Artemis II: a volta do ser humano à Lua depois de meio século

A missão Artemis II foi lançada às 19h24 (horário de Brasília), marcando o retorno de astronautas à vizinhança da Lua após mais de cinco décadas desde o Programa Apollo. O lançamento representou um passo decisivo dentro do programa Artemis, que visa não apenas revisitar a Lua, mas estabelecer uma presença humana sustentável em sua superfície nas próximas décadas.

Diferentemente das missões Apollo que realizaram pousos lunares (seis, ao todo), a Artemis II teve como principal objetivo testar, com tripulação a bordo, todos os sistemas essenciais para futuras missões de alunissagem. A missão utilizou a espaçonave Orion, acoplada ao foguete Space Launch System (SLS), o mais potente já desenvolvido pela NASA. Após alcançar a órbita terrestre, a nave realizou a manobra conhecida como Translunar Injection (TLI), que a colocou em trajetória rumo à Lua.

O voo seguirá uma trajetória de aproximadamente 10 dias, incluindo ida, circunavegação lunar e retorno à Terra. Durante esse percurso, a Orion executará uma passagem retrógrada ao redor da Lua, aproveitando a dinâmica gravitacional do sistema Terra-Lua para ganhar estabilidade e eficiência energética. Essa trajetória permitirá testar navegação em espaço profundo, comunicações a longas distâncias e sistemas de suporte à vida em condições reais.

Entre os principais objetivos da missão estão:

  • Validar o desempenho do sistema de suporte à vida com astronautas a bordo.
  • Testar o escudo térmico da cápsula durante a reentrada em alta velocidade.
  • Avaliar os sistemas de navegação, comunicação e controle em espaço profundo.
  • Treinar a tripulação para operações em órbita lunar.
  • Verificar a integração entre foguete, cápsula e sistemas terrestres.

A Artemis II não incluiu pouso na Lua. Esse marco está previsto para a missão seguinte, a Artemis III, planejada para ocorrer nos próximos anos, com o objetivo de levar astronautas – incluindo a primeira mulher e a primeira pessoa negra – à superfície lunar, possivelmente na região do polo sul da Lua, onde há indícios de gelo de água.

Além de seu valor técnico, a missão também tem um impacto simbólico profundo. Ao cruzar novamente o espaço cislunar, a humanidade demonstra não apenas avanço tecnológico, mas também perseverança em explorar o desconhecido.

O sucesso dessa missão abre caminho para um novo capítulo na história da exploração espacial. Se tudo continuar conforme o planejado, os próximos passos levarão novamente o ser humano à superfície lunar.

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A Apollo 8 (1968) foi uma das missões mais marcantes da história espacial – e, em muitos aspectos, muito semelhante ao que hoje representa a Artemis II. Assim como a missão atual, a Apollo 8 não teve como objetivo pousar na Lua, mas sim levar astronautas à sua órbita, testando navegação em espaço profundo e abrindo caminho para futuras alunissagens.

Tripulada por Frank Borman, Jim Lovell e William Anders, a missão foi a primeira a levar seres humanos para além da órbita terrestre e a primeira a circundar a Lua. Durante cerca de seis dias, os astronautas viajaram até o nosso satélite natural, entraram em sua órbita e contemplaram uma das imagens mais icônicas da história: o nascer da Terra no horizonte lunar (Earthrise).

Mas talvez o momento mais memorável da Apollo 8 tenha ocorrido na véspera de Natal de 1968. Ao transmitirem imagens ao vivo da Lua para milhões de pessoas na Terra, os astronautas decidiram ler os primeiros versos da Bíblia, em Gênesis 1. Um após o outro, eles declararam: “No princípio criou Deus os céus e a Terra…”, descrevendo a criação enquanto mostravam as imagens do espaço profundo.

Aquela leitura não foi um gesto casual. Em meio a um período conturbado da história mundial, marcado por guerras e tensões sociais, a mensagem transmitida do espaço trouxe um senso de reverência e unidade. Ao contemplarem a Terra como um pequeno e frágil “ponto azul” no vasto Universo, os astronautas reconheceram algo que transcende a tecnologia: a percepção de ordem, beleza e propósito na criação.

No encerramento da transmissão, Frank Borman deixou uma mensagem simples, mas profunda: “Boa noite, boa sorte, um feliz Natal – e que Deus abençoe a todos vocês, todos vocês na boa Terra.”

A Apollo 8 demonstrou que a exploração espacial não é apenas uma conquista científica, mas também uma experiência profundamente humana e, para muitos, espiritual. Assim como a Artemis II em nossos dias, aquela missão apontou não só para a capacidade humana de alcançar o espaço, mas também para a necessidade de refletir sobre nosso lugar no Universo – e sobre Aquele que o criou.

Abaixo, a tripulação da Artemis II: Jeremy Hansen – especialista de missão (Canadian Space Agency); Victor Glover – piloto; Reid Wiseman – comandante; Christina Koch – especialista de missão

Resenha crítica do capítulo 7 do livro A História da Vida

O capítulo 7 do livro A História da Vida, intitulado “Pais da Ciência, Homens de Fé”, propõe uma reflexão profunda da relação histórica entre a fé cristã e o desenvolvimento científico. O autor busca demonstrar que a fé e a razão, longe de serem forças opostas, caminham juntas. 

O foco central do capítulo está na exposição da vida de Isaac Newton, como exemplo de homem de fé e ciência. Newton, além de matemático e físico, era também um teólogo estudioso que passou as últimas décadas de sua vida estudando a Bíblia e as profecias. Reinaldo Lopes sugere que, na verdade, a fé religiosa de Newton pode ter facilitado suas descobertas. Assim, o capítulo contrapõe a crença comum de que é impossível ser crente e intelectual. 

Outro mérito do capítulo é o esclarecimento do mito da Terra plana, um argumento frequentemente usado para simbolizar a suposta “guerra entre a ciência e a religião” na Idade Média. Russell, um historiador citado, demonstrou que o erro da Terra plana é um mito moderno, propagado no século 19 por antirreligiosos americanos (como Washington Irving e Antoine-Jean Letronne) e usado como uma “arma simbólica do Iluminismo” para atacar o Cristianismo. O texto ainda usa as Escrituras Sagradas (Jó 26:7 e Isaías 40:22) para mostrar que a Bíblia já indicava conceitos de uma Terra “suspensa no nada” e com formato de “globo”. 

Além da análise histórica, o capítulo traz exemplos práticos e contemporâneos. O físico brasileiro Cesar Lattes, co-descobridor do méson pi, por exemplo, declarou crer na Bíblia e na origem bíblica do Universo. No campo da saúde, a aplicação de princípios bíblicos sobre sanitarismo (como o isolamento de leprosos em Levítico 13:46) resultou na diminuição da lepra e teve um impacto positivo na saúde pública, provando que a Bíblia contém informações práticas. 

Por fim, o capítulo 7 cumpre seu papel ao aprofundar o conhecimento sobre a história e a filosofia da ciência, mostrando que fé e razão podem coexistir em harmonia. Ao citar William Lane Craig, o texto reforça que o verdadeiro problema para a aceitação das conclusões cristãs não é a razão, mas o preconceito. Com base em evidências históricas e conceituais, o capítulo sustenta que o Cristianismo não é o inimigo da ciência, mas, sim, o solo cultural e moral do qual ela floresceu. A fé, para os pais da ciência, foi o farol que iluminou a busca pela ordem natural estabelecida por Deus. 

(Daiana de Souza Mota é aluna do curso Teologia e Estudos Adventistas

Resenha crítica do capítulo 2 do livro A História da Vida

No capítulo “Seguindo as Evidências”, do livro A História da Vida, Michelson Borges propõe uma análise provocativa sobre a origem da vida e as formas de interpretação da realidade. O autor busca demonstrar que a fé e a razão não são forças opostas, mas caminhos que, quando bem compreendidos, convergem na busca pela verdade. Com uma escrita clara e embasada, Borges defende a coerência do modelo criacionista, apresentando evidências científicas e filosóficas que, segundo ele, apontam para um Criador inteligente e intencional.

O capítulo se destaca por abordar a questão com equilíbrio, evitando o extremismo e convidando o leitor a refletir sobre as limitações do pensamento exclusivamente naturalista. O autor reconhece a importância do método científico, mas critica a postura de alguns cientistas que, segundo ele, adotam o evolucionismo como um dogma, sem considerar adequadamente outras interpretações das mesmas evidências. Borges argumenta que a complexidade da vida e a ordem do Universo indicam propósito e planejamento, o que reforça a plausibilidade do relato bíblico da criação. Como leitor adventista, é possível perceber grande afinidade com a perspectiva apresentada. A valorização da fé como complemento da ciência está em harmonia com o pensamento cristão que reconhece Deus como autor da vida.

De modo geral, “Seguindo as Evidências” é um capítulo relevante e provocador, que desafia o leitor a reexaminar pressupostos e a reconhecer que as evidências da natureza não precisam afastar o ser humano de Deus, mas sim conduzi-lo a Ele. Michelson Borges oferece uma contribuição significativa ao debate entre fé e ciência, reafirmando que a verdadeira sabedoria está em seguir as evidências com mente aberta e coração disposto à verdade.

(Rafael Francisco Silva de Paulo é aluno do curso Teologia e Estudos Adventistas)

Resenha crítica do capítulo 1 do livro A História da Vida

O primeiro capítulo do livro A História da Vida, intitulado “O Universo ao Lado”, apresenta de forma clara e instigante o propósito central de Michelson Borges: discutir as cosmovisões que moldam a compreensão humana sobre a origem e o sentido da vida. O autor parte da premissa de que ninguém é totalmente neutro; toda pessoa interpreta o mundo a partir da sua cosmovisão, sejam eles criacionistas, que reconhecem um Criador intencional, ou naturalistas/darwinistas, que procuram explicar a existência com base apenas nas leis da natureza.

O capítulo tem início com um episódio pessoal no qual a esposa do autor, Débora, participa de um debate em sala de aula sobre a origem do ser humano. A situação é apresentada como uma metáfora para os “universos ao lado”: dois modos distintos de ver a realidade, o criacionista e o evolucionista, que coexistem, mas frequentemente se negam a dialogar de forma aberta e respeitosa. Borges usa esse exemplo para mostrar que o conflito entre fé e ciência, muitas vezes, não é de evidências, mas de interpretação das mesmas evidências a partir de olhares diferentes.

Em uma das passagens mais marcantes do capítulo, Michelson cita o debate histórico entre o bispo Samuel Wilberforce e o cientista Thomas Huxley, ocorrido em 1860, como um exemplo de como a defesa da fé pode se tornar ineficaz quando conduzida com orgulho e sarcasmo. Durante a discussão sobre a teoria da evolução, o bispo tentou ridicularizar Huxley, perguntando ironicamente se ele descendia de um macaco por parte do avô ou da avó de Huxley, o qual respondeu que preferiria ter um macaco como avô do que um homem educado e influente, mas que usa sua inteligência apenas para ridicularizar o outro em um debate cientifico

Michelson Borges destaca esse episódio não para apoiar Huxley, mas para mostrar que o bispo foi infeliz em sua abordagem, usando o ridículo em vez da razão. Ao agir assim, perdeu uma oportunidade valiosa de defender a fé com equilíbrio e preparo intelectual. Para o autor, esse tipo de postura contribui para o descrédito do criacionismo, reforçando a imagem de que a religião teme o debate científico, algo que ele se empenha em refutar ao longo da obra.

O autor argumenta, de modo convincente, que o naturalismo filosófico, base do evolucionismo moderno, é em si uma forma de crença, uma visão de mundo que exclui, por princípio, qualquer possibilidade sobrenatural. O autor mostra que essa postura, longe de ser neutra, é uma escolha ideológica que coloca limites artificiais ao alcance da ciência. Citando pensadores como Phillip Johnson, Stephen Meyer e Leonard Brand, Borges sustenta que há espaço legítimo para questionar as explicações naturalistas e considerar a hipótese de um design inteligente como racional e coerente.

A principal força do texto está na clareza didática e na capacidade de unir fé e razão. O capítulo conduz o leitor a refletir sobre como as evidências científicas podem ser interpretadas à luz de uma cosmovisão criacionista, sem negar a importância da investigação científica. O autor defende que a verdadeira ciência deve ser livre para seguir as evidências que apontam para a existência de um Criador.

Em síntese, o capítulo “O Universo ao Lado” é uma leitura envolvente e profundamente reflexiva. Michelson Borges mostra que crer em Deus não é negar a ciência, mas reconhecer e compreender que a vida carrega marcas claras de planejamento e propósito.

(Jaqueline Camargo é aluna do curso Teologia e Estudos Adventistas)

As dobras do Grand Canyon: evidência contra os milhões de anos?

Uma das imagens mais impressionantes do Grand Canyon são suas camadas rochosas dobradas como se fossem folhas maleáveis. Mas há um problema sério aqui – um problema que atinge o coração da cronologia geológica convencional. Segundo a geologia tradicional, o arenito Tapeats teria sido depositado há cerca de 500 milhões de anos, endurecido (litificado) e, somente muito depois – cerca de 70 milhões de anos atrás – dobrado por forças tectônicas. Mas será que rochas duras se comportam assim?

Esse tema foi amplamente estudado por Andrew Snelling, doutor em geologia pela University of Sydney e pesquisador associado à Answers in Genesis. Snelling tem se dedicado por décadas ao estudo das formações do Grand Canyon, com foco especial nas evidências relacionadas ao modelo do Dilúvio bíblico.

O próprio princípio básico da geologia estrutural é claro: rochas sólidas, quando submetidas a pressão, tendem a fraturar, não a se curvar suavemente. Entretanto, no Grand Canyon vemos algo diferente: camadas dobradas de forma suave, contínua – como se fossem dobradas enquanto ainda estavam moles. Foi exatamente essa questão que motivou os estudos de Snelling.

A evidência microscópica

Após anos de coleta e análise de amostras, Snelling concluiu algo surpreendente:

  • Os grãos minerais permanecem intactos
  • O cimento de quartzo não apresenta sinais de ruptura
  • Não há evidência de metamorfismo (esperado se a rocha endurecida fosse dobrada)

Segundo sua pesquisa, as evidências “são consistentes apenas com deformação enquanto o sedimento ainda estava macio” . Em outras palavras: as camadas foram dobradas antes de endurecerem completamente.

E aqui está o ponto crucial: se o arenito tivesse realmente passado por centenas de milhões de anos antes de ser dobrado, ele já estaria totalmente rígido. Nesse caso, a dobra deveria produzir fraturas extensas, recristalização mineral e sinais claros de deformação tectônica tardia. Mas esses sinais não aparecem de forma consistente nas análises apresentadas.

Isso leva a uma conclusão direta dentro do modelo criacionista: não houve intervalo de centenas de milhões de anos entre deposição e dobra.

Uma leitura à luz do Dilúvio

Snelling propõe uma explicação coerente com o modelo bíblico:

  1. Deposição rápida do arenito no início do Dilúvio
  2. Enterramento rápido por outras camadas sedimentares
  3. Dobramento ainda durante o evento, quando o material estava úmido e plástico
  4. Endurecimento posterior das camadas

Esse cenário elimina a necessidade de longas eras geológicas e se harmoniza com um evento catastrófico global.

Há controvérsia?

Sim. Críticos argumentam que há fraturas em alguns pontos e que a deformação pode ter ocorrido em rochas já endurecidas. Mas isso não resolve o problema principal: Como explicar grandes dobras suaves sem evidência consistente de metamorfismo?

Essa continua sendo uma das questões mais debatidas.

O que está em jogo aqui não é apenas uma formação rochosa, mas uma cosmovisão:

  • Uniformitarismo: processos lentos ao longo de milhões de anos
  • Catastrofismo bíblico: eventos rápidos e globais

As dobras do Grand Canyon se tornaram um campo de batalha entre essas duas interpretações. As rochas “dobradas como massa” desafiam a ideia de que tudo ocorreu lentamente ao longo de eras imensuráveis. Elas parecem sussurrar outra história: uma história de processos rápidos, forças intensas e um passado muito mais recente do que muitos imaginam.

Talvez o Grand Canyon não seja apenas um monumento ao tempo profundo – mas também um testemunho silencioso de um mundo que foi julgado pelas águas.

Gênesis 1: Universo jovem ou vida jovem?

Têm sido propostos dois modelos para a criação do Universo:

Modelo da Terra Jovem: o primeiro modelo, em geral, defende a criação da Terra – incluindo a sua modelagem para ter as condições necessárias para a existência da vida, bem como a própria vida em todas as suas manifestações – em seis dias, na semana da Criação, juntamente com a criação do Universo e do nosso Sistema Solar. Nesse primeiro caso, a semana da Criação corresponde, portanto, ao período da criação do Universo, juntamente com a modelagem da Terra para abrigar a vida, tendo os demais planetas e luas do Sistema Solar (criados nessa semana simultaneamente com a Terra) permanecido sem forma e vazios.[1: p. 23]

Modelo do intervalo passivo: em seu livro Origens, o zoólogo e paleontólogo Dr. Ariel Roth, ex-diretor do Geoscience Research Institute, nos informa que esse modelo é considerado uma variação do criacionismo da Terra Jovem.[2: p. 330] O modelo defende que Deus criou o Universo (espaço-tempo), estrelas e sistemas planetários, incluso a matéria da Terra (partículas elementares) em eras anteriores (época indeterminada), mas preparou a Terra para a vida e criou a vida somente poucos milhares de anos atrás, em seis dias (note a semelhança com o modelo geral da Terra Jovem).[3]

Nesse segundo caso, a semana da Criação relatada em Gênesis corresponde, portanto, somente ao período de modelagem da Terra (que sucedeu o período indeterminado desde a criação do Universo) para ter as condições necessárias para a existência da vida, bem como a própria vida em todas as suas manifestações.[4, 5] Nesse segundo caso, ainda, os demais planetas e luas do Sistema Solar teriam permanecido em seu estado original, sem forma e vazios, como eram desde o início da época indeterminada que precedeu a semana da Criação.[1: p. 23]

Richard Davidson, professor de Antigo Testamento da Universidade Adventista de Andrews, afirmou em artigo publicado na Revista da Sociedade Teológica Adventista que “várias considerações [o] levam a preferir o ‘intervalo passivo’ em relação ao modelo ‘sem intervalo’ [Terra jovem].”[6: p. 21; 7] Ademais, outros teólogos adventistas também concordam que um padrão de criação divina em dois estágios emerge de uma análise escriturística.[3, 5, 8, 9]

Dr. Ruben Aguillar, professor de Antigo Testamento da Faculdade Adventista de Teologia do Centro Universitário Adventista de São Paulo (UNASP) comenta sobre a relação do verso 1 de Gênesis com o modelo do intervalo passivo: “uma das palavras da Bíblia Hebraica bem estudadas e que ao mesmo tempo provoca interpretações polemicas é aquela com a qual começa o relato do Gênesis: bereshith, ‘no princípio’. A primeira sílaba é uma preposição inseparável traduzida sem dificuldades como ‘em’. Na língua portuguesa aparece acrescido com o artigo ‘o’ e que resulta em “no”. O termo reshith, traduzido como ‘principio’, encontra sua raiz no vocábulo r’osh, ‘cabeça’. Segundo o léxico hebraico, esse termo significa também: ‘começo’, ‘tempo primordial’, ‘estado primordial’, ‘tempo remoto’, ‘primeiro da sua classe’ em relação a tempo. Auxiliado pelas alternativas de tradução que o léxico apresenta o primeiro verso de Gênesis pode ser assim traduzido: ‘no tempo primordial Deus criou’, ou também ‘no tempo remoto Deus criou’; que concede ao verso um sentido de antiguidade de maior profundidade em termos de expressão temporal.”[10: p.15]

Professor Aguillar acrescenta que a análise do verso 2 de Gênesis reforça um entendimento coerente acerca da criação em dois estágios: “a ideia do intervalo passivo se fortalece ao analisar o verso 2 no texto hebraico, onde aparecem as palavras tohu vabohu, ‘sem forma e vazia’, sobre as quais está inserido o acento gramatical rebi’a. Os acentos na língua hebraica tem a função de relacionar uma palavra com as outras. Essa relação pode ser de união ou de separação. O acento rebi’a, que aparece nas palavras mencionadas é disjuntivo, da segunda classe superior, ou seja, a sua função é fazer separação ou indicar pausa. Observando através dessa lente, pode-se ver que a frase ‘estava sem forma e vazia’ faz separação entre as frases ‘no princípio criou Deus os céus e a terra’ do verso 1, com as que descrevem a semana da criação.”[10:p.13]

Para fins de esclarecimento, é importante mencionar que o modelo do intervalo passivo, citado acima, não deve ser confundido com o modelo do intervalo ativo (também chamado de Ruína-Restauração), proposto por Thomas Chalmers (1780-1847), famoso teólogo escocês, o qual defendia – sem qualquer evidência direta, científica ou escriturística – que a vida teria sido criada por Deus na Terra em passado distante pré-adâmico.[2: p. 330; 11] Segundo a página ADVindicate, editada pelo geólogo Monte Fleming, doutorando em Geologia pela Universidade de Loma Linda, esse modelo ainda diz que, após Satanás ter sido julgado, ele teria sido arremessado à Terra e destruído essa vida pré-adâmica supostamente existente. Essa destruição teria finalmente sido seguida pela criação descrita em Gênesis 1 e 2.[11]

Um problema frequentemente associado a ambos os modelos criacionistas (Terra Jovem e Intervalo Passivo) devido à ignorância, primeiro por parte de seus defensores leigos; depois, por parte de seus opositores, diz respeito à questão da criação da “luz” durante a semana da Criação.[2: p. 308] Muitas pessoas se utilizam do argumento de que Deus teria “criado” os luminares somente no quarto dia (Gênesis 1:14). Mas uma análise alternativa nos mostra que Deus poderia já ter criado a luz no primeiro dia (Gênesis 1:3); portanto, nesse sentido, o sistema solar já existia.

O erguimento parcial de uma densa nuvem no primeiro dia da semana da criação iluminou a Terra, porém, o Sol, a Lua e as estrelas, embora presentes, não eram visíveis a partir da Terra. A luz era semelhante à de um dia muito nublado. Uma retirada completa da cobertura de nuvens, no quarto dia, fez com que o Sol, a Lua e as estrelas, preexistentes, se tornassem plenamente visíveis da superfície da Terra. Daí os luminares serem mencionados somente no quarto dia. Ou então o Sol e a Lua podem ter sido criados no quarto dia, ao contrário das demais estrelas, que são mencionadas de forma parentética por Moisés, indicando que elas já existiam.

Os dois primeiros versos do livro de Gênesis também possibilitam uma segunda interpretação aceita, diga-se de passagem. por uma parcela significativa de adventistas criacionistas.[2: p. 309-310] A ideia aqui é a de que a declaração “Deus criou os céus e a Terra”, no verso 1 de Gênesis, diz respeito a um pequeno resumo ou introdução sobre o relato da criação da Terra e arredores que viria a seguir, acompanhada pela descrição, no versículo 2, de que “a Terra era sem forma e vazia e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas”. Isto indicaria materialidade anterior à semana da Criação, embora não estivesse diretamente relacionado a questões sobre o Universo (espaço-tempo). Essa descrição se aplica coerentemente a uma Terra pré-existente, sinalizando, indiretamente, que o Universo foi criado antes da semana da criação, juntamente com o tempo.

A maioria das traduções bíblicas propicia, de fato, uma afirmação ambígua, em vista de que o hebraico dos manuscritos bíblicos dá margem a mais de uma interpretação. No entanto, a descrição de uma Terra vazia, envolvida em trevas originais, é reforçada por descrições semelhantes em outras passagens bíblicas que falam de uma Terra original envolvida em “escuridão” (Jó 38:9) com uma veste de nuvens, e de uma Terra que “surgiu da água” (2 Pedro 3:5).

Em artigo publicado na Revista Adventista pelo pastor e mestre em Ciências da Religião Glauber Araújo vemos a explicação de que “acreditar que o Universo seja mais antigo do que a vida em nosso planeta não tem que ver com o pensamento evolucionista, mas com as evidências bíblicas”.[12: p.20] Isso corrobora o que ponderou John Lennox, declarado criacionista e professor de matemática da Universidade de Oxford, no livro Seven Days That Divide the World: “É logicamente possível crer nos dias de Gênesis como de 24 horas (ou uma semana terrestre) e crer que o Universo é antigo. E […] isso não tem nada que ver com ciência. Tem que ver com o que o texto está de fato nos dizendo” (p. 53).

O professor Richard Davidson [13: p. 51], no livro He Spoke and It Was, afirma ainda que as “análises recentes do discurso de Gênesis 1 […] indicam que a gramática do discurso desses versículos aponta para uma criação em dois estágios. A história principal não começa antes do versículo 3. Isso implica uma condição anterior dos ‘céus e Terra’ em seu estado ‘sem forma e vazio’, antes do início da semana da criação”.

Partindo dessa visão, Provérbios 8:26 diz que houve uma época em que nem sequer o princípio do pó deste mundo existia. O livro de Hebreus 11:3 diz que Deus criou as eras (tempo, eternidade). Ainda sobre o tempo, o astrofísico Eduardo Lütz afirma que “o tempo é um dos atributos do Universo. Existe uma profunda conexão entre a criação do tempo e a criação do Universo, não tem como separá-los. Se o tempo não teve um início, Deus não criou o que chamamos hoje de Universo, pois o tempo depende do Universo para existir”. Em outras palavras, segundo o astrofísico, “tempo pode existir sem matéria, mas matéria não pode existir sem tempo”.

O livro de Jó também aponta nessa direção. Ali encontramos dois textos que claramente sugerem a existência de outros seres criados além de nós (leia mais sobre isso aqui). Em primeiro lugar, quando Satanás compareceu perante o Senhor (Jó 1:6, 7), o texto faz referência a outros “filhos de Deus”, dando a entender que nosso planeta não era o único habitado.[12] É claro que, como afirma o astrofísico Eduardo Lütz, “a identidade dos ‘filhos de Deus’ em Jó 38:7 não é relevante para o argumento de que a Bíblia sugere a existência do Universo antes da criação da Terra. É apenas uma curiosidade tocada de passagem. Mas o que conta é que alguém criado por Deus comemorava ‘quando’ Ele lançava os fundamentos da Terra”. Em outras palavras, segundo Lütz, Jó 38:7 contradiz a interpretação de que a Terra tem a mesma idade do Universo, mas não contradiz Gênesis 1: “Não há qualquer base bíblica para se afirmar que o Universo tenha cerca de seis mil anos de idade ou que Gênesis 1 se refira à criação do Universo. Muito pelo contrário. Certos textos bíblicos (como Jó 38:4-7) sugerem que, quando o Criador ‘lançou os fundamentos da Terra’, já existiam até mesmo seres inteligentes em outras partes do Universo [como plateia]. E, mesmo que não aceitemos isso por alguma razão obscura, pelo menos precisamos reconhecer que Gênesis 1 não nos dá qualquer informação sobre quando e como o Universo foi criado.”[14: p. 6, 7]

Ao longo do meu trabalho de pesquisa e divulgação do criacionismo, tenho percebido que boa parte dos criacionistas da “Terra jovem” não consegue aceitar a interpretação de que apenas a “vida no planeta Terra seja jovem”, sendo o Universo e a matéria (partículas elementares) do planeta antigos. Mas, sem querer ser polêmico, percebemos que uma análise escriturística em conjunto com os dados atuais do conhecimento científico nos mostra que essa possibilidade existe, é razoável e deve ser introduzida na discussão sobre as origens.

Essa posição está em consonância com a declaração emitida pela Sociedade Criacionista Brasileira (SCB), órgão máximo sobre criacionismo no Brasil, em sua análise editorial, como se segue: “À luz dos conhecimentos atuais, a criação dos céus e da Terra é algo posterior à criação do Universo.” [1: p. 18] Logo, a SCB conclui: “A criação de nossa Terra de maneira nenhuma deve ser confundida com a criação do Universo.”[1: p. 23]

Em suma, portanto, a principal distinção entre a interpretação do “intervalo passivo” e a interpretação “sem intervalo” é devida à questão de quando se deu o início absoluto dos “céus e da Terra” (Gênesis 1:1).[3] Enquanto o último interpreta Gênesis 1:1, 2 como parte do primeiro dia da criação de sete dias, o primeiro interpreta Gênesis 1:1, 2 como uma unidade cronológica separada por uma lacuna no tempo do primeiro dia da criação, como descrito em Gênesis 1:3. Segundo o que nos diz o astrofísico Lütz, “não tem como provar pela Bíblia que o Universo seja jovem. Também não tentamos provar pela Bíblia que o Universo seja ‘muito’ antigo. Apenas mostramos fortes indicações de que o Universo é mais velho do que a Terra”.

Diante do exposto, a pergunta que fica é a seguinte: Você se considera um criacionista da Terra jovem convencional ou um criacionista do intervalo passivo?

Obs.: o NUMAR-SCB não tem uma posição definitiva sobre o assunto, e nem poderia bater o martelo sobre a questão de o universo ser antigo (conforme apontam as evidências escriturísticas) ou jovem (também apoiado em evidências tanto científicas quanto escriturísticas), uma vez que não se tem um consenso na comunidade teológica e, mais especificamente, na criacionista. O objetivo do texto é o de apenas apresentar ao nosso público esse modelo criacionista da Terra jovem, mas que aceita um “intervalo passivo” antes da semana da Criação literal descrita em Gênesis, e que já vem sendo discutido e aceito há décadas em outros países. Achei válido, de igual modo, inseri-lo nas discussões sobre as nossas origens aqui no Brasil. Mas é válido frisar que essa é uma área em que ainda são necessários mais estudos.

(Everton Alves)

Referências:

[1] Editores. Antes da semana da criação: vida em outros planetas do sistema solar? Revista Criacionista 2003; 32(69):18-23.

[2] Roth AA. Alternativas entre a Criação e a Evolução. Capítulo 21, pp.328-41. In: Roth AA. Origens. 2. Ed. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2016.

[3] Sanghoon J. Interpretations of Genesis 1:1. Journal of Asia Adventist Seminary 2011; 14(1): 1-14.

[4] Coffin HG. Origin by Design. Hagerstown, MD: Review and Herald, 1983, 292–293.

[5] Widmer M. Older than creation week? Adventist Review 1992; 169(4):454-62.

[6] Davidson RM. The Biblical Account of Origins. Journal of the Adventist Theological Society 2003; 14(1):4-43.

[7] Davidson RM. In the Beginning: How to Interpret Genesis 1. Dialogue 1994; 6(3):9-12.

[8] Terreros MT. What is an Adventist? Someone Who Upholds Creation. Journal of the Adventist Theological Society 1996; 7(2):147–149.

[9] Moskala J. Interpretation of Bereʼšît in the context of Genesis 1:1-3. Andrews University Seminary Studies 2011; 49(1):33-44.

[10] Aguilar R. Os Céus, o Intervalo e a Semana da Criação. Parousia. 2010; 9(1):7-18.

[11] Brent Shakespeare. Esboço das teorias propostas para Gênesis 1:1-2. Advindicate (14/03/2013). Disponível em: http://advindicate.com/articles/2996

[12] Glauber Araújo. A Idade da Terra. Revista Adventista. Abril de 2016, pp. 20-23.

[13] Davidson RM. The Genesis account of origins. In: Klingbeil G. (Ed.). He spoke and it was: divine creation in the Old Testament. Oshawa: Pacific Press Publishing Association, 2015.

[14] Lütz E. O criacionismo e a grande explosão inicial. Revista Criacionista 2003; 32(69):5-17.

Laminina, polilaminina e fé: entre a boa ciência e o fideísmo

Design inteligente: argumentos fortes ou símbolos forçados?

Volta e meia circulam nas redes sociais imagens da laminina – uma proteína do corpo humano – destacando que ela tem “formato de cruz” e sugerindo que isso seria uma evidência direta da assinatura de Deus na biologia. A descoberta recente da polilaminina e suas aplicações promissoras na regeneração nervosa reacenderam o debate. Afinal, estamos diante de uma prova científica da fé cristã? Ou precisamos tratar o assunto com mais cuidado?

O que é laminina e qual o seu formato?

A laminina é uma proteína estrutural essencial da matriz extracelular, especialmente da membrana basal. Ela ajuda a organizar tecidos, sustentar células e orientar crescimento celular. Estruturalmente, é composta por três cadeias (alfa, beta e gama) que se unem formando uma molécula com aparência cruciforme em representações tridimensionais.

Sim, é fato: a laminina tem formato semelhante a uma cruz. Isso é descrito na literatura científica e pode ser observado em modelos estruturais. Trata-se de um dado morfológico, não de interpretação teológica.

Mas é preciso lembrar: proteínas assumem formas variadas – espirais, globulares, filamentosas, ramificadas – conforme sua função e organização molecular. A forma da laminina decorre de sua arquitetura bioquímica, não de uma intenção simbólica detectável pela ciência.

E o que é polilaminina?

A polilaminina é uma forma polimerizada da laminina, desenvolvida em laboratório. Em vez de uma molécula isolada, trata-se de uma rede tridimensional organizada, capaz de formar uma matriz mais estável e funcional.

Pesquisas recentes indicam que a polilaminina pode estimular regeneração axonal, melhorar a adesão e crescimento celular, auxiliar em modelos experimentais de lesão medular.

Os estudos são promissores, especialmente na área de neuroregeneração, mas ainda estão em fases experimentais. Não se trata de uma terapia consolidada para tetraplegia ou paraplegia, embora os resultados iniciais animem a comunidade científica.

A pesquisadora brasileira Dra. Tatiana Sampaio, envolvida nesse campo, tem destacado que a polilaminina representa uma linha de investigação promissora, mas que mais estudos são necessários antes de qualquer conclusão clínica definitiva. Essa postura cautelosa é típica da boa ciência.

Entrevista no Roda Viva: ciência e seus limites

Em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, um repórter da Folha de S. Paulo tentou confrontar a Dra. Tatiana sobre o fato de cristãos enxergarem na laminina um “sinal de Deus”. A resposta dela foi notavelmente equilibrada.

Ela afirmou que, sim, a laminina tem formato de cruz – isso é inegável, é um fato estrutural. Mas acrescentou algo ainda mais importante: “Eu sei onde termina a ciência, mas os limites da ciência não são os limites do ser humano.”

E completou que pessoas religiosas podem se apropriar da imagem da laminina como metáfora daquilo em que acreditam – e que não cabe ao cientista julgar se isso está certo ou errado.

Foi uma resposta madura. Ela deixou claro que a ciência descreve estruturas e processos, a fé interpreta significado e propósito, os domínios são distintos, mas não necessariamente excludentes.

O repórter tentou sugerir conflito inevitável entre ciência e religião. A resposta dela mostrou que essa oposição é muitas vezes artificial.

O perigo do fideísmo “biomolecular”

Como criacionistas, precisamos tomar cuidado com um fenômeno recorrente: o fideísmo baseado em coincidências visuais. Há quem veja o nome de Deus em hebraico no DNA, símbolos religiosos em padrões moleculares, códigos bíblicos escondidos em sequências genéticas. Esse tipo de argumento pode até impressionar em um primeiro momento, mas costuma ser metodologicamente frágil. A tendência humana de reconhecer padrões (pareidolia) pode levar a interpretações forçadas.

A fé cristã não precisa de “coincidências gráficas” para se sustentar. Existem evidências muito mais robustas de design inteligente na vida:

  • A complexidade irredutível de sistemas moleculares.
  • A informação funcional altamente especificada no DNA.
  • A sintonia fina das constantes físicas.
  • A origem abrupta de informação biológica no registro fóssil (explosão cambriana).
  • A integração sistêmica dos organismos vivos.

Esses são argumentos estruturais e funcionais – não meramente visuais ou simbólicos.

Ciência e fé: rivais ou complementares?

A entrevista da Dra. Tatiana ilustra um ponto importante: os limites da ciência não são os limites da realidade. A ciência trabalha com observação, mensuração, experimentação, modelos explicativos naturais. Já questões de significado, propósito, valor moral, transcendência ultrapassam o escopo metodológico da investigação empírica.

Quando alguém afirma que a laminina “prova” o cristianismo, está extrapolando o método científico. Mas quando alguém afirma que a existência de Deus é invalidada pela ciência, também está indo além do que o método permite concluir. Ambos os extremos erram.

Equilíbrio é sinal de maturidade

A laminina tem formato de cruz? Sim. Isso é prova científica de Deus? Não. Cristãos podem usar essa imagem como metáfora daquilo que creem? Podem. A pesquisa com polilaminina é promissora? Sim. Já é solução definitiva para lesões medulares? Ainda não. A postura equilibrada da Dra. Tatiana Sampaio é um bom exemplo de maturidade intelectual: reconhecer fatos científicos com precisão, delimitar o campo da pesquisa e respeitar o espaço da fé sem reduzi-lo ao laboratório.

Para nós, criacionistas, o desafio é semelhante: defender a existência de design na natureza com argumentos sólidos, evitando atalhos retóricos ou “provas” fáceis demais. A fé cristã não precisa de símbolos escondidos no DNA para existir. Ela pode dialogar com a ciência com serenidade, reconhecendo que onde a ciência humana termina, a reflexão filosófica e teológica começa – e isso não é contradição, é complementaridade.

Fotoreceptores “híbridos”: nova prova da evolução ou mais um salto interpretativo?

Um artigo recente publicado na revista Science Advances descreve uma descoberta científica interessante: larvas de algumas espécies de peixes de águas profundas possuem fotoreceptores “híbridos” – células que combinam características moleculares de cones com morfologia de bastonetes – o que poderia representar uma trajetória alternativa de desenvolvimento visual em ambientes de luz intermediária. Do ponto de vista estritamente evolucionista, os autores interpretam esses achados como evidência de plasticidade adaptativa e evolução de um novo tipo de célula visual em resposta a pressões ambientais específicas no habitat mesopelágico. No entanto, uma análise crítica criacionista pode relativizar essa conclusão por várias razões:

1. Inserção de uma narrativa evolucionista além dos dados. Embora os pesquisadores descrevam diferenças no desenvolvimento de fotoreceptores, isso não é evidência direta de macroevolução no sentido de que uma espécie “transforma-se” em outra por mutações e seleção natural ao longo do tempo. O estudo documenta variação dentro de um grupo de peixes e adaptações à ecologia do ambiente – algo que a biologia criacionista reconhece como fenômeno de ajustamento biológico ou plasticidade ecológica, não necessariamente evolução de novas espécies ou linhas de descendência comum.

2. Assumir evolução adaptativa como explicação padrão. Os autores interpretam a existência de fotoreceptores híbridos como “evolução de uma estratégia alternativa de desenvolvimento visual” (i.e., evolução de um novo tipo de fotoreceptor). Contudo, sob a ótica criacionista, a presença de variações estruturais ou funcionais dentro de um grupo de organismos não prova evolução em grande escala. Variações filogenéticas em estruturas sensoriais podem refletir design funcional dentro dos limites de cada “espécie criada”, sem exigir uma explicação evolutiva para a origem fundamental dessas estruturas.

3. Universalizar interpretações sem considerar causas alternativas. A evolução é frequentemente apresentada como a única explicação possível para tais adaptações, mas outras explicações funcionais e mecanicistas também são plausíveis – por exemplo, diferenças no padrão de ativação gênica em resposta a ambientes variáveis. A biologia criacionista argumenta que programas genéticos complexos podem ter sido originalmente configurados para permitir respostas adaptativas dentro de cada tipo biológico sem necessidade de mudanças evolutivas profundas.

4. Limitações do estudo. O artigo é valioso como descrição científica de variações anatômicas e genéticas em peixes, mas não constitui evidência conclusiva de evolução em larga escala – o tipo de macroevolução que postulados como a ancestralidade comum exigem. Adaptabilidade, plasticidade e diversidade funcional dentro de tipos criados podem explicar os achados sem recorrer à evolução darwiniana como narrativa unificadora.

Apesar da utilidade dos dados sobre o sistema visual de peixes, conclusões evolucionistas amplas não são justificadas apenas com base nesses achados. Para uma compreensão coerente com a fé e com uma interpretação bíblica da origem da vida, tais pesquisas devem ser interpretadas com cuidado, reconhecendo a diferença entre variação funcional dentro de um tipo criado e suposta evolução de um tipo para outro.

Zichichi: o físico que desafiou o darwinismo e confrontou os mitos da ciência naturalista

A morte do físico italiano Antonino Zichichi, noticiada recentemente pelo Vatican News, reacende o debate sobre uma das vozes mais corajosas – e menos convencionais – do cenário científico europeu. Ex-presidente da Federação Mundial de Cientistas, Zichichi não foi apenas um pesquisador respeitado na área da física de altas energias; foi também um crítico contundente de certos dogmas culturais travestidos de ciência. Católico convicto, ele dedicou parte de sua produção intelectual a discutir a relação entre fé e razão, posicionando-se de maneira firme contra o cientificismo e contra o darwinismo apresentado como verdade incontestável.

Em seu livro Por Que Acredito NAquele que Fez o Mundo, Zichichi critica duramente a teoria da evolução biológica – algo que contrasta com a postura dos últimos papas, que têm defendido alguma forma de evolução teísta. Quando li essa obra pela primeira vez, tive a impressão de estar diante de algo equivalente, no campo da física e da filosofia da ciência, ao que A Caixa Preta de Darwin, de Michael Behe, representou para a biologia. Zichichi desmonta, com argumentos epistemológicos, a pretensão de que o evolucionismo seja uma consequência necessária da ciência galileana.

Segundo ele, há flagrantes mistificações no edifício cultural moderno que passam despercebidas do público em geral. Entre elas, a ideia de que ciência e fé são inimigas; de que ciência e técnica são a mesma coisa; de que o cientificismo nasceu no coração da ciência; de que a lógica matemática descobriu tudo e, se não descobre o “Teorema de Deus”, é porque Deus não existe; de que a ciência já explicou tudo e, se não encontra Deus, é porque Ele não existe; de que não há problemas na evolução biológica, apenas certezas; e de que somos filhos do caos, sendo o caos a última fronteira da ciência.

Para Zichichi, a raiz dessas confusões está na incompreensão do que é ciência. Ele afirma: “Nem a matemática nem a ciência podem descobrir Deus pelo simples fato de que estas duas conquistas do intelecto humano agem no imanente e jamais poderiam chegar ao Transcendente.” E vai além: “A teoria que deseja colocar o homem na mesma árvore genealógica dos símios está abaixo do nível mais baixo de credibilidade científica. […] Se o homem do nosso tempo tivesse uma cultura verdadeiramente moderna, deveria saber que a teoria evolucionista não faz parte da ciência galileana. Faltam-lhe os dois pilares que permitiriam a grande virada de 1600: a reprodução e o rigor. Em suma, discutir a existência de Deus com base no que os evolucionistas descobriram até hoje não tem nada a ver com a ciência. Com o obscurantismo moderno, sim.”

São declarações ousadas – especialmente vindas de um cientista católico de projeção internacional. Em um ambiente acadêmico frequentemente avesso a críticas ao paradigma evolucionista, Zichichi demonstrou independência intelectual rara. Concorde-se ou não com todas as suas conclusões, é inegável que ele desafiou o consenso e convidou seus leitores a refletirem sobre os limites da ciência e sobre o uso ideológico que muitas vezes se faz dela.

Sua morte encerra uma trajetória marcada por pesquisa, liderança e coragem. Mas suas perguntas permanecem. Talvez o maior legado de Zichichi não esteja apenas nas equações ou nos laboratórios, mas no convite a pensar criticamente.

(Michelson Borges é jornalista, pós-graduado em Biologia Molecular e mestre em Teologia pelo Unasp e pelas Faculdades EST)

Descansa uma grande defensora do criacionismo: Nair Ebling

Com pesar e profunda gratidão, registramos o falecimento, no dia 27 de janeiro de 2026, da professora Nair Elias dos Santos Ebling (1944-2026), uma das vozes mais respeitadas do criacionismo no Brasil. Educadora dedicada, cientista cuidadosa e cristã coerente, Nair Ebling marcou gerações de alunos e leitores ao unir fé bíblica e rigor acadêmico, mostrando que pensar cientificamente não é incompatível com crer no Deus Criador.

Nair formou-se em História Natural em 1966, em São José do Rio Preto, em uma faculdade que pertencia à Universidade de São Paulo (USP), e teve sólida atuação acadêmica na área de genética, educação e estudos sobre as origens, a professora Nair construiu uma trajetória acadêmica sólida, atuando por muitos anos no ensino superior e na formação de professores. Sua produção intelectual foi expressiva, com livros, capítulos e artigos voltados à defesa do criacionismo bíblico, à reflexão sobre as origens e ao diálogo honesto entre ciência e fé. Suas obras tornaram-se referência para estudantes, educadores e leitores interessados em compreender os limites do naturalismo e as evidências de um projeto inteligente na natureza.

O historiador Elder Hosokawa lembra que, “com o apoio de figuras como o pastor Nevil Gorski e a colaboração estreita do professor Admir Josafá Arrais de Matos, Nair aceitou o desafio hercúleo de escrever o próprio material didático. O processo não foi isento de batalhas. Durante a estruturação dos primeiros volumes destinados ao ensino fundamental, enfrentou resistências internas amargas, incluindo reuniões tensas em que colegas de profissão tentaram impedir a publicação do material por divergências conceituais. No entanto, sua resiliência e a de Admir Arrais prevaleceram. Em 1985, foi publicado pela Casa Publicadora Brasileira o livro Ciências, Programa de Saúde para a 5ª série, seguido por uma coleção completa que se estenderia até a 8ª série e, posteriormente, cobriria as quatro primeiras séries iniciais”.

“A publicação desses livros desencadeou uma tempestade na imprensa e na academia. Reportagens contundentes na Folha de S. Paulo e editoriais agressivos na Revista Ciência e Cultura, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, tentaram reduzir o trabalho de Nair e Admir. Contudo, o efeito foi o oposto do esperado pelos críticos. A polêmica gerou curiosidade e uma demanda sem precedentes. Professores de escolas públicas e particulares de todo o país passaram a buscar o material, e até mesmo o MEC, na época, chegou a adquirir edições completas. Nair assistiu, com surpresa e gratidão, como sua obra se espalhou como folhas de outono, levando a mensagem do Criador a lugares onde a fé raramente penetrava. Participou ativamente da abertura da Faculdade Adventista de Ciências em 1989″, completa Hosokawa.

Mais do que títulos e publicações, Nair Ebling deixa o legado de uma vida vivida com integridade, humildade intelectual e compromisso com a verdade. Sua contribuição ao criacionismo brasileiro permanece viva em seus escritos, em seus alunos e em todos aqueles que aprenderam com ela a pensar, questionar e crer. À família, amigos e à comunidade acadêmica e cristã, fica nossa solidariedade e a certeza de que sua obra continua falando, mesmo após seu descanso. Que a esperança da ressurreição por ocasião da breve volta de Jesus console a todos.

Entre as muitas histórias que revelam a estatura intelectual e moral da professora Nair, há uma que ouvi dela pessoalmente e que ilustra tanto sua honestidade científica quanto sua integridade de fé.

Nair costumava recordar sua convivência acadêmica com Theodosius Dobzhansky, um dos mais influentes geneticistas do século 20 e figura central na consolidação da genética evolutiva no Brasil. Em meio às tensões vividas por ela como jovem estudante adventista na Universidade de São Paulo (USP), dividida entre a fé criacionista e o ambiente universitário fortemente evolucionista, ocorreu um diálogo que marcaria profundamente sua vida.

Segundo seu próprio relato, em 1966, durante atividades de campo em São Paulo e em conversas informais, Dobzhansky fez repetidas referências ao “Criador” ao contemplar a natureza, sem ironia aparente. Em uma dessas ocasiões, ao serem confrontados pela complexidade e beleza do mundo natural, ele lhe perguntou se realmente acreditava que tudo aquilo pudesse ser fruto do acaso. Diante da resposta negativa de Nair, Dobzhansky a aconselhou de forma direta e surpreendente: que permanecesse criacionista e não abandonasse sua convicção por causa do que ele havia escrito ou ensinado.

Ainda segundo o testemunho de Nair, ao ser questionado sobre a influência que exercera – e continuaria exercendo – sobre gerações de estudantes, Dobzhansky encerrou a conversa com uma confissão carregada de peso pessoal: disse que ela era jovem, que não precisava seguir o caminho que ele havia trilhado, e que ele próprio já tinha ido longe demais para voltar atrás.

Esse relato, que por muito tempo foi tratado por alguns como “lenda urbana”, encontra eco no próprio texto mais famoso de Dobzhansky, publicado em 1973, no qual ele se declara simultaneamente criacionista e evolucionista, afirmando entender a evolução como o método de criação de Deus ou da natureza – ainda que, paradoxalmente, descreva esse processo como “criativo, porém cego”.

Ao compartilhar essa experiência, Nair nunca buscou sensacionalismo nem disputas ideológicas. Seu objetivo era testemunhar que a ciência, mesmo em seus mais altos níveis, não está imune a conflitos existenciais profundos, e que a fidelidade à consciência pode custar caro – mas vale a pena.

Para ela, essa vivência não enfraqueceu sua fé; ao contrário, ajudou a firmá-la. E é assim que sua memória permanece: como a de uma educadora que transitou com coragem entre ciência e crença, sem jamais abrir mão da honestidade intelectual nem da confiança no Criador.

A declaração de Dobzhansky: “Only a creative but blind process could produce… the tremendous biologic success that is the human species… The organic diversity becomes, however, reasonable and understandable if the Creator has created the living world not by caprice but by evolution propelled by natural selection. It is wrong to hold creation and evolution as mutually exclusive alternatives. I am a creationist and an evolutionist. Evolution is God’s, or Nature’s method of creation. Creation is not an event that happened in 4004 BC; it is a process that began some 10 billion years ago and is still under way” (Dobzhansky, Theodore [1973], “Nothing in Biology Makes Sense Except in the Light of Evolution”, The American Biology Teacher, 3:125-129, March. p. 127). Portanto, o famoso cientista acabou por se declarar um evolucionista teísta.