quinta-feira, abril 14, 2022

Deslumbrante Deus

Certa vez, ouvi a história de um homem que, à beira da morte, aconselhou um amigo a não perder o deslumbramento pelas coisas da vida. Achei esse conselho inusitado. Não entendi direito o que significava, mas guardei na memória. Vez ou outra, esse conselho voltava à minha mente, como algo que eu deveria considerar importante, mas, tal qual chegava a mim, ele voava de volta ao esquecimento.

Tempos depois, eu me tornei mãe de duas crianças. Na primeira filha, eu não soube muito aproveitar a maternidade. Ficava tão preocupada com tudo, com marcos de desenvolvimento, com métodos de fazer dormir, com fraldas, pomadas e alimentação adequada, que simplesmente não curti a simplicidade de cada conquista, de cada dia, de tanto afeto.

Então veio o segundo filho, meio que no susto. E que susto bom! Agora eu já sabia que tudo ia dar certo, que o bebê ia engatinhar no tempo certo (o dele), que ia andar na hora certa (a dele), que ia aprender a comer, a dormir. Então eu relaxei e pude observar uma das coisas mais lindas que uma criança pode ensinar: o deslumbramento. Imagine para um serzinho tão pequeno como tudo é absolutamente deslumbrante e novo. Uma formiga andando perto do pé, carregando uma folha faz ele frear qualquer caminhada e se agachar para observar pelo tempo que for preciso. Um passarinho que, de repente, surge entre as folhas de uma árvore e se lança ao céu faz seus olhos brilharem. Deve se perguntar: “Como ele faz isso? Quem ensinou? E a árvore, tão grande, com folhas penduradas. Como ela pode crescer tanto? Quem faz ela ser assim?”

Outra coisa deslumbrante, que motivou uma de suas primeiras palavras: a luz, que se acende e se apaga – como isso é possível? É absolutamente impressionante. Dá para ficar horas acendendo e apagando sem deixar de se impressionar. E a água – que coisa deslumbrante é a água – escorrendo entre os dedos? Que frescor inquietante, que substância maravilhosa. E ainda dá para beber e jogar para cima e para todo lado e molhar o corpo todo. Aliás, o corpo também é fascinante. Os olhos (como ele tenta por os dedos nos meus olhos, como que querendo segurar nas mãos essas bolinhas que se fecham tão rápido), os cabelos (que legal puxar os cabelos da mamãe também!), as pernas, o umbigo (uau, um buraco no meio da barriga!) e os dedos – que coisa fantástica são os dedos das mãos e dos pés. Como podem se mover assim, de forma tão ágil?

Mas o deslumbre não tem limite. O fogo! Gente, o fogo brilha, é colorido, dança ao vento. Que coisa linda é o fogo! Que vontade de pegar! E o céu? Existe coisa mais deslumbrante que o céu? Tanto azul, nuvens brancas, nuvens negras... Opa, parem tudo! Que barulho é esse no céu? Um helicóptero! Todo mundo precisa ver isto, um helicóptero. Isso é legal demais! Esse barulho é incrível! E o bebê corre para a janela, implorando com grunhidos para ser erguido para ver esse “bicho” tão fantástico e curioso.

Ah, mas ainda falta a coisa mais deslumbrante de todas para o meu bebê: a Lua! Ele não fala da Lua, ele não mostra a Lua, ele grita sem parar; aponta com os braços, com as pernas. Ele se inclina todo e se projeta porque é tão importante que todos vejam a coisa mais maravilhosa do mundo. E, se a gente não vê, ele grita mais. Se estiver na rua, melhor ainda, porque ele quer que as outras pessoas também parem e vejam e se deslumbrem com algo que lhe causa tanto fascínio.

Meu bebê só tem um ano. Acabou de fazer. E, no meio da sua lalação, ele grita: “Olha! Ah lá, a lula, a luna, a lala!” Faz tanto esforço porque está absolutamente deslumbrado! E por algo que a gente vê todas as noites (e dias também) e não dá a menor importância.

É possível aprender tanto com as crianças, com os filhos. Eles nos obrigam a parar e olhar as coisas pequenas (será?) da vida e redescobrir como são deslumbrantes. A criação de Deus é algo tão imenso, tão extraordinário, tão impressionante, mas nós nos acostumamos com ela e a vemos como comum, ordinária. É como o quadro da Monalisa. Já vimos tanto que não enxergamos nenhuma beleza mais naquilo, nada que instigue qualquer sentimento. Podemos até ter o original na nossa frente que não fará diferença. Até imagino um bocejo ao ver a imagem. Só que Deus criou um mundo fantástico para provocar em nós esse deslumbramento. Isso revira a alma, traz felicidade, nos tira da acomodação, da mesmice, da rotina sem sentido. Precisamos parar e ver. Ver esse presente maravilhoso.

Era isso que o homem da história que eu li queria dizer em seu leito de morte. O conselho era para não deixar de se surpreender com os presentes de Deus, porque Deus é surpreendente, é fascinante, é deslumbrante. Se perdermos isso, a vida vai passar, assim como a maternidade, e vamos estar tão ocupados com coisas que nos dizem ser importantes que vamos perder a simplicidade de cada conquista, de cada dia, o afeto, a beleza – coisas que realmente nos enchem de vida.

A Bíblia nos convida a ser como crianças. “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no Reino dos céus” (Mt 18:33). Além da simplicidade, da humildade, da dependência, hoje eu acrescento às características das crianças a capacidade de deslumbramento. E tenho pedido a Deus para reviver isso em mim. Ele pode fazer renascer. Quero me espantar com os milagres da Bíblia, quero sentir horror e amor pelo Calvário toda vez que ler o relato da morte de Cristo. Quero que não seja algo rotineiro, comum, ordinário. Quero que o amor de Cristo verdadeiramente me cause constrangimento.

Sei que meu filho vai crescer e vai deixar de se deslumbrar, como todos nós. Mas eu peço a Deus que tudo que diz respeito ao Céu, ao divino, à criação, ao transcendente, mesmo depois de ele crescido, ainda cause espanto nele, e em mim também.

Que sejamos essa criança boba vendo o que Deus fez e faz por nós, sem vergonha de parar tudo para observar ou de gritar para todo mundo saber que o nosso Deus é deslumbrante.

(Danivia Mattozo Wolff é Revisora de Textos | Assembleia Legislativa de Minas Gerais)

quinta-feira, março 31, 2022

Criacionismo: respostas para o passado, sentido no presente, esperança para o futuro

Abandonei a ideia da macroevolução e o naturalismo filosófico quando estudava no curso técnico de química, nos anos 1990. Sempre fui amante da ciência. Era leitor voraz de autores como Carl Sagan, Stephen Hawking, Isaac Asimov e outros. Por isso mesmo, sempre fui naturalmente cético. Quando soube que o darwinismo tinha graves insuficiências epistêmicas, fiquei surpreso e passei a estudar o assunto mais a fundo. Resolvi colocar em prática meu ceticismo até as últimas consequências.

Deparei-me com o argumento da complexidade irredutível, de Michael Behe, e com a tremenda dificuldade que o darwinismo tem em explicar a origem da informação complexa e específica. De onde surgiu a informação genética necessária para fazer funcionar a primeira célula? De onde proveio o acréscimo de informação necessária para dar origem a novos planos corporais e às melhorias biológicas? O passo seguinte foi buscar um modelo que me fornecesse respostas ao enigma do código sem o codificador, do design sem o designer, da informação sem a fonte de informações.

Fiquei aturdido com a complexidade física do Universo e com a complexidade integrada da vida, ao constatar uma vez mais que, para existir, a realidade depende de leis e constantes finamente ajustadas. Nessas pesquisas, descobri que o criacionismo é a cosmovisão que associa coerentemente conhecimento científico e conhecimento bíblico.

Então passei a estudar mais detidamente a Bíblia Sagrada, que me diziam ser a Palavra de Deus. Fiquei igualmente surpreso ao constatar que a arqueologia comprova a veracidade histórica desse livro milenar, e que as profecias detalhadamente cumpridas são outra evidência de sua origem singular. Só que essa leitura, esse estudo fez mais por mim do que apenas fornecer informações. À medida que eu estudava o Livro Sagrado, alguma coisa estava mudando em mim, em meu coração, em minha mente...

Nesse estudo, nessa busca, me descobri em boa companhia ao saber que grandes cientistas como Galileu, Copérnico, Newton, Pascal, Pasteur e outros não viam contradição entre a verdadeira ciência e a teologia bíblica. Usei meu ceticismo, fui atrás das evidências – levassem aonde levassem – e me surpreendi com uma interpretação simples e não anticientífica para as origens. Resultado? Tornei-me criacionista.

Minha busca não terminou ali. A fonte de conhecimento que se abriu diante de meus olhos é eterna como eterno é meu Criador. Encontrá-Lo foi a maior descoberta da minha vida! Às vezes, é preciso duvidar para crer. Mas vale a pena. 

Evidências

Como o evolucionismo, o criacionismo é um modelo que procura entender e explicar a origem e o desenvolvimento da vida em nosso planeta. Evolucionistas apresentam as evidências deles, criacionistas fazem o mesmo. Cabe às pessoas analisar tudo à luz da verdadeira ciência. Veja algumas evidências e pressuposições relacionadas ao modelo criacionista:

1. O argumento criacionista é coerente com o que se observa nos fósseis encontrados na coluna geológica e diz que a criação deu origem a tipos básicos (“espécies”) de seres vivos e que eles “evoluíram” de forma mais ou menos limitada (diversificação de baixo nível ou “microevolução”). Os criacionistas não creem, no entanto, que todos os seres vivos descendem de um mesmo ancestral unicelular comum, pois é algo que, por experimentação e observação, não é possível ser demonstrado.

2. O criacionismo apresenta três evidências básicas da existência de um Criador: (1) o ajuste fino do Universo (teleologia), (2) a existência de estruturas irredutivelmente complexas nos seres vivos, que tinham de funcionar perfeitamente desde que foram criadas, ou não chegariam aos nossos dias, e (3) a informação complexa especificada existente no material genético, que só a inteligência obviamente pode originar.

3. Os criacionistas entendem que, embora alguns aspectos do evolucionismo sejam fundamentados e úteis para a compreensão de muitos fenômenos naturais, há lacunas nesse modo de pensar. Como ocorre com toda hipótese, há alguns pontos no evolucionismo que não são cientificamente sustentáveis e podem ser analisados e apresentados aos estudantes.

4. Atualmente, há vários cientistas criacionistas que fazem boa ciência e apresentam argumentação lógica e importante para ser transmitida. Destacam-se dois biólogos norte-americanos: Leonard Brand e Harold Coffin. Ambos têm artigos publicados nos mais prestigiados periódicos científicos, respectivamente, sobre baleias fossilizadas da Formação Pisco (Peru) e sobre as florestas petrificadas de Yellowstone (EUA). No Brasil, destaca-se o químico e professor da Unicamp, Dr. Marcos Eberlin, criador do Laboratório Thomson de Espectrometria de Massas, membro da Academia Brasileira de Ciências e o terceiro cientista brasileiro mais citado em publicações científicas de renome.

5. O modelo da evolução apresenta lacunas e deve ser confrontado com outras formas de pensar. Por exemplo, o evolucionismo não consegue explicar a origem da vida por processos naturais a partir de matéria não viva. Também não consegue explicar a origem da informação genética de sistemas irredutivelmente complexos, nem o aumento de complexidade que teria acontecido nos organismos durante o processo evolutivo, ou seja, não consegue explicar a origem de novos órgãos, sistemas de órgãos e novos planos corporais que surgem sem formas ancestrais bem definidas.

6. Conforme escreveu Ellen White, “é a obra da verdadeira educação desenvolver essa faculdade, preparar os jovens para que sejam pensantes e não meros refletores do pensamento de outrem” (Educação, p. 17). Assim, as escolas adventistas entendem que o ensino do contraditório e o contraste de ideias promovem o pensamento crítico. Por isso, são expostos comparativamente nas aulas de ciências os modelos criacionista e evolucionista.

7. O criacionismo, embora tenha um componente religioso, pode ter suas premissas discutidas no contexto científico e ser considerado em sala de aula. Além disso, atualmente, mais do que em outra época, trata-se de um fenômeno cultural, com muitos defensores, mesmo em países cientificamente avançados como os Estados Unidos. Por isso, o criacionismo merece ser conhecido pelos alunos.

8. Os criadores do método científico, cientistas do quilate de Copérnico, Galileu e Newton, não viam contradição entre a ciência experimental e a religião bíblica. Portanto, os criacionistas de hoje se consideram em boa companhia.

Legado adventista

No livro The Creationists, Ronald Numbers afirma que o criacionismo se espalhou rapidamente durante o século 20, desde seu humilde começo “nos escritos de Ellen White”. Mark Noll também afirma que o criacionismo moderno emergiu dos esforços dos adventistas do sétimo dia. Para George Marsden, o adventista George McCready Price é o “principal precursor” da abordagem de uma Terra jovem e de um dilúvio universal.

O conhecido engenheiro batista Henry Morris, em seu livro História do Criacionismo Moderno, igualmente reconhece que “o escritor criacionista mais importante da primeira metade do século [20] foi um notável homem [...] chamado George McCready Price (1870-1963). [...] seu vasto conhecimento científico e bíblico, sua lógica cuidadosa e seu belo estilo de escritor causaram-me profunda impressão quando comecei a estudar esse interessante tema, no início da década de 1940”.

Entre 1902 e 1955, Price escreveu 25 livros sobre a geologia do dilúvio, apologética geral e até um comentário sobre o livro de Daniel. Publicou também um compêndio escolar de 510 páginas sobre ciências. Mas seu projeto mais importante foi, sem dúvida, um livro de 726 páginas publicado em 1923 com o título The New Geology.

Price publicou inúmeros artigos em revistas cristãs importantes, tais como Sunday School Times, Moody Monthly e Princeton Theology Review, além de ter alguns artigos publicados em periódicos de divulgação científica, como Panamerica Geologist e Scientific American. Sem dúvida, foi um grande divulgador do criacionismo.

“Com certeza, ele era de longe mais bem educado, no verdadeiro sentido da palavra, do que 90% dos PhDs e ThDs manipulados pela metodologia rotineira das instituições escolares”, escreveu Henry Morris.

Muitos dos alunos de Price continuaram a contribuir com a causa criacionista. Entre eles incluem-se Harold Clark, Frank Marsh, Ernest Booth e Clifford Burdick. Clark foi aluno de Price no curso de Geologia no Pacific Union College, em 1920, e escreveu dois importantes livros sobre geologia e dilúvio: The New Diluvialism, publicado em 1946, e Fossils, Flood and Fire, em 1968. Frank Lewis Marsh (1899-1992) obteve um PhD em Biologia pela Universidade de Nebraska. Ele também lecionou em diversas escolas adventistas e escreveu uma série de excelentes livros criacionistas, começando com o Fundamental Biology, publicado em 1941.

Em 1957, os líderes da Igreja Adventista do Sétimo Dia decidiram criar uma organização em que se pudessem estudar assuntos relacionados à ciência. Foi então inaugurado o Geoscience Research Institute (GRI), e Frank Marsh foi indicado para o cargo de diretor (até 1964).

Assim, a Igreja Adventista tem se destacado desde a sua origem por defender o criacionismo bíblico e a literalidade/historicidade dos primeiros capítulos da Bíblia.

Ataques ao criacionismo

O criacionismo faz parte da mensagem dos três anjos (Ap 14:6-12), que constitui o conteúdo mais importante que os adventistas devem partilhar com o mundo. Por isso mesmo o inimigo de Deus tem feito de tudo para anular o poder dessa proclamação. De início, ele tentou destruir a Bíblia por meio de perseguições e fogueiras – queimando o Livro e seus tradutores e divulgadores. Isso não deu certo. A Bíblia continua sendo o livro mais lido e difundido no mundo.

Então, Satanás mudou de tática: após o Iluminismo, valendo-se especialmente da Alta Crítica, passou a relativizar e questionar o texto inspirado. O alvo preferencial sempre foi o relato da criação em Gênesis e os capítulos subsequentes, que tratam da queda no pecado e do dilúvio universal. Colocando dúvidas sobre esses capítulos, o inimigo consegue derrubar verdades essenciais que atravessam as páginas da Bíblia: a semana literal da criação, o sábado como memorial dessa criação, o casamento heteromonogâmico, a origem e a malignidade do pecado, o plano da redenção e a factualidade do dilúvio global.

Teologias identitárias e o evolucionismo teísta fazem o mesmo, quando o assunto é a credibilidade da Palavra de Deus. Para os teólogos liberais da libertação, a Bíblia é apenas a palavra de homens que andaram com Deus. Não deve ser encarada como a Palavra inspirada e infalível. Para os defensores da evolução teísta, seria possível harmonizar Darwin e Deus – havendo a necessidade, novamente, de se alegorizarem os primeiros capítulos de Gênesis.

No gráfico abaixo é possível ver a total inconsistência entre a cosmovisão criacionista bíblica e as ideologias e teologias que relativizam o relato das origens.

Um chamado urgente

No livro Testemunhos Seletos, volume 3, página 288, Ellen White escreveu: “Em sentido especial foram os adventistas do sétimo dia postos no mundo como vigias e portadores de luz. A eles foi confiada a última mensagem de advertência a um mundo a perecer. Sobre eles incide maravilhosa luz da Palavra de Deus. Confiou-se-lhes uma obra da mais solene importância: a proclamação da primeira, segunda e terceira mensagens angélicas. Nenhuma obra há de tão grande importância. Não devem eles permitir que nenhuma outra coisa lhes absorva a atenção.”

O criacionismo faz parte do pacote de verdades essenciais contidas na mensagem dos três anjos, e a Igreja Adventista do Sétimo Dia precisa continuar erguendo bem alto essa bandeira, já que são pouquíssimos os que fazem isso atualmente. É preciso chamar a atenção do mundo para o fato de que existe um Criador que prometeu recriar este planeta e devolvê-lo à sua condição edênica. Mas se não cremos que Ele foi capaz de criar a vida neste planeta em seis literais de 24 horas, por que creremos que ele será capaz de repetir o feito? Se não cremos que a árvore da vida mencionada no início da Bíblia é real, o que faremos com a árvore da vida prometida no Apocalipse? Se Adão e Eva não pecaram, a morte é um elemento natural da criação de Deus? E Jesus veio fazer o que aqui? Liderar uma revolução?

A verdade é que a cosmovisão criacionista bíblica nos ajuda a compreender o passado, nos dá um sentido para o presente (não somos um acidente cósmico; temos um propósito) e nos enche de esperança quanto ao futuro.

(Michelson Borges, jornalista, mestre em Teologia e pós-graduado em Biologia Molecular)

sexta-feira, março 04, 2022

Pesquisadores encontram fósseis de 11 dinossauros na Itália

Pesquisadores descobriram fósseis de uma manada de 11 dinossauros em Villaggio del Pescatore, uma antiga pedreira de calcário próxima da cidade portuária de Trieste, na Itália.  Um deles, denominado “Bruno”, é o maior e mais completo esqueleto de dinossauro da história do país. A pesquisa foi publicada na revista Scientific Reports. Apesar de terem sido encontrados restos de dinossauros isolados na Itália desde a década de 1990, a descoberta de vários esqueletos em um único lugar é significativa.

“A Itália não é conhecida pelos dinossauros e, embora tivéssemos alguns golpes de sorte no passado, agora temos um rebanho inteiro em um sítio de dinossauros”, relatou ao The Guardian Federico Fanti, professor da Universidade de Bolonha e pesquisador-chefe do local.

Esse local ganhou a atenção dos pesquisadores de dinossauros em 1996, após a descoberta de um esqueleto que os paleontólogos chamaram de Antonio, e inicialmente acreditaram ser uma espécie de dinossauro anã. Mas as últimas descobertas contestam isso, com Antonio agora sendo considerado um jovem dinossauro que fazia parte do mesmo rebanho que morreu junto. O maior dos restos fossilizados do grupo se chama Bruno.

“Bruno é o maior e mais antigo do grupo e o mais completo esqueleto de dinossauro já encontrado na Itália”, disse Fanti. “Sabíamos que havia dinossauros no local depois da descoberta de Antonio, mas até agora ninguém verificou quantos. O que temos agora são vários ossos pertencentes ao mesmo rebanho.”

Os restos fossilizados dos 11 dinossauros pertencem à espécie Tethyshadros insularis, que viveu há 80 milhões de anos [sic] e alcançava até cinco metros de comprimento.

Os resultados da pesquisa desafiam hipóteses anteriores que sugeriam eventos de nanismo entre ornitísquios durante o Cretáceo Superior e apoiam a presença de hadrossauroides plesiomorficamente de tamanho médio no domínio Tethyan da Eurásia, e fornecem dados incomparáveis ​​para inferir tendências do tamanho do corpo em dinossauros do Mesozóico.

Restos fossilizados de pequenos crocodiliformes, um único osso de pterossauro, peixes parciais, vários crustáceos, coprólitos raros, pólen e alga também foram encontrados no local. “Isso é muito legal, pois podemos descobrir o tipo de ambiente em que os dinossauros viveram e morreram”, acrescentou Fanti. “Naquele período, a área ficava muito próxima ao litoral em um ambiente tropical, quente e úmido, capaz de alimentar rebanhos de dinossauros.”

Alguns dos fósseis encontrados até agora em Villaggio del Pescatore, uma área protegida, estão em exibição no museu cívico de história natural em Trieste, e os especialistas esperam abrir parte do local ao público.

(Liziane Nunes Conrad Costa é formada em Ciências Biológicas com ênfase em Biotecnologia [UNIPAR], especialista em Morfofisiologia Animal [UFLA] e mestre em Biociências e Saúde [UNIOESTE]. É vice-presidente do Núcleo Cascavelense da SCB [Nuvel-SCB])

Nota: Além de essa incrível descoberta ser um verdadeiro deleite para qualquer amante dos dinos, o artigo revela que no mesmo local foram encontrados sepultados dinossauros, outros répteis, peixes, crustáceos, pólen e algas. Apesar de os pesquisadores não pontuarem a causa da morte de toda essa diversidade de seres vivos, você consegue imaginar um evento catastrófico hídrico que permitiu fossilização deles em um mesmo período? Se você não sabe, eu lhe convido a ler sobre o assunto na Bíblia Sagrada, no livro de Gênesis, a partir do capítulo 7.

Ressalto que existem pesquisas não criacionistas que já admitem inundações catastróficas (confira aquiaqui e aqui).

Fontes:

The Guardian

Artigo original

CHIARENZA, Alfio Alessandro et al. An Italian dinosaur Lagerstätte reveals the tempo and mode of hadrosauriform body size evolution. Scientific reports, v. 11, n. 1, p. 1-15, 2021.

Leia mais sobre fósseis de origem marinha:

http://www.criacionismo.com.br/2021/08/pesquisadores-encontram-estromatolicos.html

http://www.criacionismo.com.br/2013/01/pesquisador-diz-que-encontrou-novas.html

http://www.criacionismo.com.br/2011/01/diluvio-universal-e-suas-implicacoes.html

terça-feira, janeiro 18, 2022

A precisão do Gênesis para o início do dilúvio

Quando lemos Gênesis capítulos 6 a 9, temos o relato de um evento de extinção em massa, em escala planetária, chamado dilúvio. Obviamente para grande número de pessoas esse relato não é histórico; trata-se de um mito, quando muito, e sem nenhuma base científica para apoiar a possível hipótese de sua ocorrência real. Discordo veementemente desse ceticismo sem base, pois escrevi um livro que me demandou quase nove anos de pesquisa e redação, com mais de 800 páginas, mais de 600 ilustrações e mais de duas mil referências: O Dilúvio: Impacto de asteroides, extinções em massa, as glaciações, a formação do Atlântico e a Arca de Noé. Listei dezenas de evidências da ocorrência desse evento planetário. E como eu, muitos outros pesquisadores/autores que escreveram sobre o evento do dilúvio trataram-no como um relato histórico, relatando as centenas de evidências que dão sustentação à afirmação inicial, de um evento de extinção em massa, em escala planetária.

Eis que há poucos dias do fim de 2021 uma notícia veio acrescentar mais uma evidência da ocorrência do dilúvio àquelas já relatadas por mim e outros pesquisadores/autores dessa temática. Um artigo científico foi publicado na prestigiosa revista Nature, em 8/12/2021, no Scientific Reports,[1] “Seasonal calibration of the end-cretaceous Chicxulub impact event” (“Calibração Sazonal do evento de impacto Chicxulub do fim do Cretáceo”, tradução minha) de Robert A. DePalma, et al., em que os autores conseguem precisar em qual estação do ano, no Hemisfério Norte, ocorreu o impacto de Chicxulub que levou ao evento de extinção em massa no fim do período Cretáceo-Paleogeno, e teria exterminado os dinossauros e cerca de 75%[2] da fauna e flora daquela suposta época geológica.

A mídia com interesse em descobertas científicas reproduziu a notícia aqui:[3] “Foi graças a ests recente estudo que foi possível determinar exatamente a estação do ano que transcorria no Hemisfério Norte quando ocorreu o impacto: no fim da primavera e início do verão. [...] Os pesquisadores analisaram a estrutura e o padrão único das linhas de crescimento nas espinhas de peixes fossilizados do sítio e determinaram que todos morreram durante a fase de crescimento primavera-verão” (negrito no original).

O resumo que os autores apresentaram é o seguinte e mostra que o evento ocorreu na primavera/verão do Hemisfério Norte do Planeta:[1]

“O impacto de Chicxulub do fim do Cretáceo desencadeou a última extinção em massa da Terra, extinguindo ~75% da diversidade de espécies e facilitando uma mudança ecológica global para biomas dominados por mamíferos. Detalhes temporais do evento de impacto em uma escala fina (hora a dia), importante para entender a trajetória inicial de extinção em massa, têm escapado em grande parte de estudos anteriores. Esse estudo emprega análises histológicas e histo-isotópicas de peixes fósseis que eram contemporâneos com uma assembleia de morte em massa desencadeada pelo impacto da fronteira Cretáceo-Paleogene (KPg) em Dakota do Norte (EUA). Padrões de histórico de crescimento, incluindo periodicidade de ẟ18O e ẟ13C e morfologia da banda de crescimento, além de corroborar dados da ontogenia dos peixes e comportamento sazonal dos insetos, revelam que o impacto ocorreu durante a primavera/verão boreal, logo após a temporada de desova para peixes e a maioria dos táxons continentais. A gravidade e a simetria taxonômica da resposta aos perigos naturais globais são influenciadas pela estação durante a qual ocorrem, sugerindo que perturbações pós-impacto poderiam ter exercido uma força seletiva que foi exacerbada pelo tempo sazonal. Os dados desse estudo também podem fornecer uma visão retrospectiva vital dos padrões de resposta biótica existente aos perigos em escala global que são relevantes para os biomas atuais e futuros (tradução minha; negrito acrescentado).[1]

A análise detalhada que os autores fizeram você poderá ver no artigo original.

O que quero chamar à sua atenção é que os autores chegaram à estação do impacto de Chicxulub: primavera/verão no hemisfério Norte do planeta. É claro que, pela perspectiva bíblica, as estações do ano naquele tempo antes do dilúvio eram bem menos evidentes do que as atuais, mas, com certeza, a fauna possuía períodos de reprodução razoavelmente compatíveis com os observados atualmente.

Instado por amigo interessado no assunto, fui verificar se a constatação dos autores coincidia, eventualmente, com a data do início do dilúvio, citada no Gênesis. E, para meu espanto, se a conclusão dos cientistas for historicamente correta, pelas informações bíblicas era esperado que coincidissem. E coincidiram!

Vamos aguardar para ver se haverá contestação das conclusões dos cientistas.

Eis a minha análise:

Segundo o Gênesis, o dilúvio começou no ano 600 da vida de Noé, no dia 17 do segundo mês, e terminou no dia 27 do segundo mês do ano 601 de sua vida. Segundo o calendário judeu/israelita, o calendário religioso, o segundo mês é o mês de Lyar (nome do mês de origem babilônica; pronuncia-se Yar) ou Ziv ou Zive (em hebraico), que começa em 26 de maio do nosso calendário gregoriano. Assim, o dilúvio começou em 17 de Lyar ou Ziv ou Zive, que equivale ao dia 11 de junho do nosso calendário gregoriano.

Ora, o calendário judaico/israelita mostra claramente que o dilúvio começou na primavera/verão, já que o calendário religioso começa na primavera, equivalente aos meses de março/abril do nosso calendário gregoriano.

Não vou entrar aqui nos detalhes do calendário judaico/israelita, que possui dois inícios de ano, um religioso e outro civil. O calendário que usei é o religioso, pois era o que Moisés utilizava. O calendário civil começa no mês Tishri, no dia do Rosh Hashaná, que é o dia da celebração da criação do mundo, e marca o início de um novo ano civil.[3]

A precisão histórica da Bíblia no relato do dilúvio, com dia, mês e ano de seu início e fim, tinha um propósito específico, já que foi o Espírito Santo que inspirou Moisés a assim escrever.

Será que era para este momento da história? Estou seriamente inclinado a acreditar que sim.

Agradeço ao Pastor Eleazar Domini, do canal do YouTube “Fala Sério, pastor”,[4] os esclarecimentos sobre os nomes dos meses em hebraico.

(Celio João Pires é pesquisador e autor de livros criacionistas)

Referências:

1. DePalma, R.A., Oleinik, A.A., Gurche, L.P. et al. Seasonal calibration of the end-cretaceous Chicxulub impact event. Sci Rep 11, 23704 (2021). <https://doi.org/10.1038/s41598-021-03232-9>. Disponível em: <www.nature.com/articles/s41598-021-03232-9>. Acesso em: 18/12/2021.

2. Determinado momento exato do impacto do asteroide que causou extinção dos dinossauros na Terra. Sputnik Brasil. 13/12/2021. Disponível em: <https://br.sputniknews.com/20211213/determinado-momento-exato-do-impacto-do-asteroide-que-causou-extincao-dos-dinossauros-na-terra-20662241.html>. Acesso em 18/12/2021.

3. O Calendário Judaico. Portal São Francisco. Disponível em: <www.portalsaofrancisco.com.br/historia-geral/calendario-judaico>. Acesso em 18/12/2021.

4. “Fala sério, pastor.” Domini, Eleazar. Disponível em: <www.youtube.com/c/Falasériopastor>. Acesso em: 21/12/2021.

sexta-feira, novembro 19, 2021

Telescópios e lagostas

Devemos grande parte do conhecimento que temos acerca do espaço aos telescópios. Esses objetos foram criados no século 17 e aperfeiçoados por muitos cientistas ao longo dos anos, o mais famoso deles Galileu Galilei. Usando telescópios rudimentares, se compararmos ao que temos hoje, Galileu percebeu a complexidade do Universo e fez afirmações revolucionárias para seu tempo. Ele identificou as crateras na superfície da Lua, percebeu que as estrelas não eram fixas e que, ao contrário do que foi afirmado por Aristóteles, a Via Láctea era formada de estrelas e não exalações celestiais. Além disso, ele descobriu quatro “planetas”, o que atualmente chamamos de satélites, que orbitam ao redor de Júpiter.[1]

Ao longo dos séculos, o conhecimento produzido com o auxílio dos telescópios foi sendo aperfeiçoado, assim como a tecnologia com que eles são feitos. Temos uma gama de tipos e modelos, desde aqueles que podemos ter em casa, até os incrivelmente complexos, posicionados em locais estratégicos do globo terrestre. Um deles é o Telescópio de Cosmologia de Atacama, localizado no deserto do Atacama, no Chile, que tem contribuído muito nas pesquisas astronômicas. Há até mesmo aqueles telescópios como o Hubble que foram enviados pela Nasa e outras agências espaciais ao espaço e são muito importantes para nos fornecer toda sorte de informações.

Apesar de toda a tecnologia disponível, ainda assim o alcance dos telescópios é limitado, especialmente seu campo visual. Os telescópios tradicionais vasculham apenas uma parte do céu por vez, o que não é muito interessante para registrar fenômenos inesperados ou que acontecem fora da região de alcance do telescópio.

Inspiração da natureza

Para resolver esse problema, os cientistas encontraram respostas e soluções na natureza com um animal que vive no fundo do mar e possui adaptações incríveis para viver em um lugar com dificuldades de visão: a lagosta. As lagostas são animais bentônicos. Isso quer dizer que elas vivem no fundo do mar, na areia, procurando comida ou um parceiro para acasalar. Por essa razão, possuem olhos poderosos adaptados para viver entre águas turvas, e muitas vezes não há luz suficiente. Seus olhos, brilhantemente desenhados, permitem que elas possam avistar potenciais presas ou até mesmo fugir de possíveis predadores. Eles estão localizados no topo de duas hastes na cabeça e são compostos por milhares de tubos quadrados e cônicos que funcionam como espelhos. Ao contrário dos nossos olhos, que usam o fenômeno da refração da luz para projetar a imagem na retina, nas lagostas a luz é refletida de quase todas as direções, ampliando seu campo de visão para 180°.[2, 3]

Em 1977, um cientista da Universidade do Arizona chamado Roger Angel teve a ideia de aplicar o que se conhecia sobre os olhos das lagostas aos telescópios espaciais usados para o estudo do espaço profundo. Assim como nos olhos daqueles animais, esses telescópios são cobertos por pequenos cubos que refletem a radiação de raio x (radiação abundante no espaço profundo) para um único ponto onde a imagem é formada. Essa estrutura é organizada de forma curva, para que o campo de visão do telescópio seja ampliado e alcance todos os ângulos. Essa tecnologia, inclusive, deixa os telescópios mais leves, o que pode ser extremamente vantajoso, já que esses equipamentos serão enviados ao espaço. Atualmente, muitos centros de pesquisas ao redor do mundo desenvolvem telescópios com essa tecnologia.[2, 3]

Inspiração vinda da natureza não é algo novo e tem que ver com uma área da ciência chamada biomimética. A biomimética estuda os modelos e processos encontrados no ambiente natural para imitá-los ou aperfeiçoar tecnologias existentes. Um exemplo muito famoso é o de um pássaro chamado martim-pescador que inspirou engenheiros japoneses a aperfeiçoar o trem-bala.

Essa área da ciência tem se mostrado um grande argumento a favor do Design Inteligente, sendo uma forma de detecção de design. Se a tecnologia, os materiais e processos são criações de uma mente inteligente, por que a natureza, que muitas vezes é usada como fonte de inspiração para construí-los, pode ser fruto de processos naturais não guiados? Não faz sentido! A mesma complexidade existente em equipamentos desenvolvidos por mentes humanas pode estar presente até mesmo em maior grau nos animais que os inspiraram, já que as estruturas desses animais, como as lagostas, são mais eficientes do que aquelas construídas por humanos, como o telescópio.

(Maura Brandão é bióloga e doutora em Ciências)


Referências:       

[1] https://novaescola.org.br/conteudo/1150/por-que-o-telescopio-inventado-por-galileu-revolucionou-a-astronomia

[2] https://www.bbc.com/portuguese/media-59252351

[3] Lobsters and space telescopes. Podcast: 30 Animals That Made Us Smarter – BBC World Service. Disponível em https://open.spotify.com/episode/32ufG6DWJL118CMAhlTO8a?si=e9676c1e62d24195

quarta-feira, outubro 27, 2021

Decepcionado com William Lane Craig

Há muito tempo aprecio o ministério apologético de William Lane Craig. Quando soube, entretanto, que ele estava pesquisando o Adão “histórico” – isto é, o Adão real em contraste (supostamente) com o Adão “literário” como ele aparece nas Escrituras – fiquei preocupado. Eu tinha boas razões para estar. Referindo-se a muitas disciplinas díspares – do Pseudo-Philo à Paleoneurologia, do Enuma Elish ao gene ARHGAP11B, da globularização craniana a 1 Enoch –, Dr. Craig afirma ter descoberto o Adão “histórico”. “Adão e Eva”, escreve ele em seu novo livro In Quest of the Historical Adam (2021, Eerdmans), “podem ser plausivelmente identificados como pertencentes ao último ancestral comum do Homo sapiens e dos neandertais, geralmente denominado Homo heidelbergensis”.[1] Esse casal existiu, escreve ele, há centenas de milhares de anos.

Mas e quanto a Adão e Eva de Gênesis 1-3, ou do Novo Testamento, especialmente Romanos e 1 Coríntios? E quanto à criação em seis dias, ou Deus criando Adão do pó, ou a queda no Éden, ou o dilúvio, ou a Torre de Babel? Essas são, ele escreve, “mitologias”,[2] belas histórias que retratam verdades espirituais e teológicas, mas não são eventos reais e, em muitos casos, são “palpavelmente falsas”.[3]

Ele nega que Deus criou Adão do pó da terra e “soprou em suas narinas o fôlego de vida” (Gênesis 2:7); ou que Deus andou no Jardim (Gênesis 3:8); ou que Ele desceu para ver a Torre de Babel (Gênesis 11:7). Por quê? Porque, escreve o Dr. Craig, eles apresentam “uma divindade humanóide incompatível com o Deus transcendente da história da criação”.[4]

Uma “divindade humanóide” incompatível com o Criador transcendente? João 1:1-3 não é sobre o Criador transcendente ter Se tornado uma “divindade humanóide”? E mesmo que a Encarnação seja um evento único, o que dizer de Gênesis 18, quando três homens aparecem a Abraão e conversam face a face com ele? O problema para a “mitologia” do Dr. Craig começa no versículo 13, que diz: “E o Senhor disse a Abraão...” A palavra traduzida como “o Senhor” é o Tetragrama, as quatro letras hebraicas (Yod Heh Vav Heh) para Yahweh, o nome do próprio Deus Criador! (ver Gênesis 2:4). Alguns versos depois, Yahweh diz: “Eu irei descer agora e ver” (Gênesis 18: 21) Sodoma, uma coisa muito “humanóide” para Yahweh fazer. Gênesis 18:33 diz: “O Senhor seguiu o Seu caminho”. Aqui aparece um verbo hebraico comum que significa, simplesmente, “andar”. A menos que o Dr. Craig estenda sua hipótese de “mito-história” para Gênesis 18 (o que ele pode fazer), seu argumento de que a história da criação, se tomada literalmente, faz o Senhor parecer uma “divindade humanóide digna de mitos politeístas”[5] é em si falso.

No início de seu livro, eu sabia que estávamos em apuros quando me deparei com esta frase: “Alternativamente, podemos sustentar que, embora os autores das Escrituras possam muito bem ter acreditado em uma criação de seis dias, um Adão histórico, um dilúvio mundial e assim por diante, eles não ensinaram tais fatos.”[6] E este: “Poderíamos talvez da mesma forma sustentar que Jesus, embora não acreditasse que Adão era uma pessoa histórica, no entanto, como condição de Sua encarnação, aceitou esta e muitas outras falsas crenças de Seus conterrâneos.”[7]

O resultado de tal expulsão das Escrituras? Depois de bilhões de anos de evolução, cerca de 750.000 anos atrás, “Adão e Eva emergiram de uma população mais ampla de hominíneos”.[8] Então, ele explica, “podemos imaginar uma mutação regulatória que aumenta radicalmente a capacidade cognitiva do cérebro além do que outros hominídeos desfrutam”.[9] Ou, ele escreve, “Deus pode ter induzido mutações, não neles, mesmo em um estágio embrionário, mas nos gametas de seus pais, de modo que Adão e Eva eram humanos desde o momento da concepção.”[10] Independentemente de como se tornaram humanos, esse primeiro casal, usando seu livre-arbítrio, pecou, ​​afirma Craig. Tendo se corrompido moralmente, eles precisaram do amor e do perdão de Deus.

Mas e quanto a Paulo escrever que Adão trouxe a morte? O Dr. Craig argumenta que o contraste Adão-Jesus em Romanos 5 – “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Romanos 5:12) – não foi, realmente, morte física, mas espiritual. Mas como Adão poderia ter criado a morte quando bilhões de anos de morte são, ele acredita, o que criou Adão em primeiro lugar?

Enquanto isso, com relação ao contraste Adão-Cristo em 1 Coríntios 15, tal como “Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo” (1 Coríntios 15:22) – Dr. Craig escreve: “Embora possamos pensar que a morte física é o resultado do pecado de Adão, Paulo não afirma isso.”[11] Para o Dr. Craig, Paulo não pode afirmar isso porque isso significaria que bilhões de anos de algum tipo de processo evolutivo – o aparente modelo a partir do qual o Dr. Craig interpretou a Bíblia – era falso.

Como um homem tão brilhante e que fez tanto bem chegou a isso? Estas próximas palavras, eu acho, explicam quase tudo: “Além disso, é ainda mais fantástico que a Terra tenha sofrido um dilúvio mundial que varreu toda a humanidade, não a bordo da arca, assim como todos os animais terrestres. A geologia e a antropologia modernas tornaram essa catástrofe quase impossível.”[12]

Duas disciplinas humanas, geologia e antropologia – com seus pontos fortes e fracos, especulação e suposições não comprovadas – são aceitas sobre os ensinamentos explícitos de quatro capítulos (Gênesis 6-9) na Palavra de Deus. Gênesis 6-9 não faz sentido se não for sobre um dilúvio mundial (por que, por exemplo, construir um barco para uma inundação local? Basta sair da zona de inundação). [A pesquisa científica] é um esforço humano baseado em duas grandes suposições – apenas as causas naturais podem explicar os efeitos naturais e a continuidade da natureza; duas suposições que, no que diz respeito às origens, estão erradas.

O que aconteceu? O Dr. Craig infelizmente caiu no grande metamito de nossa era: que a “verdade” científica [humana] supera todas as outras formas de conhecimento, incluindo a Revelação. Ele parece ter aceitado, a priori e sem questionar, o modelo evolucionário das origens. Ele termina escrevendo um livro que descarta verdades bíblicas explícitas como “mito-história” em favor de especulações sobre uma mutação que transformou dois hominídeos em humanos há cerca de 750.000 anos.

[...] O que o Dr. Craig fez será [...] prejudicial. Quem sabe quantos milhares agora pensarão que o cristianismo é compatível com a evolução, quando mesmo a maioria dos evolucionistas ateus pode ver que não é. Quantas pessoas, lógicas demais para aceitar tanto a evolução quanto o cristianismo, rejeitarão totalmente a fé?

Não estou julgando William Lane Craig. Estou julgando esse livro, que – representando a entrega da revelação divina à especulação feita pelo homem – afirma a advertência de Paulo: “Porque a sabedoria deste mundo é loucura para com Deus” (1 Coríntios 3:19).

(Clifford Goldstein é editor da Lição da Escola Sabatina; Adventist Review)

Nota: Aos poucos, os adventistas do sétimo dia vão ficando mais e mais isolados como grupo religioso que sustenta a historicidade/factualidade de relatos inspirados como o da criação da vida na Terra em seis dias literais de 24 horas cada; do dilúvio universal; da Torre de Babel; da destruição de Sodoma e Gomorra; etc. Assista ao vídeo abaixo para entender as incoerências da ideia da evolução teísta, defendida por Craig e por entidades religiosas aqui no Brasil, também, como a ABC2. [MB]

Referências:

1. Craig, William Lane. In Quest of the Historical Adam: A Biblical and Scientific Exploration (p. 522). Wm. B. Eerdmans Publishing Co., Kindle Edition.

2. Ibid. p. 283.

3. Ibid. p. 139.

4. Ibid. p. 283.

5. Ibid. p. 136.

6. Ibid. p. 30.

7. Ibid. p. 33.

8. Ibid. p. 537.

9. Ibid.

10. Ibid. p. 538.

11. Ibid. p. 334.

12. Ibid. p. 151.




quarta-feira, outubro 20, 2021

Cientista de Harvard sugere que o Universo foi criado em laboratório

Um cientista de Harvard publicou uma teoria [melhor seria dizer “ideia”] inusitada sobre como o Universo foi formado. Segundo sua tese, ele teria sido criado em um laboratório por uma “classe superior” de forma de vida. Avi Loeb, autor de best-sellers e ex-presidente do Departamento de Astronomia de Harvard, escreveu um artigo na Scientific American nesta semana postulando que o Universo poderia ter sido formado em um laboratório por uma “civilização tecnologicamente avançada”. Ele disse que, se confirmada, a história da origem do Universo unificaria a ideia religiosa de um criador com a ideia secular da gravidade quântica. “Como nosso Universo tem uma geometria plana com energia líquida zero, uma civilização avançada poderia ter desenvolvido uma tecnologia que criou um universo bebê do nada por meio de um túnel quântico”, escreveu Loeb.

Uma das ideias postas pelo cientista diz respeito ao sistema de classificação de civilização. Loeb explicou que, como uma civilização tecnológica de baixo nível, os humanos pertenceriam à classe C, que, em outras palavras, representa uma civilização dependente de sua estrela hospedeira, o Sol. “Se e quando nossa tecnologia progredir a ponto de nos tornarmos independentes do Sol, estaremos na classe B”, acredita. “Se pudermos criar nossos próprios universos bebês em um laboratório (como nossos criadores teóricos), estaremos na classe A.”

(Tilt UOL)

Nota: Posso concluir pelo menos duas coisas básicas ao ler sobre essa ideia de Loeb: (1) a proposta de que o Universo teria surgido do nada e por acaso parece incomodar mesmo os cientistas não religiosos mais renomados; (2) a teimosia em admitir que o Criador seja o Deus da Bíblia é tanta, que preferem supor que uma “raça superior” teria nos criado, não importando quem tenha criado essa raça, nem o loop infinito que essa ideia gera. Pelo menos a ideia do design inteligente passa a ser considerada uma proposta aceitável. [MB]

Leia também: “Was our Universe created in a laboratory?”


segunda-feira, setembro 13, 2021

A descoberta da cidade de Babilônia

O livro bíblico de Daniel é um dos textos mais importantes do antigo testamento. Suas páginas estão repletas de profecias e histórias que falam sobre o terrível cativeiro do povo de Israel em Babilônia. Durante muito tempo, acadêmicos e arqueólogos diziam que Babilônia era uma lenda criada pela imaginação dos escritores da Bíblia, e que essa cidade nunca tinha existido. No entanto, essa visão cética foi colocada por terra quando, no fim do século 19, Robert Koldewey, arqueólogo e arquiteto alemão, descobriu as ruínas da antiga capital imperial de Nabucodonosor.

É interessante dizer que antes de essa descoberta acontecer, Heródoto, famoso historiador grego da antiguidade, já havia relatado e documentado sua visita à cidade em um passado longínquo. Em sua passagem pela metrópole, Heródoto descreveu as dimensões e características da cidade com detalhes.[1] Mesmo com esses textos extrabíblicos, muitos historiadores ainda insistiam em negar a existência de Babilônia. Uma das lições dessa descoberta arqueológica é que a ausência de evidência não é, necessariamente, evidência de ausência. Nem sempre a falta de comprovações empíricas sobre determinados fatos históricos significa que aqueles objetos não existiram.

Foi justamente na virada do século 20, mais especificamente a partir de 1899, que o tiro saiu pela culatra. Em uma incessante escavação nas regiões de Bagdá, atual Iraque, Koldewey se deparou com um tesouro milenar que estava coberto havia séculos. A partir desse momento, a arquitetura de Babilônia estava revelada e aberta para pesquisa e estudo – pesquisa essa que foi feita por muitos céticos que antes se referiam à cidade como mitológica.

A descoberta não tinha sido feita antes porque muitas pessoas procuravam escavar à beira do Eufrates, já que os relatos falavam que a cidade fazia divisa com o rio. O problema é que ao longo dos anos o Eufrates foi desviado diversas vezes; sendo assim, uma pesquisa próxima ao rio já não era uma opção interessante. Ao andar pela região, Koldewey percebeu que os beduínos locais sempre visitavam a área montanhosa de Hillah para pegar tijolos e usa-los como matéria-prima de construção.[2] Durante muito tempo, esses habitantes locais utilizaram os tijolos da antiga Babilônia (figura 1) para construir residências e outras estruturas vernaculares. Isso já aconteceu em outras ocasiões na história da arquitetura. Muitos habitantes que viveram em locais em que o Império Romano foi pujante usavam o mármore das construções imperiais para praticar sua arquitetura local – o Coliseu, por exemplo, foi utilizado como “jazida” pelos romanos que viviam em suas proximidades.

 

Figura 1: escavação em Babilônia, Iraque. Fonte: Wikimedia Commons (domínio público)

Durante as escavações, muitos artefatos importantes foram encontradas, tais como manuscritos cuneiformes, objetos religiosos e edificações que testemunhavam de uma civilização rica e próspera. O Portal de Ishtar (figura 2), entrada principal da cidade e que hoje fica no Pergamum Museum de Berlin, é uma das partes mais bem preservadas do complexo. No portal é possível observar tijolos de lápis-lazúli, material raro encontrado apenas na Mesopotâmia e em algumas partes do Chile.[3] A fachada do portal é composta por desenhos de leões alados, dragões e bois em alto-relevo. Todas essas características são uma demonstração clara da glória da antiga Babilônia.

 

Figura 2: Portal de Ishtar, Pergamum Museum, Berlin. Fonte: Wikimedia Commons (domínio público)

O portal também possui uma entrada com um grande arco semicircular. Essa é uma das evidências mais antigas dos arcos na história da arquitetura. Os romanos fizeram uso abundante dos arcos em seus aquedutos,[4] mas graças à incrível descoberta do Portal de Ishtar é possível concluir que essa técnica foi, possivelmente, uma invenção dos povos que habitaram a região do crescente fértil, principalmente os mesopotâmicos.

O interessante é que o livro de Daniel possui diversas passagens que trazem, de maneira simbólica e profética, esses mesmos animais encontrados no Portal de Ishtar. Na profecia, o leão com duas asas representa o próprio reino de Babilônia, cujo rei mais conhecido foi Nabucodonosor. O leão é sempre visto como o rei dos animais e a águia, a rainha das aves. Esse animal é um leão que tem duas asas de águia (figura 3), simbolizando a rapidez avassaladora que o reino de Babilônia teria diante de seus inimigos. Mas esse poder não duraria para sempre, segundo a profecia: suas asas seriam arrancadas, ou seja, seu poder lhe seria retirado. A história mostra que essa glória foi tirada por Ciro, o persa, no ano 539 a.C.

 

Figura 3: leão Alado no Caminho Processional, Pergamum Museum, Berlin. Fonte: Unsplash

Durante o governo de Sadam Hussein, várias edificações foram reconstruídas na busca por fortalecer o nacionalismo do regime ditatorial.[5] O ditador se considerava herdeiro de Nabucodonosor e, para tornar isso ainda mais claro, passou por cima de diversos princípios e práticas de restauro e conservação. Hussein recebeu várias críticas de entidades internacionais por sua maneira de lidar com o patrimônio local.

Com essa descoberta, todos os livros de história da arquitetura publicados nos anos que sucederam a escavação tiveram que trazer Babilônia como um fato histórico. Hoje muitas escavações ainda continuam sendo feitas na região. O objetivo é procurar por fatos que não só demonstrem os costumes e as tradições dos mesopotâmicos, mas que também comprovem ainda mais a veracidade histórica da Bíblia Sagrada.

(Bruno Perenha é arquiteto [Unicesumar, Maringá] e especialista em História da Arquitetura [Birkbeck, University of London]; conheça mais sobre o trabalho dele no Instagram: @brunoperenha e no YouTube: https://www.youtube.com/channel/UC4jx8wH1THB-0Usc7ryzUHQ)

Referências:

[1]  STRASSLER, Robert B. The Landmark Herodotus. London: Quercus Publishing Plc, 2008.

[2]  LYON, David Gordon. In: Vo. 11 (3). Recent Excavations at Babylon. The Harvard Theological Review: 1918. Pag. 307-321.

[3]  FELSTINER, John & Neruda, Pablo. In: Vol. 32 (No. 4). Lapis Lazuli in Chile. The American Poetry Review. Philadelphia: Old City Publishing, Inc, 2003. Pag. 6.

[4]  GLANCEY, Jonathan. A História da Arquitetura. São Paulo: Edições Loyola, 2001. Pag. 30-32.

[5]  MACFARQUHAR, Neil. Hussein's Babylon: A Beloved Atrocity. The New York Times, Aug. 19, 2003. Section A, Pag 11. Available in: <https://www.nytimes.com/2003/08/19/world/hussein-s-babylon-a-beloved-atrocity.html>. Access: Aug. 20, 2021.

quarta-feira, setembro 08, 2021

Não! Vocês não fazem parte da família

A ideia de que o homem moderno (Homo sapiens sapiens) compartilha um ancestral comum com grandes macacos (e.g. orangotangos, gorilas e chimpanzés) tem sido difundida como uma verdade inquestionável desde a ampla adoção da teoria darwinista nos círculos acadêmicos no fim do século 19 e início do século 20. A temática da evolução humana engloba várias disciplinas, como antropologia, arqueologia, primatologia e genética. No entanto, com o advento de tecnologias de sequenciamento genômico, as análises genéticas passaram a ter proeminência em estudos filogenéticos humanos, pois elas fornecem dados objetivos e mensuráveis, tanto no âmbito quantitativo quanto qualitativo. Dentre essas análises, destacam-se as relacionadas ao campo de pesquisa biológico denominado de genômica comparada.

Como o próprio nome sugere, a genômica comparada é um campo de pesquisa biológica em que as características genômicas de diferentes seres vivos são comparadas. Infelizmente, na prática, esse campo de pesquisa acabou sendo mesclado com a teoria evolucionista de tal forma que todas as diferenças genéticas verificadas entre os organismos são interpretadas como havendo surgido durante a história evolucionária. Nesse contexto, a premissa da ancestralidade comum muitas vezes se sobrepõe à objetividade dos dados analisados. Os dados genéticos que têm sido utilizados de forma mais recorrente para respaldar nosso suposto parentesco evolutivo com os grandes macacos e justificar a inserção deles na família hominidae são os oriundos da comparação do genoma humano (Homo sapiens sapiens) com o genoma do chimpanzé (Pan troglodytes).[1]

As primeiras análises de comparação genômica realizada pelo Chimpanzee Sequencing and Analysis Consortium apontaram uma diferença de apenas 1,23% para o genoma humano.[2] Entretanto, essa porcentagem refletia apenas as substituições de bases e não considerava os muitos trechos de DNA que estavam ausentes ou presentes em apenas um genoma. Posteriormente, uma análise computacional dirigida pelo cientista Matthew Hahn considerou as diferenças do número de cópias gênicas e chegou a uma diferença de 6,4% entre os genomas do Homo sapiens sapiens e Pan troglodyte.[3]

Ou seja, a diferença genômica de 1 a 2%, ensinada e difundida por diversas instituições de ensino ao redor do mundo até os dias de hoje, não passa de um mito. Além disso, a apresentação dessa diferença em termos de porcentagem acaba mascarando sua real magnitude. Há por volta de 40-45 milhões de bases presentes em humanos que estão ausentes em chimpanzés, e aproximadamente o mesmo número presente nos chimpanzés e ausentes em humanos; 689 genes são encontrados apenas no genoma humano e 86 genes são exclusivos do genoma do chimpanzé.[3] As diferenças incluem diferenças no tipo e número de DNA genômico repetitivo e transposons, abundância e distribuição de retrovírus endógenos, presença e extensão de polimorfismos alélicos, polimorfismos de nucleotídeo único (SNPs), diferenças de sequência gênica, duplicações gênicas, diferenças de expressão gênica e variações de splicing de RNA mensageiro.[4]

Além disso, ao se realizar uma análise comparativa da estrutura e do número de cromossomos das duas espécies, as seguintes diferenças são verificadas: (a) a região dos telômeros (sequências repetitivas de DNA no final dos cromossomos) é muito maior em chimpanzés do que em humanos;[5] (b) os genes e marcadores nos cromossomos 4, 9 e 12 não estão na mesma ordem em humanos e chimpanzés;[6] (c) a análise do mapa do cromossomo 21 permite identificar várias regiões que são específicas do genoma humano;[7] (d) o cromossomo Y possui tamanhos diferentes e muitos marcadores que não se alinham entre humanos e chimpanzés;[8] (e) o chimpanzé tem 24 pares de cromossomos, enquanto os humanos têm apenas 23 pares.

No entanto, essas muitas diferenças não bastam para que os cientistas darwinistas questionem o paradigma da ancestralidade comum entre humanos e chimpanzés. Como exemplo dessa recusa pode ser citada a explicação dada para a diferença de 48 para 46 cromossomos verificada entre chimpanzés e humanos, respectivamente. Segundo os evolucionistas, o cromossomo humano 2 teria sido formado pela fusão de dois cromossomos pequenos em um ancestral simiesco da linhagem humana. No entanto, essa explicação levanta os seguintes questionamentos: (a) Qual seria o mecanismo pelo qual uma anormalidade cromossômica poderia se tornar universal em uma linhagem tão grande como a humana?; (b) Qual seria a vantagem seletiva de se possuir um cromossomo resultante de uma fusão?

As respostas práticas e viáveis para essas perguntas são um desafio para os cientistas que continuam sustentando a evolução humana. Ademais, mesmo se houvesse evidências concretas que sustentassem a origem do cromossomo 2 humano a partir de uma fusão de dois cromossomos menores, ela não poderia ser utilizada para respaldar a ideia de que humanos e chimpanzés compartilharam um ancestral comum há cinco milhões de anos. Essa fusão teria que haver surgido depois que a linhagem humana se separou da dos chimpanzés, ou seja, ela só forneceria evidências para ligar os indivíduos que a compartilhassem.

Ao me deparar com explicações meramente especulativas e falácias lógicas como a supracitada, as quais muitas vezes são utilizadas para sustentar o edifício epistemológico da teoria evolucionista, lembro-me da declaração do biólogo evolucionista Richard Lewontin:

“Nós ficamos do lado da ciência, apesar do patente absurdo de algumas de suas construções, apesar de seu fracasso para cumprir muitas de suas extravagantes promessas em relação à saúde e à vida, apesar da tolerância da comunidade científica em prol de teorias certamente não comprovadas, porque temos um compromisso prévio, um compromisso com o materialismo. Não é que os métodos e as instituições da ciência de algum modo nos compelem a aceitar uma explicação material dos fenômenos do mundo, mas, ao contrário, somos forçados por nossa prévia adesão à concepção materialista do Universo a criar um aparato de investigação e um conjunto de conceitos que produzam explicações materialistas, não importa quão contraditórias, quão enganosas e quão mitificadas para os nãos iniciados. Além disso, para nós o materialismo é absoluto, não podemos permitir que o ‘pé divino’ entre por nossa porta.”[9]

A adesão de muitos cientistas a uma concepção materialista os impede de reconhecer a obviedade de que somos muito diferentes de qualquer animal e que processos evolutivos não podem originar essas diferenças. A narrativa do livro de Gênesis escancara o abismo que há entre o ser humano e outros organismos. Plantas, aves e animais terrestres e aquáticos foram criados “conforme a sua espécie” (Gênesis 1:11-25), mas o ser humano foi criado “à imagem e semelhança de Deus” (Gênesis 1:26). Obviamente há semelhanças entre o ser humano e outros organismos, que podem ir desde o genótipo até o fenótipo, mas essas semelhanças podem ser entendidas como padrões utilizados pelo Criador – a assinatura de um Deus criativo e todo-poderoso – e não necessariamente como evidências de ancestralidade comum. Dessa forma, tomando por base a Bíblia Sagradas e diversas evidências científicas, podemos dizer para orangotangos, gorilas e chimpanzés: “Não! Vocês não fazem parte da família Hominidae!”

(Tiago Alves Jorge de Souza é doutor em Ciências Biológicas na área de concentração em Genética)

Referências:

1. Cohen,  J.  News Focus on Evolutionary Biology, Relative Differences: The Myth of 1%, Science, v. 316., n. 5833, p. 1836, 2007.

2. Khaitovich, P., Hellmann, I., Enard, W., et al.. "Parallel patterns of evolution in the genomes and transcriptomes of humans and chimpanzees". Science, v. 309, n. 5742. p. 1850–4, 2005.

3. Demuth, J. P. , Bie, T. D., Stajich, J. E., Cristianini, N., Hahn, M.W. The Evolution of Mammalian Gene Families. PLoS ONE 1(1): e85, 2006.

4. Gagneux,, P., Varki, A.. ‘Genetic differences between humans and great apes.’ Mol Phylogenet Evol. v. 18, p. 2-13,  2001.

5. Kakuo, S., Asaoka, K.,  Ide, T. ‘Human is a unique species among primates in terms of telomere length.’ Biochem Biophys Res Commun , v. 263, p. 308-31, 1999.

6. Gibbons, A.. ‘Which of our genes make us human?’ Science, v. 281, p. 1432-1434, 1998.

7. Fujiyama, A., Watanabe, H., Toyoda, A., et al. ‘Construction and analysis of a Human-Chimpanzee Comparative Clone Map.’ Science v. 295, p. 131-134., 2002.

8. Archidiacono, N., Storlazzi, C.T., Spalluto, C., Ricco, A.S., Marzella, R., Rocchi, M. ‘Evolution of chromosome Y in primates.’ Chromosoma, v.  107, p. 241-246, 1998.

9. Lewontin R. C. Billions and Billions of Demons. The New York Review of Books, 1997.