
A árvore da evolução humana, frequentemente apresentada em livros didáticos, documentários e museus como uma história razoavelmente estabelecida, talvez precise passar por mais uma revisão importante. Um novo estudo publicado no American Journal of Biological Anthropology propõe reconsiderar a classificação dos supostos ancestrais humanos, colocando espécies tradicionalmente classificadas nos gêneros Australopithecus e Paranthropus dentro do gênero Homo.
A proposta é do pesquisador Ian Towle, da Monash University, na Austrália. Segundo ele, novas descobertas fósseis e avanços nas análises evolutivas e genéticas tornaram menos claras as fronteiras tradicionalmente usadas para separar esses grupos. Características como cérebro maior, fabricação de ferramentas e determinados comportamentos já foram empregadas para distinguir Homo dos demais hominínios, mas novos achados complicaram esse quadro.
Fósseis encontrados em Ledi-Geraru, na Etiópia, por exemplo, levaram pesquisadores a concluir que diferentes linhagens atribuídas a Australopithecus, Homo e Paranthropus teriam coexistido. O registro fóssil dos hominínios estaria se mostrando mais diverso e complexo do que se imaginava.
É verdade que revisões fazem parte da ciência, e hipóteses devem ser modificadas quando surgem novas evidências. Mas exatamente por isso cabe uma pergunta: Se conhecemos com tanta segurança nossa história evolutiva, por que partes importantes dela precisam ser continuamente reorganizadas?
O ponto fundamental está na diferença entre dado e interpretação. Um fóssil é um dado presente: podemos medir um crânio, examinar dentes e comparar estruturas anatômicas. Já afirmar que determinado organismo foi ancestral de outro, estabelecer relações de parentesco entre populações extintas e desenhar uma sequência histórica envolve inferências. Não observamos diretamente essa história acontecendo.
As incertezas não são novas. Uma importante revisão acadêmica sobre a emergência do gênero Homo já reconhecia haver pouco consenso sobre qual australopitecíneo, se algum, teria sido seu ancestral. Os autores afirmaram ainda que não era possível identificar com segurança o ancestral direto de Homo erectus.
O problema, portanto, não é a ciência revisar suas hipóteses. O problema é apresentar ao público como história praticamente reconstruída aquilo que a própria literatura especializada continua discutindo. As famosas árvores evolutivas dos livros são modelos interpretativos, não fotografias do passado.
Há ainda uma questão anterior e mais fundamental. Antes de discutir como uma linhagem ancestral teria chegado ao Homo sapiens, é preciso perguntar como surgiu a própria vida supostamente capaz de evoluir.
Estudei especificamente esse assunto em meu trabalho de conclusão de curso na pós-graduação em Biologia Molecular. E uma coisa precisa ficar clara: não existe atualmente uma explicação experimentalmente demonstrada de como a primeira vida surgiu espontaneamente a partir da não vida. Existem hipóteses, modelos e experimentos de química prebiótica, o que é muito diferente de conhecer o processo histórico pelo qual a primeira célula teria surgido.
Do ponto de vista criacionista, essas revisões não devem ser comemoradas como se representassem o “fim da evolução”. Elas nos lembram de uma distinção epistemológica essencial: dados são dados; reconstruções do passado são interpretações dos dados. O criacionista também deve estar disposto a revisar seus modelos quando as evidências exigirem.
A nova classificação talvez seja aceita, modificada ou rejeitada pelos paleoantropólogos. Mas permanece uma pergunta que merece ser feita: Quanto daquilo que aprendemos como “a história da evolução humana” é fato observado e quanto é reconstrução de uma história que ninguém observou?









