quarta-feira, fevereiro 21, 2018

A Atlântida e a migração para as Américas após o período do gelo


Ao longo destes anos, tenho investigado alguns relatos históricos e evidências arqueológicas relativos ao período pós-diluviano, inclusive tenho apresentado algumas dessas evidências em minhas palestras. No livro Revisitando as Origens, mais especificamente no capítulo intitulado A “Era do Gelo”: uma perspectiva bíblico-científica, encontra-se a seguinte informação quanto ao início e à duração da época do gelo: “De acordo com o naturalista Harry Baerg, ‘a formação e o desaparecimento dos lençois de gelo devem ter ocorrido entre o tempo do dilúvio e o começo da história registrada’. É, portanto, razoável admitirmos que o início da idade do gelo coincida com a história da Torre de Babel, construída no vale do Sinar (atual Iraque) entre 100 e 130 anos após o dilúvio. E o que dizer da Bíblia? Existem relatos bíblicos sobre essa época do gelo? Podemos perceber na narrativa do livro de Jó, nos capítulos 6:16; 38:22, 29, 30, um clima mais frio no princípio da história bíblica, datado entre 300-500 anos após o dilúvio.

“De acordo com os cálculos feitos pelo mestre em Ciências Atmosféricas Michael Oard, a época do gelo pode ter durado menos de mil anos, mais especificamente 500 anos de acúmulo de gelo e 70 anos para derreter as camadas de gelo ao longo da borda, e cerca de 200 anos no interior do Canadá e da Escandinávia. Existem evidências históricas relativas ao ano 1.454 a.C. em que Partholan, líder do segundo grupo a conquistar a Irlanda, teria desembarcado nessa região e registrado o número de lagos e rios existentes. Pouco tempo depois, na segunda colonização, havia um número bem maior de lagos e rios. Provavelmente, os registros irlandeses antigos evidenciaram o derretimento das camadas de gelo do norte europeu. Segundo Ussher, o dilúvio ocorreu em 2.348 a.C. Portanto, a era glacial teria terminado mil anos após a grande inundação” (Alves, 2018, p. 74, 75).

Ao compararmos as evidências bíblico-científicas acima com registros da cultura de povos pré-colombianos percebemos que as peças vão se encaixando nesse enorme quebra-cabeça acerca de nossas origens. O problema é que pesquisas nos registros originais dessas culturas têm sido pouco valorizadas em nossos dias. Porém, aceitamos o desafio e estamos trazendo para você, leitor, alguns relatos que dificilmente você encontraria, tanto na língua inglesa quanto na língua portuguesa.

Aparentemente, parte da imigração para a América aconteceu por meio dos descendentes de Cam durante o segundo milênio, devido a alterações climáticas, passando por ilhas no Atlântico que devem ter submergido durante ou após o derretimento dos glaciais no norte, ao fim da época do gelo.

Por que descendentes de Cam? Alguns anos atrás, durante uma pesquisa sobre os antigos povos celtas da Irlanda, nos deparamos com um texto que chamou nossa atenção no livro AD 500: A journey Through the Dark Isles of Britain and Ireland: “Por muito estranho que possa soar, seus sábios insistem que os Celtas chegaram à Irlanda, em épocas passadas, ao final de uma grande jornada que se iniciou na Ásia e passou pela terra das pirâmides” (Young, 2006, p. 67).

Textos como esse nos deram uma noção de quanto se poderiam ter extendido as migrações após o dilúvio na Europa e no mundo a partir da Ásia. Mas será que teriam razão os antigos celtas da Irlanda?

Já nos séculos 15 e 16, pesquisadores percebiam as grandes migrações que ocorreram nos primeiros séculos da história conhecida/registrada, inclusive mencionando literalmente Cam: “Observa-se que Cam e seus descendentes foram os únicos que viajaram e se espalharam por diversas regiões desconhecidas, pesquisando, explorando e se estabelecendo nelas” (Hogen, 1971, p. 262).

Porém, temos alguma prova de que essas migrações aconteceram? O autor Bill Cooper, em seu livro Depois do Dilúvio, menciona algo sobre a origem do povo chamado Mizraim que habitou a região do Egito: “Mizraim: nome do povo que se localizou no Egito. Os modernos israelenses ainda usam esse nome para aquele país. O nome está preservado como Msrm nas inscrições ugaríticas; como Misri nos tabletes de Amarma, e nos registros assírios e babilônicos respectivamente como Musur e Musri. Os árabes modernos ainda o conhecem como Misr” (Cooper, 2008, p. 152).



Mas quem era esse povo Mizraim? O mesmo autor nos dá a reposta e apresenta uma tabela mostrando a genealogia de Cam. Assim, respondendo à pergunta: “Será que essa convicção dos antigos celtas da Irlanda estaria certa?” Há alguma outra fonte histórica que registre a rota de migração do Egito a Europa?

No Tratado único y singular del origen de los indios del Perú, Méjico, Santa Fe y Chile, do autor Andrés Diego Rocha, vemos a seguinte declaração: “O rei Osiris, senhor do Egito, que alguns dizem ser este neto de Noé, e que viveu cerca de [...] veio do Egito (para a Espanha) e matou a Gerion em uma batalha junto a Tarifa, e alguns dizem que Osiris seguiu governando a Espanha durante muito tempo. No tempo em que viveu Osiris parece que começaram a vir para esta América passando pela ilha da Atlântida” (Rocha, 1891, p. 141-142).

Em que ano teria vivido Osiris, e de que forma o ano em que ele viveu estaria relacionado com o período da época do gelo? Sobre esse personagem, Osiris, encontramos o seguinte comentário no livro A Torre de Babel e seus mistérios, de autoria de Guilherme Stein Jr: “Osiris foi um dos mais importantes deuses do Egito antigo. A origem de Osiris é obscura, não sendo certo ter sido ele inicialmente um deus local de Abydos, no Alto Egito, ou de Busiris, no Baixo Egito, ou se foi a personificação da fertilidade, ou simplesmente um herói deificado. Em torno de 2.400 a.C., entretanto, Osiris desempenhava um duplo papel – era ele tanto um ‘deus da fertilidade’ quanto a personificação do ‘rei morto’” (Stein Jr, 2017, p. 63).

A data aproximada em que Osiris viveu (2.400 a.C.) coincide com o fim do período do gelo mencionado no início deste texto. Ademais, podem-se encontrar relatos acerca do percurso e da passagem pelo Egito que, assim como Osiris, outros povos teriam feito antes de alcançar seu destino final.

Isso pode ajudar a entender as possíveis rotas de migração dos povos à América antes e depois da Era do Gelo, já que existem antigos relatos de uma movimentação em direção à América do Sul bem anteriores aos que são mencionados pelos “especialistas” normalmente aceitos. A seguir temos o relato de uma antiga imigração dos povos americanos feito pelo cronista Francisco Lòpez de Gòmara em 1555 (em espanhol antigo): “Tambien dizen algunos Indios ancianos, q se llamaua Uiaracocha, que quiere dezir gralla del mar, y quer trajo su gente por la mar. Zopalla en conclusión, afirman q poblo y allendo en el Cuzco, de dõde começarõ los Yngas a guerrear la comarca, y aun otras tierras muy lejos, y pusierõ allí la filla y corte de su império” (Gòmara, 1555, Fo. Lv).

Tradução: “Também dizem alguns anciãos dos índios que ele se chamava Viracocha, que quer dizer gralha do mar, e que trouxe seu povo pelo mar. Zopalla conclui e afirma que o povo indo até o Cuzco, e de aí os incas guerrearam na comarca e ainda terras mui longínquas, e puseram nesse lugar a corte do seu império” (Gòmara, 1555, Fo. Lv).

O autor Andrés Diego Rocha no seu livro Origen de los Indios defende a ideia de que os antigos espanhois teriam migrado à América em tempos remotos e, assim, seu retorno em 1492 seria somente um retomar daquilo que lhes pertencera no passado. Para isso ele usa até argumentos linguísticos: “Do que acabamos de dizer, encontram-se na língua dos índios muitas palavras semelhantes à antiga língua castelhana, tais como: Aca, alla, ama, anca, ancho, casa, cacha, cala...” (Rocha, 1891, p. 78, 79).

E a tal ilha, chamada pelos autores de Atlântida, ficava onde? É possível que essa ilha devesse ser uma ilha continental ou um grupo de ilhas no Atlântico sobre a dorsal messo-oceânica. Teriam elas sido cobertas durante ou após o derretimento dos gelos do norte?

Ela não é mais mencionada após o segundo milênio antes de Cristo. Isso é evidenciado num relato feito pelo cronista Andrés Diego Rocha, quando se refere a um acontecimento durante o primeiro século e os navegantes fenícios não mencionam mais a existência dessa(s) ilha(s): “Na época dos cartagineses, um grande argonauta chamado Hannon, e Plinio, no livro 2 de sua Historia Natural, capítulo 67, menciona as largas viagens que fez este Hannon, desde Gibraltar até o último da Arábia, passando duas vezes a Equinocial, e também menciona Arriano, de origem grega, autor antigo, no livro 8 de seu comentário, indicando que o referido Hannon fez outra navegação quase semelhante a que em nossos tempos fez Colon, e de estas últimas navegações, escreve o P. Maluenda em seus livros de Anti-Cristo, livro 3, capítulo 16 e Gòmara na Historia de las Indias, na primeira parte” (Rocha, 1891, p. 21).

Ao chegar à América, continua o relato, eles comentam aspectos interessantes sobre o que viram: “Chegaram a uma ilha muito ampla, abundante de pastagens, de grande frescura e bosques, e muito rica, irrigada por rios, delimitados por montanhas muito íngremes, tão largos e bordais que poderiam ser navegados” (Rocha, 1891, p. 22).

Notemos que o relato acima descreve “montanhas muito íngremes”, no plural, o que nos mostra que o relator não estivesse se referindo a uma ilha, mas provavelmente aos Andes navegados via rio Amazonas. E assim, provavelmente, aconteceu o povoamento das Américas, após o fim do período do gelo e da dispersão de Babel, não por povos primitivos, mas sim por pessoas inteligentes capazes de grandes construções arquitetônicas como os zigurates em formas de pirâmides.

Como é mencionado, essa ilha chegava até às ilhas Barlovento: “E tendo então transitado pela ilha Atlântida, que se continuava até as ilhas de Barlovento” (Rocha, 1891, p. 141, 142).

Essas ilhas estão localizadas na região do Caribe. Assim, temos fortes indícios de que uma das rotas naturais dos imigrantes teria sido em direção à América do Sul.

(Everton Fernando Alves é mestre em Ciências pela UEM; texto escrito em coautoria com o pesquisador Irwin Susanibar Chavez, a quem o Everton agradece profundamente por compartilhar com ele suas pesquisas e conhecimento)

Referências:
Alves, Everton Fernando. A "Era do Gelo": uma perspectiva bíblico-científica. In:________. Revisitando as Origens. Maringá: Editorial NUMARSCB, 2018, p.68-78.
Cooper B. Depois do dilúvio. 1. Ed. Brasília: SCB, 2008.
Gòmara, Francisco Lòpez de. La historia general de las Indias y nuevo mundo, con mas la conquista del Peru y de Mexico. Çaragoça, 1555; a abreviação “Fo. Lv” significa fólios, o livro era como pergaminhos, portanto não tinha folhas.
Hogen M. Early Anthropology in the Sixteenth and Seventeenth Centuries. Philadelphia: Univ. Pensylvania, 1971.
Rocha, Diego Andrés. Tratado único y singular del origen de los indios del Perú, Méjico, Santa Fe y Chile. V. 1. Madrid: [Impr. de Juan Cayetano García], 1891. Fondo Antiguo
Stein Júnior, Guilherme. A Torre de Babel e seus mistérios. 2. Ed. Brasília: SCB, 2017.
Young, Simon. A.D. 500: a journey through the dark isles of Britain and Ireland. London: Phoenix, 2006.

terça-feira, fevereiro 20, 2018

Pesquisas com híbridos reforçam o que Ellen White escreveu no século 19


Pesquisadores norte-americanos produziram um novo tipo de embrião híbrido de ovelhas com humanos. O objetivo desse estudo não é criar um animal quimérico meio ovino meio humano que saia andando por aí, mas, sim, doação de órgãos – ou seja, usar partes cultivadas do corpo humano dentro de animais para transplante. Os cientistas introduziram células-tronco humanas em embriões de ovelhas, resultando em uma criatura híbrida que é mais de 99% ovelha. Todos os embriões criados no experimento foram destruídos após 28 dias. “A contribuição das células humanas até agora é muito pequena. Não é nada como um porco com rosto humano ou cérebro humano”, disse o biólogo Hiro Nakauchi, da Universidade de Stanford, em uma apresentação da pesquisa realizada em Austin, no Texas. Os pesquisadores explicaram que, por contagem de células, apenas cerca de uma em cada 10.000 (ou menos) nos embriões de ovinos são humanas. O experimento se baseou em estudos anteriores da mesma equipe. Esses estudos envolveram colocar células humanas em embriões de porcos em laboratório, com sucesso.

A ideia do estudo é que esses embriões possam um dia fornecer uma solução única para milhares de pessoas em listas de espera de doação de órgãos, sendo que a maioria morre antes de conseguir um compatível. “Mesmo hoje, os melhores órgãos, exceto se vierem de gêmeos idênticos, não duram muito tempo, porque o sistema imunológico continuamente os ataca”, disse o biólogo reprodutivo Pablo Ross, da Universidade da Califórnia.

Embora isso ainda esteja muito distante de ser prático, órgãos produzidos em quimeras poderiam ser uma forma de criar um estoque suficiente para atender à demanda de transplantes. Poderíamos, por exemplo, colocar um pâncreas hibridizado de uma ovelha ou porco em um paciente em necessidade.

Para que o transplante funcione, contudo, os pesquisadores pensam que pelo menos 1% das células do embrião precisariam ser humanas, o que significa que os primeiros passos demonstrados nesse estudo ainda são preliminares.

Apesar de não representar um perigo imediato, experiências como essa são sempre controversas. Aumentar a proporção humana na mistura de uma quimera também aumenta inevitavelmente as críticas éticas sobre o tipo de criatura que está sendo criada, com o único propósito de ter seus órgãos essenciais colhidos. “Digamos que, se nossos resultados indicarem que as células humanas vão ao cérebro do animal, talvez nunca possamos levar isso em frente”, explicou Ross.

Não há respostas fáceis para os tipos de questões que a pesquisa levanta, mas tendo em vista que a lista de espera por órgãos é preocupante no mundo todo, não devemos descartar de cara as possibilidades que as quimeras nos proporcionam. “Todas essas abordagens são controversas, e nenhuma delas é perfeita, mas oferecem esperança às pessoas que morrem diariamente”, conclui Ross.


Nota: No século 19, a escritora inspirada Ellen G. White escreveu algo sobre experiências de “amalgamação” (hibridização) levadas a cabo pelos antediluvianos e/ou pelo próprio Satanás (leia mais sobre isso aqui). Isso gerou muita discussão na época, justamente porque se desconheciam maneiras de fazer isso que não fosse pela via sexual, por reprodução simples. Nesse caso, “amalgamar” espécies diferentes como ser humano e ovelha realmente era impossível. Pelo teor polêmico do assunto, ela foi orientada por um anjo a não mais falar sobre isso. Naquela época, as possibilidades oferecidas pela engenharia genética eram desconhecidas, no entanto, nada impede que os inteligentíssimos, inventivos e longevos seres humanos que viveram antes do dilúvio e mesmo os anjos caídos possam ter feito experiências genéticas de hibridização, o que, também, levou Deus a dar um basta, tendo Ele considerado essas misturas, essas “brincadeiras” com a vida um pecado gravíssimo. Claro que as experiências de Hiro Nakauchi e outros têm como objetivo salvar vidas, mas sabe-se lá o que pesquisadores menos éticos podem estar fazendo em laboratórios por aí...

No tempo de Ellen White, “amalgamação” genética realmente era algo impossível. Hoje não mais. Pelo visto, essa simples mulher sem educação formal acertou mais uma vez, o que deve, no mínimo, despertar respeito e curiosidade pelas coisas que ela escreveu. E esse acerto dela acaba se constituindo em mais um sinal da breve volta de Jesus, pois a Bíblia diz que os pecados que marcaram o período imediatamente anterior ao dilúvio se repetiriam antes da volta de Jesus – pecados como o de “brincar” com algo sagrado como a vida. [MB]

Leia mais sobre hibridização aqui.

sexta-feira, fevereiro 16, 2018

Vida ao extremo seria vida “ancestral”?

Pensar em formas de vida independentes de oxigênio até há algum tempo foi considerado um evento absurdamente improvável. Mais improvável, por assim dizer, é que nós e a grande maioria dos seres vivos sobrevivamos em alguns tipos de ambientes, como em lugares onde as temperaturas são extremamente elevadas ou em depressões nas quais não há oxigênio, o elemento base para a nossa respiração acontecer. Entretanto, alguns organismos nos surpreendem, e fazem desse impasse uma solução. É o caso do Sulfolobus solfataricus, um microrganismo que habita fontes termais localizadas ao lado de vulcões, onde a temperatura chega a 88 °C. Mas não se compadeça, essa é a temperatura “ótima” para esse organismo viver. Em um ambiente onde muitos literalmente cozinhariam, o Sulfolobus desfruta de momentos de lazer como se estivesse a nadar tranquilamente em uma piscina térmica. E, por viver nessas condições, esse curioso micróbio utiliza o enxofre como sua fonte de energia, diferentemente dos outros seres.[1] Já o Pyrococcus furiosus, outro “esquentadinho” da lista, tolera até 100 °C,[2] superando seu colega citado acima. Mas ainda mais surpreendente é o Pyrolobus fumarii, uma espécie de arqueobactéria, que habita as paredes das fendas termais no fundo do oceano Atlântico, onde as temperaturas chegam a incríveis 113 °C.[3]
           
Por outro lado, especificamente no outro extremo da situação, as coisas não divergem, pois em 2012 uma equipe de cientistas encontrou um apanhado de bactérias vivendo sob condições congelantes na Antártida,[4] em um lago salgado sem luz e sem oxigênio, onde a temperatura chega a marcar -13 °C. Esse lago, chamado Vida, possui concentrações elevadas de elementos nocivos para a maioria dos organismos, como amoníaco, nitrogênio, hidrogênio, enxofre e óxido nitroso.
           
A temperatura, todavia, não é a única condição de ambiente célebre (e extremo) que chama a atenção. Mesmo o Mar Morto só é “morto” no nome, porque, contrário ao que muitos pensam, há vida nele. Embora seja um ambiente onde as taxas de salinidade são absurdas e onde os organismos expostos são violentamente desidratados, a bactéria Haloarcula marismortui excede o padrão.[5]
           
Embora esses microrganismos sejam minúsculos, o impacto de sua descoberta foi enorme: houve uma revolução a partir de 1970 no modo como os organismos eram classificados (as arqueobactérias, anteriormente incluídas no domínio Bacteria, foram desmembradas para formar um novo domínio, o das Archaea[6]); a indústria da biotecnologia ganhou campo e lugar com o achado desses novos seres com DNAs capazes de suportar temperaturas elevadas de cozimento, necessárias para as pesquisas obterem sucesso; e os evolucionistas se empolgaram com seres vivos habitando ambientes extremos, aumentando as esperanças deles de que poderia existir vida em outro lugar do Universo, intensificando assim as pesquisas “astrobiológicas”.[7]
           
Mais estreito foi o caminho que tomaram alguns cientistas, ao assumir a crença de que, no suposto passado primitivo, a origem da vida tenha acontecido ao redor de fontes hidrotermais, semelhantes aos habitats desse grupo especial de organismos: os extremófilos.[8] A vida nos primórdios da Terra (como alguns acreditam) possuía pouca luz solar, não havia fotossíntese e, portanto, pouco ou quase inexistente oxigênio.[9, 10]
           
A revelação da existência dos extremófilos foi muito bem recebida pela comunidade científica que antecipadamente comemorou a vitória sobre os criacionistas, pois, afinal de contas, por que Deus criaria organismos para viver em ambientes extremos? Por que o Criador, em sua infinita inteligência, criou seres tão diferentes aos habituais? Apesar desse entusiasmo, os extremófilos levantam novas dificuldades para os evolucionistas. Se eles tinham perguntas a fazer, também têm a responder: como se explica o motivo para um organismo ter evoluído a fim de sobreviver em ambientes extremos tão especializados como as chaminés de rocha nas profundidades dos oceanos que, se alcançarem os 350 °C, entram em erupção? Alguns cientistas alegam que foi exatamente em tais circunstâncias que a vida no planeta se originou – em um ambiente quente e com pouco oxigênio, banhado nos fluidos ricos em minerais que brotam das aberturas hidrotermais. Assim vivem os archaea, como (talvez) poderiam ter vivido há 3,5 bilhões de anos.[11] Mas nada mais nada menos que o pai das experiências modernas sobre a origem da vida, Stanley Miller, apontou que os “blocos de construção” da vida são muito instáveis para um início de vida quente.[12]
           
E, de qualquer forma, não existem microrganismos vivendo somente em ambientes  de extremo calor. Como explicar a evolução das archaeas que vivem nas calotas polares, em ambientes hipersalinos ou ácidos, em ambientes desérticos ou mesmo na densa atmosfera?[13] E ainda mais curioso e desafiador é o fato de que alguns extremófilos são capazes de suportar extremos físicos além de qualquer coisa presente no ambiente natural. Por exemplo, a bactéria Deinococcus radiodurans foi encontrada em latas de carne que foram esterilizadas (ou assim se pensou) com radiação gama.[14] Enquanto milhares de rads de radiação ionizante são suficientes para matar uma pessoa adulta, essa bactéria pode sobreviver a 12 milhões de rads! De acordo com a teoria da evolução, um organismo possuirá apenas os atributos de que precisa para sobreviver. Então, onde a Deinococcus vivia que precisava suportar 12 milhões de rads de radiação gama, sendo que a radiação natural na Terra fica numa fração muitíssima abaixo desse valor? A melhor “escapatória” para essa interrogação foi sugerir que supostamente esse organismo evoluiu para resistir à extrema secura e, portanto, a resistência à radiação é apenas uma consequência fortuita desse processo evolutivo.[15]
           
Em contraste, para os criacionistas que acreditam na Bíblia, a habilidade da vida para “conquistar” e habitar ambientes extremos não deve ser tão surpreendente, já o Senhor ordenou que os seres vivos deveriam se multiplicar e “preencher” a Terra (Gênesis 1:28). E quando levamos em consideração esse texto, podemos compreender outros exemplos de criaturas que ocupam os locais mais severos do planeta, quebrando ainda mais os argumentos dos evolucionistas e eliminando qualquer pseudoparadigma para os criacionistas. Pois não são apenas organismos unicelulares (uma única célula) que vivem nesses ambientes hostis, mas criaturas multicelulares (muitas células) também. Por exemplo, o verme de Pompeia (Alvinella pompejana) vive em tubos que ele constrói ao lado das chaminés fumegantes mencionadas anteriormente. A temperatura dentro desses tubos foi medida em 85 °C [16] e também foi relatado um caso de um desses vermes que abandonou seu tubo e aderiu em torno da sonda de temperatura dos pesquisadores, mostrando 105 °C.[17] E o que dizer do Hesiocaeca methanicola que foi encontrado vivendo no fundo do mar no Golfo do México, em uma mistura cristalina de água, metano e outros hidrocarbonetos numa temperatura relativamente baixa.[18] Essas criaturas se adaptaram para viver em uma parede de gelo feita de metano, onde elas lentamente se enterram em seu habitat. Mas não é muito esforço simplesmente para ter uma moradia? Como um pesquisador comentou: “Por que esses vermes trocaram uma vida boa na lama por uma vida no gelo é um enigma.”[17, tradução do autor]
           
Mas de todos os organismos até agora identificados que podem viver em ambientes hostis, os mais resistentes do planeta são, de longe, os tardígrados. Você pode congelá-los, fervê-los, secá-los, não alimentá-los por semanas e ainda colocá-los no vácuo – eles sobreviverão. Cerca de 700 espécies de tardígrados já foram identificadas em lugares que vão desde os picos congelantes do Himalaia até os desertos mais quentes e secos. Como resistem a tais extremos do ambiente? Eles podem “desligar” seu metabolismo em condições desfavoráveis. Quando os ambientes ficam insuportavelmente quentes, ou frios ou secos, por exemplo, muitos tardígrados enrolam-se no formato de um barril, que é sua armadura de resistência.[19] Eles então fazem os preparativos bioquímicos para se “fechar” (mesmo a respiração cessa completamente). Mais tarde, quando as circunstâncias favoráveis retornam, o tardígrado se desenrola e a vida continua como antes, normalmente.
           
Até onde está conhecido, o registro de maior sobrevivência (neste caso, sem água) foi de 120 anos para tardígrados retirados do musgo seco de um museu na Itália.[20]
           
E os biólogos ficam espantados com o tipo de tratamento de laboratório que esses animais são capazes de suportar (muitas vezes, muito pior do que qualquer condição que poderiam experimentar na Terra). Por exemplo, eles “ressuscitaram” após terem sido congelados com hélio líquido (-272 °C), apenas uma fração acima do zero absoluto (-273 °C), a menor temperatura possível. Em outro exemplo, eles sobreviveram sendo aquecidos a 151 °C. Também resistiram após serem disparados raios-x com uma intensidade 250 vezes mais forte do que a frequência que mataria um ser humano. E há muitas outras coisas impressionantes que desconhecemos que essas criaturas conseguem realizar.[20]
           
Como apontado antes, a capacidade dos tardígrados de sobreviver ao serem submetidos a tratamentos de laboratório tão extremos (radiação, baixa temperatura, pressão hidrostática), muito mais severos que qualquer ambiente terrestre, apresenta uma clara dificuldade para a teoria evolutiva. E não são apenas os tardígrados. Com um aumento na pesquisa e exploração dos microrganismos extremófilos e outros organismos capazes de suportar condições muito mais severas do que em qualquer lugar da Terra, o desafio para os evolucionistas torna-se ainda mais intratável. Isso ocorre porque a seleção natural só pode selecionar as características necessárias para a sobrevivência imediata. Consequentemente, não se pode esperar que a evolução “invente demais”, transformando criaturas que possam suportar uma série de ambientes que nunca enfrentaram.
           
Para os cristãos, porém, o “excesso de design” dessas criaturas revela um Designer (Romanos 1:20), e não é de se surpreender que Deus também tenha incorporado em alguns seres vivos a capacidade de se deslocar e “preencher” o mundo inteiro, tal como Ele havia ordenado (Gênesis 1). E, de fato, vemos hoje essa ordem se cumprindo, ao encontrarmos vida desde os ambientes mais severos do oceano até o topo da montanha mais densa. De polo a polo, mesmo nas extremidades da Terra, a natureza revela seu Criador.

(W. Augusto Gomes é biólogo em Curitiba, PR)

Referências:
[1] Brock, T. D. et al (1972). Sulfolobus: a new genus of sulfur-oxidizing bacteria living at low pH and high temperature. Archiv für Mikrobiologie, 84(1), 54-68.
[2] Fiala, G., & Stetter, K. O. (1986). Pyrococcus furiosus sp. nov. represents a novel genus of marine heterotrophic archaebacteria growing optimally at 100 C. Archives of Microbiology, 145(1), 56-61.
[3] Blöchl, E. et al (1997). Pyrolobus fumarii, gen. and sp. nov., represents a novel group of archaea, extending the upper temperature limit for life to 113 C. Extremophiles, 1(1), 14-21.
[4] Murray, A. E. et al (2012). Microbial life at− 13 C in the brine of an ice-sealed Antarctic lake. Proceedings of the National Academy of Sciences, 109(50), 20626-20631.
[5] Oren, A. et al (1990). Haloarcula marismortui (Volcani) sp. nov., nom. rev., an extremely halophilic bacterium from the Dead Sea. International Journal of Systematic and Evolutionary Microbiology, 40(2), 209-210.
[6] Para uma maior compreensão dessa mudança na classificação biológica e os estudos realizados por Carl Woese, ver: Woese, C. R. et al (1990). Towards a natural system of organisms: proposal for the domains Archaea, Bacteria, and Eucarya. Proceedings of the National Academy of Sciences, 87(12), 4576-4579.
[7] Des Marais, D. J. et al (2008). The NASA astrobiology roadmap. Astrobiology, 8(4), 715-730.
[8] Rothschild, L. J., & Mancinelli, R. L. (2001). Life in extreme environments. Nature, 409(6823), 1092.
[9] Gilbert, W. (1986). Origin of life: The RNA world. Nature, 319(6055), 618.
[10] Lal, A. K. (2008). Origin of life. Astrophysics and Space Science, 317(3-4), 267-278.
[11] Willmer, P. G. (2000). Extremophiles in the raw. Nature 408(6814):771.
[12] Miller, S. L. & Lazcano, A. (1995). The origin of life—did it occur at high temperatures?. Journal of Molecular Evolution, 41(6), 689-692.
[13] DeLeon-Rodriguez, N. et al (2013). Microbiome of the upper troposphere: species composition and prevalence, effects of tropical storms, and atmospheric implications. Proceedings of the National Academy of Sciences, 110(7), 2575-2580.
[14] Cox, M. M., & Battista, J. R. (2005). Deinococcus radiodurans—the consummate survivor. Nature Reviews Microbiology, 3(11), 882.
[15] Travis, J. (1998). Meet the superbug: Radiation‐resistant bacteria may clean up the nation's worst waste sites. Science News, 154(24), 376-378.
[16] Desbruyères, D. et al (1998). Biology and ecology of the “Pompeii worm”(Alvinella pompejana Desbruyères and Laubier), a normal dweller of an extreme deep-sea environment: a synthesis of current knowledge and recent developments. Deep Sea Research Part II: Topical Studies in Oceanography, 45(1-3), 383-422.
[17] Dor, S. (1998) Extreme worms. New scientist, 159(2144), 48-50.
[18] Fisher, C. R. et al (2000). Methane ice worms: Hesiocaeca methanicola colonizing fossil fuel reserves. Naturwissenschaften, 87(4), 184-187.
[19] Vecchi, M. et al (2018). The Microbial Community of Tardigrades: Environmental Influence and Species Specificity of Microbiome Structure and Composition. Microbial ecology, 1-15.
[20] Durvasula, R. V., & Rao, D. S. (Eds.). (2018). Extremophiles: From Biology to Biotechnology. CRC Press.

domingo, fevereiro 11, 2018

Histórias bíblicas na cultura dos povos pré-colombianos

Ao analisar os registros históricos preservados por nativos pré-colombianos percebemos que eles acreditavam em um Criador Supremo e que suas lendas registram um dilúvio global. Percebemos também que muitos detalhes des­sas lendas são estranhamente parecidos com as narrativas bí­blicas do Gênesis, sendo inevitável uma associação com as terras e os povos da Bíblia. Depois de considerar vários povos antigos, a conclusão mais plausível é a de que boa parte dos nativos americanos herdaram da cultura mesopotâmica tradições que mostram claramente sua ligação com esta cultura e ainda a relacionam com tradições hebraicas. Esta similaridade se dá não só pela semelhança das lendas nativas com as histórias bíblicas, como também por alguns rituais. A seguir, apresentaremos alguns trechos bem curiosos de registros históricos que encontramos ao longo de nossa pesquisa.

A criação do Mundo - Os nativos peruanos e andinos preservaram relatos bíblicos sobre a Criação do Mundo, Adão e Eva e sobre Noé e sua mulher: “Isto é o que contam os índios peruanos acerca de sua origem, de acordo com a lista dos autores mencionados acima. Do qual o que podemos vender por verdade é que, sem dúvida, os índios tiveram notícias da Criação do mundo e da formação de Adão, Eva, da Inundação e de Noé e sua mulher” (García, 1729, p. 334, 335).

Figura 1: Escudo inca, um símbolo que retrata e registra a origem desse povo, mostrando que eles saíram de uma montanha após o dilúvio (Fonte: Poma de Ayala, 1941).

Alguns conceitos de saúde do Éden bíblico - Aqui percebemos como os Incas viviam mais de cem anos, comiam pouca gordura e outros alimentos, e casavam tarde: “De como esses incas e demais senhores. Principais ou yns. As pessoas particularmente antigas fizeram e aumentaram sua saúde e anos de vida entre 250 e 150 anos, eles duravam tanto porque tinham uma ordem e regras de seguir e criar seus filhos. Quando garoto, não lhe deixavam comer coisa de sebo [gordura] ou nada de mel ou pimenta, sal e vinagre, nem lhe deixavam ter meninas nem dormir com uma mulher até ter cinquenta anos, nem se sangrava e se purgava [expurgava, limpava] todos os meses com três pares de bilca tauri [sementes purgativas usadas pelos Incas, feitas em líquido, usadas como medicamento oral para induzir o vômito em rituais] e misturado com macay [erva medicinal purgativa] que se tomava pela boca a metade e a outra metade se fazia enema [líquido que se introduz no ânus]; com isso, aumentaram a saúde e a vida. Até os trinta anos não tinham mulher, nem marido, nem cargo e, assim, tinham grande força para guerrear” (Poma de Ayala, 1941, p. 118, 119).

Figura 2: Capa do livro El Primer Nueva Corónica y Buen Gobierno, de uma edição de 2011, porém o desenho é o mesmo da versão original (Fonte: Poma de Ayala, 1941).

Alimentação apenas duas vezes ao dia - Isolados na América, alguns grupos mantiveram os costumes após o dilúvio. A refeição principal era a da parte da manhã e sucos e líquidos durante todo o restante do dia e um lanche no meio da tarde, exatamente como aconselha a escritora norte-americano Ellen White: “Como isso era conhecido, o Atabalipa pediu que lhe dessem de comer, e ele ordenou que todo seu povo fizesse o mesmo. Era costume comer pelas manhãs, e assim todos os nativos desse reino. Os Senhores, depois de ter comido, como digo, passavam o dia todo bebendo até a noite que comiam poucas coisas (Pizarro, 1917, p. 31).

Leis do Antigo Testamento - No trecho a seguir, extraído do livro Historia General del Perú, pode-se perceber semelhanças entre as leis dos Incas e a lei de Levítico: os incas não comiam sangue: “Que os da cidade de Cuzco de forma alguma comessem sangue ou qualquer coisa feita dele. Os leprosos e aqueles que eram porcos, sujos e nojentos, que os expulsassem do meio do povo, para que não contaminassem a outros, e o mesmo para aqueles que tinham enterrado algum falecido em sua casa. Ele ordenou que aqueles que derramassem a semente genital [esperma] fossem expulsos da cidade por um mês e, no início do outro mês, retornassem à cidade e que o pontífice ou o feiticeiro fizessem sacrifícios por ele e ou o que estivesse dormindo houvesse feito o mesmo, e primeiro entrassem desnudo em água fria e se lavasse. Que as mulheres tivessem ou andassem com companhia e vivessem honestamente. Os senhores ou ricos poderiam ter quantas quisessem e pudessem sustentar desde que fosse com o consentimento do Inca” (De Murúa, 1962, [Fol. 247], p. 90).

Neste trecho é possível perceber que, mesmo antes dos hebreus, o sangue tinha significado: “Os pontífices e os sacerdotes das huacas [santuário, templo] sacrificavam e ofereciam uns carneiros, que tinham dedicado para esse fim [sic], branco, sem mancha ou defeito [sic] qualquer” (De Murúa, 1962, [Fol. 256], p. 104).

Notamos também que eles vieram à América logo depois do dilúvio, centenas de anos antes de Abraão. Naquela altura, a lei já estava estabelecida (seja oral ou escrita) e podemos notar isso por meio da sua guarda do sábado: “Quanto ao terceiro preceito de santificar o sábado, eles tinham suas festas em dias designados, nos quais faziam grandes sacrifícios, e eles descansavam, particularmente no Peru. Os índios Totones, que são da Nova Espanha, estavam obrigados a ir ao Templo no sábado, à cerimônia que acontecia lá e ao sacrifício que ofereciam aos seus deuses” (García, 1729, p. 114).

Figura 3: Capa do livro Origen de los Índios de el Nuevo Mundo, e Indias Occidentales (Fonte: García, 1729).

Torre de babel - Várias tradições similares à da Torre de Babel são encontradas na América Central. Uma em especial relacionada aos Astecas diz que Xelhua, um dos sete gigantes salvos do dilúvio, construiu a Grande Pirâmide de Cholula – na América central – para desafiar o Céu. Os deuses destruíram-no com fogo e confundiram a linguagem dos construtores. No livro Ophiolatreia vemos o seguinte:

“Quando as águas diminuíram, um dos gigantes, chamado Xelhua, apelidado de ‘Arquiteto’, foi a Cholula, onde, como memorial do Tlaloc, que serviu para um asilo para si e para seus seis irmãos, ele construiu uma colina artificial em forma de uma pirâmide. Ele ordenou que os tijolos fossem feitos na província de Tlalmanalco, ao pé da Serra de Cecotl, e, para carregá-los até Cholula, ele colocou uma fila de homens que os passou de mão em mão. Os deuses viram, com ira, um edifício cujo topo chegava às nuvens. Irritado pela tentativa atrevida de Xelhua, lançaram fogo na pirâmide [na tradição asteca seriam meteoritos ‘que haviam caído do céu envolvidos em uma bola de fogo’]. Numerosos trabalhadores morreram. O trabalho foi interrompido e o monumento foi depois dedicado para Quetzalcóatl” (Jennings, 1889, p. 63).

Figura 4: Segunda Edad. (vida no segundo milênio após o dilúvio). É curioso que as construções de pedra já estavam em pé. Isso significa que as construções megalíticas não foram obra dos Incas (Fonte: Poma de Ayala, 1941).

Uma inscrição original em Nahuatl, a língua asteca, que havia sido escrita pelo escriba nativo, abaixo de uma ilustração nativa encontrada no templo de Cholula, dizia: “Nobres e senhores, aqui vocês têm seus documentos, o espelho do seu passado, a história de seus antepassados, que, fora de medo de um dilúvio, construiu este lugar de refúgio ou asilo para a possibilidade de recorrer a tal calamidade” (Nuttall, 1901, p. 269).

Outro relato, atribuído pelo historiador nativo Fernando de Alva Cortés Ixtilxochitl aos antigos Toltecas, diz que depois de os homens terem se multiplicado após um grande dilúvio, eles erigiram um alto zacuali ou torre, para se preservarem no caso de um segundo dilúvio. Contudo, as suas línguas foram confundidas e eles foram para diferentes partes da terra (Ixtilxochitl, 1640).

O Sol “parou” por mais de 20 horas - Josué 10:12-14 relata um episódio que teria acontecido cerca de 1400 a.C.: No dia em que o Senhor entregou os amorreus aos israelitas, Josué exclamou ao Senhor, na presença de Israel: ‘Sol, pare sobre Gibeom! E você, ó Lua, sobre o vale de Aijalom!’ O Sol parou, e a Lua se deteve, até a nação vingar-se dos seus inimigos, como está escrito no Livro de Jasar. O Sol parou no meio do céu e por quase um dia inteiro não se pôs.” 

O incidente, cuja singularidade é reconhecida na Bíblia (“Não existiu nenhum dia como esse, antes ou depois”), ocorreu do outro lado da Terra, em relação aos Andes situado na América do Sul, descrevendo um fenômeno oposto, mas complementar astronomicamente ao que ocorrera no Peru. Ao contrastarmos os dois relatos, percebemos que, em Canaã (Oriente Médio), o Sol não se pôs por cerca de vinte horas; nos Andes, o sol não se levantou pelo mesmo período de tempo (Sitchin, 1990).

Segundo Montesinos, quando “os bons costumes foram esquecidos e as pessoas se entregaram a todos os tipos de vícios”, houve um dia em que “não houve aurora por vinte horas” (Montesinos, 1882). Em outras palavras, a noite não terminou no horário de sempre e o nascer do sol foi adiado durante vinte horas. Depois de grande comoção, confissões de pecados, sacri­fícios e orações, o sol finalmente apareceu. No livro Memorias Antiguas Historiales y Políticas del Perú, encontra-se a seguinte citação: “Nos tempos do rei Titu Yupanqui Pachacuti “dizem os antigos amautas, e estes aprenderam com seus patriarcas e preservaram na memória pelos seus quipos [sistema binário ou código de leitura] para eterna memória, que o sol se cansou de caminhar e se escondeu dos vivos, e como castigo sua luz sumiu por mais de vinte horas. Os índios gritaram chamando a seu pai o Sol; fizeram grandes sacrifícios para acalmá-lo, oferecendo muitos cordeiros e donzelas e moços, e quando saiu a luz do Sol após as horas mencionadas, lhe agradeceram pelas bênçãos recebidas” (Montesinos, 1882, p. 57, 58).

Figura 5: Um Amauta usando um “quipu”; embora o desenho seja o da versão original, esta imagem foi retirada de uma reedição de 2011 (Fonte: Poma de Ayala, 1941).

Houve muitas interpretações desse fenômeno por cientistas. Em um estudo recente, os pesquisadores atribuíram o evento a um eclipse, aliás acreditam que podem ter identificado a data do mais antigo eclipse solar já registrado. (Humphreys e Wadington, 2017) De acordo com eles, “essa interpretação é apoiada pelo fato de que a palavra hebraica traduzida como ‘parado’ tem a mesma raiz que uma palavra babilônica usada em textos astronômicos antigos para descrever os eclipses”. Eles sugerem que o evento tenha ocorrido no dia 30 de outubro de 1207 a.C. - exatamente 3.224 anos atrás. Para tanto, os pesquisadores da Universidade de Cambridge usaram uma combinação de texto bíblico e texto egípcio antigo para entender a data do suposto eclipse solar.

Em outro estudo, com base em dados obtidos da Nasa, cientistas da Universidade Ben-Gurion do Neguev, em Berbesá, Israel, descobriram não apenas que o relato bíblico descrito em Josué 10:12-14 realmente aconteceu, como também, segundo eles, o dia e a hora exatos do fenômeno (Yitzchak, Weistaub e Avneer, 2017). A equipe de cientistas, chefiada pelo Dr. Hezi Yitzhak, também interpretou o acontecimento como sendo um eclipse, e que ele teria acontecido exatamente em 30 de outubro de 1207 a.C., às 16h28.

Para tanto, os pesquisadores interpretaram a palavra hebraica “dom” como “tornou-se escura” em vez do que tradicionalmente significava como “ficar parado”. Com base nos dados obtidos, eles descobriram que apenas um eclipse aconteceu entre os anos 1500 e 1000 a.C., o que coincide com a chegada dos israelitas ao local onde ocorreu a batalha descrita na Bíblia. Os resultados desse estudo foram publicados na revista Beit Mikra: Journal for the Study of the Bible and Its World.

Para mim, esse fenômeno não pode ter sido um eclipse, porque nenhum eclipse dura tanto tempo. Além disso, os povos incas tinham conhecimento de tais eventos periódicos. A história não diz que o Sol desapareceu. Apenas afirma que “não houve aurora” por vinte horas. Foi como se o Sol, onde quer que tenha se escondido, tivesse parado.

(Everton Fernando Alves é mestre em Ciências pela UEM; texto escrito em coautoria com o pesquisador Irwin Susanibar Chavez, a quem o Everton agradece profundamente por compartilhar com ele suas pesquisas e conhecimento)



Referências:
De Murúa, Martín. Historia General del Perú, Origen y descendencia de los incas. V. 1. Colección: Fondo Antiguo - Aurelio Miró Quesada. Madrid: Impr. Don Arturo Gongora, 1962.
García, Gregorio. Origen de los indios de el Nuevo Mundo, e Indias Occidentales. Segunda Edición. Colección: Fondo Antiguo. Madrid: En la imprenta de F. Martinez Abad, 1729. 336p.
Humphreys, Colin; Wadington, Graeme. Solar eclipse of 1207 BC helps to date pharaohs. Astronomy & Geophysics 2017; 58(5):5.39–5.42.
Ixtilxochitl, Fernando de Alva Cortés. Historia Chichimeca. 1640.
Jennings, Hargrave. Ophiolatreia: An Account of the Rites and Mysteries Connected With the Origin, Rise and Development of Serpent Worship. Capítulo 6. Privately Printed, 1889. 103p. Disponível em: https://archive.org/details/ophiolatreiaacco00nppr
Montesinos, Fernando de. Memorias antiguas historiales y políticas del Perú. Madrid : Impr. de M. Ginesta, 1882. 259p.; essa primeira obra foi copiada de um manuscrito do ano 1644 que se encontra na biblioteca da Universidade Sevilla e cujo título é: “Ophir de España; mémorias historiales políticas del Pirv...”
Nuttall, Zelia. The Fundamental Principles of Old and New World Civilizations. V. 2. Cambridge, Mass.: Peabody Museum of American archaeology and ethnology, 1901. 602p. Disponível em: https://archive.org/stream/fundamentalprin02nuttgoog#page/n14/mode/2up
Pizarro, Pedro. Descubrimiento y conquista del Perú, seguida de la relación sumaria acerca de la conquista por el Padre Fr. Luis Naharro, de la Orden de la Merced. Lima: Impr. y Libr. Sanmartí y Cía., 1917. 213p. Colección: Fondo Antiguo - Porras Barrenechea.
Poma de Ayala, Felipe Guamán. El Primer nueva corónica y buen gobierno. (1615/1616). Colección: Fondo Antiguo. La Paz: Instituto Tihuanacu de Antropología, Etnografía y Prehistoria, 1941. 1169p.
Sitchin, Zecharia. The Lost Realms. Livro 4 da série de Crônicas da Terra. Harper Collins, 1990, 298p. Capítulo 7 “O dia em que o Sol parou”.
Yitzchak, Hezi; Weistaub, Daniel; Avneer, Uzi. A sun in Gibeon, and a moon in the valley of Ayalon - Solar eclipse occurred on October 30, 1207 BC? Beit Mikra: Journal for the Study of the Bible and Its World 2017; 62(1):196-238. Disponível em: http://www.boker.org.il/meida/negev/desert_biking/personal/BM_61-2_196_238.pdf