwinismo social justifica o imperialismo.

É moralmente errado invadir outros países, redesenhar suas fronteiras, colonizá-los à força e tomar o controle de seus recursos? Não, segundo o darwinismo social. O grande darwinista Karl Pearson escreveu em 1905: “Uma comunidade de homens está tão sujeita quanto uma comunidade de formigas ou uma manada de búfalos às leis que regem toda a natureza orgânica. Não podemos escapar delas; não adianta protestar contra o que alguns podem chamar de crueldade e sede de sangue. Podemos apenas estudar essas leis, reconhecer os benefícios que elas trouxeram ao homem e instar o estadista e o pensador a considerá-las e a utilizá-las.”

Em outras palavras, os países fortes têm todo o direito de explorar os mais fracos. Em termos darwinianos, a força faz o direito; os “vencedores” são evolutivamente mais avançados do que os “perdedores” – são mais fortes, mais inteligentes e têm maior capacidade de sobrevivência.

Em termos de darwinismo social, colonizar um país é uma ação relativamente branda. Considere que Pearson também escreveu: “Raças superiores e inferiores não podem coexistir; se as primeiras quiserem usar os recursos globais de forma eficaz, as últimas devem ser extirpadas.” Extirpadas, no sentido de completamente destruídas, mortas, literalmente, “arrancadas pela raiz”.

Lembre-se de que Pearson não era um excêntrico qualquer, mas sim um professor altamente respeitado que se tornou o primeiro titular da Cátedra Galton de Eugenia no University College London. Um de seus admiradores era Frederick Lugard, o homem que a Grã-Bretanha colocou no comando do norte da Nigéria.

O darwinismo social justifica o racismo

Lugard, um agnóstico, admirava não apenas Pearson, mas também o franco darwinista social Benjamin Kidd, que argumentava que os brancos eram evolutivamente superiores aos negros. Lugard citou com aprovação a opinião de Sir Charles Eliot de que a mente do homem negro “está muito mais próxima do mundo animal do que a do europeu ou asiático, e exibe algo da placidez do animal e da falta de desejo de ascender além do estado em que se encontra”. Você leu certo. Essas pessoas acreditavam que os negros eram mais próximos dos animais do que os brancos.

A esposa de Lugard, uma jornalista muito influente que dedicou boa parte do seu tempo a proferir discursos na Inglaterra sobre a Nigéria, também comparou os negros a animais. Flora Lugard observou que no norte da Nigéria, “a raça [negra] é tão persistente que perdurou. Deixe-a ser preservada com um mínimo de cuidado, como se faz com elefantes e búfalos em certas regiões, e ela se multiplicará a uma taxa que poderá ser um perigo ou uma vantagem, dependendo de como for tratada pelo homem branco”.

Você leu certo. Flora aconselhou a tratar os nigerianos essencialmente como gado.

Os Lugards não eram exceções. Essas atitudes eram típicas da chamada elite intelectual da época. O racismo em si não era novidade, mas o darwinismo lhe conferia legitimidade, dando-lhe uma aparência de respeitabilidade científica. Assim, ouvimos ecos da teoria da evolução em muitos dos comentários racistas. O povo nigeriano, disse Lugard, por exemplo, eram “as raças infantis do mundo”, incluindo “muitos que ainda estão no estágio mais baixo de selvageria primitiva”.

Branco é tudo?

É claro que os europeus brancos (darwinistas) se consideravam o grupo humano mais evoluído. Ao avaliar tribos africanas, eles chegaram a considerar as tribos de pele mais clara como mais evoluídas do que as de pele mais escura. Lugard escreveu: “Todas as tribos nigerianas foram modificadas, em maior ou menor grau, pela miscigenação com sangue negro, o que produziu tipos raciais distintos entre si e bastante diferentes do tipo negro. Elas variam em suas características mentais e físicas de acordo com a quantidade de sangue negro em suas veias, que se mostrou extremamente potente em assimilar linhagens estrangeiras ao seu próprio tipo.”

Ele afirma isso sem provas, observe bem. E, coerente com sua visão de mundo darwinista social, Lugard elevou a posições de poder a tribo de pele mais clara do norte da Nigéria. Eles eram considerados “uma raça parcialmente branca”, disse Flora Lugard, enquanto seu marido observou que “tais raças formam um elo inestimável entre os funcionários britânicos e o campesinato nativo”.

Infelizmente, o grupo de pele mais clara era justamente o dos fulanis, uma tribo islâmica violenta conhecida principalmente por saquear e aterrorizar aldeias pacíficas pagãs e cristãs. “Esses fulanis chegaram tarde à África, nômades do gado sem pátria própria”, escreve Oluniyi. “Eles conquistaram certas regiões durante as jihads fulanis dos séculos 18 e 19, praticando intensamente a escravidão e o tráfico de violência.” Todos os temiam; muitos os desprezavam, argumentando que, se os fulanis fossem disciplinados e trabalhadores, produziriam seus próprios produtos em vez de roubar os de outros.

Mas, com os olhos vidrados do darwinismo firmemente colocados, Lugard ignorou tudo isso e declarou alegremente que “o domínio fulani foi mantido como um experimento, pois estou… ansioso para utilizar, se possível, sua maravilhosa inteligência, pois eles são governantes natos e incomparavelmente superiores às tribos negroides em habilidade”, exibindo “poderes de organização e desenvolvimento intelectual à frente da raça negra pura”.

Ninguém que realmente conhecesse os fulanis os via como tais exemplos de perfeição. Mas, como a maioria dos administradores darwinistas, os Lugards mantinham-se em grande parte separados dos habitantes locais “menos evoluídos”. Assim, a esposa de Lugard pôde concordar alegremente com sua avaliação: “Parece que estamos diante de um dos grandes fatos fundamentais da história: existem raças que nascem para conquistar e outras para persistir sob a conquista.”

O darwinismo social justifica a violência

Os resultados da ascensão dos fulanis ao poder foram, como qualquer pessoa livre das amarras do racismo científico poderia ter previsto, extremamente infelizes. Oluniyi escreve: “O missionário Walter Miller [que viveu décadas na Nigéria] observou que traços típicos dos fulanis, como ‘uma natureza naturalmente cruel e vingativa, os transformaram em tiranos em vez de governantes’.” Miller fornece detalhes explícitos de torturas horríveis impostas pelos fulanis. O domínio fulani era um exemplo de uma monstruosidade multifacetada e complexa, e seus funcionários fulanis eram precipitadores, promotores e perpetuadores de uma desumanização sem limites.

Curiosamente, Lugard não recrutou um único fulani para sua guarda pessoal de elite, observa Oluniyi. “Em vez disso, os cerca de setenta membros eram exclusivamente iorubás – homens de pele escura do sul, região desprezada. Em outras palavras, quando a situação apertava, era somente entre os iorubás que Frederick Lugard podia se sentir seguro e tranquilo.”

Dificilmente se poderia dizer que Lugard considerava o Islã pessoalmente atraente. Ele temia que “ao apoiar o domínio [Fulani], inevitavelmente encorajamos a disseminação do Islã, que, do ponto de vista puramente administrativo, tem a desvantagem de estar sujeito a ondas de fanatismo”.

Mas ele minimizou o perigo, usando um raciocínio tipicamente racista: “Como religião, [o Islã] não evoca no negro puro o zelo ardente que desperta nas raças de sangue estrangeiro ou mestiço, e muitas vezes há pouca diferença entre o camponês ou o trabalhador que se autodenomina muçulmano e seu irmão pagão.” Além disso, disse ele, o Islã “é uma religião incapaz de atingir o seu pleno desenvolvimento, mas as suas limitações adequam-se às limitações do povo”. Outro administrador britânico concordou, explicando que “o grande mérito do Islã é que oferece ao africano uma explicação do Universo e um código de ética superior ao seu, mas não demasiado difícil ou muito diferente do seu”.

Em comparação, os princípios mais abstrusos do cristianismo, seu código de moralidade sexual mais rigoroso, sua exaltação da paz e da humildade, seu reconhecimento da fraternidade com o escravo, o cativo e o criminoso, não se adequam totalmente ao temperamento do negro, escreveu Lugard. Em suma, o islamismo era considerado “mais adequado do que o cristianismo para o homem negro violento e intelectualmente limitado”, escreve Oluniyi. Quase se pode vê-lo revirando os olhos diante dessa afirmação absurda. Alguns padres da Igreja eram africanos, destaca Oluniyi. O próprio cristianismo já estava bem estabelecido entre muitos grupos étnicos africanos muito antes da colonização europeia. De fato, em termos de moralidade e decência básica, os europeus brancos não se comparam muito bem a muitas das tribos africanas que Oluniyi descreve.

Um desastre total

As visões pseudocientíficas do darwinismo social produziram, como era de se esperar, uma série de problemas no norte da Nigéria. Os administradores britânicos, também adeptos do darwinismo social, conseguiram fomentar a discórdia entre grupos étnicos e religiosos, incentivar a violência e minar práticas comerciais e econômicas locais que antes eram bem-sucedidas. Mulheres e meninas sofreram sob um regime islâmico que as considerava propriedade. Pagãos e cristãos rapidamente se tornaram cidadãos de segunda classe.

E a educação sofreu, em grande parte porque os missionários cristãos, com a intenção de proporcionar oportunidades educacionais aos nigerianos, eram geralmente proibidos de entrar na região norte, para não desagradar os emires. Os poucos que tinham permissão para entrar enfrentavam regras bizarras e eram impedidos de abrir e administrar escolas. Em poucos anos, todos esses fatores colocaram o norte da Nigéria muito atrás de seus pares.

A outra metade

Enquanto os darwinistas sociais estavam ocupados destruindo o norte da Nigéria, as áreas do país sob governo cristão prosperavam. Nessas regiões, africanos ocupavam posições-chave na administração – por causa de suas habilidades, não pela cor de sua pele. Ao mesmo tempo, missionários cristãos tinham livre acesso para estabelecer escolas e promover métodos agrícolas modernos, práticas comerciais e sistemas de comunicação, o que beneficiou enormemente essas regiões. “Os missionários cristãos”, diz Oluniyi, “viam que o africano era tão capaz de compreender e abraçar o cristianismo quanto qualquer europeu, e tão capaz de aprender e implementar avanços em diversas outras áreas também.” Oluniyi apresenta uma longa lista de avanços que os missionários trouxeram e – o que é significativo – confiaram aos cuidados dos africanos.

Além disso, em nítido contraste com os darwinistas sociais, que não conseguiam conceber aprender nada com um africano “menos evoluído”, a maioria dos cristãos que vieram da Grã-Bretanha para a Nigéria trouxe consigo uma atitude de humildade, uma disposição para ver não apenas o que os africanos poderiam não ter, mas também o que eles poderiam oferecer. Por exemplo, William MacGregor, o governador britânico de uma região (e, como observa Oluniyi, um leitor diário da Bíblia), elogiou a indústria têxtil local e observou que os tecidos africanos eram superiores aos produtos britânicos. A esposa de um administrador cristão diferente escreveu sobre “saudações e cumprimentos sorridentes que me foram dirigidos por todos os lados” nas ruas movimentadas de Kano ou de qualquer outra cidade da Nigéria. “E isso não é de forma alguma um tributo a qualquer charme pessoal meu. Qualquer viajante, de pele negra ou branca, recebe o mesmo tratamento naturalmente.” E Oluniyi dá muitos outros exemplos. Essencialmente, esses eram cristãos da Grã-Bretanha que abordavam os africanos como outros seres humanos. Eles conversavam com eles, viviam entre eles e interagiam com eles respeitosamente.

Este é o resultado natural da cosmovisão cristã. O cristianismo vê todos os seres humanos como iguais, feitos à imagem de Deus e, como tal, dignos de dignidade e respeito. Não existe uma hierarquia evolutiva, ninguém acima ou abaixo de ninguém. E não há elogio à “sobrevivência do mais apto”. Em vez disso, os seguidores de Cristo são incentivados a proteger os fracos, defender os oprimidos, cuidar dos doentes e acolher os estrangeiros. “Tais visões diferentes da humanidade e das origens humanas são irreconciliáveis”, escreve Oluniyi.

Consequências da visão de mundo

O destino do norte da Nigéria demonstra como as pressuposições da visão de mundo têm consequências. O darwinismo não ofereceu nenhuma razão para valorizar o africano e todas as razões para explorá-lo. Embora a Nigéria forneça um estudo de caso dolorosamente claro, Oluniyi não é de forma alguma o único acadêmico a documentar os danos que o darwinismo causou às relações raciais e à sociedade humana. Notavelmente, o historiador Richard Weikart escreveu extensivamente sobre a conexão entre os princípios darwinianos e o Terceiro Reich de Adolf Hitler. Veja, por exemplo, De Darwin a Hitler e Racismo Darwiniano. John West explora os efeitos desumanizadores do darwinismo em O Dia de Darwin na América, e Benjamin Wiker explora a obscuridade ética no cerne do darwinismo em Darwinismo Moral. Muitos outros apresentaram argumentos semelhantes.

É claro que alguns darwinistas não são racistas, e alguns cristãos são. A diferença reside no seguinte: o racismo flui natural e logicamente da visão de mundo darwinista, enquanto os cristãos que praticam a opressão racista precisam racionalizar princípios fundamentais do cristianismo para fazê-lo. As Escrituras deixam claro que todos os homens e mulheres são feitos à imagem de Deus e, como tal, são igualmente dignos de dignidade e respeito. Jesus escandalizou seus contemporâneos ao Se associar com estrangeiros e mulheres (João 4); Paulo escreveu que “não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos vocês são um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:28). E a carta de Paulo a Filemon, no Novo Testamento, é uma aula magistral sobre como encorajar um dono de escravos a tratar seu escravo fugitivo como um irmão amado em Cristo e a libertá-lo em seu retorno, em vez de puni-lo.

Tudo isso é relevante para nossas avaliações das tensões raciais e outras tensões interpessoais na atualidade. Qual é a visão de mundo subjacente? Essa visão de mundo reflete a crença de que todos nós, independentemente da cor da pele, somos feitos à imagem de Deus e iguais em valor? Ou coloca um grupo contra o outro, numa espécie de lei do mais forte, em que o poder é o bem supremo, ou melhor, o único bem?

Duas visões da humanidade

Então, voltando à nossa pergunta inicial: Qual visão de mundo melhor incentiva o florescimento humano? A ascensão da liberdade política, econômica e religiosa, juntamente com a invenção da ciência e a criação de hospitais e universidades na Europa cristã medieval e renascentista, sugere a resposta judaico-cristã, assim como o destino da Alemanha nazista e os grandes desastres comunistas do século 20, cada um moldado pelo uso do materialismo darwiniano por Karl Marx. Mas, como Oluniyi demonstra, não precisamos fazer uma pesquisa tão abrangente. O trágico experimento “natural” que foi a Nigéria colonial nos dá a resposta.

Na verdade, não há comparação. E, no entanto, em muitos lugares do mundo, o darwinismo, incluindo o darwinismo social, infiltra-se no direito, na política e nos negócios – em qualquer lugar em que um senso de superioridade pessoal, ou uma vontade de exercer poder sobre os outros, deseje se revestir com a aparência de respeitabilidade científica.

É por isso que Oluniyi quer que paremos de falar sobre raças. “Só existe uma raça humana”, diz ele, “da qual todos fazemos parte.” E talvez seja por isso que um jovem negro me abordou depois de ouvir falar do manuscrito de Oluniyi, de sua morte prematura e de seus assuntos inacabados que eu estava ajudando a concluir e publicar. “O que você está fazendo é bom”, disse ele, com lágrimas nos olhos. “A história desse homem é importante. Essas lições importam. Elas precisam ser ouvidas.”

Observação: Oluniyi enviou um rascunho do manuscrito ao Discovery Institute pouco antes de a Covid-19 lhe tirar a vida. Com a bênção de sua família, o Discovery Institute finalizou e publicou Darwin Chega à África. Eu fui um dos editores. Amanda Witt

A doutora é editora do Discovery Institute e autora de quatro romances distópicos e várias obras mais curtas, tanto de ficção quanto de não ficção. Antes de se dedicar à edição, lecionou como professora adjunta de inglês e humanidades.

(Revista Salvo)

O núcleo da Terra está girando ao contrário? É o fim do mundo?

Nos últimos tempos, manchetes alarmistas sugeriram que o núcleo interno da Terra teria “parado” e passado a girar no sentido oposto – o suficiente para alimentar temores apocalípticos. Mas o que as pesquisas realmente dizem? A resposta curta é: não é o fim do mundo (pelo menos não por causa disso). Trata-se de um fenômeno natural, cíclico e já esperado pelos geofísicos.

O estudo sobre a multidecadal variation of the Earth’s inner-core rotation, publicado na revista Nature Geoscience, analisou dados sísmicos acumulados ao longo de décadas. Terremotos fortes produzem ondas sísmicas que atravessam o planeta inteiro. Ao comparar o tempo de chegada e a forma dessas ondas em estações sismográficas ao redor do mundo, os cientistas conseguem “ver” o que acontece no interior da Terra – inclusive no núcleo interno, uma esfera sólida de ferro e níquel do tamanho aproximado da Lua.

Quando ondas sísmicas percorrem o mesmo trajeto em anos diferentes e chegam com diferenças mínimas de tempo, isso indica mudanças na posição e rotação do núcleo interno em relação ao manto e à crosta.

Ele parou mesmo?

Não exatamente. O que os pesquisadores observaram foi que o núcleo interno reduziu sua rotação relativa, atingindo um ponto de quase sincronia com o manto, e depois passou a girar levemente no sentido oposto. Isso não significa uma inversão brusca ou caótica, mas uma oscilação suave, como um pêndulo que desacelera, para, e muda de direção.

Por que isso acontece?

O núcleo interno não está isolado. Ele sofre a influência de forças gravitacionais do manto, interações eletromagnéticas com o núcleo externo líquido, e da própria dinâmica térmica do planeta. Essas forças geram ciclos naturais de aceleração e desaceleração da rotação, com períodos estimados em décadas (aproximadamente 60–70 anos). Ou seja, isso já aconteceu antes – e voltará a acontecer.

Há riscos para a vida na Terra?

Não. Nenhum risco conhecido. Essas variações não causam terremotos, não afetam o campo magnético de forma perigosa, não alteram o clima, não representam ameaça à vida.

O campo magnético da Terra, que nos protege da radiação solar, é gerado principalmente pelo núcleo externo líquido, não pelo núcleo interno sólido. As mudanças observadas são sutis demais para provocar qualquer colapso magnético ou ambiental.

Há implicações práticas?

Sim, mas todas científicas, não catastróficas. Esses estudos ajudam a refinar modelos do interior da Terra, compreender melhor o comportamento do campo magnético, melhorar a interpretação de dados sísmicos, avançar no conhecimento sobre a história térmica do planeta. Em outras palavras, é ciência de ponta – não sinal de desastre iminente.

Então, por que tanto alarde?

Porque fenômenos complexos costumam ser simplificados (ou distorcidos) quando chegam ao público. “O núcleo da Terra mudou de direção” soa muito mais dramático do que “detectamos uma oscilação cíclica na rotação relativa do núcleo interno”.

O núcleo interno da Terra não entrou em colapso, não parou de funcionar e não ameaça o planeta. O que a ciência identificou foi mais uma peça no quebra-cabeça fascinante da dinâmica terrestre: mudanças lentas, previsíveis e cíclicas, que ocorrem muito abaixo de nossos pés.

O “segundo zero” da vida: quando a ciência observa a ordem no início da existência

Pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT) conseguiram algo notável: observar com altíssima precisão o que acontece nos instantes iniciais após a fecundação. Não minutos depois, nem horas depois, mas logo no início, quando o óvulo fertilizado é ativado e o processo da vida começa. O que eles viram foi tudo, menos simples. Pouco após a fecundação, ondas bioquímicas percorrem o óvulo, como se um interruptor invisível tivesse sido acionado. Longe de qualquer reação aleatória ou caótica, os cientistas descrevem esse momento como um verdadeiro “segundo zero”: o instante em que os mecanismos fundamentais do desenvolvimento embrionário entram em funcionamento.

O aspecto mais impressionante da descoberta está no padrão dessas ondas. Elas não se espalham de maneira desordenada. Pelo contrário: seguem ritmos definidos, sequências estruturadas e até padrões em espiral, semelhantes àqueles observados em fenômenos naturais altamente organizados, como redemoinhos, galáxias ou sistemas químicos auto-organizados.

Isso revela que, desde o primeiro instante, o desenvolvimento embrionário obedece a regras precisas, cuidadosamente coordenadas. Já no estágio de uma única célula, o que se vê não é improviso, mas informação em ação. A observação direta desses processos reforça algo que a biologia moderna vem constatando há décadas: a complexidade da vida não surge gradualmente a partir do caos, mas se manifesta desde o início, de forma integrada e funcional. Uma única célula já contém sistemas de sinalização altamente sofisticados; coordenação espacial e temporal. Isso levanta uma questão inevitável: Como tamanha organização pode emergir sem direção, sem informação prévia, sem um princípio ordenador?

Os próprios pesquisadores descrevem o fenômeno com admiração científica. Ainda que não avancem para conclusões filosóficas, os dados observados dialogam diretamente com o debate sobre origem da vida e complexidade biológica.

Para o criacionismo bíblico, essa descoberta não é surpresa. A Bíblia descreve a vida como algo intencionalmente formado, não como produto do acaso: “Tu formaste o meu interior, Tu me teceste no ventre de minha mãe” (Salmo 139:13).

A ciência, ao olhar cada vez mais de perto, não encontra simplicidade primitiva, mas engenharia biológica em seu ponto de partida.

A ciência moderna está chegando cada vez mais perto do início – e quanto mais se aproxima, menos encontra acaso e mais encontra ordem. O chamado “segundo zero” da vida não revela um processo bruto esperando para ser moldado, mas um sistema finamente ajustado desde o primeiro instante.

Talvez a grande descoberta do nosso tempo não seja apenas como a vida começa, mas o quanto ela já começa extraordinariamente organizada.

Quando a vida valia pouco: infanticídio no mundo antigo e a revolução ética do cristianismo

Entre os papiros que sobreviveram ao tempo, há documentos que funcionam como espelhos incômodos de uma civilização. Um deles é a carta do soldado Hilárion à sua esposa Ális, escrita em 1 a.C. O conteúdo é direto e brutal: se o bebê que nascer for menino, deve ser criado; se for menina, deve ser descartada. Não se trata de um desvio moral isolado, mas de um retrato fiel da mentalidade dominante no mundo greco-romano.

Naquela cultura, o infanticídio não era visto como crime, mas como prática socialmente aceita, regulada por critérios econômicos, utilitários e patriarcais. A ordem de preservar o filho homem e eliminar a filha mulher revela valores profundamente arraigados: a primazia absoluta do pater familias, a desigualdade ontológica entre os sexos e a compreensão da vida humana como algo condicionado à utilidade social.

No direito romano, o pai detinha o ius vitae necisque, isto é, o direito legal de decidir sobre a vida ou a morte do recém-nascido. Crianças indesejadas, com deficiência, fruto de relações consideradas inconvenientes ou simplesmente do sexo feminino podiam ser “expostas” – abandonadas à própria sorte, geralmente à morte. O mais perturbador é que essa prática contava com respaldo intelectual. Filósofos respeitados como Aristóteles e Sêneca justificavam o descarte de crianças em nome da razão, da ordem social ou da estabilidade do Estado. A vida, portanto, não possuía valor intrínseco universal.

É nesse cenário que o cristianismo surge como uma ruptura ética e teológica sem precedentes. Desde seus primórdios, a fé cristã afirmou que todo ser humano é criado à imagem e semelhança de Deus (Gênesis 1:26, 27), o que confere dignidade inviolável à vida, independentemente de sexo, condição física ou status social. Essa não era apenas uma crença abstrata, mas um princípio com consequências práticas profundas.

Textos cristãos antigos confirmam isso. A Didachê, provavelmente escrita entre o fim do século I e o início do II, condena explicitamente o aborto e o infanticídio: “Não matarás o filho por aborto, nem o farás perecer depois de nascido.” Em poucas palavras, o documento desmonta a lógica dominante do mundo romano.

No centro dessa revolução está a própria encarnação. Em Jesus Cristo, Deus assume a fragilidade humana desde o ventre, passando pela infância e pela vulnerabilidade social. Ao acolher crianças e afirmar que “dos tais é o Reino de Deus” (Marcos 10:14), Jesus subverte frontalmente o utilitarismo romano. No cristianismo, o valor da pessoa não depende de força, sexo, produtividade nem cidadania, mas da graça.

Essa nova visão não ficou restrita ao discurso religioso. Historicamente, comunidades cristãs passaram a recolher crianças abandonadas, criando uma prática contracultural de cuidado, adoção e proteção dos mais vulneráveis. Com o avanço do cristianismo no Império Romano, especialmente a partir do século IV, começaram a surgir leis que restringiam ou proibiam a exposição de bebês. Ainda que de forma gradual e imperfeita, estava em curso uma transformação moral profunda.

O contraste é inescapável. Onde o mundo antigo via vidas descartáveis, o cristianismo passou a enxergar imagem de Deus. Onde havia cálculo utilitário, surgiu o valor intrínseco da pessoa. Assim, o cristianismo não apenas denunciou o infanticídio como pecado, mas reconfigurou a própria compreensão do que significa ser humano. É uma herança ética que continua a desafiar qualquer cultura que tente, novamente, medir o valor da vida por critérios de conveniência.