segunda-feira, janeiro 27, 2020

Imprensa e academia mais uma vez manifestam preconceito contra o criacionismo e a TDI

Aconteceu de novo, na mídia e na academia. Ano passado, a revista Época, da Globo, levantou suspeitas sobre o advogado Maurício Braga quando de seu convite para chefiar a pasta da secretaria de Direitos Autorais do Governo Federal. Conheço o Maurício pessoalmente. Antes de se mudar para Brasília, foi membro da mesma igreja que eu frequento em Tatuí, SP. Profissional experiente com 30 anos de carreira, honesto e qualificado, foi “condenado” pelo simples fato de ser adventista e guardar o sábado (saiba mais aqui e aqui).

Em 2013, por pressão de grupos anticriacionistas, a reitoria da Unicamp cancelou o que teria sido o primeiro Fórum Unicamp de Filosofia e Ciências das Origens (saiba mais aqui). Sete anos depois, a mesma coisa acontece na mesma universidade: um evento sobre design inteligente foi cancelado, tendo como um dos palestrantes, novamente, o químico Marcos Eberlin.

Em nota publicada em suas redes sociais, o Núcleo Curitibano da Sociedade Criacionista Brasileira (NC-SCB) repudiou a atitude de censura promovida pela Unicamp ao evento de lançamento da 2a Liga Acadêmica da TDI-Brasil. “As universidades, sobretudo as públicas, constituem ambiente de debate científico onde ideologias não devem ser utilizadas como motivo para impedir as discussões acadêmicas. A atitude fere, ainda, o direito constitucional de livre expressão, sendo o evento proposto completamente adequado ao ambiente universitário. A Teoria do Design Inteligente (TDI) é livre de induções filosóficas em seus postulados, os quais são unicamente sustentados e também falseáveis através da aplicação das leis científicas conhecidas aos dados encontrados na natureza”, diz a nota.

O texto informa ainda que o Dr. Eberlin é comendador da Ordem Nacional do Mérito Científico, autor de milhares de artigos científicos publicados e de dezenas de milhares de citações, detentor da medalha Thomson da Sociedade Internacional de Espectrometria de Massas (IMSF) e ex-presidente da IMSF, tendo atuado como vice-diretor do Instituto de Química e professor titular MS-6 da Unicamp, onde fundou e coordenou o Laboratório Thomson de Espectrometria de Massas durante 25 anos.

Mesmo com esse currículo e com toda essa contribuição prestada à universidade, Eberlin foi desrespeitado, assim como foi o advogado Maurício Braga. Mas as manifestações de preconceito e parcialidade não param aí. O que aconteceu com Braga se repetiu com Benedito Guimarães Aguiar Neto [foto acima]. Anunciado como o novo presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Benedito foi reitor da prestigiada Universidade Mackenzie, é graduado e mestre em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), doutor na área pela Technische Universität Berlin, na Alemanha, e pós-doutorado pela University of Washington, nos Estados Unidos (veja a nota no site da Capes).

Em sua página no Facebook, Marcos Eberlin, hoje funcionário da Mackenzie e diretor do Discovery Mackenzie, se manifestou assim: “Homem que honra a calça que veste, ele é um ilustre defensor do ponto x contraponto na Academia. No Mackenzie, instalou com bravura o debate sobre nossas origens criando o Discovery Mackenzie. Lá temos hoje defensores do design inteligente, da evolução e até daquele casamento ‘espúrio’ do evolucionismo teísta. Isso é academia, é universidade! Laica! Mas Benedito inseriu ‘goela abaixo’ o DI na grade? Instalou o DI como politica acadêmica? Todo mundo agora só ensina DI lá? Claro que não! [...] Tranquilizei [o repórter da Globo] sobre se Benedito iria adotar o design inteligente como ‘política de Estado’. Eu disse: ‘Claro que não, ele é um homem sensato, honesto e sábio. Não quererá com certeza impor sua opinião. Mesmo porque nem é atributo da Capes fazer tal discussão, ou diretriz. E até a TDI é contra qualquer imposição, como o ensino de DI nas escolas. Somos todos contra seu ensino enquanto a Academia e os acadêmicos não aceitarem a TDI como digna de se contrapor à evolução. Aí, sim, será justo e correto ensiná-la nas escolas. Mas o que o repórter escreveu? Leia abaixo e veja se devo chamar o homem de repórter ou surdo, disléxico, deturpador, ou somente ‘tendencioso’? Você decide:

“‘O Benedito tem o direito de manifestar a sua opinião, mas o criacionismo não deve ser considerado uma política de Estado. Sabemos que a academia é darwinista e quase totalmente contrária a essa teoria. No dia em que ela for reconhecida como digna, aí sim, podemos debatê-la.

Isso tudo me fez lembrar também da ocasião em que a revista semanal Veja publicou uma reportagem altamente elogiosa sobre a educação adventista. A certa altura do texto, porém, adicionaram um “mas”: são escolas com bons índices acadêmicos, ótimas instalações, bons profissionais, mas... são criacionistas.

Essa academia e essa mídia preconceituosas talvez escrevessem de Newton, Galileu, Copérnico e outros o seguinte: “Sim, eles são os pioneiros da ciência e fizeram avançar tremendamente o conhecimento, mas... criam em Deus e na Bíblia.”

O correto não é “mas”, mas exatamente “por causa de”.

Pode não parecer, mas já houve tempo em que filósofos e cientistas, ateus e/ou evolucionistas eram mais honestos na defesa das suas visões de mundo. A citação a seguir, traduzida por Eliezer Militão e retirada do livro Darwin’s Century, do antropólogo, educador, filósofo e escritor sobre ciências naturais Loren Eiseley (1907-1977), é um exemplo disso. Conforme Eiseley, essas mesmas ideias também foram expressas por Alfred North Whitehead (1861-1847), matemático e filósofo inglês, membro da Real Sociedade Britânica e da Academia Britânica, e autor do livro Science and the Modern World:

“Embora possamos reconhecer as fragilidades do dogma cristão e deplorar a inquestionável perseguição do pensamento, que é um dos aspectos menos apetitosos da história medieval, também devemos observar que em uma das estranhas permutas em que a história ocasionalmente dá raros exemplos, está o mundo cristão que, afinal, deu à luz, de uma forma clara e articulada, o próprio método da ciência experimental. 

“[A] filosofia da ciência experimental [...] começou suas descobertas e fez uso de seus métodos por meio da fé, não no conhecimento, de que estava lidando com um universo racional controlado por um Criador que não agia por capricho nem interferia nas forças que Ele havia posto em operação. O método experimental foi bem-sucedido além dos sonhos mais loucos dos homens, mas a fé que o criou deve algo à concepção cristã da natureza de Deus. É certamente um dos curiosos paradoxos da história que a ciência, que profissionalmente tem pouco a ver com fé, deve suas origens a um ato de fé em que o Universo possa ser racionalmente interpretado, e que a ciência hoje é sustentada por essa suposição” (1959, p. 62; PDF aqui). 

Muitos historiadores e filósofos da ciência na última década discordariam de Eiseley por terem percebido que a quase totalidade das narrativas que descrevem a perseguição ao pensamento na era medieval trata-se de ficção ou deturpação proposital para denegrir quaisquer elementos relacionados à igreja. Uma bem tramada e executada campanha de propaganda anti-religião. A despeito disso, Eiseley tem toda razão quando fala que o método científico tem essa dívida para com o pensamento judaico-cristão (leia mais sobre isso aqui). 

Ao passo que existem lendas e mitos sobre a perseguição religiosa aos cientistas, infelizmente o contrário é fato: muitos cientistas e acadêmicos têm perseguido a religião. Assim, estão cuspindo no prato em que comem há séculos e do qual dependem para viver. 

Michelson Borges

sexta-feira, janeiro 24, 2020

Comem de tudo e ainda não aprenderam a lição

Em 2004, o jornalista Dagomir Marquezi escreveu uma matéria para a revista Superinteressante sobre o vírus SARS, da mesma “família” que está, novamente, causando mortes na China atualmente. Até o momento, o vírus matou dezenas de pessoas e infectou quase 300, e já chegou à Tailândia, ao Japão e à Coreia do Sul. Casos também foram noticiados nos Estados Unidos e mesmo no Brasil. Desde 2004 já se comprovava que o consumo indiscriminado de carnes na China causava o surgimento desses supervírus (a suspeita agora paira sobre a sopa de morcego tão apreciada na cidade onde o coronavírus começou a se espalhar). Dezesseis anos depois, pessoas continuam morrendo pelos mesmos motivos. Em 2008, comentei o artigo de Marquezi aqui no blog www.criacionismo.com.br (confira).

[Continue lendo.]

quinta-feira, janeiro 23, 2020

Aprendizagem ou puro instinto?

Como ocorre a aprendizagem nos animais? Tudo o que eles fazem é consequência unicamente da sua carga genética? Suas atividades são realizadas somente pelo instinto ou eles são capazes de aprender? Há uma espécie de ave com características interessantes: pinyon jay (Gymnorhinus cyanopephalus); ela pertence à família corvidae e costuma comer sementes do pinheiro pinyon pine em grande quantidade. Mas elas não apenas consomem, também plantam suas sementes como jardineiros!

Os pinyon jay são também conhecidos como gaios, e podem formar organizações sociais com bandos superiores a 500 indivíduos. Eles vasculham a paisagem buscando alimento, em especial sementes de pinheiro. Ao encontrá-las, carregam mais de 50 de uma só vez – não com o bico, mas por meio de uma estrutura expansível do seu corpo: o esôfago.[2] As sementes que não são consumidas por eles são escondidas no solo para estoque em locais especiais.

Estudos estimam que, de setembro a janeiro, 250 gaios enterram cerca de 4,5 bilhões de sementes.[1] Aquelas que não forem reencontradas por eles, meses depois poderão originar novas plantas. O interessante é que essas sementes não costumam ser enterradas por eles em locais aleatórios, mas em áreas abertas, próximas a pilhas de arbustos e também árvores caídas – com condições apropriadas para o desenvolvimento de novas plantas (onde há disponibilidade de nutrientes, proteção contra ventos fortes, sol, etc.).

Como essas aves conseguem encontrar as sementes vários meses após escondê-las? Tal ação envolveria algum processo de aprendizagem?

Os gaios as armazenam em períodos de abundância – fim do verão e outono. Eles consomem plantas, nozes, frutas pequenas e sementes de pinheiro, mas, no fim do inverno, esses alimentos estão indisponíveis; assim, eles recuperam as sementes que foram armazenadas, encontrando-as com grande precisão. Na época de inverno, a dieta deles se reduz quase unicamente (95%) às sementes de pinyon pine.

Os gaios possuem uma memória espacial ótima, utilizam pontos de referência para localizar as sementes escondidas, recuperando não apenas o alimento, mas também uns dos outros (pela observação).

A aprendizagem pode ser classificada como “modificação adaptativa do comportamento com base na experiência” (p. 97).[3] Nos animais, a aprendizagem não gera alterações de comportamento pelo simples desejo de mudar; ela ocorre em casos de imprevisibilidade ambiental relevantes à espécie.

“A capacidade de aprender depende da organização do sistema nervoso estabelecida durante o desenvolvimento, seguindo instruções codificadas no genoma” (p. 1.138).[4]

Até mesmo nos insetos podemos identificar organismos com grande capacidade de aprendizagem. Isso acontece com as abelhas melíferas na busca por alimentos. Elas localizam quais “odores, formas e cores estão associados às diferentes flores produtoras de pólen ou néctar; em que momento particular do dia uma espécie de planta estará com as flores abertas; como retornar à colmeia após uma expedição de forrageio”, etc. (p. 98).[3]

De acordo com o autor, a seleção natural favoreceu o cérebro das abelhas melíferas, possibilitando que elas sejam capazes de incorporar informações importantes de variáveis ambientais, modificando atividades genéticas nas células cerebrais e alterando comportamentos do indivíduo, facilitando a exploração dos recursos das regiões vizinhas durante o forrageamento.

Na família dos corvos (Corvidae) esses comportamentos de aprendizagem espacial em resposta às pressões ecológicas específicas também ocorre. Neles, a aprendizagem espacial acima referida envolve a formulação de mapas cognitivos – “uma representação no sistema nervoso do animal da relação espacial entre os objetos ao seu redor” (p. 1.139).[4]

A adaptação de um organismo ao ambiente pode ser melhorada a partir da sua capacidade de aprendizagem, pelo estabelecimento de uma memória espacial do ambiente no qual vive.[4]

Dentre os Corvidae, quatro espécies possuem a predisposição para estocar alimentos, o que só é possível graças à ótima capacidade espacial deles. A aprendizagem acontece para que eles consigam solucionar problemas especiais em seu ambiente.
A época de escassez inicia-se cinco meses após o período de estocagem. Os machos apresentam probabilidades maiores do que as fêmeas de reencontrar as sementes escondidas. Isso acontece devido à responsabilidade deles em prover alimento para elas e seus filhotes. Assim, machos possuem memória melhor a longo prazo.
A ação de longos períodos de tempo, unindo-se à seleção natural com mutações genéticas seria a receita-chave para a geração de organismos com esse nível de complexidade?

(Moema Rubia Patriota é bióloga pela Universidade Estadual de Londrina, com especialização em Gestão, Licenciamento e Auditoria Ambiental pela UNOPAR, e MBA em Gestão Ambiental pela UFPR. É a idealizadora do Projeto: @polegarverdeambiental no Instagram)

Referências:
1. Providential planting, JOHNSON James J. Scofield.
2. The Coronell lab: 
allaboutbirds.org/guide/pinyon_jay/overview
3. ALCOCK, John. Comportamento animal: uma abordagem evolutiva (9 ed.).
4. REECE, URRY, et al. Biologia de Campbell.

Cristão vs. acadêmico: é possível ser os dois?

Conciliar fé e razão tem sido, há décadas, um aparente dilema para grande parte dos cristãos que decide enfrentar e se engajar no ambiente acadêmico. (1) Quais são as lutas que eles encontram nesse meio? (2) É possível manter-se fiel às suas crenças, quando muitos ao redor as estão as questionando e mesmo tentando desconstruí-las? (3) A ciência nos afasta da fé em Deus? (4) Existem cristãos verdadeiros que venceram no meio acadêmico? Qual o segredo deles?

Neste vídeo, Rafael Christ Lopes, doutor em cosmologia pela USP e professor do Instituto Federal do Maranhão (IFMA), fala sobre sua trajetória em uma das áreas tradicionalmente mais céticas do conhecimento.

Ele dá seu testemunho de fidelidade diante da adversidade e conta como, ao contrário do que muitos esperavam, descobriu evidências sólidas a respeito de Deus na natureza e teve sua fé fortalecida, ao invés de desacreditada.



(Se você gostar, não se esqueça de dar like e compartilhar o conteúdo. Isso ajudará a divulgar o vídeo e alcançar mais pessoas que precisam desse testemunho.)

quarta-feira, dezembro 18, 2019

Físico vê indícios de planejamento inteligente no Universo


O Big Bang, a expansão do Universo, e temas que se propõem explicar em detalhes o cosmo costumam ser muito abstratos para muitos. É difícil para a maioria das pessoas entender como toda esta imensidão de estrutura passou a existir e como se desenvolveu. Cientistas se debruçam sobre esses temas há séculos e procuram entender, com ajuda de tecnologia de ponta, o que nos cerca em uma realidade com milhares de astros e infinitas complexidades. Um dos que se ocupa disso é o físico adventista Rafael Lopes. Ele é formado em Física pela Universidade Federal do Maranhão (2005), com mestrado em Física (2008) e ênfase em Teoria Quântica de Campos, pela mesma universidade. Em 2009, passou a atuar como professor efetivo de Física do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão. No ano de 2018, concluiu o doutorado em Física com ênfase em cosmologia na Universidade de São Paulo (USP). Ele conversou sobre o Universo e seus desdobramentos com a equipe da Agência Adventista Sul-Americana de Notícias (ASN).

quarta-feira, dezembro 04, 2019

Recombinação gênica: planejados para a diversidade


Recentemente, fui questionada sobre o mecanismo do crossing-over, em especial o motivo pelo qual esse evento biológico tem sido amplamente divulgado como uma “prova” de evolucionismo, haja vista seu importante papel na promoção de variações no código genético dos seres vivos. Nesse ponto, ao abordarmos “variabilidade genética”, é preciso lembrar que muitos “ataques” direcionados aos criacionistas ocorrem em virtude de nossa cosmovisão ter sido respaldada no passado (antes do advento da genética e dos conhecimentos sobre seleção natural), em uma visão fixista, na qual a vida criada por Deus era imutável.

Porém, essa ótica fixista foi sendo repensada e abandonada à medida que descobertas científicas, especialmente no ramo da genética, foram sendo reveladas. Com isso, a verdade é que a ideia da recombinação gênica revela um design ainda mais elaborado da criação de Deus, pois esse mecanismo é fundamental não apenas para permitir a sobrevivência dos seres vivos nos mais diversos ambientes, mas, especialmente, para garantir relevantes variações que lhes façam prosperar.

Compreendendo a biodiversidade

O conceito de diversidade biológica inicialmente esteve atrelado à quantidade de espécies que habitavam certo espaço geográfico. Entretanto, com o passar do tempo, a abundância dessas espécies no ambiente, a variação entre os organismos da mesma espécie, entre outros fatores, foram se somando ao conceito, promovendo profundas alterações. Assim, o conceito contemporâneo de biodiversidade visa a referir e integrar toda a variedade e variabilidade que encontramos em organismos vivos, nos seus diferentes níveis, e os ambientes nos quais estão inseridos.[1]

Convenção sobre Diversidade Biológica(CDB) define a biodiversidade em seu art. 2º, in verbis, como “a variabilidade de organismos vivos de todas as origens, compreendendo, dentre outros, os ecossistemas terrestres, marinhos e outros ecossistemas aquáticos e os complexos ecológicos de que fazem parte, compreendendo ainda a diversidade dentro de espécies, entre espécies e de ecossistemas”. Essa definição foi incorporada ao nosso ordenamento jurídico pelo Decreto n° 2.519 de 1998, que promulgou a CDB no Brasil, sendo também integralmente repetida no artigo 2º, III, da Lei n° 9.985 de 2000, que, entre outras providências, institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza. O art. 2º, III, da Lei Brasileira n° 9.985/2000.[1]

Como surgiu toda essa biodiversidade?

A grande diversidade de seres vivos reflete-se nas variadas formas de reprodução dos organismos vivos: a reprodução assexuada e a reprodução sexuada. A reprodução assexuada é a forma mais simples de reprodução, envolvendo apenas um indivíduo, geralmente com mobilidade limitada. É uma forma de clonagem natural, pois na reprodução são gerados indivíduos idênticos ao organismo que os gerou.[2] No caso de organismos unicelulares, por exemplo, a reprodução é feita a partir da fissão da célula que se divide em duas, idênticas ao organismo progenitor. Em organismos pluricelulares também há reprodução assexuada, apesar de não ser a única forma de reprodução das espécies. Nesse tipo de reprodução, a única fonte de variabilidade é a mutação, que, por sinal, ocorre em frequências significativamente baixas.[3]

A reprodução sexuada, por sua vez, é muito mais complexa e requer um gasto maior de energia. Nesse modelo de reprodução, são necessários dois indivíduos de cada espécie: um produz o gameta masculino e o outro o gameta feminino (mesmo no caso de indivíduos que produzam os dois tipos de gametas, eles por si sós não os fecundam, havendo necessidade de um segundo indivíduo para que ocorra a fecundação). A união dos dois gametas dá origem a uma célula ovo que, a partir de um processo de divisão celular e diferenciação, origina um novo indivíduo.[2] Embora existam variadas formas de reprodução sexuada, é importante ressaltar que em todos os casos o indivíduo originado a partir da fusão dos gametas é diferente de seus progenitores.

Desse modo, a reprodução sexuada origina uma variabilidade maior nos indivíduos, por meio de combinações entre os caracteres cromossômicos maternos e paternos no processo chamado crossing-over. Esse mecanismo permite que os 23 pares de cromossomos paternos e maternos, na espécie humana, por exemplo, sejam separados em diferentes combinações, refletindo na possibilidade de mais de oito milhões de gametas diferentes.[3]

Entendendo o crossing-over

Durante o processo de produção de gametas, mais especificamente durante a meiose (com mais detalhes aqui) ocorre o que conhecemos como crossing-over. Os cromossomos homólogos trocam pedaços, gerando um cromossomo distinto daquele presente na célula-mãe.[3]

A importância desse fenômeno é a possibilidade do surgimento de novas combinações gênicas a cada indivíduo que nasce, fazendo com que, apesar das diferenças, os indivíduos e seus familiares possuam algumas semelhanças.


Essa imagem representa o modelo básico da divisão celular para a formação dos gametas parentais, nos quais se percebe a presença de recombinação gênica, tendo em vista os diferentes gametas formados ao final da divisão meiótica. Apesar de o crossing-over parecer ser um mecanismo simples, no qual os cromossomos simplesmente “cruzam suas perninhas” em pontos específicos (quiasmas) e trocam informações, é importante lembrar que os cromossomos são compostos por DNA, que contém vários genes, com sequências nucleotídicas específicas, perfeitamente posicionadas, e uma pequena alteração em uma dessas bases nitrogenadas pode levar a mutações muito prejudiciais ao organismo. Esse processo precisa ser tão perfeitamente guiado a pronto de formar gametas com código genético funcional.

Nesse contexto, acreditar que processos aleatórios não guiados possam produzir um genoma funcional parece contrariar princípios lógicos. Assim, muito mais coerente e lógico é entender que o genoma deve conter mecanismos biológicos que permitam induzir a variação a partir de dentro, criteriosamente planejados para promover a variabilidade genética funcional: a recombinação gênica.[4]

A recombinação gênica não é acidental

No modelo evolucionário padrão o conceito de alteração não direcionada é fundamental. Logicamente, alterações acidentais em um sistema complexo devem ser consistentemente prejudiciais em algum grau. Os criacionistas apontam isso enfatizando a implausibilidade dos acidentes na explicação da complexidade da vida.[4]

Deus projetou a meiose de uma forma que naturalmente tende a aumentar a diversidade. O processo todo é complexo e conduzido por enzimas específicas, como as endonucleases, por exemplo. Ainda, estudos têm demonstrado que uma variedade de fatores genéticos e epigenéticos influenciam grandemente esse mecanismo de crossing over.

O ponto aqui é que a natureza mutagênica da meiose parece fornecer um mecanismo plausível para induzir esse tipo de variação dentro de um período de criação. A exigência de enzimas específicas e o padrão não aleatório de mudança na recombinação meiótica sugere que ela poderia desempenhar um papel significativo na produção da diversidade genética útil observada.[4]

Conclusão

Biólogos criacionistas reconhecem que a diversidade biológica observada dentro dos tipos criados hoje não pode ser adequadamente explicada pelo simples “embaralhamento” de versões pré-existentes de genes (alelos) e erros “acidentais” que se acumulam dentro do genoma. Os diversos fatores envolvidos na recombinação gênica reforçam grandemente os pressupostos criacionistas de que a variabilidade genética dos seres vivos é mediada por mecanismos complexos e interativos, resultantes de um planejamento minucioso.

Em Gênesis 1, Deus instruiu Suas criaturas recém-criadas a “serem fecundas, multiplicarem-se e preencherem” a terra.

1. Para que eles fossem frutíferos, Deus deu a cada grupo distinto a capacidade de reproduzir uma nova geração do mesmo tipo. 

2. Para que eles se multiplicassem, Deus concedeu às criaturas a capacidade de produzir mais de um descendente a cada geração. 

3. E para que eles preenchessem, Deus os equipou com a capacidade de expressar variações de traços entre as gerações. Essas variações ajudam os indivíduos não apenas a sobreviver, mas a prosperar em diferentes ambientes.

Dessa forma, os indivíduos de uma geração podem ser menores ou maiores que os de outra geração. A cor da pelagem ou o tamanho, a forma ou o número de barbatanas, escamas, chifres, flores ou folhas também podem ser diferentes. Apesar de todas essas variações, cada geração mantém fielmente os principais atributos de seu tipo, como o plano corporal e os órgãos vitais integrados, mesmo depois das inúmeras gerações que surgiram e se foram nos milhares de anos desde a criação.

Quanto mais estudo, mais me impressiono com o design da vida projetado por Deus. Em Sua infinita sabedoria Ele muniu Suas criaturas com todos os mecanismos biológicos necessários para se adaptar – dentro dos limites de um tipo criado – de maneiras que lhes permitem ser pioneiras e preencher os ambientes, mesmo com as constantes mudanças da Terra. Cada ser vivente fornece inúmeras razões para nos maravilharmos com a genialidade da engenharia do Criador.

(Liziane Nunes Conrad Costa é formada em Ciências Biológicas com ênfase em Biotecnologia [UNIPAR], especialista em Morfofisiologia Animal [UFLA] e mestranda em Biociências e Saúde [UNIOESTE]. É diretora-presidente do Núcleo Cascavelense da SCB [Nuvel-SCB])

Referências:

[1] AMÂNCIO, Mônica Cibele; CALDAS, Ruy de Araujo. Biotecnologia no contexto da Convenção de Diversidade Biológica: análise da implementação do Art. 19 deste Acordo. Editora UFPR: Revista Desenvolvimento e Meio Ambiente, n. 22, p. 125-140, jul./dez. 2010.
[2] GARCIA, Sonia M. Lauer; FERNÁNDEZ, Casimiro G. Embriologia-3. Artmed Editora, p.14,15, 2009.
[3] NUSSBAUM, Robert. Thompson & Thompson genética médica. Elsevier Brasil, 2008.
[4]LIGHTNER, J. K. Meiotic recombination—designed for inducing genomic change. Journal of Creation, v. 27, n. 1, p. 7-10, 2013.
[5] Cole, F., Keeney, S. and Jasin, M., Preaching about the converted: how meiotic gene conversion influences genomic diversity, Annals of the New York Academy of Sciences 1267:95–102, 2012

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terça-feira, novembro 26, 2019

Estão vendo insetos em fotos de Marte e isso tem nome: pareidolia


William Romoser, professor emérito de arbovirologia na Universidade de Ohio, tomou o noticiário da semana passada ao afirmar ter encontrado “provas” fotográficas de que existiria “vida semelhante a insetos e répteis” em Marte. Mas, de novo, essas “provas” não provam nada, e ainda não há qualquer evidência aceita pela comunidade científica como plausível para se afirmar que há (ou houve) vida em Marte. Romoser fez essas afirmações após analisar fotografias do terreno marciano tiradas por rovers da Nasa e, após suas conclusões, afirmou que    houve e ainda existe vida em Marte”. Contudo, o professor usa como base para fazer tal afirmação apenas sua própria interpretação do que viu nessas fotografias, tiradas de contexto e sem escala para comparação. Ele apresentou sua “descoberta” em um encontro da Sociedade Entomológica da América, mostrando imagens que supostamente mostravam criaturas fossilizadas e até mesmo outras ainda vivas no Planeta Vermelho.


Romoser sugere que essa seria uma forma de vida marciana, enquanto outros cientistas refutam essa afirmação (Crédito: William Romoser)

Romoser chegou a dizer que “existe uma aparente diversidade entre a fauna de insetos marciana, que exibe muitos recursos semelhantes aos insetos terráqueos que são interpretados como grupos avançados – por exemplo, a presença de asas, flexão das asas, planagem, voo ágil e elementos de pernas de várias estruturas”.


Mais fotos de Marte nas quais Romoser acredita estar vendo seres vivos (Crédito: William Romoser)

E se você, ao ver essas imagens, está pensando: “Mas, nossa, realmente parece que as fotos mostram animais”, saiba que você está passando pelo mesmo que o professor – o fenômeno da pareidolia.

O professor de biologia da Universidade Estadual do Oregon, David Maddison, levanta essa “prova” de Romoser como apenas mais um caso de pareidolia, fenômeno no qual as pessoas veem padrões em dados aleatórios, buscando encontrar algum sentido ali. Um exemplo muito simples de pareidolia é quando olhamos para nuvens e, de repente, começamos a enxergar formas conhecidas, como corações e símbolos. [...]

Maddison fala sobre os “falsos positivos” nesse caso. Falso positivo é quando você tem um resultado ou uma conclusão positiva para uma suspeita inicial, mas está enganado. No caso da pareidolia, esse falso positivo é resultado de um mecanismo cerebral, pois a mente humana evoluiu muito [sic] graças à sua habilidade de reconhecer padrões. Então, a pareidolia acaba sendo resultado do nosso próprio “instinto” de buscar rostos ou objetos que reconhecemos em meio a um cenário confuso ou misterioso. A pareidolia foi essencial para que nossos antepassados aprendessem a identificar padrões na natureza, bem como avistar predadores e potenciais perigos à distância, e o recurso também serviu para que o ser humano identificasse e até nomeasse as constelações do céu, com títulos que usamos até os dias atuais, por sinal.

“As fotografias contidas no comunicado [de Romoser] não são convincentes, pois estão dentro do intervalo esperado em zilhões de objetos não insetos fotografados em resolução baixa numa paisagem marinha”, afirma Maddison. Ele diz ainda que “é muito mais parcimonioso presumir que tudo aquilo são simplesmente rochas; como já foi dito, ‘alegações extraordinárias exigem evidências extraordinárias’, e essas imagens são muito, muito menos do que extraordinárias”, continua, parafraseando uma notória declaração de Carl Sagan.

Nina Lanza, cientista planetária do Laboratório Nacional Los Alamos, concorda. “Acho muito fácil encontrar padrões em imagens, especialmente quando elas estão fora de contexto. São pequenos clipes de imagens maiores e não há barras de escala nelas... você pode imaginar muitas formas diferentes. Não é uma boa maneira de fazer esse tipo de avaliação”, afirma.


Famoso exemplo de pareidolia envolvendo Marte: esta foto tirada em 1976 pela Viking 1, da Nasa, e mostra uma formação rochosa na superfície marciana que lembra um rosto humano, graças às sombras projetadas que acabam dando a ilusão de que a rocha teria olhos, nariz e boca (Foto: Nasa)

Para além do óbvio, que é refutar a afirmação de que imagens fora de contexto e em baixa resolução são “prova” de que haveria vida em Marte, cientistas como Lanza e Maddison entendem que afirmações desse tipo são irresponsáveis e podem representar um desserviço à ciência. Afinal, a pessoa que só está navegando em sites ou nas redes sociais, sem tempo de ler atentamente o conteúdo, acaba acreditando na manchete extraordinária de que “cientista mostra provas de que existe vida em Marte” e, assim, participa de uma campanha de desinformação ao repassar essa informação.

“Quando temos esse tipo de manchete sensacionalista, é realmente difícil para o público saber se isso é verdade. Parece legítimo, é da Universidade de Ohio, são instituições reais, mas, quando encontrarmos algo em Marte e além, se fizermos isso, terá menos impacto, pois as pessoas continuam ouvindo ‘já descobrimos vida em Marte’. Isso tira a emoção das nossas verdadeiras descobertas”, lamenta Lanza.

NASA responde às afirmações de Romoser

Em declaração oficial enviada a veículos de imprensa, a Nasa falou sobre o trabalho de Romoser e sobre sua afirmação de que há prova de vida em Marte:

“A opinião geral coletiva da maioria da comunidade científica é que as condições atuais na superfície de Marte não são adequadas para água líquida ou vida complexa. Como parte de seus objetivos de astrobiologia, um dos principais objetivos da Nasa é a busca pela vida em Marte, e o veículo espacial Mars 2020, que será lançado no próximo ano, é nosso próximo estágio na exploração do potencial de vidas passadas no Planeta Vermelho.

“Embora ainda não tenhamos encontrado sinais de vida extraterrestre, a Nasa está explorando o Sistema Solar e além para nos ajudar a responder perguntas fundamentais, incluindo se estamos sozinhos no Universo. Ao estudar a água em Marte, sondar mundos oceânicos promissores, como [as luas] Encélado, Europa e Titã, e procurando bioassinaturas nas atmosferas de planetas fora do nosso sistema solar, as missões científicas da Nasa estão trabalhando juntas com o objetivo de encontrar sinais inconfundíveis de vida além da Terra.”

Depois da repercussão negativa que as afirmações de Romoser causaram na comunidade científica, a Universidade de Ohio apagou de seu site o artigo com o estudo do professor, e o estudo também foi removido do banco de dados do Eureka Alert!, “a pedido do remetente”.

(Canaltech, com informações de Space.com)

segunda-feira, novembro 25, 2019

Professor refuta palestra apresentada na FlatCon

O professor de História e estudante de Física Dino César Manzuti, criador do canal DinoCast, no YouTube, provou de maneira irrefutável que a espinha dorsal da palestra de um dos organizadores da FlatCon está irremediavelmente quebrada. Como se não bastasse a enorme polêmica que rachou o "universo terraplanista" (a realização do primeiro encontro de terraplanistas no auditório de uma das mais importantes lojas maçônicas do Brasil; justo no território de uma sociedade que eles vivem criticando), agora fica claro que informações apresentadas no evento estão totalmente erradas. Assista ao vídeo abaixo e confira por si mesmo o nível das "pesquisas" praticadas pelos defensores da Terra pizza com o Sol e a Lua dentro do domo. [MB]

domingo, novembro 24, 2019

Homossexualidade: não devemos olhar só para os genes

Novas pesquisas sobre homossexualidade e genética precisam ser analisadas a partir de um olhar técnico. O que realmente há de sólido neste assunto?

Sempre que surge um novo estudo sobre o tema da homossexualidade associado à genética, muita especulação e notícias sensacionalistas são veiculadas. Muitas delas adotam, por vezes, um claro viés ideológico. Não foi diferente com o estudo Large-scale GWAS reveals insights into the genetic architecture of same-sex sexual behavior. O material foi publicado no prestigiado periódico Science no dia 29 de agosto desse ano. O estudo foi liderado pela cientista Andrea Ganna, e contou com a colaboração de pesquisadores das principais universidades do mundo (por exemplo Harvard, MIT e Cambridge). É uma pesquisa que demonstra metodologia robusta e um grupo amostral respeitável de quase 500 mil pessoas. É considerado, ainda, o maior estudo já realizado que se propôs a investigar a base genética da sexualidade humana.

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quarta-feira, novembro 20, 2019

O dia em que entrevistei nosso primeiro astronauta


Formado em Engenharia pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica e com Mestrado pela Naval Postgraduate School, em Monterey, Califórnia, o astronauta Marcos César Pontes é casado com Fátima e tem dois filhos. Com a suspensão temporária dos voos norte-americanos ao espaço, Pontes teve que se mudar para a Rússia em 2006, a fim de participar de sua primeira missão científica espacial brasileira, a bordo de uma nave Soyuz.

Pontes foi o primeiro astronauta brasileiro, sul-americano e lusófono a ir ao espaço, na missão batizada de “Missão Centenário”, em referência à comemoração dos cem anos do voo de Santos Dumont no avião 14 Bis. Em 30 de março de 2006, Pontes partiu para a Estação Espacial Internacional (ISS) a bordo da nave russa Soyuz TMA-8, com oito experimentos científicos brasileiros para execução em ambiente de microgravidade. Retornou no dia 8 de abril, a bordo da nave Soyuz TMA-7.

De 2011 a 2018, ele atuou como embaixador da ONU para o Desenvolvimento Industrial. Em 31 de outubro de 2018, Marcos Pontes aceitou o convite do presidente Jair Bolsonaro para ser ministro da Ciência e Tecnologia em seu governo.

Enquanto ainda estava na Cidade das Estrelas, próximo a Moscou, o astronauta concedeu esta entrevista ao jornalista Michelson Borges, originalmente publicada na revista História da Vida, da Casa Publicadora Brasileira/Educação Adventista.

O senhor sempre dá valor à família. Por quê?

Meus pais, meus mestres! Gosto sempre de dizer que, apesar de ter estudado praticamente minha vida toda para atingir os “graus” da formação acadêmica, todas as coisas mais importantes que aprendi, até hoje, foram ensinadas por eles.

A família sempre foi para mim algo de extrema importância. Acredito ser a estabilidade familiar o primeiro passo fundamental para o crescimento do indivíduo em todos os aspectos. Agradeço muito a Deus a oportunidade de conviver com pessoas tão maravilhosas.

De onde veio seu gosto por voar?

Quando criança, foram inúmeras as visitas ao Aeroclube de Bauru, para ver a Esquadrilha da Fumaça, e à Academia da Força Aérea (AFA), onde meu tio sargento servia como membro da equipe de manutenção de aeronaves. Decolava ali, entre a poeira levantada pelos motores dos T/6 no estacionamento do aeroclube e o cheiro de combustível de aviação nos hangares da AFA, o sonho de voar que me sustenta nessa jornada até hoje. Em fevereiro de 1981, iniciei o curso da AFA. Ainda nesse primeiro ano, durante um dos meus fins de semana em Bauru (onde nasci), tive o meu primeiro vôo a bordo do Uirapuru PP-KBS. Foi uma incrível experiência e a confirmação pessoal de que estava no caminho certo.

Como o senhor recebeu a notícia de que participaria de uma seleção de astronautas da Agência Espacial Brasileira?

Soube que haveria uma seleção através de um e-mail do meu irmão. Eu estava iniciando meu doutorado nos Estados Unidos. A princípio achei um tanto difícil que eu pudesse ser selecionado entre tantos excelentes candidatos disponíveis, porém estava ali um caminho para tornar realidade algo que até então era apenas um “sonho distante”. Portanto, mandei minhas fichas de inscrição. Seleções preliminares, exames médicos e a entrevista se seguiram. Imagine como se sentiu aquele garoto simples do interior, só pelo fato de estar participando dessa seleção!

Como foi sua aprovação para treinamento na Agência Espacial Norte-americana (NASA)?

Após selecionado pela Agência Espacial Brasileira (AEB), em junho de 1998, como parte dos seus direitos de participação na Estação Espacial Internacional (EEI), o Brasil me enviou para treinamento na NASA. A seleção foi feita pela AEB, com a assessoria da NASA e de vários setores técnico-científicos brasileiros como, por exemplo, a Academia Brasileira de Ciências. Após dois anos de curso, concluí a fase essencial de treinamento, sendo declarado “astronauta” pela NASA em dezembro de 2000. Tornei-me, assim, o único astronauta profissional formado e treinado completamente pela NASA, em atividade e pronto para voo espacial, com nacionalidade oficial de um país do hemisfério sul do planeta.

O que é preciso para ser astronauta?

Existem requisitos de saúde e de formação acadêmica. Então, primeiro, cuide muito bem de sua saúde. Fique longe de drogas, cigarros, bebidas, etc. Faça esportes. Relaxe de vez em quando. Sorria muito! Estude muito também. O estudo nos dá condições de ser o que quisermos na vida. Acredite nos seus sonhos. Lembre-se que você é que é responsável por fazer com que eles se tornem realidade. Mais ninguém. Assim, ouça primeiro a voz do seu coração. Depois as pessoas que sempre estarão do seu lado: os seus pais. Depois os amigos de verdade. Finalmente, ouça o que as pessoas que não gostam de você têm a dizer, aprenda com isso a se defender e a se tornar cada vez melhor. Depois de tudo isso, tenha MUITA persistência.

Em termos de formação, ela pode ser bastante diversificada. Engenharia, física, medicina, química são algumas das possibilidades. Áreas como letras, direito, administração, etc., estão fora da lista das possíveis opções para a carreira de astronauta. Cursos de pós-graduação, mergulho, pilotagem, paraquedismo e outras atividades ligadas à profissão contam pontos para a seleção. Além disso, é necessário ser qualificado no exame médico, no exame físico, psicológico, bom senso de relacionamento e gostar de trabalho em equipe.

Que desafios enfrentou em sua mudança para a Rússia?

Acho que a adaptação ao clima exige um pouco. A quantidade de exames e testes iniciais também. Quando cheguei a Star City, no dia 13 de outubro de 2005, o treinamento não parou. A razão da pressão na agenda foi devido ao tempo disponível. O treinamento usual para uma missão espacial numa espaçonave Russa (Soyuz) sempre foi realizado num período de 8 a 13 meses. No meu caso, devido à data de decolagem prevista, 22 de março, o mesmo treinamento teve que ser comprimido e completado com sucesso em cinco meses! Foi uma situação nova. Um treinamento em tempo recorde, nunca antes realizado. A Agência Espacial Russa concordou em encarar esse desafio devido à minha experiência de sete anos de treinos anteriores na NASA. A rotina diária iniciava às 6 horas da manhã e se encerrava às 23 horas. O dia a dia era composto de aulas, treinamento em simuladores, testes e exames, preparação física e estudo. Além disso, havia treinamentos específicos de sobrevivência, testes de equipamentos, execução de experimentos científicos, etc., realizados em momentos oportunos fora do Centro. Os fins de semana e feriados eram usados para “colocar os atrasos em dia”.

Em termos comparativos com o programa na NASA, a diferença básica era a língua. Ambos são parceiros do Brasil no Projeto da Estação Espacial Internacional. A espaçonave Soyuz russa é o veículo de abandono de emergência da Estação Espacial Internacional (EEI). Portanto, eu já conhecia de forma resumida seus sistemas, além, logicamente, do conhecimento sobre os sistemas da EEI. Contudo, precisava também conhecer a fundo seus procedimentos desde a decolagem, fase de voo não prevista em situação de emergência na EEI. Logicamente, a filosofia e metodologia do treinamento seguiram o mesmo padrão, velho conhecido meu na NASA, durante sete anos. Mas o detalhamento dos sistemas, as sobrevivências específicas para o veículo, e muitas outras áreas de estudo e treinamento eram voltados para o Soyuz e ministrados em russo, o idioma que tive que dominar, pelo menos o suficiente para a operação dos sistemas e check-lists.

Em termos de relacionamento, não houve qualquer dificuldade, pois tanto a NASA quanto o Roskosmos (Agência Espacial Russa) são lugares onde as pessoas trabalham motivadas por um objetivo comum e, em se tratando de uma tripulação (comigo irão um russo e um americano), não importa a nacionalidade do companheiro: a vida de cada um de nós está na competência e dedicação dos outros membros. Assim, somos considerados irmãos nesse momento.

A nave Soyuz o levará até a EEI. Qual sua missão lá?

Na Soyuz, temos espaço para três tripulantes. A tripulação será, em princípio, composta por um russo, um americano e eu (brasileiro). Em termos de funções, sou um astronauta treinado como “especialista de missão”, cujas tarefas no espaço envolvem todas as atividades, excluindo a pilotagem do veículo em situações nominais, o que é função do comandante, sempre da nacionalidade do veículo. Assim, no caso dos ônibus espaciais, são sempre americanos; e no caso do Soyuz, são sempre russos. Além de todas as atividades técnicas de manutenção e montagem de equipamentos a bordo da EEI, obviamente teremos a parte científica. Nessa primeira missão brasileira estarei levando e executando experimentos científicos de instituições de pesquisa e universidades brasileiras. Esses experimentos ainda estão sendo selecionados pela gerência técnica do projeto da EEI da AEB, que está a cargo do Dr. Raimundo Mussi. A comunicação com o Brasil será feita por meio de sistemas de transmissão e recepção de voz, imagem e dados do setor russo e dos outros países. Esses sinais são recebidos pelos links de solo e retransmitidos pelos centros de controle na Rússia e nos Estados Unidos para os pesquisadores, rádios e TVs no Brasil.

Nesse aspecto, especificamente sobre essa missão científico-espacial, é necessário deixar claro que me foi confiada a missão de ir ao espaço e levar, além de experimentos científicos e a nossa bandeira, muitos sonhos, ideais, esperanças, orgulho e tantos outros sentimentos de uma nação inteira. Logicamente a missão foi criada pela administração oficial, o governo. Contudo, depois de ser impregnada nos desejos do povo brasileiro, essa missão deixa de ser um compromisso institucional com o governo, mas uma responsabilidade com o Brasil, com os brasileiros. Assim, não é uma missão para a minha satisfação pessoal, ou feita apenas para mandar um astronauta ao espaço, cumprindo a ordem de uma autoridade. Portanto, na execução operacional, cabe a mim cumpri-la até o final, custe o que custar, contra todos os obstáculos, mesmo com o meu sacrifício, se necessário. Esse é o meu compromisso com meu país. Esse é o espírito que eu gostaria que o meu país tivesse por mim.

No momento do voo, estarei fisicamente sozinho, mas levando a bandeira brasileira, que tanto me orgulha; estarei levando comigo toda uma nação. Pelas centenas de e-mails e outras mensagens de muito carinho e apoio que recebo diariamente, tenho plena certeza de que essa missão irá representar para cada brasileiro algo especial. Um momento que ficará para sempre como uma lembrança viva, nos momentos de maior dificuldade, de que o nosso país é um país que tem capacidade de sobra; que devemos nos orgulhar pelo que é nosso e pelo que somos: uma nação forte, com tecnologia, empresas e pessoas capazes, que fazem a cada dia uma história cotidiana de sucesso, a ser contada por gerações. Uma história de raça, garra, pioneirismo e amor ao Brasil. 


[Os três astronautas decolaram no dia 29 de março de 2006, às 23h30min (horário de Brasília), no Centro de Lançamento de Baikonur, no Cazaquistão. Eles seguiram, na nave Soyuz TMA-8, para a Estação Espacial Internacional, levando 15 quilos de carga da Agência Espacial Brasileira, incluindo oito experimentos científicos criados por universidades e centros de pesquisas brasileiros. A missão, realizada com sucesso, teve duração de dez dias, sendo dois dias a bordo da Soyuz e oito na ISS.]

Quando olha para a vastidão do espaço, o que lhe vem à mente?

O quão pequenos e frágeis nós somos perante Deus. Contudo, da mesma forma, penso no quanto somos importantes, cada um de nós, para Ele como partes preciosas de Sua criação.

Consegue ver a mão de Deus nas obras da criação, especialmente nos planetas, nas estrelas e nas galáxias?

Sem dúvida! Algumas pessoas me perguntam como convivo com a ciência e a religião dentro de mim. Não existe nenhum conflito entre religião e ciência. A fé é como a luz de um farol a nos guiar durante a noite de nosso conhecimento. Nos momentos mais críticos de nossas vidas, normalmente, de uma forma ou de outra, estamos sozinhos. Mas se temos dentro de cada um de nós a confiança em Deus, teremos a direção e a força necessárias para enfrentar qualquer situação.