quarta-feira, março 22, 2017

A Bíblia, Ellen White, a ciência e a Terra plana

Mitos que ressurgem
Por incrível que pareça, na era dos ônibus espaciais e dos satélites orbitais, ainda há gente defendendo uma ideia que parecia superada: a de que a Terra seria um disco plano. Os defensores disso vêm sendo chamados de “terraplanistas”. Pior é que, em tempos de redes sociais, ideias conspiracionistas com sabor sensacionalista como essa se espalham como fogo em capim seco. Muitos desses ditos terraplanistas chegam a pensar que estão defendendo a Bíblia, pois supõem que o Livro Sagrado retrata uma Terra plana. Antes de mais nada, é bom que se diga que o mito da Terra plana é uma ideia antiga utilizada justamente para desacreditar o cristianismo (confira aqui). À semelhança do mito do embate de Galileu com a religião (confira aqui), o mito terraplanista deriva de uma má compreensão – neste caso, da Bíblia e da ciência. Mitos devem ser contestados com fatos (como aconteceu recentemente com o cinto de castidade), e o que faremos neste texto é justamente contestar essa ideia com base nos textos inspirados, na ciência e no bom senso.

O que diz a Bíblia?

“Ele é o que está assentado sobre o círculo da Terra, cujos moradores são para Ele como gafanhotos; é Ele o que estende os céus como cortina, e os desenrola como tenda, para neles habitar” (Isaías 40:22). A palavra “círculo”, no original, é chug (חוּג) e significa somente “abóbada dos céus”. Ela se repete em citações como Jó 22:14 e Provérbios 8:27. Isaías fala simplesmente de um Deus atento ao que ocorre no mundo. Seria como se fosse uma visão da Terra a partir do espaço; o profeta não queria dar aula de astronomia, mas nem por isso ele disse uma inverdade cientifica. Trata-se de uma linguagem claramente figurativa em que Deus está assentado sobre o círculo da Terra (vista do espaço, uma esfera).

“Novamente O transportou o diabo a um monte muito alto; e mostrou-Lhe todos os reinos do mundo, e a glória deles. E disse-Lhe: Tudo isto Te darei se, prostrado, me adorares” (Mateus 4:8, 9). “E o diabo, levando-O a um alto monte, mostrou-Lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-Lhe o diabo: Dar-Te-ei a Ti todo este poder e a sua glória; porque a mim me foi entregue, e dou-o a quem quero” (Lucas 4:5, 6). Imaginar que com essa passagem a Bíblia esteja também afirmando que a Terra é plana é pura insensatez. Satanás pegou um helicóptero em Jerusalém e levou Jesus ao monte mais alto do mundo? A ida ao monte alto tem um valor mais simbólico, afinal, Jesus, como rei, estaria em posição elevada a todos os reinos.

“Ele é o que edifica as suas câmaras superiores no céu, e fundou na Terra a Sua abóbada, e o que chama as águas do mar, e as derrama sobre a Terra; o Senhor é o Seu nome” (Amós 9:6). Alguns interpretam essa passagem como se fosse a descrição de um arco sobre um disco plano, mas o texto não fala que a abóbada é o céu, e sim que Deus fundou sua abóbada na Terra. Mesmo que fizesse referência direta ao céu, não significaria que o uso da palavra “abóbada” no versículo seja referência a uma Terra plana com um arco em volta.

O que diz Ellen White?

Ver cristãos defendendo o terraplanismo já é espantoso, mas ver adventistas enveredando pelo mesmo caminho plano é ainda mais assustador! Os adventistas do sétimo dia consideram inspirados os escritos de Ellen White. Muito embora esses escritos não sejam uma segunda Bíblia, eles são muito importantes, uma vez que a autora recebeu orientação divina para escrevê-los. Quando o assunto é Terra plana, bastam algumas citações de textos de Ellen White para refutar a ideia:

“Deus qualificou o Seu povo para iluminar o mundo. Ele os dotou de faculdades por meio das quais devem eles estender a Sua obra até que ela circunde o globo” (Conselhos Sobre Saúde, 115).

“Satanás decidiu-se a fazer valer o seu direito de governar o mundo. Fora bem-sucedido ao estabelecer a idolatria em toda parte do globo, exceto na terra da Palestina” (O Grande Conflito, p. 514).

“Assim como os raios do Sol penetram até aos mais remotos recantos do globo, assim é desígnio de Deus que a luz do evangelho alcance a toda pessoa da superfície da Terra” (O Maior Discurso de Cristo, p. 42).

Em duas ocasiões Ellen White disse ter se encontrado com adventistas que defendiam a teoria da Terra plana. Ela não entrou em debates sobre o formato da Terra, mas tentou mostrar como essa questão era insignificante diante da mensagem bíblica a ser anunciada pelos adventistas: “Quando uma vez certo irmão se chegou a mim com a mensagem de que o mundo é plano, fui instruída a apresentar a comissão que Cristo deu aos discípulos: ‘Ide, ensinai todas as nações, [...] e eis que Eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos’ (Mateus 28:19, 20). Quanto a assuntos como a teoria de que o mundo é plano, Deus diz a toda alma: ‘Que te importa? Quanto a ti, segue-Me [João 21:22]. Tenho-lhes dado sua comissão. Insistam sobre as grandes verdades probantes para este tempo, não sobre assuntos que não têm relação com nossa obra’” (Obreiros Evangélicos, p. 314).

Em 1887 e em 1904, Ellen White escreveu duas cartas a respeito de adventistas que defendiam, nas palavras dela, a “teoria do mundo plano”. Os textos podem ser lidos no livro Manuscript Releases, v. 21, p. 412-415 (inédito em português).

Mas essas declarações não significam que Ellen White não tivesse uma posição definida sobre o assunto. Em 1900, ela escreveu: “Deus fez o Seu sábado para um mundo esférico; e, quando o sétimo dia chega para nós neste mundo arredondado, controlado pelo Sol, que governa o dia, em todos os países e regiões é o tempo para observar o sábado. [...] O sábado foi feito para um mundo esférico, sendo, portanto, requerida obediência das pessoas em perfeita harmonia com o mundo criado pelo Senhor" (Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 317).

O que diz a ciência?

1. Se (a) a Terra é plana e (b) sempre é dia em alguma parte do mundo, então não existe nascer do sol nem pôr do sol, exceto, talvez, em regiões cercadas de montanhas altas. O mesmo se aplica à Lua: ela é sempre visível em alguma parte da Terra, mas desce abaixo da linha do horizonte em um momento e emerge do horizonte do lado oposto todos os dias.

2. Terraplanistas afirmam que, independentemente da altitude, sempre vemos o horizonte plano e à altura dos olhos. Isso seria impossível se a Terra fosse um disco. Só seria possível se ela fosse um plano infinito. Se é um plano infinito, então por que não descobrimos muitas terras e/ou mares além da Antártida?

3. Se a Terra fosse um disco com o Polo Norte ao centro e a Antártida nas bordas, então, se estivéssemos em um avião a uma altitude de voo de cruzeiro (ex.: 36.000 pés), poderíamos ver todos os continentes. Seria possível ver China, Estados Unidos, Europa, África e Austrália, simultaneamente, ao se sobrevoar São Paulo, por exemplo. Bastaria olhar para o lado certo.

4. Ao viajarmos de avião sobre o oceano Atlântico ou Pacífico, suficientemente afastados dos continentes, não vemos terra alguma, o que seria impossível se a Terra fosse plana.

5. Em túneis sem desvios laterais horizontais e com muitos quilômetros de extensão, não é possível ver uma entrada a partir da outra. Ao se observarem as luzes de veículos se aproximando, elas parecem emergir do solo a certa distância.

6. Em 2008, Fedor Filippovich Konyukhov demorou 102 dias para circunavegar a Antártida em um barco a vela. Se a Antártida fosse a borda de um disco de 20.000 km de raio, essa façanha seria inviável.

7. Ao fazer cálculos envolvendo curvatura da Terra, é importante não usar para grandes distâncias fórmulas que valem apenas para pequenas distâncias.

8. Ao comparar explicações da Terra plana com as da Terra esférica, é importante não misturar contextos. No modelo da Terra esférica, admite-se o fato observável diretamente de que tudo exerce força gravitacional sobre tudo, o que implica em planos equipotenciais gravitacionais, os quais definem o conceito de horizontal e vertical. Ao usar argumentos que dizem que rios precisariam subir e descer antes de chegar ao mar, no modelo da Terra redonda, essas coisas são sumariamente ignoradas.

9. Independentemente de a força gravitacional que sentimos ser causada por um aparelho que fica constantemente acelerando o disco da Terra, esse disco é feito de coisas que geram campo gravitacional, como é possível demonstrar em experimentos bem acessíveis. Isso causaria um campo gravitacional adicional que faria com que locais distantes do Polo Norte parecessem inclinados. Para irmos em direção à Antártida, sentiríamos como se estivéssemos escalando uma montanha. Além disso, o efeito dessa gravidade sobre a água faria com que as águas dos oceanos se acumulassem em torno do Polo Norte, formando uma imensa bolha, submergindo Canadá, Estados Unidos, Europa, Sibéria... Para isso não acontecer, a Terra teria que ter um formato arredondado para compensar.

10. É importante entender que a teoria atual da Terra plana é bem recente e foi inventada para ridicularizar o criacionismo.

11. Como é possível que os voos entre América do Sul e Nova Zelândia, viajando somente no hemisfério Sul, tenham aproximadamente a mesma duração que voos entre a América do Sul e a Europa?

O que diz o bom senso?

Um cristão que defende a tese da Terra plana acaba dando um grande tiro no pé. Esse mito foi criado justamente para ridicularizar os crentes (conforme está claro neste texto já mencionado, relacionado com o ótimo e esclarecedor livro Inventando a Terra Plana). Atende bem aos interesses dos inimigos da fé cristã e do criacionismo, especificamente, a ideia de que os cristãos/criacionistas seriam defensores de um argumento tão anticientífico. Como se não bastasse isso, defender teorias conspiratórias como a da Terra plana e tantas outras é pura perda de tempo. É desviar o foco para bobagens e perder de vista o essencial.

É realmente impressionante como existem pessoas que adoram propagar teorias conspiratórias sem fundamento, gastam tempo e energia com isso, enquanto negligenciam coisas infinitamente mais importantes.

Resumindo: o bom senso diz que existem coisas mais importantes para fazer do que ficar espalhando ideias infundadas que não trazem benefício algum, muito pelo contrário, atraem o deboche e o escárnio pelo motivo errado.

(Michelson Borges, Eduardo Lütz e Alexandre Kretzschmar)

A descoberta da ciência

A teoria da evolução é científica?
A palavra “ciência” vem do latim scientia e significa “conhecimento”. Vem de scire, “conhecer”, “saber”. Está relacionada a scindere, “cortar”, “dividir”. É provável que originalmente significasse “separar uma coisa de outra para distinguir”.[1] Ao longo dos séculos, essa palavra foi usada apenas como sinônimo de conhecimento ou de conhecer, mas nos séculos 17 e 18, durante a Revolução Científica, ela passou a ter um significado mais definido e específico. Por outro lado, uma linha de investigadores prosseguiu utilizando o significado vago da palavra, de forma que uma série de diferentes tipos de investigação com resultados diversos em termos de eficiência e confiabilidade pudesse ser chamada de ciência. Especialmente a partir do século 19 isso se tem demonstrado desorientador em termos de clareza e eficiência nos meios acadêmicos. É da história desses significados e suas consequências que pretendo tratar.

A Revolução Científica – As bases do protocolo conhecido como método científico, ou seja, observação, formulação de uma hipótese, experimentação, interpretação dos resultados e conclusão, podem ser traçadas desde Aristóteles.[2-5] Portanto, a ideia de que uma investigação requer observação, dados empíricos e sistematização é muito antiga e não remete ao tempo da Revolução Científica, nos séculos 17 e 18. Então, qual foi a novidade trazida pela Revolução Científica que ocasionou essa explosão de novos conhecimentos convertidos em tecnologia, que séculos de história não foram capazes de produzir? Vejamos o que diz o pai da Ciência Moderna, Galileu Galilei:

“A [verdadeira] filosofia está escrita neste grandioso livro que está sempre aberto à nossa contemplação (refiro-me ao universo), mas que não pode ser entendido sem que primeiro se aprenda a língua, e conheçam-se os caracteres com os quais está escrito. Ele está escrito em linguagem Matemática, e seus caracteres são triângulos, círculos, e outras figuras geométricas sem as quais é humanamente impossível entender sequer uma de suas palavras; sem estes [caracteres] fica-se a vagar por um escuro labirinto.

“Deixando de lado as sugestões, falando abertamente e tratando a Ciência como um método de demonstração e raciocínio humanamente alcançável, sustento que quanto mais isso participa da perfeição, menor será o número de proposições que prometerá ensinar, e menos ainda provará conclusivamente. Consequentemente, quanto mais perfeita é [a metodologia], menos atrativa será e menos seguidores terá.”[6]

Em outras palavras, “ciência é um método de demonstração e raciocínio baseado em Matemática de maneira coerente com o que aprendemos na natureza”, ou “ciência é o conjunto de métodos matemáticos que podemos usar coerentemente para estudar qualquer assunto”.

A noção da importância estratégica da Matemática na pesquisa científica era compartilhada por outros que contribuíram para a descoberta da ciência.

Roger Bacon (1214-1294), mesmo ainda usando a palavra “ciência” no sentido de área do conhecimento, já reconhecia a matemática como a base de todas as disciplinas: “Se em outras ciências devemos chegar à certeza sem dúvida e à verdade sem erro, compete-nos colocar os fundamentos do conhecimento na Matemática.”[7] “Há quatro grandes ciências, sem as quais as demais não podem ser conhecidas e nem um conhecimento das coisas assegurado... Dessas ciências, a porta e a chave é a Matemática... Aquele que é ignorante disso não pode entender as outras ciências nem os assuntos deste mundo.”[8]

Leonardo da Vinci (1452-1519): “A natureza é uma fonte de verdade. A experimentação nunca erra; é apenas seu julgamento que erra prometendo a si mesmo resultados não causados de seus experimentos.”[9] “Nenhuma investigação humana pode ser chamada de verdadeira ciência se não pode ser demonstrada matematicamente.”[10]

Partindo dessas ideias, Isaac Newton se propôs a usar métodos matemáticos para estudar as leis da Mecânica. Percebeu que os conhecimentos da época não eram suficientes, mas encontrou nas próprias leis do movimento as pistas para deduzir o que precisava. Descobriu assim o Cálculo Diferencial e Integral, que abriu as portas para o estudo não apenas da Mecânica, mas também das demais leis da natureza.

Convém definir, neste ponto, o significado de Matemática: deriva do grego μάθημα (máthema = ciência, conhecimento, instrução).[11] Pode-se dizer que ela é o conhecimento em si, independentemente do ser humano, incluindo toda a lógica, todas as possibilidades, todas as relações, todas as conexões, todas as estruturas. Isso significa que ela é mais do que os símbolos e os números com que estamos acostumados. Essa simbologia é apenas uma forma de apresentar algo da realidade. Qualquer metodologia que tenha correspondência com nossa realidade ou com qualquer realidade possível, necessariamente possui uma base matemática, podendo ser mais ou menos eficiente dependendo de quão exatamente representa padrões reais e do grau de correção com o qual é utilizada. A humanidade tem usado diferentes linguagens para representar estruturas matemáticas. Exemplos disso são as diferentes linguagens de programação de computadores.

O Cálculo que Newton descobriu estudando as leis da Mecânica permitiu investigações sobre calor, luz, eletricidade, magnetismo e átomos, que levaram ao desenvolvimento da Química, Biologia, Geologia, Medicina, Engenharias e tecnologias que alavancaram todas as áreas do conhecimento.[12]

Pilares da pesquisa científica – O tipo de metodologia que produziu todo o progresso que conhecemos hoje está baseado, resumidamente, nos seguintes pilares:

“1. Coleta de informações segundo critérios estabelecidos matematicamente; esse tipo de estudo pode ser chamado de experimentação; os resultados desse tipo de estudo chamam-se dados (experimentais).

“2. Estudo de dados em busca de regularidades, ou leis, segundo critérios estabelecidos pela Estatística (que é uma área da Matemática); formulação de modelos (bases relacionais formais) que sintetizam uma infinidade (literal) de dados coletados e por coletar; estabelecimento de teoremas relacionando as classes infinitas de modelos possíveis; os modelos matemáticos mais abrangentes são chamados de teorias científicas.”[13]

Existem vários importantes conceitos auxiliares:

Axioma: item de uma definição.
Lei: regularidade observada.
Hipótese: proposição a ser validada/invalidada.
Base relacional formal: é uma estrutura relacional juntamente com um objeto de estudo e um dicionário que associa a estrutura com o objeto de estudo.
Estrutura relacional: um conjunto de símbolos e relações.
Teorema: uma fórmula, proposição ou declaração em matemática ou lógica deduzida ou a ser deduzida de outras fórmulas ou proposições.[14]
Teoria científica: conjunto de leis expressas matematicamente juntamente com teoremas que demonstrem suas consequências.

O século 19 e a teoria da evolução – Enquanto a Revolução Científica prosseguia, nos séculos 17 e 18, havia uma linha de investigadores que continuava utilizando apenas observação, dados empíricos e sistematização para compreender a natureza. Esses métodos, embora úteis, não têm o poder de produzir conhecimento com o mesmo grau de eficiência e precisão que métodos matemáticos permitem. Devido a esse fato, outras áreas além da Física, como a Química e a Biologia, por exemplo, demoraram mais a ter o mesmo progresso. Por fim, os métodos e instrumentos produzidos pelo avanço da Física chegaram a essas e outras áreas, alavancando e auxiliando o desenvolvimento delas.

Na metade do século 19, Charles Darwin publicou A Origem das Espécies. A unificação do princípio darwiniano da seleção natural com a genética mendeliana, no século 20, produziu o que hoje é conhecido como Teoria da Evolução, a Síntese Evolutiva Moderna. A Teoria da Evolução, no entanto, não pode ser considerada uma teoria científica no mesmo sentido das teorias de Newton, Einstein e outros. Um conceito mais light de Ciência é necessário para que ideias mais filosóficas (organizadas, mas sem uma estrutura matemática explícita e coerente), como as de Darwin, possam ser consideradas como teorias científicas.

De fato, o legado de Darwin contribuiu para que uma linha de investigação mais ao estilo de Aristóteles prosseguisse nos meios acadêmicos lado a lado com pesquisas mais avançadas. E esse é o motivo por que tantos pesquisadores acreditam que a ciência pode errar, que o que é verdade hoje pode já não ser amanhã, por exemplo.

O legado do conceito mais light de ciência produziu um conceito confuso do que ela significa, de tal forma que ao longo de um discurso o termo vai derivando para diferentes significados. A palavra “ciência”, ao longo de uma palestra ou diálogo, pode passar por todos os seguintes significados: área do conhecimento, pesquisa que está sendo realizada, os resultados dessa pesquisa, a academia, um conjunto de cientistas, o consenso acadêmico, a opinião de um conjunto de cientistas, etc.

Unificação das diversas áreas de conhecimento – Como disse Leonardo da Vinci, “nenhuma investigação humana pode ser chamada de verdadeira ciência se não pode ser demonstrada matematicamente”.[10] A utilização de métodos matemáticos nas diferentes áreas de pesquisa possibilita uma unificação sem precedentes entre elas. Porque o uso desses métodos torna explícita a profunda interdependência entre tudo que compõe nossa realidade.

O ser humano é limitado e precisa separar o conhecimento em áreas para poder lidar com um conjunto limitado de temas de cada vez. Ao lidar com esses temas sem as ferramentas que a Matemática pode fornecer – tornando possível inclusive tratar de um número infinito de aspectos –, há a tendência de se perderem de vista a quantidade e a riqueza de conexões entre as diferentes áreas.

Se nos fosse possível contemplar de uma só vez toda a realidade, não veríamos um conjunto de áreas de conhecimento com regiões de intersecção entre elas, mas um todo contínuo e harmônico. Essas separações são artifícios de nosso raciocínio humano limitado, mas os métodos matemáticos nos permitem lidar com aquilo que nossos sentidos, nossa intuição e nosso senso comum não conseguem lidar.

Conclusões – Observação, formulação de uma hipótese, experimentação, interpretação dos resultados e conclusão, em sua essência, com menos sofisticação do que o protocolo atual, é um método que pode ser traçado desde Aristóteles. Ele não pode, portanto, ser considerado responsável pelo fantástico boom que o conhecimento da natureza e consequente desenvolvimento tecnológico teve a partir dos séculos 17 e 18. Foi a noção e o desenvolvimento de métodos matemáticos por parte de pioneiros como Galileu, Newton e outros que possibilitaram o fantástico desenvolvimento que acabou por revolucionar os modos de produção e a comunicação sobre a face do globo.

O conceito antigo e vago de ciência prosseguiu coexistindo com o novo conceito. O conceito antigo possibilitou que uma filosofia baseada em observações e racionalizações, como a Teoria da Evolução, pudesse ser elevada ao status de ciência e assim permanecer até hoje.

O uso de um conceito mais avançado de ciência, como o proposto pelos pioneiros dela, possibilitaria uma visão mais abrangente e conectada da realidade. Essa visão seria benéfica, inclusive, para aprofundar estudos sobre evolução.

(Graças Lütz é bióloga e bioquímica)

Bibliografia
Online Etymology Dictionary. http://www.etymonline.com/index.php?term=science; acessado em 18/10/2016.
History of the Scientific Method. https://explorable.com/history-of-the-scientific-method; acessado em 19/10/2016.
Stanford Encyclopedia of Philosophy; Scientific Method. http://plato.stanford.edu/entries/scientific-method/#HisRevAriMil; 13/11/2015.
Williams, L. Pearce. History of Science. https://global.britannica.com/science/history-of-science; acessado em 18/10/2016.
Faria, Caroline. Método Científico. www.infoescola.com/ciencias/metodo-cientifico/; acessado em 19/10/2016.
Galiei, Galileu. Il Saggiatore; 1624.
Shapiro, Fred R. The Yale Book of Quotations, 39; 2006. Opus Majus of Roger Bacon (1928), vol 1, 124.
Burke, R.B. The Opus Majus of Roger Bacon (1928), v. I, 116. Opus Majus [1266-1268], Part IV, distinction I, chapter I.
Vinci, Leonardo da. http://www.azquotes.com/quote/1003639; acessado em 20/10/2016.
Isidro Pereira, S.J. Dicionário Grego-Português e Português-Grego, sexta edição. Livraria Apostolado da Imprensa.
Lütz, Eduardo F. Considerações sobre Ciência, 164. Cosmovisão Criacionista Bíblica – Coletânea de artigos publicados nos periódicos da SCB; Brasília, 2015.
Merriam-Webster Dictionary. Theorem http://www.merriam-webster.com/dictionary/theorem; acessado em 20/10/2016.

O papelão dos vegetarianos

O amor nunca deve sair de cena
Há poucos dias tomei conhecimento acerca das notícias de que carne vencida e moída com papelão estava sendo vendida no Brasil. Mas o que esse assunto pode ter a ver com uma coluna escrita por uma psicóloga? Bem, o comportamento humano sempre me chama a atenção e sempre me faz pensar. E, desde que tive acesso às informações acerca da contaminação das carnes vendidas no Brasil, tenho observado o comportamento de pessoas nas redes sociais. Em especial, vegetarianos e veganos. Em tempo de redes sociais e memes, tudo parece virar motivo de piada. Mas, a despeito de vivermos um momento em que se faz graça sobre tudo, fazer graça com a desgraça alheia não combina com discursos em prol da saúde e da vida. Esses são os discursos que costumam sair dos lábios (e dos dedos) de quem não consome carne. Mas, nos últimos dias, não apenas as carnes estão contaminadas, mas os discursos de muitos vegetarianos e veganos também.

O amor à vida (presente nesses discursos) parece não se aplicar à vida de quem consome carne como alimento. É isso que os gracejos e zombarias acerca do que está sendo noticiado revela. Parece que o amor é seletivo. Chego a me perguntar se ele existe de fato! Ao ler depoimentos de gente ofendida com a falta de respeito de quem tem se animado em compartilhar imagens e textos de zombarias, lembrei-me de uma citação que li há muito tempo atrás, de um ilustre analista do comportamento:

“Sob circunstâncias apropriadas a alma tímida pode dar lugar ao homem agressivo. O herói pode lutar para esconder o covarde que habita a mesma pele. [...] O crente piedoso do domingo pode tornar-se um homem de negócios agressivo e inescrupuloso nas segundas-feiras” (B. F. Skinner, Ciência e Comportamento Humano, p. 312, 313).

Como se costuma dizer, a ocasião faz o ladrão. Lamentavelmente.


segunda-feira, março 20, 2017

Cinto de castidade, Galileu e a Terra plana

Outra mentira iluminista
A imagem do cavaleiro medieval que parte rumo às Cruzadas e deixa para trás sua amada alegre e bonita, protegida por um cinto de castidade, não passa de uma mentira histórica e de um mito surgido no século 18 para ressaltar o obscurantismo medieval. Esse é o argumento da exposição “Histórias Secretas do Cinto de Castidade. Mito e Realidade”, que ficará em cartaz até agosto no Museu Katona József de Kecskemét, ao sul de Budapeste, capital da Hungria. Na mostra, aberta apenas para maiores de 16 anos, estão expostos 20 exemplos desses cinturões para explicar como o mito foi cunhado durante o Iluminismo. No museu, os visitantes se deparam com brutais objetos de cadeados e orifícios protegidos por dentes de metal, e a primeira pergunta que surge é como as suas usuárias poderiam sobreviver a eles. “O mito do cinto de castidade surgiu durante o Iluminismo para que esse movimento se afirmasse como superior à Idade Média, que seria a era da obscuridade”, explica Katalin Végh, subdiretora do Museu Katona József. A mitificação foi apoiada pela Grande Enciclopédia Francesa, editada a partir de 1751. O livro assegurava que o uso do cinto era generalizado na Idade Média. E o mito se consolidou como verdade. [...]

Seu uso difundido na Idade Média pode não passar de uma grande mentira, na qual se acreditou até a década de 1990. A lenda foi alimentada, em todos esses séculos, não só pelo populacho, mas também por especialistas, em artigos científicos e mesmo em museus. O próprio Museu de Medicina Semmelweis em Budapeste, de onde provêm os objetos expostos na nova mostra, reconhece a responsabilidade dos museus na criação desse mito e afirmou que essas instituições não só conservam o passado, mas às vezes também uma história imaginária. E o passado, como o presente, está sempre em mutação.

Instituições como o British Museum, de Londres, e o Germanisches Nationalmuseum de Nuremberg, na Alemanha, possuíam e expunham coleções de cintos de castidade até a segunda metade dos anos 90, quando pesquisadores passaram a buscar a data de fabricação dos acessórios e descobriram que eles não passavam de falsificações feitas no século 19.

Vários pesquisadores, como Benedek Varga, diretor do Museu de Medicina Semmelweis, questionaram o mito, realizando pesquisas históricas, literárias e científicas. A conclusão é que, na literatura medieval, inclusive em autores de textos eróticos, como Boccaccio e Rabelais, o cinto de castidade aparece muito poucas vezes e sempre com um claro sentido simbólico. O mito do cinto de castidade tem também a sua origem nos textos da Roma clássica sobre fitas, cinturões e cordas de castidade, e de Vênus. Mas, segundo os pesquisadores atuais, não são mais do que elementos simbólicos e metafóricos – e não descrições de objetos reais.

De fato, e é o que defende a mostra de Budapeste, basta observar os acessórios para perceber que seria impossível utilizá-los por um longo tempo. Por um lado, o uso dos objetos poderia causar ferimentos, inclusive mortais, e isso quando não impedissem a higiene pessoal a ponto de provocar infecções. Por outro, os cadeados poderiam ser abertos facilmente, o que depõe contra a ideia de assegurar a fidelidade da mulher na marra.


Nota: Talvez você esteja se perguntando por que coloquei Galileu e o mito da Terra plana lá no título. Já explico. Antes, vou comentar um pouco a notícia acima. Não é de hoje que se sabe que os iluministas fizeram de tudo para “queimar o filme” dos pensadores medievais e, especialmente, da igreja e dos religiosos. A Igreja de Roma cometeu barbaridades históricas? Sim, disso todo mundo sabe. A Inquisição, a caça às bruxas e a queima de livros são exemplos disso. Mas temos que reconhecer, também, a contribuição do catolicismo, por meio de seus mosteiros, no sentido de preservar muito da cultura e do conhecimento da Antiguidade. Os iluministas ateus, em seu afã de pintar a Idade Média como a “era das trevas” e os religiosos como seres de mente estreita, desceram tanto o nível que chegaram ao ponto de inventar e promover mentiras deslavadas. Uma foi essa dos cintos de castidade. Outra foi a deturpação do clássico embate entre Galileu e a igreja (leia detalhes aqui). A verdade é que o astrônomo italiano nunca se insurgiu contra a Bíblia. Assim como Copérnico e Newton, Galileu era profundamente religioso e respeitava as Escrituras Sagradas. O caso de Galileu foi contra o geocentrismo aristotélico abraçado pelos teólogos católicos. Portanto, Galileu foi contra Aristóteles, jamais contra a Bíblia, nem tampouco, necessariamente, contra a igreja. Mas era útil o mito de que a ciência brigou com a religião. Na verdade, muitos desavisados e outros mal-intencionados continuam divulgando o mito para manter o clima belicoso entre religiosos e cientistas. E quanto à Terra plana? É a mesma coisa. Leia este texto e depois volte aqui. Como você pôde perceber (se leu o texto), é falsa a ideia de que na Idade Média todo mundo achava que a Terra era plana e que a igreja teria contribuído para espalhar essa inverdade. Inverdade é afirmar isso. A Bíblia não fala em Terra plana (leia mais aqui e aqui). E esse mito também serviu para que os iluministas e, depois, os evolucionistas caracterizassem os crentes como ignorantes. Lamentavelmente, há pessoas em pleno século 21 servindo de “bobos úteis” do materialismo, defendendo novamente o mito da Terra plana. Pensam que estão “abafando” e defendendo a Bíblia, quando, na verdade, estão é servindo de joguete para, uma vez mais, desacreditar o cristianismo. [MB]

Worms e a coragem de Lutero

Mulher, quem você pensa que é?

domingo, março 19, 2017

Carne podre: temos que dar mais valor ao que sabemos

Não é por falta de conhecimento
A revista Veja Rio desta semana divulgou o lançamento do livro Você Pode Ser Feliz Comendo, da terapeuta e pós-graduada em gastronomia funcional Karen Couto. Karen, que atende famosos como a atriz Alinne Moraes, diz ser uma pessoa “muito espiritualizada” e dá algumas dicas no livro, entre as quais esta: “Não misture frutas com comida, nem sucos. Esse é um ensinamento da Igreja Adventista, entidade que entende tão bem de alimentação quanto a medicina chinesa.” Não é a primeira vez que um famoso ou alguém que não pertence à Igreja Adventista fala da importância dos ensinamentos adventistas sobre saúde. No ano passado, o DJ KL Jay disse ter comprado um livro adventista de um colportor e deixado de comer carne depois da leitura do material (confira aqui). É como se as “pedras” estivessem clamando...

Na semana passada, a venda de carnes contaminadas, vencidas, com substâncias cancerígenas e misturadas com papel ganhou as páginas de jornais e revistas e tomou conta das redes sociais. Inúmeros memes foram criados quase instantaneamente, evidenciando mais uma vez a criatividade do brasileiro. O tema virou piada, mas a coisa é séria. Há mais de cem anos, a escritora inspirada Ellen White já havia dado o recado: “A carne nunca foi o alimento melhor; seu uso agora é, todavia, duplamente objetável, visto as moléstias nos animais estarem crescendo com tanta rapidez. [...] Quando os que conhecem a verdade tomarão atitude ao lado dos princípios corretos para o tempo e a eternidade? Quando serão fiéis aos princípios da reforma de saúde? Quando aprenderão que é perigoso usar alimentos cárneos? Estou instruída a dizer que, se em algum tempo foi seguro comer carne, não o é agora” (Conselhos Sobre o Regime Alimentar, p. 384).

A Sra. White já dizia, inclusive, que a carne contém elementos cancerígenos – isso que no tempo dela os animais viviam livres, comendo basicamente pasto. Os anos passaram e hoje existem inúmeros estudos que comprovam cientificamente os malefícios da dieta cárnea. Destaque para as pesquisas da Universidade de Loma Linda, na Califórnia, e o Estudo Advento, da USP.

O médico brasileiro Hildemar Santos é professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de Loma Linda, e escreveu em 2015 um artigo intitulado “A carne é fraca”, curiosamente, quase o mesmo nome da operação da Polícia Federal que desmantelou o esquema de venda e distribuição de carnes estragadas e contaminadas. Na época, o Dr. Hildemar lembrou que a Organização Mundial de Saúde havia apresentado um relatório colocando a carne processada na classe 1 de carcinogênicos, o que apontou como fator definitivo para o câncer do intestino carnes tipo salsichas, linguiças, presunto, bacon, hambúrguer e mortadela.

O mesmo relatório classificou a carne vermelha como fator provável para o câncer, e colocou a carne processada na mesma posição que o cigarro e o álcool como fatores cancerígenos definitivos. “A gordura saturada da carne aumenta o colesterol e a presença de ácidos graxos livres os quais bloqueiam os receptores celulares de insulina, causando aumento da glicose no sangue. As carnes defumadas e o churrasco, ou carne assada num sistema em que a gordura derrete, é superaquecida e produz fumaça que impregna a carne com benzopireno, o qual é uma das substâncias cancerígenas do cigarro”, explica o médico.

O Dr. Hildemar conta que um dia encontrou uma pessoa que admitiu: “Trabalho em um matadouro local [nos Estados Unidos] e tenho visto todo o tipo de animais mortos. Muitas vezes uma vaca é sacrificada porque está muito doente e sua carne é extraída e enviada para o açougue. Se a carne já está contaminada aí é enviada para a fábrica de salsichas ou carne processada, onde é misturada com químicos que tiram o cheiro, retornam a cor vermelha e mantêm a textura. Em minha opinião, esta é a causa de câncer: carne de vaca deteriorada, mas recuperada com químicos.”

Como se pode ver, a venda de carnes duvidosas não é privilégio do Brasil e é uma prática de longa data. Os últimos fatos divulgados na mídia apenas servem novamente de alerta e podem ajudar a motivar algumas pessoas a fazer mudanças em seu estilo de vida. Para os adventistas, isso não deveria ser novidade, afinal, há mais de cem anos sabemos que “cânceres, tumores e toda enfermidade inflamatória são causados em grande parte pelo alimento cárneo. Segundo a luz que Deus me deu, a predominância do câncer e dos tumores é em grande parte devida ao uso abundante de carne de animais mortos” (Ellen G. White, Conselhos Sobre o Regime Alimentar, p. 388, texto originalmente escrito em 1896).

É bom saber que pessoas que não pertencem à Igreja Adventista, como a terapeuta Karen Couto, estão reconhecendo o tesouro que Deus legou à Sua igreja e sendo beneficiadas por esse conhecimento. Quando será que os destinatários primários desse presente darão a ele o devido valor?

Michelson Borges

Calças apertadas causam dor nas costas

Quando a vaidade esbarra na saúde
Um novo estudo realizado pela British Chiropractic Association indicou os cinco principais itens no seu armário que podem estar causando dores nas costas. Os quiropraxistas revelaram que, apesar de alguns deles parecem óbvios (como sapatos de salto alto), muitas de nós não imaginávamos os culpados por aquele incômodo que vez ou outra dá as caras. Confira o top 5: (1) calça jeans skinny; (2) bolsas grandes dimensões e usadas de um lado do corpo; (3) casacos com capuz grande; (4) sapatos de salto alto; (5) sapatos abertos na parte de trás. Tim Hutchful, quiropraxista envolvido no estudo, explicou que os jeans de modelo skinny são um problema porque “restringem o livre movimento em áreas como os quadris e os joelhos, afetando a maneira como nos portamos”. E como a postura é um grande fator que contribui para a dor nas costas, usar calças desse corte todos os dias pode contribuir para incômodos fortes ao longo do tempo. [...]


Nota: Sem contar o aspecto inconveniente de revelar as formas femininas, o que vai de encontro ao princípio cristão da decência (leia mais aqui), o uso de roupas apertadas faz mal também para a saúde física. No século 19, Ellen White já havia advertido sobre a inconveniência das roupas apertadas (isso que ela nem estava se referindo à questão da decência, que se soma ao problema de hoje em dia):

“Parte alguma do corpo deve jamais ficar mal-acomodada por meio de roupas que comprimam qualquer órgão, ou restrinjam sua liberdade de movimento. As roupas de toda criança devem ser bastante folgadas a fim de permitir a mais livre e ampla respiração, e arranjadas de maneira que os ombros lhes suportem o peso” (A Ciência do Bom Viver, p. 382). 

“A cada pulsação do coração, o sangue deve fazer, rápida e facilmente, seu caminho a todas as partes do corpo. Sua circulação não deve ser estorvada por vestuários ou cintas apertadas, nem por deficiente agasalho dos membros. Seja o que for que prejudique a circulação, força o sangue a voltar aos órgãos vitais, congestionando-os. Dor de cabeça, tosse, palpitação, ou indigestão, eis muitas vezes os resultados” (ibidem, p. 271).

“O corpo feminino não deve no mínimo ser comprimido... O vestuário deve ser perfeitamente cômodo, para que os pulmões e o coração tenham ação sadia” (Mensagens Escolhidas, v. 2, p. 478). 

sábado, março 18, 2017

Criacionismo em aulas de ciências: a polêmica continua

O assunto tem muitas implicações
Todos os anos, quando Angela Garlington aborda a origem da Terra em sua aula de ciências no ensino médio de um colégio público do Texas, menciona, entre outras teorias, a do criacionismo, segundo a qual toda a vida no nosso planeta foi criada por Deus. “Eu digo simplesmente aos meus alunos que, como jovens adultos educados, eles têm direito a escolher em que acreditam”, explica essa professora de Odessa, uma cidade cuja economia gira em torno do petróleo. Essa postura, teoricamente, poderia implicá-la em ações judiciais. Mas os parlamentares do Texas estão analisando, justamente, um projeto de lei apresentado em fevereiro que protegeria os professores, como Garlington, que questionem as teorias científicas consideradas “polêmicas”. Texas é um dois oito estados dos Estados Unidos (em um total de 50) onde essas leis foram apresentadas desde o começo do ano, junto com Alabama, Arkansas, Dakota do Sul, Flórida, Indiana, Iowa e Oklahoma.

O debate está presente há décadas nos Estados Unidos: a religião deve entrar nas aulas de ciências? Segundo uma pesquisa do Gallup de 2014, mais de um em cada três americanos (42%) acredita na teoria do criacionismo, segundo a qual Deus criou os humanos em sua forma atual há cerca de 10.000 anos.

A batalha entre a teoria da evolução e a do criacionismo é particularmente forte no sudoeste conservador do Texas. Em um colégio da pequena cidade de Stanton, dedicada ao cultivo de algodão, a 45 minutos de Odessa, Kimberly Villanueva quer equilibrar a balança. “Tive alunos no ano passado que se levantaram e saíram da sala de aula quando falamos sobre a tectônica e a evolução”, contou a professora, lembrando que lhe perguntaram: “Mas você não acredita em Deus?”

Segundo a legislação atual, Villanueva não está autorizada a responder essa pergunta ou a defender sua posição. Mas, se o projeto de lei apresentado no Texas for aprovado, ela acredita que finalmente poderá dar continuidade a essa conversa e talvez conseguir “abrir também essas mentes para as possibilidades científicas”.

Muitas batalhas judiciais marcaram décadas de luta em torno ao ensino do criacionismo nas escolas americanas. Com a nova legislação proposta, explicam seus defensores, as disputas jurídicas seriam evitadas, porque os professores teriam a opção de mencionar teorias religiosas nas aulas de ciências, embora sem estar obrigados a isso.

Mas os que se opõem a essas iniciativas, tanto no Texas quanto em outros lugares, acreditam que o que elas buscam é eliminar a separação entre a Igreja e o Estado, consagrada na Constituição dos Estados Unidos. “Desde 2004, quando a primeira dessas leis apareceu no Alabama, tivemos cerca de 70 em todo o país”, disse Glenn Branch, diretor adjunto do Centro Nacional para a Educação Científica, organização contrária à introdução da religião nas aulas de ciências.

Luisiana aprovou uma legislação assim em 2008, e Tennessee em 2012. No entanto, nos estados conservadores de Dakota do Sul e Iowa, os parlamentares bloquearam neste ano outras iniciativas similares.

Através de cartas e contatos com os legisladores, pessoas como David Evans, diretor-executivo da Associação Nacional de Professores de Ciências dos Estados Unidos, foram essenciais para que essa iniciativa fosse descartada em Dakota do Sul. “Somos defensores fervorosos do ensino das ciências nas aulas de ciências e somos profundamente contra o ensino de qualquer outra coisa nas aulas de ciências”, afirma.

Angela Garlington assegura que nunca teve problemas por ter misturado ciência e religião nas suas aulas no Texas. “Não sei se meus colegas abordam os diferentes pontos de vista sobre um tema polêmico, mas eu sempre fiz isso e sem dúvida continuarei fazendo”, aponta.


Nota: Antes de mais nada, é preciso dizer que os criacionistas organizados no Brasil são contra o ensino desse modelo em aulas de ciências (clique aqui e saiba por quê). Mas também é preciso pontuar algumas coisas em relação à matéria acima: (1) Ensinar criacionismo não precisa ser, necessariamente, ensinar religião, até porque há mais de uma religião que defende e criacionismo (cristãos bíblicos e muçulmanos, por exemplo), e não é preciso se ater aos aspectos religiosos do modelo. Ensinar criacionismo poderia ser uma forma de mostrar aos alunos que o evolucionismo pode ser desafiado à altura e que existem insuficiências epistêmicas na teoria da evolução. Os alunos deveriam ter o direito de saber disso. Ensinar criacionismo poderia ser uma forma de mostrar que a ideia de um Criador não se trata apenas de “religião”, mas que existem, sim, evidências de um design inteligente na natureza. Enfim, ensinar criacionismo poderia ser uma forma de abordar o contraditório e dar aos alunos a oportunidade de conhecer um modelo alternativo e fazer escolhas, afinal, a verdadeira educação consiste em ensinar a pensar e julgar, não em passar conteúdo do caderno do professor para os cadernos dos alunos – às vezes sem passar pela cabeça de nenhum deles. (2) O texto acima informa que um terço dos norte-americanos crê que Deus criou o ser humano em sua forma atual. Falso. Deus criou o ser humano perfeito e, por causa do pecado, a humanidade – e toda a vida na Terra – está “involuindo”, degenerando. E isso não é difícil de provar cientificamente. (3) Criacionistas aceitam alguns aspectos da teoria da evolução, como a seleção natural, por exemplo. E seria importante mostrar isso aos alunos. (4) Religiosos como os adventistas do sétimo dia defendem a separação entre a igreja e o Estado, pois entendem que a união dessas duas instituições trará grandes problemas para as religiões “periféricas” e para a liberdade religiosa. O eventual ensino do criacionismo não deveria ser associado ou atrelado a essa bandeira que atende aos interesses de uma ala política norte-americana. (5) Enfim, esse é um tema que envolve muitas discussões, inverdades, distorções e interesses. Por isso, por enquanto, o melhor a fazer é seguir a orientação da Sociedade Criacionista Brasileira. [MB]

sexta-feira, março 17, 2017

A fé no banco dos réus. De quem?

Frigoríficos vendem carnes podres e contaminadas

Vai uma carne podre aí?
Dentre as irregularidades investigadas pela Operação Carne Fraca, da Polícia Federal (PF), estão a liberação de lotes de carne estragadas, contaminadas com bactérias e com utilização de produtos cancerígenos. A operação é a maior da história da PF e foi deflagrada na manhã desta sexta-feira, apurando irregularidades na fiscalização de frigoríficos. Em nota, a Polícia Federal informou que aproximadamente 1.100 policiais federais estão cumprindo 309 mandados judiciais, sendo 27 de prisão preventiva, 11 de prisão temporária, 77 de condução coercitiva e 194 de busca e apreensão em residências e locais de trabalho dos investigados e em empresas supostamente ligadas ao esquema. Essa é a maior operação policial da história da PF.

Segundo decisão da justiça, a veterinária da Peccin Industrial Ltda – empresa envolvida nos casos investigados – relata “a utilização de carnes estragadas na composição de salsichas e linguiças, a ‘maquiagem’ de carnes estragadas com a substância cancerígena ácido ascórbico, carnes sem rotulagem e sem refrigeração”.

A Polícia Federal também interceptou conversa entre dois integrantes do Ministério da Agricultura falando sobre a transferência de uma fiscal que teria encontrado problemas de infecção com a bactéria Salmonella em lote da empresa Rio Verde e tomava medidas para fechar essa unidade de produção.


Nota 1: Grandes marcas como a Friboi, a Seara e a Swift estão envolvidas nas investigações. Clique aqui para conferir. E o delegado disse que toda a carne consumida no Brasil está sob suspeita (confira). A carne boa já tem coliformes fecais (confira).

Nota 2: O aviso foi dado há mais de cem anos: “A carne nunca foi o alimento melhor; seu uso agora é, todavia, duplamente objetável, visto as moléstias nos animais estarem crescendo com tanta rapidez. [...] Quando os que conhecem a verdade tomarão atitude ao lado dos princípios corretos para o tempo e a eternidade? Quando serão fiéis aos princípios da reforma de saúde? Quando aprenderão que é perigoso usar alimentos cárneos? Estou instruída a dizer que, se em algum tempo foi seguro comer carne, não o é agora” (Ellen G. White, Conselhos Sobre o Regime Alimentar, p. 384).

Neste mundo de alta produção e alto consumo, com preocupação excessiva com a lucratividade, com fiscalizações ineficientes, o que garante a boa procedência de produtos perecíveis e altamente contamináveis como a carne? Quem quiser continuar comendo é por sua conta e risco. 

quinta-feira, março 16, 2017

Que marca Deus colocou em Caim?

Cicatriz, tatuagem ou cor da pele?
Vamos analisar o texto de Gênesis 4:15-17, onde a bíblia nos conta qual a medida protetiva que foi colocada sobre Caim, após ele ter assassinado seu irmão Abel. Nesse texto, Deus protege Caim de qualquer punição além daquela que Ele mesmo ordenou. Se alguém vingasse a morte de Abel, matando Caim, seria punido sete vezes mais. Deus não queria mais mortes e vinganças na Terra. A parte mais intrigante do texto é quando Deus coloca uma marca em Caim para que ninguém o ferisse quando o encontrasse. Que marca era essa? A natureza do sinal em Caim tem sido um assunto de muito debate e especulação. A palavra hebraica traduzida como “sinal” é ‘owth e se refere a uma “marca, sinal ou símbolo”. Em outros lugares nas Escrituras Hebraicas, ‘owth é usado 79 vezes e é mais frequentemente traduzido como “sinal”. Assim, a palavra hebraica não identifica a natureza exata do sinal que Deus colocou em Caim. O que quer que tenha sido, era um sinal/indicador de que Caim não deveria ser morto. Alguns propõem que a marca era uma cicatriz ou algum tipo de tatuagem. Seja qual for o caso, a natureza exata da marca não é o foco da passagem. O foco é que Deus não permitiria que as pessoas se vingassem contra Caim. Qualquer que tenha sido esse sinal, seu propósito foi alcançado.

No passado, muitos acreditavam que o sinal em Caim era uma pele escura – que Deus mudou a cor da pele de Caim para preta a fim de identificá-lo. Já que Caim também recebeu uma maldição, a crença de que a marca era a pele negra levou muitos a acreditar que as pessoas de pele escura eram amaldiçoadas. Muitos usaram esse ensinamento da “marca de Caim” como justificativa para o comércio africano de escravos e a discriminação contra as pessoas de pele negra/escura. Essa interpretação da marca de Caim é completamente antibíblica. Em nenhum lugar da Bíblia hebraica ‘owth é usado para se referir à cor da pele. A maldição sobre Caim em Gênesis capítulo 4 foi no próprio Caim. Nada é dito da maldição de Caim sendo passada aos seus descendentes. Não há absolutamente nenhuma base bíblica para afirmar que os descendentes de Caim tinham a pele escura. Além disso, a menos que uma das esposas dos filhos de Noé fosse descendente de Caim (possível, mas improvável), a linhagem de Caim foi encerrada pelo dilúvio.

Qual foi a marca que Deus colocou em Caim? A Bíblia não diz. O significado desse sinal - que Caim não deveria ser morto - era mais importante do que a natureza do sinal em si. O que quer que tenha sido, não tinha conexão nenhuma com a cor da pele ou uma maldição sobre as gerações descendentes de Caim. Usar esse sinal como desculpa para o racismo ou discriminação é absolutamente antibíblico.

O que podemos dizer é que: (1) a marca de Caim era pessoal e intransferível; (2) a marca de Caim era visível e compreensível; e (3) a marca de Caim era um sinal da misericórdia de Deus.

(Texto adaptado de Got Questions, via Onze de Gênesis