sexta-feira, março 27, 2020

Deus criou o coronavírus?

Neste tempo em que o mundo parou com a pandemia de coronavírus, muitas perguntas têm chegado até a nossa redação. O que é um vírus? Se Deus criou todas as coisas perfeitas, como explicar os vírus e as bactérias? A "evolução" da Covid-19 refuta o criacionismo? Bem, em poucas palavras, gostaria de trazer alguma luz a essa questão. E quero acrescentar algumas outras questões que nos ajudarão a atender o assunto.

O que são vírus?

Todos os vírus são definidos como tendo um ácido nucleico, DNA ou RNA, cercado por uma "camada" de proteína. Alguns vírus têm uma membrana lipídica externa adicional chamada envelope lipídico. Em muitos casos, o envelope parece ser "roubado" das células que invadem. 

Vírus não são células. As células possuem bioquímica interna ativa e podem coletar energia e se reproduzir; os vírus não podem obter energia e não podem se reproduzir sozinhos. Os vírus usam a máquina da célula a seu favor. 

Existe grande discussão na biologia. Vírus são seres vivos ou não? Depende da definição de ser vivo que usarmos. Se considerarmos que todos os seres vivos devem possuir apenas uma célula, automaticamente excluiremos os vírus, que são acelulares. No entanto, se considerarmos que os seres vivos devem possuir DNA ou RNA, aí eles se esquadrariam na descrição. 

Essa discussão não vem ao caso agora, e deixemos que os especialistas continuem esse debate.

O que os vírus fazem?

Os vírus são frequentemente chamados de parasitas, porque invadem as células e emprestam sorrateiramente a bioquímica das células para fazer cópias de si mesmos. Eles então escapam da célula, muitas vezes até matando a célula "hospedeira". 

O que a Bíblia diz sobre vírus e de onde eles vêm na criação de Deus? 

Embora os vírus não sejam mencionados na Bíblia, o mundo microbiano em que os vírus estão ativos é mencionado. Por exemplo, micróbios como leveduras e bactérias são usados ​​em muitos produtos alimentícios fermentados, e bebidas e pão fermentados também são mencionados. O fermento e as bactérias têm vírus, que podem realmente promover esses processos de fermentação. Recentemente, genes de fermentação foram descobertos em um vírus.[1] E bons vírus que ajudam a eliminar más bactérias em fermentação de produtos também estão sendo exploradas.[2]

O fermento é mencionado nas ilustrações da Bíblia que demonstram princípios espirituais (Lucas 13:20, 21). Essa é provavelmente uma referência ao fermento que usamos na fabricação de pão. Novamente, em nosso mundo, encontramos muitos micróbios envolvidos em atividades benéficas, até vírus.

O relato bíblico das origens indica que a criação foi muito boa. A origem dos patógenos que causam sofrimento, doença e morte é uma questão desafiadora. Uma série de possibilidades foi sugerida da seguinte forma:

  1. Micro-organismos (incluindo vírus) não causavam doença inicialmente. Eles se desenvolveram após a criação, como resultado de mutações e embaralhamento de genes entre si. Como consequência, surgiu um pequeno número de variantes patogênicas.
  2. Deus pode ter criado patógenos nas classes mais baixas da vida para garantir o controle da população, mas isso não se estendeu aos micróbios que habitavam os seres humanos. Em vez disso, mutações deram origem a patógenos entre populações de micróbios geralmente benéficos que habitam o corpo humano, e mutações semelhantes em patógenos animais lhes permitiram pular a barreira da espécie e infectar seres humanos.
  3. Os genomas de todas as criaturas foram projetados para que pudessem se adaptar rapidamente ao meio ambiente. Esses segmentos de DNA produtores de variantes ficaram comprometidos, dando origem a vírus de RNA e talvez a retrovírus, ostensivamente em razão da remoção do "poder regenerador de cura" de Deus.
  4. A diversidade pode ser explicada postulando que os elementos transponíveis eram originalmente projetados para produzir resultados altruístas positivos, mas subsequentemente causaram mutações quase neutras ou mesmo deletérias.
  5. Os micróbios não causavam inicialmente doenças em criaturas com sensações de dor, mas como consequência de várias mudanças que apareceram, talvez auxiliadas por agências externas.
As mudanças após a queda envolveram alterações no equilíbrio do ecossistema, de modo que a natureza e o comportamento dos organismos foram alterados. Em uma extensão da sugestão sobre agências, alguns postularam que um agente maligno alterou ou adicionou novas informações genéticas ao genoma de organismos existentes ou uma linha de micróbios inteiramente nova foi permitida emergir (Maldição de Deus).

Se os vírus não são todos ruins, o que eles foram projetados para fazer na criação?

O surgimento de bactérias patogênicas interessa aos criacionistas porque afeta os conceitos do caráter de Deus. O pecado trouxe uma mudança nas características do reparo do DNA e da regulação dos genes nos sistemas vivos, e o estresse foi introduzido na equação. Isso resultou em mutações e outros erros, dando origem a defeitos celulares. Os vírus, apesar de pequenos e mais simples que a maioria das células, possuem designs tremendos. Proponho que alguns vírus foram criados para bons usos na criação e outros foram alterados pela queda de Adão no pecado e surgiram em lugares onde não deveriam estar. Chamo isso de teoria do deslocamento na biologia da criação.[3] No genoma humano, por exemplo, temos mais sequências de DNA que se alinham com vírus do que sequências que codificam nossas próprias proteínas! Algumas dessas sequências de vírus no corpo humano produzem proteínas que silenciam nosso sistema imunológico, por exemplo, próximo ao embrião em crescimento. Alguns vírus ruins poderiam se originar de animais e de nós? Nesse caso, isso apoia a teoria da criação de deslocamento e, como dissemos acima, muitos vírus infecciosos em humanos têm uma origem zoonótica. Por exemplo, ouvimos falar dos suínos e da gripe aviária. Nesses casos, os vírus da influenza humana e gripe aviária se misturam nos porcos, e novos vírus da gripe são criados a partir de uma mistura das partes virais. Esses tipos de gripe são geralmente os mais infecciosos e mortais.

Vamos explorar outro exemplo: as mais numerosas criaturas biológicas da Terra são um grupo de vírus chamado bacteriófagos. Os bacteriófagos são vírus que vivem dentro e sobre todas as bactérias conhecidas. Pode haver até centenas de vírus em cada bactéria na terra. Prevê-se que as cianobactérias sejam as bactérias mais abundantes da Terra. Podemos ver "flores" de cianobactérias nos oceanos, mesmo do espaço, porque são de cor verde brilhante. Estima-se que as cianobactérias, que podem realizar a fotossíntese, capturem tanto carbono da atmosfera quanto todas as plantas da terra. Todo ser vivo na Terra precisa de carbono, e a maior parte vem da fotossíntese. Somos formas de vida baseadas em carbono. Assim, as cianobactérias ajudam a sustentar toda a vida nos oceanos.

Cada cianobactéria vive com cianófagos, que são vírus existentes nas cianobactérias. Os vírus cianófagos fazem duas coisas importantes para ajudar o ciclo do carbono na Terra. Eles abrem as cianobactérias que liberam carbono no oceano para sumidouros de carbono: formas de armazenamento de carbono que ajudam a reduzir o carbono na atmosfera e a integrar os seres vivos. E as cianobactérias podem morrer de queimaduras solares. Assim, descobrimos que os vírus cianófagos podem injetar genes em cianobactérias, restaurando os genes de suas proteínas queimadas pelo sol.[4]

Podemos realmente dizer então que a maioria dos vírus está sustentando a vida na Terra. Servimos um Criador incrível que estabeleceu uma biomatriz microbiana baseada em suporte à vida que suporta a vida na Terra.[5] Portanto, não deve surpreender que nosso Criador use a menor, mas mais abundante criatura do planeta, o vírus do bacteriófago, para sustentar a vida.

A evolução de vírus e bactérias contraria o criacionismo?

Segue um trecho tirado de outro artigo deste site: bactérias que adquirem resistência a antibióticos são praticamente o único exemplo que os evolucionistas podem usar como evidência de “evolução” (na verdade, trata-se de “microevolução”, já que, depois de tanto tempo, inúmeras gerações e muitas mutações, as bactérias continuam sendo bactérias). Os mais otimistas (e irrealistas) achavam que o século 21 assistiria à erradicação de todas as doenças, mas a realidade se mostra bem mais sombria. Vivemos à sombra de uma mortandade causada por doenças cada vez mais difíceis de ser tratadas. Esse tipo de situação (aliada às crescentes catástrofes naturais) nos mostra duas coisas: (1) não há segurança para nós neste mundo no qual estamos de passagem, e (2) as profecias, a despeito do que gostariam os otimistas secularizados, não nos apresentam um futuro promissor antes de chegarmos à vida de paz e segurança prometida por Deus. Há dois mil anos, Jesus previu que a proliferação de doenças seria, também, um dos sinais indicativos da proximidade de Sua segunda vinda à Terra (Lucas 21:11).[6]

Acredito que o vírus foi criado para fins benéficos na Terra, e os cientistas da criação podem ajudar a resolver o quebra-cabeça dos vírus causadores de doenças, procurando seu bom propósito original. Isso nos ajudará a saber mais sobre como esse vírus opera na natureza. Que possamos orar para que o Senhor ajude todos os pesquisadores a encontrar uma cura para o Covid-19, e que possamos alcançar nossos vizinhos com a esperança de Cristo!

Alexandre Kretzschmar

Referências:
[1] Vincent Racaniello, “Genes de fermentação em um vírus gigante de algas”, Blog de Virologia, 12 de abril de 2018, http://www.virology.ws/2018/04/12/fermentation-genes-in-a-giant-algal-virus/
[2] Benjamin Wolfe, “Os bons vírus podem manter as bactérias ruins fora dos alimentos fermentados?” MicrobialFoods.org, 27 de junho de 2015, http://microbialfoods.org/can-good-viruses-help-make-safer-fermented-foods/
[3] Joe Francis, “Bons projetos foram ruins” Respostas 4, n 3 (2009), https://answersingenesis.org/evidence-for-creation/design-in-nature/good-designs-gone-bad/
[4] Debbie Lindell et al., "Transferência de genes da fotossíntese para e de vírus de Prochlorococcus", PNAS 101, no. 30 (2004): 11013-11018; https://doi.org/10.1073/pnas.0401526101
[5] Joe Francis, “The Matrix - Life's Support System”, Respostas 3, n 3 (2008), https://answersingenesis.org/biology/microbiology/the-matrix/

segunda-feira, março 23, 2020

Como falar com autoridade sobre Criacionismo


Muitas pessoas acreditam firmemente que Deus não existe e, assim, que o Criacionismo é uma ilusão. Teriam elas razão? Não considero o ceticismo um atributo totalmente negativo. Tomé, um dos doze discípulos, era ligeiramente cético e Jesus não o repreendeu por isso. Ele buscava experimentar por si mesmo aquilo que os outros falavam. Porém, é necessário que o cético saiba o que é o verdadeiro ceticismo: questionar tudo e buscar evidências que sejam sólidas para sua cosmovisão.

A melhor forma de apresentar o Criacionismo ao cético é convidando-o a sê-lo de verdade. Há inúmeras evidências para apresentar: descobertas da biologia molecular que apontam para o design inteligente da vida; eventos históricos narrados nas Escrituras que a cada dia vêm sendo confirmados pela arqueologia bíblica; etc. Então, apenas mostre os fatos e deixe que o cético tire suas próprias conclusões.


sexta-feira, março 20, 2020

Coronavírus não é arma biológica; é só mais uma profecia se cumprindo

Assim que começaram a aparecer os primeiros casos de contágio pelo vírus causador da Covid-19, mais conhecido como “coronavírus”, os adeptos de teorias de conspiração passaram a alardear nas redes sociais a ideia de que esse vírus teria sido resultado de pesquisas humanas que originaram uma arma biológica de destruição em massa. Ocorre que a análise de dados públicos da sequência do genoma desse vírus comprovou que o organismo não foi produzido por cientistas chineses, mas se trata de uma mutação natural. O artigo com essa conclusão foi publicado na prestigiada revista científica Nature Medicine. Kristian Andersen, um dos autores do estudo, disse: “Ao comparar os dados disponíveis da sequência do genoma para cepas conhecidas de outros coronavírus, pudemos determinar firmemente que o SARS-CoV-2 se originou a partir de processos naturais.”
Segundo os pesquisadores, se algum cientista terrorista estivesse tentando projetar um novo coronavírus como arma biológica, ele o teria construído a partir de um vírus já conhecido por causar doenças. Só que o novo coronavírus é bem diferente dos micro-organismos já conhecidos, assemelhando-se principalmente aos vírus encontrados em morcegos e pangolins, daí a suspeita de que a epidemia foi originada pelo hábito deplorável de alguns chineses se alimentarem da carne desses animais e de outros igualmente impróprios para o consumo humano.

terça-feira, março 17, 2020

Guia prático de prevenção contra o coronavírus

A preocupação cresce à medida que casos da doença são confirmados no país. A melhor atitude é estar informado sobre as formas mais eficazes de prevenção.
Recomendações básicas
– Não toque objetos desnecessários em locais públicos.
– Ao tossir e espirrar, cubra a boca com a parte de dentro do braço.
– Se estiver com sintomas de gripe, use máscaras e evite sair de casa.
– Enquanto estiver fora de casa, não toque o rosto com as mãos.
– Evite comer fora e sempre higienize as mãos antes das refeições.
– Saia somente se necessário, principalmente idosos e pessoas com problemas respiratórios, pelos próximos 60 dias.
– Evite locais com aglomeração de pessoas. A transmissão viral é em progressão geométrica (Ex.: 1 para 4, e assim por diante). Eventos e até mesmo festas familiares devem ser cancelados.
– Evite viajar dentro ou fora do país, especialmente de ônibus e avião.
– Transportes coletivos e terminais são locais de grande risco de transmissão viral; evite-os.

segunda-feira, março 09, 2020

Origins: museu criacionista é inaugurado em Galápagos

No dia 29 de fevereiro, foi inaugurado na ilha de Santa Cruz, arquipélago de Galápagos, Equador, o Origins - Museum of Nature. Localizado na Avenida Charles Darwin, o museu tem sete ambientes em que são apresentadas curiosidades sobre a água, a terra, o ar, o Universo, design inteligente, sustentabilidade e meio ambiente e os "oito remédios naturais". Além disso, há espaço para acomodar um pesquisador que queira desenvolver algum projeto científico no arquipélago conhecido principalmente devido à estada por lá do naturalista inglês Charles Darwin, em 1835. Mas a ideia não é promover um "ataque" ao evolucionismo e, sim, trabalhar fortemente o tema da preservação ambiental (que faz parte do conceito bíblico de mordomia cristã) e oferecer aos visitantes uma visão alternativa sobre a origem do Universo, da vida e do ser humano. Galápagos recebe milhares de turistas todos os anos, e a localização do museu, bem como a beleza do prédio e das instalações, tornam-no um novo e importante ponto turístico no local.

Assista abaixo à reportagem produzida pelos jornalistas Michelson Borges e Vanessa Arba e ao primeiro vídeo de uma série preparada pelo jornalista autor do livro Expedição Galápagos, da CPB. 



terça-feira, fevereiro 25, 2020

Katherine Johnson: a matemática da Nasa que levou a humanidade à Lua


Morreu Katherine Johnson, a matemática da agência espacial norte-americana que calculou a rota da Apollo que levou a humanidade até a Lua. Tinha 101 anos. A história de Katherine Johnson e das outras mulheres negras nos bastidores da missão lunar foi contada pela primeira vez no filme “Hidden Figures”, que chegou a ser indicado para o Oscar em 2017. Corria o ano de 1966 quando Katherine Johnson desenhou milimetricamente o percurso da missão Apollo até a Lua com o poder da mente e a ajuda de uma régua, um lápis, folhas de papel e calculadoras rudimentares. “Naquela época, os computadores vestiam saias”, chegou a dizer entre risos. Depois de ter construído os pilares matemáticos da missão Mercury de 1961, que fez de Alan B. Shepard Jr. o primeiro norte-americano a passear no espaço, Katherine Johnson foi uma das responsáveis pelo primeiro passo (talvez o mais popular de todos) que colocou os Estados Unidos na linha da frente da Guerra Fria pela primeira vez – a alunissagem.

Além dela, outras 29 mulheres afroamericanas compunham parte da equipe de matemática da Nasa na Divisão para Investigação de Voo – uma equipa que, em tempos de segregação racial nos Estados Unidos, era colocada à parte dos outros trabalhadores. A história desse grupo de mulheres e o contexto social em que viviam estão na base no filme de Theodore Melfi, em que Katherine Johnson é interpretada por Taraji P. Henson e tem um papel central no enredo.

Quando “Hidden Figures” foi indicado ao Oscar, Katherine Johnson era a única funcionária daquela equipe da Nasa que estava viva. Tinha 98 anos. A matemática foi convidada a assistir à cerimônia da Academia ao lado dos atores do filme e foi recebida no palco com a plateia a aplaudir em pé.

Pouco depois, a Nasa abriu um centro de investigação computacional batizado com o nome de Katherine Johnson. Dois anos antes, ela já tinha recebido a Medalha da Liberdade pelas mãos de Barack Obama. A Nasa lamentou a morte de Katherine Johnson. Num comunicado publicado na página da Agência, o administrador Jim Bridenstine considerou que a cientista “ajudou a nação a abrir as fronteiras do espaço”. E acrescentou: “Ela atingiu grandes feitos que abriram portas às mulheres e aos negros na aventura humana universal para explorar o espaço.”

Mas Katherine Johnson nunca quis colocar-se em cima desse pedestal. Nas entrevistas que se seguiram à publicação do filme que inspirou, a matemática norte-americana, natural de West Virginia, disse que era “tão boa quanto outra pessoa qualquer, mas não melhor”, embora ressalve que nunca teve qualquer “complexo de inferioridade”. Sobre todos os feitos que foram alcançados pela agência espacial norte-americana graças aos cálculos que fez, Katherine Johnson simplificava: “Estava só fazendo o meu trabalho.”

Um trabalho que exigiu muito da família da cientista. Filha de uma professora e de um agricultor, Katherine Johnson estudou no centro de um sistema educacional de segregação racial. Aos 10 anos ingressou na escola secundária e aos 14 anos estava graduada, após ter assistido a todas as disciplinas de matemática que a instituição tinha, desde álgebra, geometria, trigonometria, entre outras áreas. Katherine Johnson absorvia de tal modo essas matérias que William Claytor, o terceiro homem negro a obter um doutoramento nos Estados Unidos, criou aulas só para ela.

Cena do filme “Hidden Figures"

Impossibilitada de entrar no ramo da investigação, tornou-se professora e casou com um químico. Quando as ofertas acadêmicas universitárias começaram a ser abertas a negros, graças aos movimentos de defesa dos direitos civis que tinham despertado no país, Katherine Johnson entrou na Universidade de West Virginia para estudar matemática avançada. Desistiu no final do ano letivo ao descobrir que estava grávida. E passou a dedicar-se à família até a filha completar 12 anos.

Em 1952, no entanto, uma notícia despertou nela uma vontade de regressar aos livros: o Centro de Investigação Langley da Nasa – à época era chamada Naca – tinha aberto vagas para mulheres negras. Depois de ter feito isso para mulheres caucasianas com o objetivo de poupar os homens das tarefas mais repetitivas, começou a recrutar também mulheres negras por precisar de mais mão-de-obra.

Quando conseguiu o emprego, Katherine Johnson chamou atenção por ter quebrado as regras de segregação, segundo as quais mulheres negras só podiam utilizar os “computadores de cor”. Os banheiros para negras estavam identificadas como tal, mas muitos dos banheiros reservados para caucasianas não tinham qualquer sinalização que o indicasse. Por isso, Katherine Johnson usou um deles. E nunca deixou de fazer isso.

Ao fim de dois anos, Katherine Johnson foi então transferida para a Divisão de Investigação de Voos porque os engenheiros daquele escritório – todos homens brancos – já não se lembravam das regras de geometria. Foi nessa altura que a matemática começou a desenvolver os voos aeronáuticos, uma tarefa que a ajudou a superar a morte do primeiro marido, pai dos três filhos dela, vítima de câncer no cérebro. A matemática viria a casar novamente e a publicar dezenas de relatórios científicos relacionados com os cálculos secretos feitos naquela divisão. O segundo marido de Katherine Johnson morreu no ano passado.

Com a chegada da Guerra Fria e a impressionante capacidade da União Soviética em conquistar o espaço, Katherine Johnson participou no esforço norte-americano para fazer frente aos russos. Trabalhava 16 horas por dia, fazia comunicação de ciência para ensinar a importância da exploração espacial às crianças e participava em conferências de imprensa que ajudavam o governo a conquistar o apoio dos cidadãos no investimento na área aeroespacial.

Todas essas funções tinham ficado na sombra até serem contadas no filme “Hidden Figures”, mas esse é o legado de Katherine Johnson que fica agora na memória como uma das maiores contribuições para uma das épicas aventuras da humanidade. A morte da matemática norte-americana foi anunciada pela família.


Katherine Johnson trabalhando em 1962 na Nasa

sexta-feira, fevereiro 21, 2020

Os buldogues tupiniquins de Darwin (partes 1 e 2 de 3)


Parafraseando Marcelo Leite, me perdoe o leitor a imagem violenta do título, mas é por motivo nobilíssimo e tem apenas um sentido figurado – a lâmina afiada deste blogueiro se volta contra os argumentos exarados nos artigos de três buldogues tupiniquins de Darwin publicados na Folha de S. Paulo contra a indicação do Dr. Benedito Aguiar para a presidência da CAPES, e negando a cientificidade e robustez epistêmica da Teoria do Design Inteligente: 

Buldogue tupiniquim de Darwin 1: Diogo Meyer

Diogo Meyer começa seu artigo respondendo à pergunta do que tornaria uma explicação científica – ela deve ser testada contra observações do mundo natural, ser consistente com o conhecimento vigente e ter passado pelo crivo da comunidade científica, e destacou que nos seus congressos, livros e revistas, cientistas examinam, avaliam, endossam ou refutam explicações.

Convenhamos, a resposta de Meyer, segundo a Filosofia da Ciência, é muito demarcacionista, pragmaticamente seletiva e desatualizada, pois há proposições científicas que não podem ser testadas. Por exemplo, as de longo alcance histórico que lidam com a origem e evolução do universo (Big Bang) e da vida, ou a de multiversos, buracos negros que, apesar de não ser possível testá-las, têm sido aceitas quase unanimemente (consenso!) pela comunidade científica. Meyer, na biologia evolucionária a descendência com modificação, entre outras hipóteses, passaria por esse crivo epistemológico rigoroso? Não passa. É reprovada magna cum laude!

Meyer afirmou existir formas não científicas de explicar o mundo, sendo a religião uma delas, mas que a ciência e a religião oferecem explicações profundamente diferentes, porém legítimas, e que refletem aspectos distintos da nossa cultura. Mas, apesar de ter dourado a pílula da legitimidade da explicação religiosa, isso ficou somente nesse parágrafo tipo uma no cravo, outra na ferradura.

Meyer destacou existirem duas explicações para a diversidade (e complexidade) dos seres vivos na Terra: uma científica e a outra religiosa. Na explicação científica, a teoria da evolução explicaria que toda a vida na Terra resulta de um processo de descendência comum com modificação, e os seres vivos são conectados uns aos outros por elos de ancestralidade comum. E que a teoria da evolução sobreviveu aos testes contra observações e passou pelo controle de qualidade da comunidade científica. 

Nada mais falso! Eugene Koonin, do Centro Nacional de Informações sobre Biotecnologia, afirmou na Trends in Genetics que, devido a falhas nos princípios neodarwinistas centrais, como o “conceito tradicional da árvore da vida” ou a visão de que “a seleção natural é a principal força motriz da evolução” indicam que “a síntese moderna desmoronou, aparentemente, além do reparo”, e “todos os principais princípios da síntese moderna foram, se não totalmente revertidos, substituídos por uma visão nova e incomparavelmente mais complexa dos aspectos principais da evolução”. Koonin concluiu: “Para não medir as palavras, a síntese moderna já era” (E. V. Koonin, “The Origin at 150: Is a New Evolutionary Synthesis in Sight?” Trends in Genetics, 25:473-474 [2009]).

Não quero ser deselegante com Meyer, um cientista respeitado na USP, uma das universidades bem-conceituadas no mundo, mas a afirmação seria desonestidade acadêmica seletiva – ele sabe, mas não quer dar o braço a torcer – ou desconhecimento profundo de literatura científica com revisão paritária questionando algum aspecto sobre toda a vida na Terra ser resultado do processo de descendência comum com modificação. 


Buldogue tupiniquim de Darwin 2: Marcelo Leite

A la Leite, pois o título melhor para esta LONGA réplica seria: Navalhada na NOMA.

O subtítulo do artigo afirma que o design inteligente (DI) não é teoria, mesmo sabendo que não existe A teoria científica, mas VÁRIAS teorias científicas, pois diversas são as áreas científicas com suas características epistemológicas exclusivas, e que, a la Gould, ciência e religião são magistérios que não se sobrepõem, sem contudo considerar os problemas sabidos na aplicação do NOMA: navalha que corta dos dois lados! Mais um café requentado que já rebatemos ad nauseam!

A definição de teoria científica na mente de Leite deve ser esta: “Uma explicação bem fundamentada de algum aspecto do mundo natural que pode incorporar fatos, leis e hipóteses testadas” (National Academy of Sciences, “Science and Creationism: A view from the National Academy of Sciences”, p. 2 [2nd ed., National Academy Press, 1999]).

“Uma explicação abrangente de algum aspecto da natureza que é apoiada por um vasto corpo de evidências” (National Academy of Sciences, “Science, Evolution, and Creationism”, p. 11 [National Academy Press, 2008]).

Leite, jornalista renomado, especializado em ciência, deveria saber que quando os cientistas usam a palavra TEORIA, nem sempre significa uma ideia bem estabelecida, apoiada por uma ampla gama de evidências. Até mesmo nos seus escritos profissionais os cientistas às vezes a usam para se referir a uma conjectura ou hipótese ainda não confirmada pela evidência.

Por exemplo, Bruce G. Charlton, um pesquisador médico, escrevendo em uma revista científica, usou a palavra TEORIA para se referir a uma ideia que ainda pode ou não ser estabelecida na ciência

quinta-feira, fevereiro 20, 2020

Programa História da Vida: Darwin e seu tempo

O jornalista, teólogo e apresentador Michelson Borges e a professora Nádia Silveira abordam a temática "Darwin e seu tempo", num bate-papo que também compartilha dicas de uso prático da revista História da Vida em sala de aula, para alunos do Ensino Fundamental II da Rede Adventista de Educação. Conteúdo interessante para conhecer o contexto histórico em que viveu o naturalista inglês conhecido como pai da teoria da evolução.

segunda-feira, fevereiro 17, 2020

Evolucionistas são nazistas e creem que viemos do macaco?


Você sabia que Adolf Hitler era “fã” de Charles Darwin, e que usou a ideia de seleção natural para levar avante seus planos eugenistas? Quem afirma isso é a secretária pessoal do führer, Traudl Junge, no livro Até o Fim (Ediouro). A obra foi escrita com base nos diários de Traudl, cujo objetivo foi alertar as pessoas para o fato de que jamais pode ser subestimado o poder sedutor de líderes fanáticos. Na página 140, a autora registrou a filosofia de vida do ditador e o que ele pensava sobre religião: “[Hitler] não tinha qualquer ligação religiosa; achava que as religiões cristãs eram mecanismos hipócritas e ardilosos para apanhar incautos. Sua religião eram as leis da natureza. Conseguia subordinar seu violento dogma mais facilmente a elas do que aos ensinamentos cristãos de amor ao próximo e ao inimigo. ‘A ciência ainda não chegou a uma conclusão sobre a raiz que determina a espécie humana. Somos provavelmente o estágio mais desenvolvido de algum mamífero, que se desenvolveu do réptil a mamífero, talvez do macaco ao homem. Somos um membro da criação e filhos da natureza, e para nós valem as mesmas leis que para todos os seres vivos. Na natureza a lei da guerra vale desde o começo. Todo aquele que não consegue viver, e que é fraco, é exterminado. Só o ser humano e, principalmente, a igreja têm por objetivo manter vivos artificialmente o fraco, o que não tem condições de viver e aquele que não tem valor.”

Assim, fica claro que o conceito de luta e de sobrevivência do mais apto moldou o pensamento do genocida, servindo de justificativa “moral” para suas decisões e ações. Hitler se julgava apto a decidir quem tinha valor e quem não tinha. Ele quis dar uma “mãozinha” para a seleção natural eliminando logo aqueles que ele considerava inferiores, como os judeus, os negros e os homossexuais.

Segundo o ditador, “somos provavelmente o estágio mais desenvolvido de algum mamífero, que se desenvolveu do réptil a mamífero, talvez do macaco ao homem”. Portanto, podemos concluir que, assim como Hitler, os evolucionistas creem que o homem veio do macaco e, pior: creem que o nazismo está correto, que a religião não presta e que devemos exterminar os fracos.

Antes que você proteste veementemente (e com razão), deixe-me dizer-lhe que obviamente eu não concordo com a conclusão acima. Obviamente entendo que não se pode julgar o todo pela parte, e que não se podem tirar conclusões gerais com base no que um ou outro pense a respeito do assunto – mesmo que esse um ou outro seja uma figura histórica famosa.

Não, evolucionistas não são nazistas, e afirmar isso com base no que um evolucionista pensa seria leviandade e mesmo maldade da minha parte. Nem todos os evolucionistas abominam a religião, e evolucionistas bem informados jamais diriam que o homem veio do macaco. O que eles dizem é que seres humanos e macacos tiveram um ancestral comum (desconhecido, é verdade).

Então por que resolvi escrever este texto? Porque tem gente fazendo com os criacionistas exatamente o que eu poderia ter feito com os evolucionistas, se eu fosse um canalha (para dizer o pior) ou simplesmente mal informado (para dizer o mínimo).

Recentemente, o criacionismo vem ocupando espaço nos noticiários e tendo suas premissas totalmente distorcidas. Há repórteres levianamente associando o criacionismo com a ideia absurda da Terra plana e a defesa assassina da não vacinação. Existem criacionistas mal informados que defendem essas bandeiras? Sim, existem; assim como há evolucionistas que fazem o mesmo (aliás, o fundador da Flat Earth Society é evolucionista). Mas vamos julgar todos os criacionistas por causa daqueles? Se o fizéssemos, estaríamos cometendo o mesmo erro de chamar os evolucionistas de nazistas.

A Sociedade Criacionista Brasileira (SCB) já se manifestou a respeito do terraplanismo por meio de uma nota de repúdio (veja aqui). Por que repórteres e formadores de opinião não mencionam isso? Desconhecem o fato? Preferem convenientemente ignorá-lo? A SCB está há quase 50 anos atuando no Brasil. Tem site e CNPJ. É fácil chegar até ela. Em meus blogs e em minhas redes sociais tenho denunciado a irresponsabilidade dos antivacinas. Não conheço uma entidade criacionista ou divulgador sério do criacionismo que defenda essa insanidade criminosa. Então por que a associação? Para denegrir os criacionistas e blindar Darwin? Para embarcar na onda e lacrar?

Uma das charges mais infelizes sobre esse assunto foi publicada no jornal gaúcho Zero Hora:



De um lado da ilustração há a tal associação de conceitos superficial e tendenciosa por meio de personagens caricatos; do outro está um senhor de jaleco branco (representante da ciência) acompanhado de uma moça e da frase “a burrice é ousada”. Sim, é mesmo ousada, e às vezes injusta.

Evolucionistas não são nazistas, tanto quanto criacionistas não são terraplanistas nem fixistas inimigos do bom conhecimento. Os pioneiros da ciência, como Isaac Newton, Galileu Galilei, Blaise Pascal e outros, criam na literalidade de Gênesis, mas nem por isso deixaram de legar à humanidade um patrimônio científico gigantesco. 

O assunto é mais sério e profundo do que a maioria pensa, e vem sendo tratado de maneira superficial, enviesada e politizada por pessoas que não têm compromisso com a verdade. Por causa disso, estamos assistindo à criação de novos campos de concentração ideológicos para os ditos fundamentalistas retrógrados, e a uma nova matança  de carreiras e reputações.

Michelson Borges 

quinta-feira, fevereiro 13, 2020

Tecidos moles: um fenômeno bem comum no registro fóssil


Nota de utilidade pública a todo criacionista que quer estar bem informado

Quem nunca ouviu falar de “tecidos moles”, ou, como os evolucionistas preferem chamá-los, “tecidos não resistentes”? Pois bem, há algum tempo tenho ouvido falar que criacionismo é pura religião e dele não é possível produzir ciência confiável. Gente, essa informação procede? Bem, talvez sim, na mente de quem já possua a priori a cosmovisão evolucionista. Porém, a essas pessoas é possível dizer: deixe a ingenuidade de lado e vá se atualizar!

Falando de atualizações, aqui vão algumas referências úteis para todo criacionista (eu disse todo aquele criacionista racional que entende que a boa ciência provém do Criador, pois Ele é o Autor da Ciência; logo, é dever de todo cristão se utilizar dos métodos da ciência para estudar o “livro da natureza”, o qual se configura como todas as obras que saíram das mãos de Deus (Romanos 1:20).

Mas voltemos à questão: criacionistas fazem boa ciência? Sim! Mas até mesmo dentro da Paleontologia? É claro que sim! Vide o caso do Geoscience Research Institute (GRI), do Creation Ministries International (CMI), do Creation Research Society, do Answers in Genesis (AiG) e do Institute for Creation Research (ICR). Este último instituto, a propósito, tem financiado boas pesquisas na área do criacionismo científico por parte de seus pesquisadores associados. É o caso de Brian Thomas, recém-doutor em Paleobioquímica pela University of Liverpool. Brian há muitos anos é um divulgador científico muito produtivo no ICR (a propósito, alguns já me compararam a ele, o que seria uma honra, se não fosse mera gentileza).

Ele se especializou no mundo da Paleontologia, mais especificamente nos achados de tecidos moles. Há algum tempo, neste blog, eu divulguei outro achado dele relacionado à presença de carbono 14 em fósseis de dinos (aqui, aqui e aqui). Porém, hoje o assunto é um pouco diferente. Recentemente, ele publicou um artigo na revista Expert Review of Proteomics no qual ele e o coautor Stephen Taylor fazem um levantamento titânico a respeito de todos os artigos científicos já publicados – 88 referências até a data de submissão de seu manuscrito à revista – relativos aos achados de tecidos moles em diversos grupos de seres pretéritos.

Quem nunca ouviu falar que achados de tecidos moles são raros? Bem, ao que tudo indica esse fenômeno parece ser bem comum, correto? Mas, se não bastasse, esse número já está bem maior, chegando a cerca de 110 estudos publicados até o momento, os quais você pode conferir no projeto List of Biomaterial Fossil Papers. O curioso é que a literatura científica atesta que biomoléculas (tecidos moles) poderiam durar na natureza, nas melhores condições, no máximo algumas centenas de milhares de anos, não 65 milhões de anos, como é o caso da alegação para o tempo em que os dinossauros teriam vivido. Portanto, essa é uma grande implicação bíblica, como o próprio autor explica (aqui).

Mas, como eu não me contento com pouco, aqui vai mais uma referência bombástica para você! Dr. Brian Thomas, em pesquisa para sua tese de doutorado intitulada Collagen Remnants in Ancient Bone, encontrou, novamente, a presença de carbono-14 em fósseis de dinossauro. O que isso significa? Como não é o tema específico desta matéria, vou deixar o link (aqui) de uma matéria na qual ele próprio explica as implicações do achado, a fim de deixar você de queixo caído. Boa leitura nessa jornada de descobertas da Paleobioquímica, que corroboram ainda mais o criacionismo científico e o design inteligente!

(Everton Alves é divulgador científico especializado em Paleontologia)

O que há de ciência e de preconceito de classe por trás do criacionismo


Hoje em dia predomina a ideia de que ciência e religião não têm nada a ver uma com a outra. E, entre os mais esclarecidos, não é difícil encontrar quem tome o ateísmo como sinal de superioridade intelectual. Com o ativismo do cientista Richard Dawkins, somos levados a tomar a crença em Deus por mera demência ou puro delírio, decerto um demérito. Essa mentalidade que separa teístas atrasados de ateus científicos é recente e só prosperou no século 19. Seu primeiro expoente foi Auguste Comte, para quem a crença em Deus era uma fase da Humanidade a ser superada pela ciência. Tendo o amor como base, a ordem como meio e o progresso como fim, a Humanidade deixaria a crença em Deus para trás e adotaria a religião laica que cultua a Humanidade.

No mesmo século apareceu Marx, que também enxergava um futuro tecnológico e ateu para o homem. Para ele, a religião é ópio e a chave da história é a posse dos meios de produção, que são inventados e aprimorados por técnicos.

Essa visão, porém, encontra tão pouco amparo na realidade humana e na história da ciência que merece ela própria ser chamada de delírio ideológico. Um ateu científico que desdenhe da visão religiosa do mundo rechaçará, com razão, o criacionismo. Mas que explicação para a origem do Universo colocará em seu lugar? O Big Bang, a teoria criada pelo padre Georges Lemaitre, que deu uma contribuição à ciência maior do que a de qualquer ateu militante. Ser ateu não implica ter uma mente científica. Ser um religioso não implica ter uma mente anticientífica. [...]

E a ciência é compreendida como uma escolástica ateia monopolizada por um grupo social de prestígio, localizado sobretudo na universidade pública. E, como os evangélicos são pobres ou nouveaux riches, a Ciência é monopólio de um grupo que necessariamente os exclui.

Perante um professor das universidades públicas, o brasileiro “esclarecido” terá deferência, pois nele vê o representante da ciência. Mas, se o professor universitário defender o criacionismo, serão irrelevantes todas as suas credenciais acadêmicas e até as da instituição. Isso revelará que ele é um crente, logo, uma pessoa sem nível, logo, um falso cientista.

O brasileiro, porém, não admitirá nunca o preconceito de classe. E, em vez de xingar os crentes de pobres e cafonas, preferirá xingá-los de obscurantistas e ignorantes, enquanto os pinta como homens brancos cis hétero para mascarar o classismo. No final das contas, o brasileiro “esclarecido” ouve bovinamente os cientistas dizerem que pesticida agrícola é machista, que ser homem ou mulher não tem nada a ver com biologia, que tribunais raciais são eficazes e morais, que o comunismo ainda não foi testado o suficiente, que a pobreza só existe por causa da maldade dos ricos e uma centena de outras bobagens – porque são bobagens autenticadas por pessoas de condição social prestigiosa.

Mas o criacionismo não, porque é coisa de pobre.

Para mostrar como é descabido o preconceito brasileiro, nada melhor do que apontar Isaac Newton, um evangélico fervoroso que pretendia enaltecer a obra do Criador com seus estudos. E que foi, inclusive, uma espécie de patrono intelectual do criacionismo.

Numa época em que teologia, filosofia (ou metafísica) e física (ou filosofia natural) eram todas vistas como conexas, a criação de uma nova física implicava um desacordo com teologias e metafísicas estabelecidas. A universidade católica e o mundo ibérico (Brasil incluso) se mantiveram os mais fechados possíveis na escolástica. Na França, porém, o cartesianismo conquistou físicos, matemáticos e teólogos. Assim, o surgimento da física newtoniana causou uma guerra de papel entre a Inglaterra e a França (à qual se aliou um bravo alemão, Leibniz, recrutado para as suas hostes).

Se os cartesianos derivavam o mundo de Deus a partir da lógica, Newton reivindicava a façanha oposta: a partir da experiência, derivar do mundo o seu Criador. Newton apresentava as maravilhas da ótica por ele descobertas e perguntava: “Terá sido o olho engendrado sem perícia em ótica? E o ouvido, sem o conhecimento dos sons?” Dando por certo que não, Newton concluía ser “manifesto que um Ser incorpóreo, vivente, inteligente, onipresente, que, no espaço infinito [...] vê intimamente as coisas em si mesmas”.

Morto Newton, os teólogos ingleses insistiram na ideia de uma “teologia experimental” que usava as maravilhas da natureza para provar a existência de um grande Artífice. Nomes-chave para esse movimento são as Boyle Lectures e o Bispo Joseph Butler.

Vem daí o criacionismo cristão que é bradado por pastores das nossas periferias: do newtonianismo. O criacionismo hoje anda pelas favelas brasileiras, mas o seu berço é a Royal Society. E, se recuarmos mais no tempo, encontramos outra origem ainda mais nobre: a Grécia antiga.

A Renascença trouxe aos europeus uma torrente de filosofias antigas, das quais duas foram extremamente populares na Antiguidade tardia: o estoicismo, de Zenão de Cítio, e o epicurismo, de Epicuro. Os estoicos enxergavam uma natureza perfeitamente ordenada e tomavam a própria perfeição da ordem natural como prova do seu engendro racional por uma divindade muito sábia. Os epicuristas eram seus opositores.

Para eles, o mundo é caótico, os deuses são parte da natureza e vivem em eterno estado de gozo, indiferentes à Humanidade. No mundo, só há átomos em movimento e vazio, e tudo o que existe é fruto do movimento dos átomos. As formas mais resistentes que surgem duram mais, enquanto as outras perecem logo.

Era uma filosofia pré-darwinista e praticamente ateia, mas nada impediu que cristãos – até Newton – pensassem em átomos e acreditassem neles. Do mesmo jeito que ateus militantes acreditam na física newtoniana e no Big Bang.

Talvez Newton não tivesse sido capaz de pensar a sua física sem imaginar o mundo como um relógio criado por um Relojoeiro. Talvez Dawkins não tivesse sido capaz de pensar no seu gene egoísta sem uma cosmovisão ateia. Ao cabo, a ciência é um tesouro da humanidade em que cooperam evangélicos fervorosos, ateus militantes, católicos e gente das mais variadas cosmovisões. Que aprendamos, então, a não substituir o exame de ideias por um mal disfarçado preconceito de classe.

O criacionismo é muito mais bem-nascido do que as muitas teorias que são moda na universidade – e ainda assim é falso. Será que somos tão bem embasados na aceitação de teorias chiques quanto na recusa da teoria dos crentes?

(Bruna Frascolla é ensaísta e doutora em Filosofia; Gazeta do Povo)