terça-feira, setembro 02, 2014

Adolescente lança livro sobre anjos e demônios

De 22 a 31 de agosto, foi realizada a 23ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, no Anhembi. Entre os milhares de autores, estava a paulistana Ana Beatriz Brandão. Ela tem apenas 14 anos e já escreveu 12 livros. Ana estava lá na Bienal autografando seu primeiro livro publicado, lançado pela editora Novo Século: Sombra de um Anjo. De acordo com a autora, o livro é resultado de um sonho “doido” que ela teve aos 12 anos, durante uma viagem. Fã de Harry Potter, Ana pretende lançar seus outros livros e, quem sabe, transformá-los em filmes.

Segundo matéria publicada pelo A Crítica, “o livro narra uma batalha épica entre o céu e o inferno, onde a protagonista se vê em um dilema que assombra sua vida: fugir de suas visões e levar uma vida normal, ou usar o seu dom para salvar o destino da humanidade”. A resenha diz o seguinte: “Todos gostariam de ter um anjo-da-guarda, alguém que esteja sempre por perto, dando proteção e sendo um ombro amigo. A personagem Samantha Lyterin, do livro Sombra de um Anjo, tem um, literalmente. E não é apenas uma pessoa boa que está sempre ao lado dela, é Gabriel, o anjo mais famoso das histórias bíblicas. O guardião vem à Terra para proteger a garota de 17 anos que é atormentada desde criança por sombras e visões sobre o futuro.

“A história se passa em Sant’ France, universidade localizada ficcionalmente no Canadá, onde a protagonista ganha uma bolsa de estudos para estudar Biologia, depois que perdeu seus pais e sua mãe adotiva. A jovem, que sempre teve dificuldade para interagir com as pessoas, começa sua primeira amizade na faculdade com Helena, com quem divide o quarto. Em determinado ponto da saga, as visões de Samantha se tornam mais fortes e ela percebe que quem se aproxima dela corre riscos, já que todas as outras pessoas de que ela gostou morreram. Além disso, as sombras continuam a perseguindo e sussurrando em seu ouvido frases que despertam um temor ainda maior. É quando Gabriel aparece em sua vida, e ela não demora a perceber que ele é seu guardião e se apaixona por ele.” [Aliás, na história, Gabriel abre mão de sua imortalidade para ficar com a moça!]

Em entrevista concedida à revista Toda Teen, Ana conta como surgiu a ideia do livro: “Eu estava numa viagem, daí eu tive um sonho doido e a história do sonho ficou na minha cabeça. Depois, quando fui pra casa, comecei a formular a história e contei pra minha mãe sobre minha ideia. Então ela falou: ‘Por que você não tenta escrever? Você não vai perder nada se não der certo.’ Então eu comecei o livro.”

Em seu blog, a também adolescente Gabi Barbosa escreveu: “Samantha é uma menina diferente, órfã, sem muitos amigos, mas algo era mais diferente ainda: tinha visões que a atormentavam e sombras que a perseguiam. Com o passar do tempo, ela se descobre destinada a equilibrar a balança entre o bem e o mal. Como? Ficando entre os anjos e as sombras que buscam uma arma que fora forjada e que somente ela permitiria a ascensão de Lucian, o anjo caído poderoso que fora expulso do céu! E aí? Quem irá vencer? [..] Com um enredo cativante e personagens apaixonastes, desde o que amamos até o que amamos odiar, o livro nos prende a cada página nos deixando ávidos por mais e mais!”

Sombra de um Anjo é mais um livro (entre outros: confira aqui, aqui e aqui) que contribuem para mitologizar o relato bíblico do grande conflito entre o bem e o mal. Curiosamente, livros dessa natureza têm se tornado best-seller em nosso país e no exterior.

Detalhe: conhecedora da obra de Ana, uma colega editora aqui na CPB foi à Bienal com o objetivo de encontrar a escritora teen e dar-lhe um presente: o livro O Grande Conflito, de Ellen White. Minha amiga esperou na fila dos fãs que queriam um autógrafo da moça e, quando chegou sua vez de falar com ela, estendeu-lhe o pacote e disse: “Este livro conta o fim da história que você está escrevendo. Por favor, leia-o.”  

segunda-feira, setembro 01, 2014

Para Carta Maior, criacionismo é ataque à democracia

Quem de fato ameaça a democracia?
[Antes do artigo preconceituoso publicado na Folha, o Carta Maior publicou esta “pérola”. Atente para as expressões que eu grifei no texto. Meus comentários seguem entre colchetes. – MB] Se Deus criou o mundo e se ele existe é o que menos importa no debate sobre criacionismo. Fundamental, na crença de que Deus criou o mundo em sete dias, são e devem ser as implicações conceituais, históricas e políticas dessa caricatura de aparência inofensiva [e começam os impropérios]. Em primeiro lugar, quem acredita nisso não pode, por uma exigência lógica, acreditar que há evolução, história e Política [comentário dos mais rasteiros que já li. Que “exigência lógica” é essa? Por que alguém que não acredita na lenda da macroevolução naturalista não poderia acreditar na história e na política? O que uma coisa tem a ver com a outra? A história conta com registros escritos, documentos, evidências. Agora pergunto: Que evidências existem de que a vida teria surgido numa “sopa primordial”? De que uma célula, novos órgãos funcionais e planos corporais teriam surgido a partir do nada, com o aparecimento de informação genética – em muita! – sabe-se lá de onde?]. A imagem caricatural do fanático que denega a existência pregressa dos dinossauros tem veracidade: a existência e o processo de extinção dos dinossauros se deram, comprovadamente, num lapso de tempo maior do que sete dias. E os milhões de anos que separam a sua história da nossa, bem como a do planeta, tampouco podem ser contados na arregimentação do velho testamento feita pelos pentecostais. [Acreditar que os dinossauros foram extintos de maneira repentina – e há muitas evidências disso – torna a pessoa fanática? Basta discordar do fanatismo darwinista para se tornar um fanático religioso? E quem disse que são apenas os pentecostais que acreditam na veracidade do Antigo Testamento? Marina Silva é política e pentecostal. Entendeu a quem eles querem atingir com essa reportagem preconceituosa?]

Na hipótese estapafúrdia de uma jabuticaba pentecostal, isto é, de igreja evangélica peculiar ao Brasil, que admita alguma narrativa metafórica na tese da criação das coisas neste mundo e que, portanto, aceite a existência pregressa de dinossauros (o que implica aceitar a possibilidade de extinção, evolução, progressão e regressão de complexidade dos organismos, mecanismos intrínsecos de maior ou menor velocidade evolutiva, entre outras coisas), restaria a ser esclarecido como a criação das coisas do mundo em sete dias (ou anos, ou semanas, digamos) tornam inteligíveis a história e a Política. [?!?]

O fato é que não tornam, nem podem tornar. E aí reside o seu conflito e a sua aversão à democracia. E é por isso que os representantes pentecostais, em qualquer parte do mundo, advogam uma política descarnada, dogmática e refratária ao esclarecimento. Rejeitar uma ordem temporal biológica [nada disso! Uma ordem temporal darwinista], portanto, não é tão inofensivo, nem conceitual, nem historicamente, como as nossas certezas estéticas e de classe podem dar a ver. Não é o grotesco do ignorante subletrado o que deve incomodar, pelo menos não somente. O problema é a presença das suas crenças na nossa vida cotidiana, reivindicando poder sobre ela [então quer dizer que, para a autora deste texto, criacionista é aquele que crê em coisas grotescas, como o “ignorante subletrado”? Numa só frase ela comete duas injustiças e manifesta dois preconceitos]. E é revelador da penúria do debate político brasileiro, bem como da tibieza de sua esquerda, não levar a sério o caráter destrutivo, niilista e repressor dessas expressões políticas que estão, em maior ou menor grau, invadindo as esferas de decisão, formulação e comunicação. [...]

Importa menos que Marina Silva minta, ao dizer que não é incoerente, do que acredite nos próprios delírios ou mentiras: as suas crenças são descarnadas o suficiente para que ela se veja como plenamente coerente e aí está a periculosidade do que ela representa. Ela, a horda evangélica e a banca que a apoia e defende acreditam numa coerência tão postulada como o são (não importa se os representantes da finança são ou não pentecostais, vai sem dizer) as suas teses sobre natureza humana, criação do mundo e funcionamento do Estado e da economia.

Essas crenças denotam um descompromisso genético com a experiência, com a vida encarnada, com as metáforas da vida cotidiana, com as contradições sociais e políticas. E deixaram, no mundo, um rastro de destruição pelo qual parte significativa do planeta paga, hoje, um alto preço, em desemprego, superendividamento, miséria e destruição ambiental. [Então a culpa por todas as mazelas do mundo agora é do criacionismo pentecostal? Será mesmo?]

É possível que Marina Silva diga hoje que jamais foi ambientalista, nunca foi de esquerda e, ainda assim, que não acredite que está mentindo, como claramente está. A sua visão de mundo autoriza essa conduta que, para quem é democrático, causa assombro, pela ausência total de qualquer respeito à alteridade, à memória e à experiência política. Não há coisa alguma de acidental nos pronunciamentos da candidata missionária. O criacionismo, como se pode inferir, denega o acaso, ao contrário do darwinismo, que o toma como constitutivo. [...]

É claro, para quem leu Darwin e leva o legado e as implicações do darwinismo a sério, que ambientalista criacionista é um círculo quadrado. Trata-se de algo impensável, tamanha a impossibilidade lógica. É nota característica da penúria de nossas escolas e da vida política da esquerda a negligência com esse debate, com o que está nele implicado. É assim que a candidata do PSOL à presidência, num rasgo de brutal ignorância, perdeu a melhor chance de expor Marina Silva, no debate da Band. A ignorância quanto às implicações do criacionismo tornam a exigência de respeito aos dissidentes sexuais, aos gays e às mulheres, uma luta frágil. [Será este tema – a questão dos homossexuais – a maior preocupação dos setores que se opõem ao criacionismo, uma vez que, segundo o Gênesis que eles criticam, casamento é unicamente a união entre um homem e uma mulher? Sim, a Bíblia condena o estilo de vida homossexual, mas orienta os cristãos a respeitarem a liberdade alheia e a separar o pecado do pecador. E que história é essa de que criacionismo não combina com ambientalismo? Desde quando? É a própria Bíblia que estabelece que o ser humano cuide da natureza, como administrador (mordomo) dela. E isso está justamente lá no Gênesis. Se essa recomendação divina tivesse sido seguida desde a origem, não teríamos que nos preocupar hoje com o esgotamento dos recursos naturais e com a poluição.] [...]

Não há compatibilidade conceitual entre criacionismo, fundamentalismo de mercado, por um lado, e democracia, por outro. Há um conflito. E deve haver, para a sobrevivência da democracia e da atual experiência democratizante, sem precedentes, já vivida por este país. [Quer dizer que, além de fanático, fundamentalista e otras cositas mas, o criacionista é também um inimigo da democracia? Será que a autora desta pérola se esquece de que as maiores ditaduras deste planeta foram praticadas justamente em países que baniram a religião?]

(Katarina Peixoto, Carta Maior)

Nota: A título de comparação: o Brasil tem enorme quantidade de evangélicos, muito mais do que de homossexuais. Mas eleger a cidadã Marina Silva seria um ataque à democracia, ao passo que ter eleito o deputado heterofóbico Jean Wyllys não foi (político para quem união civil entre gays seria a mesma coisa que casamento de negros). Outra coisa: apenas imagine o que aconteceria se um articulista usasse a expressão "horda gay". Sai de baixo! Vai estender este país... [MB]

Nota da advogada Michela Borges Nunes, de Criciúma, SC: “Lamentável... Muitos se indignam com atos preconceituosos envolvendo raça ou sexo, por exemplo, o que pode acarretar, inclusive, um processo judicial contra o agressor. Agora, chamar de fundamentalista ou ofender uma pessoa a ponto de desqualificá-la para um cargo por causa de suas crenças, ah, isso é permitido. E o direito constitucional de liberdade religiosa? É um direito, assim como o de igualdade, garantido pela Lei Maior do País. Logo, todos também deveriam se indignar com tamanho preconceito da cidadã que se atreveu a escrever esse artigo.”

Leia também: “Marina costuma recorrer a versículos da Bíblia para tomar decisões” [E se ela consultasse o horóscopo ou fizesse despacho, seria notícia? Pelo jeito, a tendência agora vai ser desviar a atenção do eleitor para detalhes periféricos e esquecer as propostas de governo.]

domingo, agosto 31, 2014

Articulista da Folha acusa Marina Silva de fundamentalista

O defeito dela é crer na Bíblia?
A inesperada candidatura da Sra. Marina Silva à Presidência da República deixa perplexos tanto a população como a opinião pública, inclusive os mais avisados. Todos reconhecem sua honestidade e inquestionável obstinação pelo progresso do homem brasileiro. Mas, por que então esse embaraço? Essa inquietação? Detecto, em casos extremos, cidadãos bem-intencionados que dizem que votarão em Marina, mas que, consciente ou inconscientemente, preferem que ela perca. Por que essa ambivalência? Não é por causa de seu apego a questões ecológicas, certamente, pois percebemos que as circunstâncias e as necessidades materiais imporão limites realistas a eventuais ações nesse campo. Não é por medo de inadequação em gestão, pois sua equipe, principalmente aquela que a assistia quando montava o seu partido, a Rede, inclui executivos, economistas e intelectuais reconhecidamente competentes.

Resta considerar suas crenças mais íntimas, inclusive religiosas. Minha convicção é a de que o comentarista não tem o direito de especular sobre a religião das pessoas que analisa. Todavia, há exceções quando se suspeita que essas crenças possam ter influência no bem-estar do povo. É o caso de fundamentalismos, inclusive o criacionismo.

Marina Silva, no passado, admitiu essa sua convicção. Ultimamente, evita discussões sobre o problema. Pois bem, não me sinto confortável em ter como presidente uma pessoa que acredita concretamente que o Universo foi criado em sete dias há apenas 4.000 anos [sic], aproximadamente.

Pois, para isso, é preciso ignorar a montanha de dados cientificamente incontornáveis e todo o patrimônio intelectual que a humanidade acumulou durante séculos. Percebo no fundamentalista cristão uma arrogância incomensurável, que apenas pode ser entendida como uma perversão intelectual, que não pode deixar de impor tendências cujos limites são imprevisíveis.

Muitos de seus seguidores vão perguntar qual seria a explicação para o fato de que tantos intelectuais (ou seriam pseudointelectuais) tivessem se integrado à Rede? Pois bem, Marina é um tesouro eleitoral, arrasta com ela uma multidão de eleitores bem-intencionados. Teria sido pelas suas ideias que esses economistas e intelectuais aderiram à Rede ou seria por causa do caudal aurífero eleitoral que, na sua liderança, perceberam?

Outros vão interpor contestações subjetivas como aquelas relacionadas às suas incontestáveis qualidades, tais como articulação oral, capacidade como debatedora, eloquência, etc. Ora, o fenômeno que foi chamado originariamente “idiot-savant” (savantismo) é hoje universalmente aceito.

A ciência reconhece que o cidadão pode atuar de maneira coerente em um campo, ser mesmo genial, enquanto em outras áreas do comportamento mostra-se incapaz, por vezes incontrolável. Ou seja, pior ainda. O fundamentalismo de Marina Silva não decorre da ignorância, mas de um defeito de percepção. Os especialistas chamam essa condição de desordem do desenvolvimento neural. Essa é a razão por que espero que Marina não ganhe esta eleição.

(Rogério Cezar de Cerqueira Leite, 83, físico, é professor emérito da Universidade Estadual de Campinas [Unicamp] e membro do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia e do Conselho Editorial da Folha; publicado na Folha de S. Paulo de 31/8/2014)

Nota: Será que Rogério se sentiria “confortável” com um presidente adepto do candomblé (já tivemos), do espiritismo (há inúmeros políticos espíritas) ou defensor da eugenia, como o ateu Richard Dawkins? Essas subjetividades religiosas também não representariam um risco? Marina se torna inapta pelo simples fato de crer no que a Bíblia ensina sobre a criação? Além de reforçar a ideia injusta segundo a qual os criacionistas seriam fundamentalistas (o que os aproximaria dos terroristas islâmicos), Rogério dá a entender que os criacionistas teriam algum tipo de debilidade intelectual! Ele ignora deliberadamente o rol de cientistas criacionistas que deixaram grande legado à humanidade, gente do quilate de Louis Pasteur, Blaise Pascal, Isaac Newton e vários outros. Eles também não eram dignos de confiança?

Rogério é, no mínimo, injusto em sua avaliação. Marina já deixou claro que concorda que tanto o evolucionismo quanto o criacionismo sejam ensinados nas escolas. Duvido que a tal “inquietação” a que o articulista se refere seja causada pelo fato de Marina ser religiosa, ou, na opinião dele, fundamentalista. A maioria das pessoas não está nem aí para isso. Essa “inquietação” pode se dever ao fato de que Marina despontou de repente (após a morte de Eduardo Campos) como potencial ameaça aos dois principais candidatos à Presidência da República. Talvez alguns a considerem inexperiente ou que ela poderá ter dificuldades para estabelecer parcerias necessárias à governabilidade.

De qualquer forma, Rogério parece preferir gente ligada à corrupção, aos desmandos políticos e às alianças espúrias, a alguém que tem um currículo aparentemente ilibado, boa família e fé consistente. Na verdade, alguém que é capaz de ser fiel ao seu Deus e a suas convicções (algo que ninguém vai cobrar dela) será também muito provavelmente fiel ao seu país. (Erro e injustiça semelhantes são cometidos por empregadores que dispensam guardadores do sábado pelo fato de essas pessoas colocarem acima de tudo sua fidelidade ao Criador. Com isso, esses empregadores perdem funcionários que certamente lhes seriam ainda mais leais.)

Se eu fosse cometer injustiça semelhante à de Rogério, poderia dizer que Hitler era darwinista (e quem disse isso foi a própria secretária dele) e Lênin, ateu. Mas não quero enveredar por esse caminho...

O texto de Rogério é simplesmente lamentável, e parece até encomendado para despertar o medo dos eleitores numa candidata cujo maior defeito, na visão enviesada dele, é crer que Deus criou o Universo e a vida. [MB]

Em tempo: Situação semelhante parece estar ocorrendo nos Estados Unidos (será que por causa da candidatura de outro criacionista, o Dr. Ben Carson?), onde ateus estão se organizando para fazer frente aos políticos religiosos. [Confira]

Leia também: "Leitores divergem de artigo sobre orientação religiosa de Marina Silva"

Isaac & Charles: homens de fé

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Seis maneiras de manter seus filhos seguros na internet

Quem tem filhos sabe que as crianças são ainda mais adeptas à tecnologia do que os adultos. Elas amam a internet e sabem que esse mundo é capaz de proporcionar muitas maravilhas, de joguinhos a videoclipes de suas bandas e desenhos favoritos. O que elas não sabem é como evitar vírus, cuidar da sua privacidade online, se comportar adequadamente em redes sociais, entre milhões de outros fatores que podem levantar questões de segurança. São os pais que têm que ensinar isso a elas. Confira seis dicas de especialistas em segurança para ensinar seus filhos a serem cidadãos responsáveis da internet:

1. Comece a discutir a segurança online em uma idade precoce. “Acho que uma das coisas fundamentais é iniciar o processo de discussão de segurança online com seus filhos em tenra idade, quando eles começarem a usar a internet”, diz David Emm, pesquisador sênior de segurança da empresa Kaspersky Lab Internet. Se eles ainda estiverem usando o computador com você, em vez de forma independente, isso oferece uma oportunidade para destacar o fato de que o mundo online é paralelo ao mundo real e que há coisas seguras e inseguras por lá. Você pode discutir assuntos como senhas e instalar softwares de proteção contra vírus. “À medida que [seus filhos] envelhecem e começam a fazer as coisas de forma independente, amplie o círculo. Por exemplo, ajude-os a criar uma senha sensata e explique por que eles devem usar senhas diferentes para cada conta e as possíveis consequências de não fazer isso”, explica Emm.

2. Não faça online o que não faria off-line. “O conselho que eu dou a minha própria família e amigos é: ‘Se você não faria cara-a-cara, não faça online’”, diz Shelagh McManus, advogada de segurança online para o software de segurança Norton by Symantec. “Por exemplo, você iria até um completo estranho e iniciaria uma conversa? Seria abusivo com amigos ou desconhecidos em um pub ou bar?”, explica. Explique aos seus filhos que, uma vez que eles tenham escrito algo online, não podem excluí-lo. É bom lembrar às crianças que tudo o que elas fazem na web é capturado para sempre e pode atrapalhá-las um dia. Muitos empregadores, por exemplo, “fuçam” perfis de mídia social ao pesquisar candidatos para empregos. Pode ser uma boa ideia ser amigo dos seus filhos em redes como Facebook, Instagram, Twitter, etc. Se eles pensarem em postar uma foto ou um comentário que acham que seus pais não deveriam ver, então é algo que provavelmente não pertence ao domínio público e eles serão menos propensos a compartilhar essa informação.

3. Cuidado com estranhos também vale online. Amichai Shulman, CTO da empresa de segurança de rede Imperva, costuma explicar a seus filhos que hackers são um tipo de criminoso que invade sua casa através do computador, em vez de através da janela. “É fácil para eles entenderem isso”, afirma. Ele ensina suas crianças a tomar cuidado com estranhos online tanto quanto deveriam no mundo físico. Por exemplo, ele não permite que seus filhos abram um e-mail se eles não souberem quem o enviou, da mesma maneira que eles não aceitariam um presente de um estranho. Vale também lembrar que muitas vezes crianças aceitam pedidos de contatos de pessoas que não conhecem porque o número de amigos em redes sociais se tornou uma espécie de “concurso de popularidade”. Pessoas que não têm boas intenções sabem disso e tentam se infiltrar dessa maneira no círculo íntimo das crianças e adolescentes. É bom lembrar aos seus filhos que eles não devem aceitar pedidos de amizade de estranhos em redes sociais.

Ainda, os pais podem explicar aos seus filhos o que é conteúdo impróprio e que na web também existem pessoas más. “Da mesma forma que, uma geração atrás, fomos informados para gritar alto quando éramos abordados por um desconhecido, nós dizemos às nossas meninas para nos contar imediatamente de qualquer abordagem online”, diz Dave King, executivo-chefe da empresa de gestão de reputação online Digitalis.

Do mesmo jeito que você conversa com seu filho sobre bullying, pode falar de bullying online (ou trolling), ou de pedófilos no mundo virtual. “Em última análise, queremos manter a inocência delas, mas se antes tínhamos que ter crianças que sabiam se virar na rua, agora precisamos de crianças que saibam se virar na internet”, argumenta King.

4. Comunicação é chave. “Eu falo com a minha filha regularmente sobre quais sites ela está usando e, dada a sua idade, eu pessoalmente veto todos os downloads de aplicativos. Desaa forma, eu posso fazer um julgamento sobre se acho que ele é seguro e apropriado para ela usar primeiro”, diz Samantha Humphries-Swift, gerente de produto da empresa de cibersegurança McAfee Labs. A comunicação é fundamental – seja aberto, acessível e compreensivo com seus filhos, para que se torne mais fácil para eles vir até você e pedir conselhos ou perguntar sobre algo que eles acharam estranho. Caso vocês tenham um bom diálogo, é provável que seu filho lhe pergunte primeiro antes de abrir um chat com um desconhecido, por exemplo.

5. Esteja junto com seus filhos quando eles usam a internet, ou os monitore de longe. Muitos pais não querem ser “espiões” nem ficar “fuçando” nas coisas dos filhos, o que é ok. Outros não podem estar sempre junto quando as crianças estão na internet, o que é normal também. Proibi-los de usar o computador na sua ausência não é uma boa ideia porque, no geral, proibido é mais gostoso. Sendo assim, peça para ver os dispositivos móveis dos seus filhos de vez em quando. Ou esteja por perto, vez ou outra, quando eles estiverem navegando a internet. Vale a pena dar uma olhada em quais aplicativos estão instalados no seu celular e, caso não esteja familiarizado com algum deles, faça uma investigação. Dessa forma, você pelo menos conhece os tipos de serviços de mídia social que seu filho está usando e para que servem.

6. Ensine seus filhos como evitar os principais problemas de segurança online. Não custa explicar aos seus filhos coisas como “sites podem te redirecionar para outros sites sem que você esteja consciente”, “não baixe aplicativos que você não sabe para que servem”, “baixar arquivos online traz um risco de vírus, use o software antivírus primeiro”, “não compartilhe informações pessoais, como telefone, através da internet, a não ser que você saiba que aquele compartilhamento é privado”, etc.

Outra dica é: para educar, é preciso aprender. Se você não sabe, aprenda primeiro, depois passe a informação a seus filhos.

“Não entregue qualquer dispositivo conectado à internet a seus filhos antes de saber como ele funciona. Eu conheci pais que não estavam cientes de que um iPod podia se conectar à internet, deram um a seu filho de 10 anos de idade que, em seguida, conseguiu compartilhar um vídeo da filha de seu vizinho de biquíni. Os vizinhos ficaram, com razão, chateados”, explica François Amigorena, executivo-chefe da empresa de software IS Decisions.

sexta-feira, agosto 29, 2014

Resposta de um pai à proposta absurda de Dawkins

"Aborte isso e tente de novo"
“Aborte isso e tente de novo. Seria imoral trazer isso ao mundo se você tivesse escolha.” Assim tuitou o mais famoso cientista ateu do mundo, Richard Dawkins, distribuindo aconselhamento moral sobre bebês com Síndrome de Down. Para um cientista, ele não parece saber muito sobre bebês. Existem duas “variedades”: ele ou ela. Não existe “isso”, como ele escreveu na rede social. Dawkins postou a insensível declaração ao responder a outro tuíte, em que uma mulher tinha afirmado que enfrentaria um verdadeiro dilema ético se estivesse grávida de uma criança com Síndrome de Down. O comentário de Dawkins não surpreende. Afinal, ele tem uma longa história de utilitarismo. O autor de The God Delusion [Deus, um Delírio, na tradução brasileira] enxerga o mundo da seguinte forma:
 
“Num universo de elétrons e genes egoístas, de forças físicas cegas e de replicação genética, algumas pessoas vão se machucar, outras pessoas vão ter sorte, e você não vai encontrar nenhuma rima nem razão para isso, nem qualquer tipo de justiça. O universo que observamos tem precisamente as propriedades que são de se esperar que ele tenha, dando-se a premissa de que não existe nenhum desígnio, nenhum propósito, nenhum mal, nenhum bem, nada além de impiedosa indiferença.”

Para Dawkins, quem se encaixa nisso, intelectual e impiedosamente, sobrevive e tem o imperativo moral de passar por cima do resto. Além dessa visão de mundo, é bom lembrar também que Dawkins apoia o infanticídio, seja pelo motivo que for:
 
“E quanto ao infanticídio? De um ponto de vista estritamente moral, eu não vejo objeção alguma a ele. Eu seria a favor do infanticídio.”

Os usuários do Twitter ficaram horrorizados com o comentário de Dawkins sobre o “imperativo moral” de abortar crianças com a Síndrome de Down. É um comentário que vai muito além de defender que as mulheres possam abortar uma criança com deficiência.

É claro que Dawkins não está sozinho nessas crenças. Virginia Ironsides, escritora e provocadora britânica, chocou o público do canal BBC ao dizer: “Se um bebê vai nascer com deficiência grave ou é totalmente indesejado, o aborto é, evidentemente, o ato de uma mãe amorosa.” Ela não parou por aí: “Se eu fosse a mãe de uma criança que estivesse sofrendo profundamente, eu seria a primeira a querer colocar um travesseiro em cima do rosto dela. Se ela fosse uma criança que eu realmente amasse, que estivesse em agonia, eu acho que qualquer boa mãe faria isso.”

Voltemos a Dawkins. Depois do tuíte chocante, ele acabou publicando um pedido pouco convincente de desculpas:

“O que eu disse decorre logicamente da postura pró-direito de escolha que a maioria de nós, eu presumo, apoia”, escreveu ele. “A minha fraseologia, por falta de tato, pode ter ficado vulnerável ​ao mal-entendido, mas eu não posso deixar de achar que pelo menos metade do problema consiste na ânsia desenfreada de não entender.”

Ou seja: as palavras dele eram “vulneráveis ​​ao mal-entendido”, mas a culpa é nossa porque somos “desenfreadamente ansiosos por entender mal”. Dizer o quê?

O conselho de Richard Dawkins não era tão complexo a ponto de as pessoas comuns quererem desenfreadamente interpretar mal a declaração que ele fez: “Aborte isso e tente de novo. Seria imoral trazer isso ao mundo se você tivesse escolha.” É uma declaração mais do que clara para mim.

A melhor resposta para esse “conselho” veio de uma fonte inusitada: de um cientista e fã dos livros do próprio Dawkins. Esse leitor confessou que teria concordado com o conselho de “abortar isso”, caso o tivesse lido 18 meses antes. Ele explica:
 
“Eu entendo de forma implícita o ponto de vista do professor. O que ele diz continua fazendo todo o sentido lógico para mim. A conclusão dele é natural quando se aborda o dilema a partir de uma perspectiva lógica, usando-se as informações disponíveis, com uma mentalidade objetiva e (fundamentalmente) com um ponto de vista não religioso. Há 18 meses, eu teria até concordado.

“Mas a chegada da minha filha, que nos surpreendeu por ter precisamente essa condição [da Síndrome de Down], fez brilhar uma luz sobre o abismo da nossa ignorância, sem falar do preconceito factualmente incorreto que subjaz a esta opinião. Ao reler a opinião do professor, eu fico horrorizado, agora, ao pensar no que eu mesmo poderia ter feito se a doença [da minha filha] tivesse sido diagnosticada durante a gravidez [da minha mulher].

“Eu sei o quanto as nossas vidas são mais plenas, agora que os nossos olhos estão abertos. Mais do que isso: eu fico espantado ao ver que tudo continua sendo absolutamente normal, tanto para nós quanto para as outras famílias que conheci.

“Sem saber, o nosso bebê já nos ensinou as lições mais incríveis da nossa vida até aqui. E nós não mudaríamos literalmente nada em nossa filha, em especial no perfil genético dela. O que mudou completamente foram as minhas ideias sobre o que seria o sucesso na vida e sobre o que eu desejaria para todas as nossas crianças. Eu sempre chego à mesma conclusão: o que importa, no fim das contas, é a felicidade e a alegria, e eu sei que a Rosie vai ter isso em abundância.

“Graças a ela, eu acredito que nós teremos mais condições de incentivar o sucesso da irmã dela e do irmãozinho que ela vai ter, agora que estamos livres daquela ideia de que o sucesso na vida depende da realização acadêmica, da carreira e do dinheiro. Muitas dessas coisas podem levar uma pessoa ao fracasso total, mesmo que os pais dela comemorem o ‘trabalho bem feito’.”

Cientista brasileiro vai ao CERN da questão

Dr. Eberlin, em visita ao CERN
Nesta semana, participei do 20º Congresso Internacional de Espectrometria de Massas. Para um brasileiro, um grande privilégio, pois, como presidente da Sociedade, tive pela segunda vez, como em Kyoto, no Japão, o privilegio de presidir o congresso. No programa, tivemos uma visita ao CERN (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear), em Genebra, na Suíça, que ficou ainda mais famoso por ter sido feita nele a descoberta da “partícula de Deus”, o bóson de Higgs. Foi uma visita espetacular e, ao mesmo tempo, chocante. Tivemos uma palestra com um dos diretores do centro. Falaram então que o big bang formou o Universo, mas que a energia, ao se transformar em matéria, formou a matéria e a antimatéria, da mesma forma que as colisões lá no CERN também formam, matéria e antimatéria, mas que, pasme, a metade do Universo que o big bang deveria ter formado simplesmente “desapareceu”. Veja bem! Pode, gente?

Cientistas anunciaram que descobriram a origem do Universo e aí apresentam um modelo que deveria formar duas coisas, mas que a gente só observa uma, e que a outra simplesmente sumiu? Será que eu, como cientista, posso falar, por exemplo, que identifiquei uma molécula como sendo cocaína, e aí o juiz me pergunta como, e eu digo que detectei só metade da molécula e que a outra metade simplesmente desapareceu do meu espectro? Ele vai acreditar e pôr o bandido na cadeia? Que a massa da molécula deveria ser 300, mas eu detectei 150 e a outra metade sei lá para onde foi, mas que é cocaína, sim?

Pior: aí falaram que entendemos somente 4% do Universo e que 96% de sua energia são desconhecidos. Uma vergonha (what a shame), o palestrante disse. E – pior ainda – aí veio a pior enganação, pois foi dito que após a grande explosão e o desaparecimento mágico de metade do Universo, a maior mágica: a formação do hidrogênio e do hélio, e que, pasme de novo, a “gravidade” foi que atraiu o H2 e o Hélio para formar estrelas. Mas que absurdo, gente! Bem ali na minha frente foi dito um absurdo desse! Posso não ser físico e não entender tão bem de matéria e antimatéria – que até entendo um pouco –, mas quanto à estrela eu sei bem que isso é pura ilusão. Gravidade mantém, mas não forma estrelas. Gravidade só pode ser invocada em cosmologia, mas em química temos que usar forças eletromagnéticas, se quisermos atrair moléculas e átomos. E, como eu discuto com detalhes no Fomos Planejados, não existe força neste Universo capaz de tornar em estrela uma nuvem gasosa de hidrogênio e hélio em expansão. Impossível. Tente comprimir gás e você verá que a pressão aumenta e ele escapa. Como cientistas podem falar uma inverdade dessas? 

Ou seja, além do milagre do desaparecimento da antimatéria, uma benção sem igual, pois senão o Universo colapsaria em si mesmo – eta, santo bom, milagroso e poderoso! –, temos outros grandes e enormes milagres; uma cascata deles, que acontecem por todo o Universo, de forças misteriosas que comprimem gases para formar estrelas. E mesmo que formadas, essa estrelas que explodiram no estágio de supernovas teriam espalhado um sem numero de buracões negros pelo Universo que, como a antimatéria também, simplesmente... desapareceram! Mais milagres sem santo!
 
Vista do acelerador de partículas do CERN
Aí tem outro problema que eles nem sequer comentaram, e eu como visitante fui educado em não perguntar: mesmo que estrelas milagrosamente se formassem e supernovas explodissem, o que elas formariam? Um puff cósmico fofo e poeirento que só... que jamais formaria os planetas rochosos incandescentes, a Terra. Sem falar de onde teria vindo a água e tudo o mais.

Ou seja, eu estava 99% convencido de que a ciência não tem a menor ideia de como este Universo foi formado. Hoje estou 110% convencido, racionalmente esclarecido. Pois não tenho essa fé, fé em milagres seguidos, múltiplos; milagres sem santo. E fui ao CERNe da questão para ter essa certeza.

Vídeos e palestras sobre sexualidade





quinta-feira, agosto 28, 2014

Encontradas semelhanças entre vermes, moscas e humanos

E as diferenças?
Biólogos afirmaram nesta quarta-feira (27) que a máquina genética de seres humanos, moscas das frutas e vermes nematódeos é surpreendentemente similar em muitas formas, em uma descoberta que pode ajudar as pesquisas básicas sobre doenças. Um consórcio formado por mais de 200 cientistas comparou o genoma do homem moderno com o de duas criaturas amplamente estudadas em laboratório: a mosca das frutas (Drosophila melanogaster) e uma criatura microscópica denominada nematódeo (Caenorhabditis elegans). Embora as três espécies sejam obviamente diferentes, a evolução usou [sic] “ferramentas moleculares notavelmente similares” para formá-las, afirmam os cientistas. As três compartilham muitos genes e grande parte das chaves para ativar e desativar esses genes, segundo artigos publicados na revista científica Nature.

“Quando observamos as moscas e os vermes, é difícil crer que os humanos tenham algo em comum com eles”, afirmou Mark Gerstein, professor de informática biomédica da Universidade de Yale. “Mas, agora, nós acreditamos que podemos ver semelhanças profundas neles que nos ajudam a interpretar melhor o genoma humano”, prosseguiu.

Cerca da metade dos genes associados com cânceres e outras doenças hereditárias em humanos também existem no genoma da mosca das frutas, afirmou Sarah Elgin, professora de Biologia da Universidade de Washington em St. Louis, no Missouri. A descoberta poderia ser usada para afinar as pesquisas sobre terapia epigenética, acrescentou.

A epigênese é a chave que determina se um gene é silencioso ou funcional. Eles são influenciados pela idade avançada e estresse ambiental, como a exposição a tabaco ou ao álcool. Empresas farmacêuticas estão amplamente interessadas em medicamentos capazes de “reparar” genes disfuncionais. Mais de 70 medicamentos para tratamento epigenético são projetados só para tratar o câncer. Outras doenças alvo importantes são diabetes e mal de Alzheimer. [...]

(UOL Notícias)

Nota: Imagine alguém que desconhecesse a história dos modernos meios de transporte e observasse um navio, uma motocicleta e um avião. Os três têm motor, estruturas metálicas e dois deles têm rodas, além de outras similaridades. E se esse indivíduo concluísse, com base nas semelhanças, que os três meios de transporte são estágios da evolução de um a partir do outro, ou dos três a partir de um suposto “ancestral comum”? Estaria correto? Ou se, ao contrário disso, concluísse que as semelhanças estruturais apontam para um mesmo designer que teria utilizado estruturas funcionais semelhantes em mecanismos diferentes? Como se pode ver, é uma questão de interpretação. Agora, e se o designer revelasse os fatos (a verdade) por meio de um manual confiável, dizendo que todas as criaturas revelam sua “assinatura”, embora haja tremendas diferenças entre elas, assim como há entre um navio e um avião, por exemplo? Entre um ser humano e uma mosca (ou macaco), as diferenças são qualitativas e não apenas quantitativas. [MB]

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A formiga paulista e o plano B da evolução

Formiga evoluiu e se tornou formiga
Uma espécie de formiga parasita, descoberta no interior paulista, deu impulso para uma teoria de formação das espécies raramente comprovada. Encontrada no campus da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Rio Claro, o inseto – jamais visto em outro lugar do mundo – surgiu a partir de formigas de sua própria colônia, sem precisar se isolar geograficamente, de acordo com estudo publicado na última quinta-feira, na revista Current Biology. De acordo com a teoria mais comum do processo de especiação, entretanto, espécies novas aparecem a partir do isolamento geográfico de um grupo. “Conseguimos fortes evidências de que a especiação também pode acontecer dentro de uma mesma colônia. É raríssimo encontrar esse mecanismo”, diz Maurício Bacci Júnior, pesquisador do Instituto de Biociências da Unesp e um dos autores do artigo.

Especialista em formigas, Bacci descobriu a nova espécie em 2006, com o colega alemão Christian Rabeling, da Universidade de Rochester, ao escavar um formigueiro de Mycocepurus goeldii, espécie comum em toda a América do Sul. “Percebemos que havia formigas menores, o que geralmente é característica de parasitas”, explicou. Ao estudar o comportamento dos animais, os pesquisadores perceberam que a nova espécie – batizada de Mycocepurus castrator – é, de fato, parasita. Recebeu o nome de “castrator” por inibir a procriação da hospedeira. “Ela coloca todo o formigueiro a seu serviço. Enquanto as outras trabalham, ela come e se reproduz.”

De acordo com o cientista, para confirmar a origem da parasita, a equipe realizou um procedimento de datação com base em biologia molecular, relacionando o número de mutações a referências geológicas encontradas no formigueiro. Com um teste estatístico, foi determinado que a M. goeldii surgiu há cerca de 2 milhões de anos [segundo a cronologia evolucionista], enquanto a M. castrator apareceu há apenas 37.000 anos [idem].

“Isso nos deu a evidência de um raro caso de especiação simpátrica, isto é, de surgimento de uma nova espécie sem presença de barreiras geográficas.” Segundo ele, ao relacionar parasitismo e especiação simpátrica, o estudo abre caminho para novas descobertas.

Todas as formigas do gênero Mycocepurus são “agricultoras”: levam folhas para o formigueiro e as depositam em uma colônia de fungos, que degradam os vegetais. As formigas se alimentam dos resíduos. A formiga parasita, no entanto, apenas come o que as outras produzem e sua única atividade é procriar. “As hospedeiras se reproduzem, mas passam a gerar apenas formigas estéreis, que trabalham para a parasita”, explica Bacci.

Assim, a Mycocepurus castrator usa todo o sistema do formigueiro em seu benefício, sem precisar despender energia para outras tarefas além de gerar mais parasitas. “Ela não se arrisca fora do formigueiro, diante de predadores, nem para buscar comida ou para se reproduzir.”

(Veja)

Nota: Descoberta interessante que leva os cientistas a perceber que a vida é mais adaptável do que se pensa, não dependendo a especiação apenas do isolamento geográfico. Mas note um detalhe: tudo o que se viu na pesquisa foi especiação e o “surgimento” de uma nova... formiga. Mesmo assim, fala-se em evolução, o que traz à cabeça do leitor não familiarizado com os termos e os fatos a ideia de que, de uma ameba primordial, teriam surgido as formigas, os répteis, as aves e os seres humanos. O título que usei acima foi usado também na matéria publicada no jornal O Estado de S. Paulo. Na verdade, todos os veículos que repercutiram a descoberta utilizaram a palavra “evolução”, quando o assunto trata apenas de adaptação e especiação. É a mídia a serviço do konsenso. De qualquer forma, ao utilizar “plano b”, estão admitindo que algumas descobertas contrariam “verdades” tidas como certas no meio darwinista. Daqui a pouco, terão que partir para o “plano c”, o “plano d”, “o plano e”... [MB]

quarta-feira, agosto 27, 2014

Videos e palestras sobre criacionismo

















O mito de Galileu e a Igreja Católica

História com muitas lições
A verdadeira história em torno de Galileu Galilei não se trata de um cientista iluminado perseguido pela mesquinha Igreja Católica, visto que essa história é (em grande parte) um mito. Não é também a história de um grande gênio científico, embora ele tenha sido (em grande medida) isso mesmo. Não é também a história de alguém reencarnado com a alma do antigo astrônomo, tal como se ouve na canção das Indigo Girls, de 1992, que eu julguei ser (em grande medida) profunda. (Devo ressalvar também que não é a história verdadeira, mas, sim, uma que teve suas origens em outras fontes.) Mas como todas as boas histórias, ela nos disponibiliza uma lição (em grande medida) valiosa. Nos dias de Galileu, a visão predominante na astronomia era o modelo inicialmente proposto por Aristóteles e desenvolvido mais tarde por Cláudio Ptolomeu, em que o Sol e os planetas giravam em torno da Terra. O sistema ptolomaico foi o paradigma dominante durante mais de 1.400 anos, até que um cônego da Igreja Católica chamado Nicolau Copérnico publicou sua obra pioneira, com o nome De revolutionibus orbium coelestium (Da revolução de esferas celestes).

Convém notar que a teoria heliocêntrica de Copérnico não era exatamente nova nem era somente baseada nas observações empíricas. Embora ela tenha tido um impacto enorme na história da ciência, sua teoria foi mais um reflorescimento do misticismo de Pitágoras do que um novo paradigma. Tal como todas as grandes descobertas, ele apenas pegou uma ideia antiga e deu-lhe novas roupagens.

Embora os colegas eclesiásticos de Copérnico o tenham encorajado a publicar seu trabalho, ele atrasou a publicação durante vários anos, devido aos seus receios de ser ridicularizado pela comunidade científica. A essa altura, o mundo acadêmico pertencia aos aristotélicos e eles não tinham planos de deixar esse absurdo passar pelo seu processo de “revisão por pares” (peer review).

Foi então que chegou Galileu, o protótipo do homem da Renascença – cientista, brilhante, matemático e músico. E embora ele fosse inteligente, encantador e espirituoso, era também argumentativo, debochado e vaidoso. Pode-se dizer que ele era um homem complexo. Seu colega astrónomo Johannes Kepler escreveu-lhe uma carta dizendo que havia se convertido à teoria de Copérnico. Galileu escreveu-lhe de volta dizendo que também ele havia se convertido a essa teoria, e que havia anos que já assinava embaixo dela (embora todas as evidências revelem que isso não era verdade). Seu ego não lhe permitiria que fosse suplantado por pessoas que não eram tão inteligentes como ele; e, para Galileu, isso incluía praticamente todas as pessoas.

Em 1610, Galileu usou seu telescópio para fazer algumas descobertas surpreendentes que colocaram em cheque a cosmologia aristotélica. Embora suas descobertas não derrubassem propriamente o paradigma dos seus dias, elas foram bem recebidas pelo Vaticano e pelo papa Paulo V. No entanto, em vez de dar seguimento aos seus estudos científicos e à solidificação das suas teorias, Galileu deu início a uma campanha de descrédito da visão aristotélica da astronomia. (Nos dias de hoje, isso seria o mesmo que tentar destronar a teoria da evolução). Galileu sabia que estava certo e queria se certificar de que todos soubessem que os aristotélicos estavam errados.

Tudo o que Galileu conseguiu quando tentou forçar o copernicanismo pela garganta abaixo dos seus colegas cientistas foi desperdiçar a boa vontade que havia sido estabelecida dentro da Igreja. Galileu estava tentando forçar os outros a aceitar uma teoria que, por aquela altura, ainda não estava provada. Graciosamente, a Igreja ofereceu-se para considerar o copernicanismo como uma hipótese razoável, embora uma hipótese superior ao sistema ptolomaico, até que mais evidências fossem disponibilizadas.

Galileu, no entanto, nunca chegou a apresentar mais evidências para apoiar sua teoria. Em vez disso, continuou a provocar guerras com seus colegas cientistas, embora muitas das suas conclusões estivessem sendo refutadas pelas evidências (por exemplo, a tese de que os planetas orbitam em torno do Sol em círculos perfeitos).

Os erros de Galileu – O primeiro erro de Galileu foi o de transladar a luta do campo da ciência para dentro da interpretação Bíblica. Num ataque de arrogância, Galileu escreveu a “Carta a Castelli”, de modo a explicar que sua teoria não era incompatível com a adequada exegese bíblica. Com a Reforma Protestante ainda fresca na mente, as autoridades da Igreja não estavam com vontade de ter outra figura perturbadora tentando interpretar as Escrituras por conta própria.

Mas, para crédito da Igreja Católica, eles não reagiram de forma inadequada. A “Carta a Castelli” foi por duas vezes apresentada à Inquisição como um exemplo da heresia do astrónomo, e por duas vezes as acusações foram rejeitadas. No entanto, Galileu não estava satisfeito e deu continuidade aos seus esforços de forçar a Igreja a conceder que o sistema de Copérnico era um assunto de verdade irrefutável.

Em 1615, o cardeal Robert Bellarmine educadamente apresentou a Galileu uma opção: evidências ou boca fechada. Como por essa altura ainda não haviam sido apresentadas evidências de que a Terra orbitava em volta do Sol, não havia motivo para que Galileu andasse um pouco por todo o lado tentando alterar a leitura aceita das Escrituras. Mas se ele tinha algum tipo de evidências, a Igreja estaria disposta a reconsiderar sua posição. A resposta de Galileu foi a de apresentar a teoria de que as marés dos oceanos eram causadas pela rotação da Terra. A ideia não só estava cientificamente errada, como era tão ridícula que foi rejeitada até pelos seguidores de Galileu.

Farto de ver suas alegações rejeitadas, Galileu regressou a Roma para apresentar seu caso ao papa. O pontífice, no entanto, meramente passou o assunto ao Santo Ofício, que emitiu a opinião de que a doutrina copernicana era “ridícula e absurda, filosoficamente e formalmente herética, visto que contradizia de modo expresso a doutrina da Santa Escritura em muitas passagens”. O veredito foi rapidamente anulado por outros cardeais da Igreja.

Galileu, no entanto, não estava com disposição para abandonar as coisas, e, para irritação geral, voltou a forçar o assunto. O Santo Ofício educadamente, mas firmemente, disse-lhe para se calar em torno do assunto copernicano e proibiu-o de adotar a teoria ainda não provada. Claro que isso era mais do que ele estava disposto a fazer.


Quando seu amigo finalmente tomou conta do trono papal, Galileu pensou que por fim teria um ouvido simpático. Ele discutiu o assunto com o papa Urbano VIII, um homem com conhecimento nas áreas da matemática e da ciência, e tentou usar sua teoria das marés para convencer Urbano da validade da sua teoria. O papa não ficou convencido com a tese de Galileu, e chegou até a dar-lhe uma resposta (embora inválida) que refutou a noção.

Depois disso, Galileu escreveu Dialogo sopra i due massimi sistemi del mondo (Diálogo sobre os dois principais sistemas do mundo), no qual ele iria apresentar os pontos de vista de Copérnico e o de Ptolomeu. Três personagens estariam envolvidos: Salviati, o Copernicano; Sagredo, o Indeciso; e Simplício, o Ptolomaico. (O nome “Simplício” escolhido com o propósito de implicar “simplório”).

E foi nessa ocasião que o nosso herói cometeu seu maior erro: Galileu pegou nas palavras que o papa Urbano tinha usado para refutar sua teoria das marés, e colocou-as na boca de Simplício. O papa não gostou nem um pouco disso.

Galileu, que era agora velho e doente, foi mais uma vez chamado perante a Inquisição, e ao contrário da maioria das pessoas acusadas de heresia, ele foi tratado de uma forma surpreendentemente boa. Enquanto esperava pelo julgamento, Galileu foi alojado num apartamento luxuoso com vista para os jardins do Vaticano, e foi colocado ao seu dispor um criado pessoal.

Na defesa que ele mesmo fez durante o julgamento, Galileu tentou usar uma tática peculiar: tentou convencer os juízes de que ele nunca havia mantido nem defendido a opinião de que a Terra gira em torno do Sol, e de que o Sol está imóvel, e que, na verdade, ele havia demonstrado o oposto, mostrando que a hipótese copernicana estava errada. O Santo Oficio, sabendo que essa linha de defesa era uma forma de tomar por tolos os membros do Santo Ofício, condenou-o por ser “altamente suspeito de heresia”, uma decisão claramente injusta, levando em conta que o copernicanismo nunca havia sido considerado herético.

A sentença de Galileu foi a de renunciar à sua teoria e viver o resto da sua vida numa agradável casa de campo, perto de Florença. Claramente, o exílio fez-lhe bem porque foi aí, sob os cuidados da sua filha Maria Celeste, que ele continuou suas experiências e publicou seu melhor trabalho científico: Discorsi e dimostrazioni matematiche, intorno à due nuove scienze. Por fim, Galileu morreu tranquilamente com a idade madura de 77 anos.

Tal como o filósofo Alfred North Whitehead escreveu: “Numa geração que viu a Guerra dos Trinta Anos, e se lembrou [do Duque] de Alva na Holanda, a pior coisa que aconteceu a um homem da ciência foi que Galileu sofreu uma detenção honrada e uma repreensão suave antes de morrer em paz na sua própria cama.”

Tal como diria Paul Harvey, agora sabemos o resto da história.

Momento de aprendizagem – O que se pode reter da história envolvendo Galileu? O que se pode aprender é que ela providencia lições diferentes para grupos diferentes:

- Para os cientistas, essa história demonstra que se você esta de acordo com a maior parte dos seus colegas, quase com certeza será esquecido ao mesmo tempo que a história se lembrará de um rabugento qualquer.
- Para os proponentes de posições não consensuais (por exemplo, céticos do aquecimento global, teóricos do Design Inteligente, etc.), ela ensina que alegar que a sua teoria está correta não é substituto para a apresentação de experiências e dados (mesmo que se esteja certo).
- Para as pessoas agressivamente autoconfiantes, a lição a aprender é que às vezes ser persistente e acreditar no que se diz pode causar problemas.
- Para os católicos, a história de Galileu ensina que não se deve insultar o papa (muito menos quando existe uma Inquisição).

Desconfio que muitas outras lições podem ser aprendidas dessa história, mas acho que a verdadeira moral não é tanto aquela que se encontra dentro dela, mas, sim, no fato de ela precisar ser contada. Embora eu tenha ouvido essa história pela primeira vez quando me encontrava na escola primária, só muito depois de me ter licenciado é que finalmente aprendi a verdade.

Sem dúvida que há pessoas que estão agora mesmo conhecendo dos detalhes da história pela primeira vez. Como isso é possível? Desconfio que seja porque, durante muitos séculos, pessoas tais como Bertrand Russell, George Bernard Shaw, Carl Sagan, Bertolt Brecht e as Indigo Girls têm passado o mito de geração em geração. Não acredito que alguns deles estivesse mentindo intencionalmente.

De fato, tenho sérias duvidas de que algum deles se tenha dado ao trabalho de investigar os fatos. Eles nem tinham necessidade de fazer isso, visto que a história oficial estava de acordo com o que eles já acreditavam – que a ciência e a religião são inimigos naturais –, e isso é tudo o que eles precisavam saber.

Seria bem fácil desfrutar tal credulidade e preguiça intelectual, mas a verdade é que muito provavelmente eu também sou culpado do mesmo com relativa frequência. Talvez seja pelo fato de eu ser jornalista (mais ou menos) e estar mais disposto a acreditar na versão mais interessante da história. Como editor de um jornal, favoreci Davi sobre Golias, mesmo quando o poderoso Filisteu era mais crível que a pessoa a atirar as pedras. “Rapaz pastor mata gigante poderoso” sempre é um título melhor de jornal.

No entanto, como cristão, não tenho a opção de favorecer a posição que irá vender mais jornais. Em vez disso, minha obrigação é me colocar do lado da verdade. Quando me deparo com uma história que se ajusta com os meus planos, é meu dever investigar todos os fatos relevantes antes de aceitá-la como um evangelho.

Nem sempre posso ter a certeza absoluta sobre em que lugar a verdade se encontra, mas uma coisa é certa: é aí que Deus estará.