terça-feira, agosto 20, 2019

Eu: primata bípede ou ícone de Deus?


Toda pessoa já fez ou fará esta pergunta existencial: “Quem sou eu?” Com a mão no queixo ou coçando a cabeça, somos impulsionados por um imperativo que instiga o pensamento à procura da verdade sobre a natureza humana com suas dimensões biológica, psíquica e espiritual. Mediante a ciência, a filosofia, a religião e outros caminhos epistemológicos – ou até mesmo pela via do senso comum –, o Homo sapiens vasculha suas origens remotas, lançando mão do conhecimento que lhe é possível ter. Ele não se conforma em ignorar o berço ancestral do seu nascimento. “Quem sou eu?” constitui uma indagação das mais desafiadoras e enigmáticas que só pode ser respondida, em sentido último, por meio de metanarrativas apoiadas em algum tipo de metafísica/revelação. Porém, essa pergunta nos coloca diante de outra questão dicotômica ainda mais interessante: “Sou um ser com ascendência animal – entrelaçado em relações filogenéticas evolutivas e pertencente à família hominidae – ou alguém sem o mínimo parentesco com as criaturas irracionais, um filho de Deus?” Sejam quais forem as evidências para sustentar uma tese ou outra, o misterioso aparecimento da humanidade na Terra passa por duas narrativas conflitantes, as quais, por meio dos dados disponíveis, constroem, cada uma, a sua ciência histórica.

Na versão contada pelo conhecido paleoantropólogo Richard E. Leakey, a pergunta “Quem sou eu?” é respondida assim: “A partir de linhas de indícios diferentes – alguns genéticos, alguns fósseis –, sabemos [sic] que a primeira espécie humana evoluiu há cerca de sete milhões de anos. Na época em que o Homo erectus surgiu em cena, há quase dois milhões de anos, a pré-história humana já estava em marcha. Não sabemos ainda como muitas espécies humanas viveram e morreram antes do aparecimento do Homo erectus; houve pelo menos seis, e talvez o dobro desse número. Entretanto, sabemos de fato [sic] que todas as espécies humanas que viveram antes do Homo erectus eram, embora bípedes, marcadamente simiescas em muitos aspectos. Elas tinham cérebros relativamente pequenos, suas maxilas eram prognatas (isto é, projetavam-se para a frente), e a forma de seus corpos era mais simiesca do que humana em aspectos particulares, tais como o peito em forma afunilada, pescoço pequeno e nenhuma cintura.”[1]

Detalhes à parte, na mesma esteira vai o historiador israelense Yuval Noah Harari: “Gostemos ou não, somos membros de uma família grande e particularmente ruidosa chamada grandes primatas. Nossos parentes vivos mais próximos incluem os chimpanzés, os gorilas e os orangotangos. Os chimpanzés são os mais próximos. [...] Os humanos surgiram na África Oriental há cerca de 2,5 milhões de anos, a partir de um gênero anterior de primatas chamados Australopithecus, que significa ‘macaco do Sul’. Por volta de dois milhões de anos atrás, alguns desses homens e mulheres arcaicos deixaram sua terra natal para se aventurar e se assentar em vastas áreas da África do Norte, da Europa e da Ásia.”[2]

Sabe-se, cientificamente, que o nascimento da humanidade ocorreu segundo a maneira contada pelos autores acima, ou tudo não passa de artifício hipotético fundamentado em certa visão de mundo e nas interpretações equivocadas dos resquícios paleoantropológicos encontrados em algumas regiões da Terra? Gostemos ou não, essa forma de encarar a origem do homem possui inúmeros problemas que esbarram na ciência empírica e laboratorial, percebidos por mentes críticas bem informadas, entre as quais encontram-se até mesmo estudiosos crentes no “fato” da evolução. David Pilbeam, paleontólogo norte-americano, por exemplo, honestamente reconheceu: “Praticamente todas as nossas teorias sobre as origens humanas desenvolveram-se relativamente à margem do registro fóssil. Nossas teorias frequentemente têm dito mais sobre suposições sobre o que de fato ocorreu.”[3]

A controvérsia prossegue. Ainda assim, o poder explanatório da teoria da evolução persuadiu – além de grandes cientistas – muitos religiosos, teólogos e igrejas cristãs a se renderem ao discurso que usa áreas da ciência para apoiar especulações baseadas em extrapolações de dados; pois, em tal perspectiva, se estes não forem interpretados “à luz da evolução”, nada fará sentido em biologia, em antropologia ou em qualquer saber que tenha o homem por objeto de estudo. Contudo, embora o pensamento evolucionista domine a comunidade científica, soam representativas vozes discordantes que, com argumentos plausíveis, apresentam o contraponto capaz de fazer frente à quase universal doutrina do transformismo macroevolucionário.

A outra narrativa, também alicerçada nos fatos da ciência e ancorada na concepção teísta de mundo, conta-nos algo exclusivo e extraordinário, mas digno de apreciação: “E disse Deus: Façamos o homem à Nossa imagem, conforme a Nossa semelhança [...]. E criou Deus o homem à Sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gn 1:26, 27). Nessa versão, os primeiros humanos, representados pelo casal Adão e Eva, tiveram origem diferenciada e especial, à parte dos demais seres vivos. Tal pressuposição advinda da Bíblia, circunscrita à estrutura conceitual criacionista, é vista por muitos como um conto mágico e indigno de consideração científica. Todavia, apesar do preconceito, das distorções e da incompreensão acerca desse modelo, não se pode deixar de se encantar e de se atrair pela beleza e lógica da exposição teísta: “Depois que a Terra com sua abundante vida animal e vegetal fora suscitada à existência, o homem, a obra coroadora do Criador, e aquele para quem a linda Terra fora preparada, foi trazido em cena. A ele foi dado domínio sobre tudo que seus olhos poderiam contemplar; pois ‘disse Deus: Façamos o homem a Nossa imagem, conforme a Nossa semelhança’ [...]. Aqui está claramente estabelecida a origem da raça humana; e o relato divino refere tão compreensivelmente que não há lugar para conclusões errôneas. Deus criou o homem à Sua própria imagem. Não há aqui mistério. Não há lugar para a suposição de que o homem evoluiu, por meio de morosos graus de desenvolvimento, das formas inferiores da vida animal ou vegetal. Tal ensino rebaixa a grande obra do Criador ao nível das concepções estreitas e terrenas do homem. [...] A genealogia de nossa raça, conforme é dada pela inspiração, remonta sua origem não a uma linhagem de micróbios, moluscos e quadrúpedes a se desenvolverem, mas ao grande Criador. Posto que formado do pó, Adão era filho ‘de Deus’ (Lucas 3:38).”[4] Guiados pela inspiração bíblica, reflitamos um pouco sobre esse relato incomum mas passível de credibilidade.

Trazendo a humanidade à existência, ao invés de usar a palavra (num ato de solitária ordem: “Haja!”, “ajuntem-se!”, “produza!”, “povoem-se!”), as pessoas da Divindade dialogam entre Si e compartilham a alegria de formar um ser peculiar. Em ação sublime e irrepetível, repleta de carinho, cuidado, perícia, propósito e amor, surgem homem e mulher envolvidos em glória e perfeição. Não criaturas bestiais, descendentes de uma linhagem de seres inferiores, e sim o ápice do fiat divino. Portanto, “embora partilhe com animais determinados aspectos físicos, o que é razoável visto dever, como eles, viver no mesmo mundo, respirando o mesmo ar e participando dos mesmos ciclos vitais, o homem emerge da natureza qual autêntica obra-prima da Criação. Do ponto de vista da classificação científica, todos os seres vivos, incluindo o homem, são colocados em um dos dois grupos. Ou são plantas ou são animais [...]. Por mais que o homem se pareça com os animais, estritamente do ponto de vista dos anatomistas e fisiologistas, mesmo assim as diferenças não são imaginárias [...]. Um macaco pode olhar um céu estrelado, mas unicamente o homem pode ponderar a sua significação [...]. É esta considerável diferença entre a mente humana e a mente dos animais que eleva o homem acima de qualquer classificação com os brutos [...]. Quando consideramos a anatomia e os processos biológicos do homem, em verdade, ‘a vantagem do homem sobre os animais não é nenhuma’ [...]. Os animais se sobrepõem ao homem em todos os sentidos que ele possui, e mesmo assim o homem estabeleceu seu domínio sobre a terra através do maravilhoso mecanismo da sua incomparável mente”.[5]

Formado do pó da terra e com o fôlego de vida a animá-lo, o homem reúne em si, numa inter-relação harmoniosa e indivisível, as dimensões física, mental e espiritual. Sua origem superior aponta para um destino excelente: o de usufruir a presença de Deus, experimentando-O no corpo por meio dos sentidos, alargando seu horizonte mental e adorando-O em espírito. Sendo “tridimensional”, o homem equilibra-se sobre a forte base de sua natureza marcada pelo divino.

O “pó da terra” é o elemento que nos mantém ligados ao restante da criação, a lembrança de que somos seres físicos, dependentes, finitos; o “fôlego de vida” simboliza o elo afetivo-espiritual entre criatura e Criador, apontando-nos a eternidade como alvo. Pessoa alguma alcança plenitude de vida exagerando a importância da matéria, dos sentidos, da imanência - elementos promotores do hedonismo e existencialismo humanista. Do contrário, esquecer e desprezar os deveres relacionados ao mundo material e social para se dedicar a uma existência de ascetismo, desconsiderando o mundo sensível, constitui convite à alienação que empurra o indivíduo para um abismo de abstração e incompletude, derivado de vaga e fluida metafísica. Na criação, matéria e fôlego combinaram-se fazendo do homem ser vivente pleno.       

Colocados num patamar de superioridade, homem e mulher erguem-se como rei e rainha do planeta. Coube-lhes a responsabilidade de serem tutores da Terra, administrando os variados ambientes do mundo - céus atmosféricos, águas e terra. Nesse domínio veio embutido o dom da ciência, podendo haver interferência e controle em cada espaço do planeta. De algum modo, fazendo uso do conhecimento e habilidades concedidos pelo Criador, o homem seria capaz de viajar às profundidades aquáticas, elevar-se a grandes altitudes e percorrer a largura e o comprimento do mundo. Eis o poder com o qual a raça foi dotada no princípio, porquanto a Terra deveria ser conhecida da forma mais abarcante possível. Afinal, era a sua morada cósmica, devendo cada compartimento da “casa” tornar-se familiar ao morador. Encerra-se a obra divina no sexto dia, sob feliz avaliação: “Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom” (Gn 1:31).

O Criador abençoou os primeiros humanos com um lar-jardim, locus de deleite e paz inserido na Terra paradisíaca. Nessa bênção estavam inclusas: as relações sociais representadas nos vários laços que passariam a existir (“sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra”); a administração benigna do planeta envolvendo o cuidado das criaturas e do ambiente, a dádiva do prazer ao experimentarem os suprimentos de Deus e o descanso do sétimo dia. Além disso, uma ordem foi imposta a fim de se lembrarem dos limites de sua natureza e de que não eram seres infinitos nem deuses. “Não comerás do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal” jamais significou uma restrição esdrúxula e arbitrária, mas sábio comando que, se obedecido, garantiria vida e felicidade eternas e revelaria a confiança do homem nas palavras de Deus. Para tristeza do Universo, infelizmente experimentamos o “sabor da morte” ao devorarmos o mal como a uma iguaria. Todavia, para alegria dos caídos deste mundo e dos não caídos seres que observaram o “espetáculo da desgraça humana”, uma porta de escape foi aberta ao inaugurar-se o plano de redenção. 

Em Observações filosóficas, Ludwig Wittgenstein interpela o leitor com a seguinte proposta: “Diga-me como você procura e lhe direi o que você procura”. Mais adiante, o filósofo expande o raciocínio: “O modo como você procura expressa de alguma forma o que você espera [encontrar]”. Por fim, ele arremata: “Uma pergunta denota um método de procura”. Na busca pelas origens humanas, temos muitas perguntas a fazer. A partir delas, construímos nosso método de investigação, talvez marcado por jogos de linguagem. O que esperamos encontrar acerca de nós mesmos? Aristóteles afirmou que “o homem é por natureza um animal político; Schopenhauer, por sua vez, declarou que “é um animal metafísico”. Já o primatólogo Frans de Waal conclui especulativamente: “Se em nossa essência somos grandes primatas, como eu suponho, ou se pelo menos descendemos da mesma linhagem dos outros grandes primatas, como todo biólogo (sic) supõe, nascemos com uma gama de tendências que vão das mais vis às mais nobres. [...] Podemos ser primatas perversos, mas isso é explicável e benéfico para o mundo”6. O fenômeno humano continua um controverso mistério. Quem sou eu? Pelo modo criacionista de enxergar a humanidade, não sou nem animal primata, nem anjo, nem demônio; tampouco divindade. Embora caído, continuo um ser edênico: ícone de Deus.

Frank de Souza Mangabeira

Referências:
1. Leakey, Richard. (1997). A origem da espécie humana; trad. Alexandre Tort. Rio de Janeiro: Editora Rocco Ltda.
2. Harari, Yuval Noah. (2017). Sapiens: uma breve história da humanidade; trad. Janaína Marcoantonio. Porto Alegre: L & PM.
3. Ap. Flori, Jean; Rasolofomasoandro, Henri. Em Busca das Origens: evolução ou criação? Madri: Editorial Safeliz, 2002, p. 281.
4. White, Ellen G. (2003). Patriarcas e ProfetasCasa Publicadora Brasileira: Tatuí, São Paulo.
5. Marsh, Frank Lewis. Estudos sobre criacionismo. Casa Publicadora Brasileira: Santo André, São Paulo.
6. Waal, Frans de. (2007). Eu, primata: por que somos como somos. Companhia das Letras.

sexta-feira, agosto 16, 2019

Cientistas acreditam que possa haver vida na Lua


Sim, a possibilidade é real de que neste exato momento possa haver milhares de “invasores” minúsculos sobre a superfície lunar. Apesar de a aparência causar muita estranheza, esse ser de oito patas, que aparenta usar um traje espacial, é, na verdade, um animal terrestre chamado tardígrado, e essa “invasão” foi decorrente de um acidente espacial.

Tardígrados, também conhecidos como “usos-d’água”, são animais microscópicos segmentados, relacionados com os artrópodes. Foram inicialmente descritos por J.A.E. Goeze em 1773. O nome do filo, Tardigrada, foi dado por Spallanzani em 1776. A maioria é fitófaga, mas alguns espécimes são predadores, como o Milnesium tardigradum. Com aproximadamente um milímetro de comprimento, são famosos no meio científico por sua elevada capacidade de resistência. Há quem os considere “indestrutíveis” por suportarem condições extremas, como alta radiação, frio e calor intensos, do zero absoluto (-272,15 °C) até os 150 °C, a pressões de seis mil atmosferas e 5000 Gy de radiação, cerca de mil vezes mais que um ser humano pode suportar, além de conseguir sobreviver anos sem alimentos e água.

Justamente por isso, conseguem viver nos mais diversos ambientes – do deserto do Saara ao topo de uma montanha coberta de neve, ou nos musgos do jardim da sua casa.

Apesar de apresentarem todas essas “vantagens”, os animais descobertos no século 18 apresentam como característica mais interessante, de fato, uma habilidade incrível: quando secos, retraem a cabeça e as oito patas, encolhendo-se em uma minúscula “bola”; produzem um revestimento extra no corpo que os protege de elementos que poderiam matá-los, entrando num estado profundo de “animação suspensa” ou latência, que se assemelha à morte. Eles perdem quase toda a água do corpo e seu metabolismo diminui para 0,01% da taxa normal; mas se reintroduzidos na água, mesmo décadas mais tarde, eles podem ser reanimados. Cientistas já reviveram tardígrados que passaram até dez anos nesse estado desidratado, embora em alguns casos possam sobreviver por muito mais tempo sem água.
           
A sonda Beresheet carregava a primeira biblioteca lunar da Arch Mission Foundation, organização sem fins lucrativos cujo objetivo é criar “um backup do planeta Terra”. O carregamento continha um arquivo com 30 milhões de páginas de informações. Para conseguir juntar todo esse material num “arquivo”, Spivack, o fundador da fundação escolheu Bruce Ha, cientista que desenvolveu uma técnica para gravar em níquel imagens em nanoescala, de alta resolução. A técnica usa lasers para gravar uma imagem em vidro e depois deposita níquel, átomo por átomo, em uma camada no topo. As imagens no filme de níquel resultante parecem holográficas e podem ser visualizadas usando um microscópio com capacidade de ampliação de 1000 x – tecnologia que está disponível há várias décadas.

Assim, o carregamento consistia em 25 camadas de níquel, cada uma com apenas alguns mícrons de espessura. As primeiras quatro camadas contêm aproximadamente 60 mil imagens de alta resolução de páginas de livros, que incluem iniciadores de linguagem, manuais e chaves para decodificar as outras 21 camadas. Essas camadas contêm quase toda a Wikipédia em inglês, milhares de livros clássicos e até mesmo os segredos dos truques de mágica de David Copperfield.

Spivack tinha planejado enviar amostras de DNA para a Lua em versões futuras da biblioteca lunar, não nessa missão. Entretanto, algumas semanas antes de ter que entregar a biblioteca lunar aos israelenses, ele decidiu incluir algum DNA na carga útil.

Bruce Ha e um engenheiro da equipe de Spivack, então, adicionaram uma fina camada de resina epóxi entre cada camada de níquel, um equivalente sintético ao âmbar. Nessa resina eles incluíram folículos pilosos e amostras de DNA humano e tardígrados desidratados. Ainda, além de fixados na resina citada, alguns milhares de tardígrados desidratados extras foram espalhados em uma fita que foi anexada à biblioteca lunar.

Afinal, por que tardígrados? A escolha vai muito além da capacidade de resistência dos animais: a ideia fundamenta-se na hipótese de que eles possam ser “revividos” futuramente.

A sonda israelense deixou a Terra em 22 de fevereiro, mas, quando se aproximou da superfície lunar em 11 de abril, uma falha no computador causou o mau funcionamento do motor principal da espaçonave e caiu na Lua, viajando a aproximadamente 500 km por hora.

Apesar disso, Beresheet conseguiu ejetar a biblioteca lunar da Arch Mission Foundation durante o impacto e provavelmente esteja em alguma parte da Lua, próximo do local do acidente. Spivack diz que, mesmo que a biblioteca se partisse em pedaços, a análise mostraria que esses fragmentos seriam grandes o suficiente para recuperar a maioria das informações analógicas nas primeiras quatro camadas. 

Os tardígrados podem estar intactos? A verdade sobre isso é uma incógnita, mas Lukasz Kaczmarek, especialista em tardígrados e astrobiólogo da Universidade Adam Mickiewicz, disse, em entrevista ao The Guardian, que a queda de um módulo espacial não é suficiente para matar esses animais: “Os tardígrados podem sobreviver a pressões comparáveis ​​àquelas criadas quando os asteróides atingem a Terra, então um pequeno acidente como esse não é nada para eles.”

Mesmo assim, Spivack ressalta que não há razão para se preocupar com os “ursos-d’água” tomando conta da Lua. Todos os tardígrados lunares encontrados pelos seres humanos futuros terão de ser trazidos de volta à Terra ou levados a algum lugar com uma atmosfera, a fim de reidratá-los. Se isso será o suficiente para trazê-los de volta à vida, no entanto, é um mistério.

Em 2007, diversos exemplares de duas espécies de tardígrados foram enviados ao espaço e expostos não apenas ao vácuo, onde a respiração é impossível, mas também a níveis de radiação capazes de incinerar qualquer ser humano. Por incrível que pareça, ao regressarem à Terra, um terço deles ainda estava vivo, mostrando-se assim os únicos animais nativos do planeta, de que se tem conhecimento, capazes de sobreviver às condições do espaço extraterrestre sem o auxílio de equipamentos. Ainda verificou-se que cerca de 10% dos animais sobreviventes foram capazes de se reproduzir com sucesso. 

Já em maio de 2011, os tardígrados foram incluídos na missão STS-134 do ônibus espacial Endeavour, em seu último voo ao espaço.

Como a Lua é considerada sem vida, as autoridades mundiais não desaprovam missões que “contaminem” a superfície desse satélite com organismos da Terra. Inclusive os astronautas da Missão Apollo 11 deixaram para trás seus próprios micróbios: 96 sacos de plástico contendo “lixo humano” ainda estão na Lua, mesmo após 50 anos.

Canais especializados em vida animal, como o Animal Planet, abordam esses animais esporadicamente, porém, até recentemente, esse filo era pouco conhecido pelo público em geral. O auge do “sucesso”, por assim dizer, foi verificado no filme “Homem-Formiga e a Vespa”, de 2018, em que esses animais aparecem com detalhes em algumas cenas. Afinal, não é de se estranhar que o aspecto peculiar da morfologia dos tardígrados atraia a atenção dos roteiristas cinematográficos. Ainda ouso dizer que as recentes notícias são um solo fértil para a mente criativa dos cineastas de ficção científica, não sendo improvável que nos próximos anos vejamos a estreia de filmes intitulados como: “A invasão dos tardígrados mutantes”, ou algo assim.

Nota: Quanto mais observo a natureza e a capacidade de adaptação dos seres vivos aos mais diversos ambientes, percebo a intencionalidade de Deus no planejamento de cada detalhe da criação. De fato, ainda temos muito a conhecer sobre os mecanismos que conferem às criaturas microscópicas, como os tardígrados, características tão fantásticas de sobrevivência.

(Liziane Nunes Conrad Costa é presidente do Núcleo Cascavelense da SCB [Nuvel-SCB], bacharel e licenciada em Ciências Biológicas com ênfase em Biotecnologia [UNIPAR], especialista em Morfofisiologia Animal [UFLA] e mestranda em Biociências e Saúde [UNIOESTE])

Referencias:


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quarta-feira, agosto 14, 2019

Professor de Yale abandona o darwinismo e diz por quê


Para o professor da Universidade de Yale, David Gelernter, a teoria da evolução de Charles Darwin é “uma bela ideia que foi efetivamente refutada”. A declaração foi feita por ele durante sua renúncia pública do darwinismo. Gelernter, que é conhecido por prever a World Wide Web e desenvolver muitas ferramentas complexas de computação ao longo dos anos, é hoje professor de ciência da computação em Yale, cientista-chefe da Mirror Worlds Technologies, membro do Conselho Nacional de Artes e autor prolífico. Em uma coluna para o Claremont Review of Books, Gelernter explicou como suas leituras e discussões sobre a evolução darwiniana e suas teorias concorrentes, como o design inteligente, o convenceram de que Darwin estava errado. Ele cita, por exemplo, o livro de Stephen Meyer, Darwin’s Doubt, de 2013, e The Deniable Darwin, de David Berlinski, para basear suas novas crenças a respeito da vida na Terra.

Há algumas semanas, ele voltou a falar sobre esse assunto em uma entrevista com a Hoover Institution da Universidade de Stanford, na qual ele diz não abraçar totalmente o design inteligente. “Meu argumento é com pessoas que rejeitam o design inteligente sem considerar, parece-me – é amplamente descartado no meu mundo acadêmico como um tipo de trabalho teológico – é um argumento científico absolutamente sério”, disse Gelernter.

Segundo o The College Fix, o professor afirmou que declarações como a sua o colocariam na mira de outros cientistas, mas que com ele não foi assim. “Eu não fui destruído, não sou biólogo, e não pretendo ser uma autoridade sobre esse assunto. [...] Estou atacando a religião deles e não os culpo por estarem todos de cabeça erguida, é um grande problema para eles. Não há razão para duvidar de que Darwin tenha explicado com sucesso os pequenos ajustes pelos quais um organismo se adapta às circunstâncias locais: mudanças na densidade da pele ou no estilo da asa ou na forma do bico”, escreveu o professor. “No entanto, há muitas razões para duvidar se ele pode responder às perguntas difíceis e explicar o quadro geral – não o ajuste fino das espécies existentes, mas o surgimento de novas espécies. A origem das espécies é exatamente o que Darwin não consegue explicar”, completa.

Para ele, a ideia de que o acaso e as mutações são a força motriz por trás da vasta complexidade da vida – mesmo com bilhões de anos – não é apenas cientificamente improvável, é uma impossibilidade, argumenta o acadêmico em seu artigo. “Darwin teria facilmente entendido que pequenas mutações são comuns, mas não podem criar mudanças evolutivas significativas; mutações importantes são raras e fatais”, escreveu Gelernter. “Não pode ser surpreendente que a revolução no conhecimento biológico ao longo do último meio século deva exigir uma nova compreensão da origem das espécies”.

sexta-feira, agosto 09, 2019

O corpo humano e suas tecnologias superavançadas


Procure ficar em silêncio por um momento, e preste atenção aos ruídos ao seu redor. Está ouvindo? Carros passam aí perto? Pode ouvir algum cachorro latindo? Pessoas conversam? Há música ao fundo? Você já parou para pensar na maravilha chamada audição?

O ouvido humano é um sensor biológico de grande sensibilidade, com capacidade de detectar uma gama de frequências e intensidades sonoras. A audição se compõe de dois elementos – um mecânico e outro que envolve impulsos nervosos e elétricos.

A complexidade do ouvido e seus mecanismos de proteção são inteiramente inexplicáveis à luz das teses evolucionistas e apontam para o desígnio, propósito e planejamento defendidos pelo criacionismo. Afinal, como explicar a evolução gradual das partes componentes do sistema auditivo, já que elas são totalmente interdependentes? Como explicar a especialização evidente de cada uma delas? E mais: como explicar que tenham “surgido” dois desses sensores auditivos complexos? 

Como diz Apocalipse 2:7, “quem tem ouvidos [e razão para entender], ouça”.

Assista ao vídeo abaixo e conheça outras tecnologias superavançadas do corpo humano.

Adão e Eva eram gigantes?


A Bíblia fala das condições de vida edênica e antediluviana. Podemos imaginar um mundo com abundante vegetação e vida exuberante. As pessoas eram muito mais fortes e longevas. Dotadas de grande inteligência, eram capazes de empreendimentos impressionantes (como a arca de Noé, por exemplo, e, depois, construções como as pirâmides). Quanto à estatura delas, podemos deduzir algumas coisas com base em alguns textos que se referem aos gigantes. Por exemplo, Deuteronômio 3:11 fala de Ogue, o último rei dos gigantes refains. O sarcófago dele, feito de ferro, tinha quatro metros de comprimento! No parágrafo a seguir, Ellen White fornece mais detalhes sobre a altura dos primeiros “gigantes” da Terra, Adão e Eva:

“Ao sair Adão das mãos do Criador, era de nobre estatura e perfeita simetria. Tinha mais de duas vezes o tamanho dos homens que hoje vivem sobre a Terra, e era bem proporcionado. Suas formas eram perfeitas e cheias de beleza. Sua cútis não era branca ou pálida, mas rosada, reluzindo com a rica coloração da saúde. Eva não era tão alta quanto Adão. Sua cabeça alcançava pouco acima dos seus ombros. Ela, também, era nobre, perfeita em simetria e cheia de beleza. Esse casal, que não tinha pecados, não fazia uso de vestes artificiais. Estavam revestidos de uma cobertura de luz e glória, tal como a usam os anjos. Enquanto viveram em obediência a Deus, essa veste de luz continuou a envolvê-los” (Ellen G. White, História da Redenção, p. 21).

Agora assista ao vídeo abaixo, com um interessante bate-papo sobre o assunto. 

segunda-feira, agosto 05, 2019

Minotauros modernos?


Uma breve reflexão sobre o progresso das pesquisas com hibridização

Recentes notícias têm divulgado as pesquisas realizadas com embriões de animais híbridos com células-tronco humanas, tendo ficado conhecida uma hibridização entre humano e macaco. As pesquisas são realizadas em países orientais com o apoio de instituições europeias e norte-americanas. Qual o objetivo dessas pesquisas? Fazer com que os animais desenvolvam órgãos humanos que possam ser utilizados em transplantes para humanos, resolvendo, assim, a grande demanda existente por esses órgãos. Entretanto, existem pesquisadores que comentam estarem achando os experimentos mais interessantes que os próprios benefícios que poderiam ser obtidos.

Ao mesmo tempo, questões bioéticas são levantadas, como a possibilidade da transferência para humanos, através desses órgãos, de DNA viral presente unicamente em animais, causando novas doenças. Outra séria implicação ética é a possibilidade do desenvolvimento de um sistema nervoso central nesses animais a partir de células-tronco humanas.

Os dados científicos apontam fortemente que a mente humana é formada por meio da atividade do cérebro, o qual possui funções cognitivas especiais, como uma percepção racional única da própria existência, a interpretação do significado das emoções, inteligência e raciocínio muito elevados, capacidade excepcional para comportamentos como a moralidade, entre outros. Essas características funcionais do cérebro humano, desenvolvidas a partir de sua programação genética, formação estrutural e conexões neuronais químicas e elétricas trabalhando incessantemente, formam o que chamamos de consciência humana.

O que aconteceria se um desses animais desenvolvesse funções cognitivas semelhantes às humanas? Tente imaginar um ser com uma consciência semelhante à humana, mas no corpo de um macaco ou de um porco. Creio que poderíamos considerar como o auge das aberrações, e o Planeta dos Macacos poderia estar mais próximo do que se imaginava!

Para escapar das implicações éticas, os pesquisadores ressaltam que nenhum embrião é levado a mais de 14 dias de vida. Sendo assim, tempo insuficiente para o desenvolvimento de tecido nervoso. Relatam também que o material genético é editado para que os vírus não consigam passar para as células humanas nem as células-tronco se diferenciarem em tecido neural.

Ainda assim, tomando todos esses cuidados, precisamos lembrar que a biologia e a medicina não são ciências exatas, justamente por não conhecermos todas as variáveis envolvidas. E imprevistos podem, nesse caso, gerar as gravíssimas consequências mencionadas acima.

De todo modo, os cientistas reconhecem que para as pesquisas avançarem a qualquer momento terá que ser permitido o desenvolvimento completo do embrião. E o Japão acaba de fazer isso, liberando o nascimento desses seres híbridos.

Mesmo que as alegadas medidas de segurança continuem sendo seguidas e sejam funcionais, qual passo será tomado quando se obtiver sucesso em produzir os órgãos atualmente desejados? Afinal, células-tronco neurais humanas já vêm sendo enxertadas no cérebro de roedores em pesquisas sobre regeneração cerebral.

Izpisúa, um dos principais pesquisadores nessa área, relata que “a história nos mostra repetidas vezes que, com o tempo, nossos parâmetros éticos e morais mudam e se transformam, como o nosso DNA, e o que ontem era eticamente inaceitável, se isso realmente significar um avanço para o progresso da humanidade, hoje já é parte essencial de nossas vidas”.

A cosmovisão criacionista não compactua com o mesmo ponto de vista do pesquisador mencionado acima. Criacionistas não só acreditam, como possuem evidências científicas de que existe um padrão moral universal e imutável. E se o progresso científico esbarra nesses princípios, é a metodologia científica que deve mudar e se adaptar aos padrões morais, e não o oposto. Criacionistas sabem também que pesquisas antiéticas não serão suficientes para salvar a humanidade, mas que essa salvação vem por meio dAquele que lá no Gênesis já avisou que pisaria na cabeça da serpente.

(Roberto Lenz Betz é médico neurologista e atual diretor do Núcleo Curitibano da Sociedade Criacionista Brasileira)


Evento criacionista será realizado em Londres


No dia 31 de agosto deste ano, será realizado em Londres, Inglaterra, um simpósio com o objetivo de promover o criacionismo para a comunidade de língua portuguesa que reside no país. O programa tem o título “De Volta às Origens” e vai seguir uma ordem cronológica dos fatos relacionados à ciência e à história, abordados em Gênesis 1-11. O evento busca trazer uma interpretação alternativa da natureza a partir da cosmovisão bíblica nas discussões acadêmicas sobre a origem da vida, e para isso conta com a presença de vários pesquisadores e acadêmicos que moram e trabalham na Europa.

Palestras:

“Ciência x fé: um diálogo necessário”, com Clebson Braga, bacharel em Teologia pelo Newbold College, UK.

“Humanidade: a obra-prima de Deus”, com Isabel Moraes, PhD em Biologia Estrutural pela Reading University, UK.


“Evidências e problemas do dilúvio – catastrofismo e atualismo”, com Rafael Schaeffer, geólogo e PhD em Geologia pelo Technische Universität Darmstadt, Alemanha.

[LIVE] “O Gênesis e os dinossauros”, com Danilo Camargo de Oliveira, bacharel em Ciências Biológicas (Unicesumar), MSc. em Paleobiologia pela Bristol University.

“O urbanismo e as primeiras civilizações no Crescente Fértil”, com Bruno Perenha, Arquiteto (Unicesumar) e pós-graduado em História da Arte e Arquitetura pela Birkbeck University of London, UK.

O Simpósio é totalmente aberto ao público e começa a partir das 10 horas da manhã do dia 31 de agosto, em Brixton Road, 336. Os vídeos serão gravados e disponibilizados no YouTube (link: https://bit.ly/2T8Nak5). A intenção final dessa iniciativa é juntar forças e criar uma network de interessados em ciência e criacionismo, de modo que esse seja apenas o primeiro de muitos eventos nos próximos anos.

Para mais informações:
Bruno Perenha           
brunoperenha@hotmail.com 
Instagram: @brunoperenha | @iasdlondres7

Missão espacial indiana divulga imagens da Terra a 5.000 km


A Agência de Pesquisa Espacial da Índia (ISRO) divulgou suas primeiras imagens da Terra a 5.000 quilômetros de distância. As fotos tiradas pela missão Chandrayaan-2 mostram o planeta de uma perspectiva diferente e com muita nitidez e qualidade, segundo o presidente da agência Kailasavadivoo Sivan. A ISRO lançou essa missão no dia 22 de julho. De acordo com especialistas, espera-se que a nave chegue à Lua em 6 de setembro, o que tornaria a Índia o quarto país – depois do Estados Unidos, da Rússia e da China – a fazer um pouso no satélite terrestre. A missão tem o objetivo de realizar estudos em todo o polo sul da Lua, além de poder analisar a composição química e mineral do satélite natural. 


Nota: Como se já não bastassem os Estados Unidos, a Rússia, Israel, a China e até a Coreia do Norte, agora é a vez de a Índia detonar a crença dos terraplanistas, afinal, além de as fotos comprovarem uma vez mais que a Terra é redonda, ficará também uma vez mais demonstrado (caso consigam pousar a sonda lá, como fizeram recentemente os chineses) que a Lua (obviamente) não está dentro da atmosfera terrestre (!), e que os seres humanos continuaram, sim, indo para lá depois da década de 1970, só que por meio de sondas, o que é muito mais barato e seguro do que enviar pessoas (algo que a Nasa planeja fazer de novo em 2024). Falando em Nasa, como fica difícil desmentir evidências materiais como fotografias, os terraplanistas terão que dizer que a Índia é a mais nova aliada da Nasa (assim como até mesmo os países comunistas citados acima) no propósito de enganar a humanidade, fazendo-a crer que a Terra não é plana, mas esférica. Sim, esses governos gastam bilhões de dólares para sustentar esse engano. Você não sabia que essas agências espaciais são apenas estúdios especializados em efeitos especiais que todos os anos torram muito dinheiro para ser somente isso? Não sabia que os eclipses lunares são causados por corpos fantasmagóricos indetectáveis que passam na frente da Lua? Não sabia, também, que assim como temos muitas fotos e filmagens feitas no espaço não temos uma sequer da tal borda da Terra e do tal domo sólido sobre nossa cabeça? Como é difícil ser terraplanista no século 21... [MB]


Terraplanista fala bobagens sobre o pêndulo de Foucault


Assisti a um vídeo de um terraplanista que é ao mesmo tempo engraçado (pela forma cômica com que trata leis físicas), triste (pela demonstração de desconhecimento de fatos bem simples e pela arrogância de achar que sabe mais) e assustador (pelo estrago que faz ao divulgar informações falsas que pessoas aceitarão sem critério e repetirão sem pensar). Chamaremos esse terraplanista de Didi, com inspiração na palavra grega διδιάστατη. Didi “explica” o experimento do pêndulo de Foucault. De acordo com ele, esse experimento mostra uma contradição interna da “pseudociência”, além de não mostrar que a Terra gira.

Didi afirma que as pessoas tendem a simplesmente repetir as coisas sem parar para pensar a respeito, e que terraplanistas, ao contrário de ser desinformados, estudam as mesmas coisas que os demais, com a diferença de que pensam a respeito de tudo mais profundamente.

Bem, o que observei no vídeo foi exatamente o contrário. Foi um vídeo de pouco mais de 13 minutos, mas com uma grande densidade de erros elementares mostrando grande ignorância do assunto do qual trata. Vamos examinar alguns dos detalhes.

Didi inicia pela leitura de uma descrição do experimento original. A descrição era um tanto superficial, porém, muito mais profunda do que os comentários feitos pelo Didi, em seguida.

O que mais me chamou a atenção inicialmente foi a explicação dada por Didi logo após a leitura: concentrou-se exclusivamente em aspectos irrelevantes do experimento e não chegou a comentar a parte que realmente interessa, aquela que implica em que a Terra é aproximadamente uma esfera que gira com período de um dia. O leitor pode ver detalhes técnicos sobre esse tipo de experimento em “Ajuda a um Terraplanista”, disponível para download aqui.

Ao explicar o fenômeno, Didi comenta que um pêndulo pode oscilar em qualquer direção horizontal, e que isso não prova que a Terra gira. Verdade, mas o experimento não trata desse detalhe. Didi concentra-se nessa informação, sendo que ela é totalmente irrelevante ao problema. Ao contrário de pensar profundamente, ele apenas demonstra não haver entendido o problema, concentrar-se apenas em um aspecto irrelevante e, mesmo assim, apressar-se a tirar conclusões e falar de maneira arrogante contra a “pseudociência”.

Como funciona o experimento, de fato? Monta-se um pêndulo formado por um fio resistente, fino e longo, preso ao teto de uma grande sala, com muitos metros de altura. À base desse pêndulo, pendura-se um peso com massa consideravelmente grande, de forma que ele praticamente não seja afetado por pequenas correntes de ar ao redor. Para iniciar o movimento, tem-se o cuidado de apenas puxar o pêndulo para um lado e depois soltá-lo, sem qualquer desvio lateral. Uma das estratégias para isso consiste em puxar o pêndulo para um lado e prendê-lo com um fio de linha a algo que o segure. Depois, queima-se o fio para liberar o pêndulo, garantindo que ele não receberá um momentum inicial que possa introduzir um viés no experimento.

O experimento em si consiste em observar cuidadosamente o ângulo de oscilação do pêndulo em relação aos pontos cardeais. Se a Terra não gira, o pêndulo deve permanecer oscilando sempre no mesmo plano, sem precessão. Precessão é a alteração do plano de oscilação do pêndulo. Se ele inicia na direção norte-sul, por exemplo, a precessão fará com que essa direção mude com o tempo, passando por leste-oeste, por exemplo. Podemos calcular a velocidade angular da precessão em cada modelo e comparar com o que observamos na prática. A velocidade de precessão depende da projeção da vertical do pêndulo sobre o eixo de rotação da Terra.

Costumamos representar velocidade angular pela letra grega ômega: ω.

No modelo de Terra plana fixa e no modelo de Terra globo fixa, a previsão teórica para a precessão do pêndulo de Foucault é

ω = 0. 

Em outras palavras, o pêndulo não deve apresentar precessão alguma, se a Terra não gira, independentemente de ser plana ou não.

No modelo de Terra plana giratória, a previsão teórica é

ω = -ω0,

sendo ω0 = uma volta por dia no sentido anti-horário. Nesse caso, o pêndulo de Foucault deve precessionar dado uma volta por dia em todas as partes do mundo da mesma forma, independentemente da latitude.

No modelo de Terra globo giratória, a previsão teórica para a precessão do pêndulo de Foucault é

ω = -ω0 sin(ϕ),

sendo que ϕ é a latitude da posição onde está o pêndulo. Vejamos alguns exemplos.

  1. No pólo norte, ϕ = 900, e sin (900) = 1, o que significa que a precessão ocorrerá no sentido horário à taxa de uma volta por dia.
  2. No paralelo ϕ = 300 (hemisfério norte), a precessão será de meia volta por dia no sentido horário, pois sin (300) = ½.
  3. No Equador, a precessão do pêndulo cai a zero, pois sin (00) = 0.
  4. No paralelo ϕ = -300 (hemisfério sul), a precessão do pêndulo será de meia volta por dia em sentido anti-horário, pois sin (-300) = -½.
  5. No polo sul, ϕ = -900, o que significa que o pêndulo precessiona uma volta por dia em sentido anti-horário.

O experimento consiste em comparar esses valores com o que se observa. E qual é o resultado? A última fórmula é a que reflete a realidade. Em outras palavras, das opções acima (Terra plana fixa, Terra globo fixa, Terra plana giratória e Terra globo giratória), a única opção que gera resultados corretos é a da Terra globo giratória.

Bem, até este ponto, Didi erra primeiro por não entender o experimento. Concentra-se apenas em detalhes irrelevantes e perde a essência. Também erra ao não entender que modelos devem ser testados pelas fórmulas e pelos números que geram (por previsões teóricas) comparados com medidas que podemos fazer. Não basta achar que uma ideia é melhor que outra. É necessário comparar resultados.

Porém, Didi não para em sua análise superficial do assunto. Ele segue usando argumentos do espantalho para fundamentar a ideia de que o experimento de Foucault contradiz as próprias afirmações da “pseudociência” e, mais uma vez, comete erros grosseiros. Vários em cada frase. Vamos conversar sobre isso por partes.

Em primeiro lugar, é importante saber o que é um argumento do espantalho. Trata-se de distorcer um argumento adversário para torná-lo mais fácil de combater. Didi faz isso diversas vezes ao longo de seu vídeo.

Um dos exemplos mais importantes de argumentos do espantalho usados por Didi aparece no que ele fala sobre inércia. Ele menciona a lei da inércia de uma forma que não chega a estar errada, mas demonstra não entender os argumentos que fazem uso dela. Também demonstra ignorar completamente como funcionam os diferentes tipos de referenciais em Física. Vamos aos detalhes.

Ele diz que seus adversários afirmam que, de acordo com a lei da inércia, movimentos da Terra não afetam movimentos dos objetos na superfície da Terra, sendo que o pêndulo de Foucault demonstra o contrário. Temos, portanto, uma contradição interna da “pseudociência”. Esse é um exemplo de argumento do espantalho. Vejamos por quê.

Em primeiro lugar, não se afirma que movimentos da Terra não afetam movimentos de objetos na superfície da Terra. Essa ideia totalmente falsa parece ser produto de uma forma obtusa de entender explicações que damos sobre a relação entre movimentos da Terra e movimentos de objetos na superfície da Terra. No texto “Ajuda a um Terraplanista”, explico o assunto dos referenciais com vários exemplos.

Esse assunto dos referenciais é fundamental para o entendimento de leis físicas, mas terraplanistas têm sistematicamente ignorado essas coisas, tanto em seus argumentos físicos quanto em seus argumentos bíblicos, o que os leva a aberrações conceituais cada vez maiores. Didi menciona, por exemplo, que um avião não poderia pousar no solo se a Terra girasse a 1600 km/h, pois o avião viaja a apenas uns 250 km/h na aterrissagem. Se fosse descer sobre uma pista a 1600 km/h, ele seria destroçado. Didi confunde as explicações sobre isso com uma afirmação absurda de que movimentos da Terra não afetam movimentos de objetos na Terra. Esse argumento mostra total falta de entendimento de mecânica newtoniana, mas é comum que as pessoas esqueçam ou não entendam essas coisas. Embora já tenha explicado esse assunto em outro texto, farei um breve resumo aqui.

Imagine um terraplanista chamado Voilson em um avião viajando a 900 km/h em linha reta. Sentado em seu assento, ele joga uma bola de baseball para cima, de forma que ela sobe uns 50 cm e cai de volta em sua mão. Esse fenômeno acontece no avião da mesma forma que aconteceria se a pessoa estivesse parada no solo. A bola cai na mão da pessoa a cerca de 11 km/h na vertical. Do ponto de vista de outro terraplanista chamado Planilson, que está no solo, a mesma bola viaja a mais de 900 km/h e percorre aproximadamente uma parábola muito esticada na horizontal, não uma linha reta. E atinge a mão de Voilson a mais de 900 km/h, muito mais rápido do que projéteis de algumas armas de fogo. Planilson assiste a vídeos no canal de Didi e entende o que ele fala sobre aviões tentando aterrissar em um aeroporto que viaja a 1600 km/h. Os aviões seriam destroçados. Usando o mesmo raciocínio, ele conclui que a bola destrói a mão de Voilson e explode no processo. Voilson discorda, pois a bola atinge sua mão a apenas 11 km/h. Então, o que está errado com o comentário de Didi quanto ao pouso de aviões? Praticamente tudo.

Afinal, por que a bola não destrói a mão de Voilson? Porque não existem velocidades absolutas, apenas relativas. Esse é um dos fatos básicos da Física. A velocidade da bola é de uns 900 km/h em relação a Planilson, não a Voilson. Para Voilson, a velocidade da bola ao atingir sua mão é de apenas 11 km/h. Planilson precisa aprender a calcular velocidades relativas para conseguir acertar suas contas e obter resultados compatíveis com a realidade. Se ainda não ficou claro, vamos tornar o assunto um pouco mais explícito.

Voilson viaja a 900 km/h em relação a Planilson e a 0 km/h em relação a si mesmo. Enquanto segura a bola em sua mão, antes de jogá-la, ela viaja a 0 km/h em relação a Voilson e a 900 km/h em relação a Planilson. Quando Voilson a joga para cima, a componente vertical da velocidade inicial é de 11 km/h para cima em ambos os referenciais. No referencial de Voilson, a componente horizontal da velocidade da bola é 0 km/h. No de Planilson é 900 km/h. Quando a bola atinge de volta a mão de Voilson, a componente vertical é de 11 km/h para baixo em ambos os referenciais. Mas a componente horizontal continua a mesma (0 para Voilson, 900 km/h para Planilson). Qual das duas velocidades deve ser usada para avaliar o estrago que a bola causará na mão de Voilson e em si mesma?

O importante em um impacto é a velocidade relativa entre os objetos que colidem. Não importa a velocidade de Voilson em relação a Planilson nem a da bola em relação a Planilson. A bola interage apenas com Voilson. E a velocidade relativa entre ambos é de apenas 11 km/h. Isso nada tem a ver com inércia, como Didi quer fazer parecer. Se a mesma bola atingir a cabeça de Planilson a 900 km/h, ela causará sua morte.

E por que as coisas são assim? Por que é a transferência de momentum e energia que faz diferença em colisões, e isso só depende da velocidade relativa dos objetos que colidem entre si (de um em relação ao outro). Força é transferência de momentum por unidade de tempo (segunda lei de Newton). Quando há muito momentum para transferir em pouco tempo, a força é grande e causa grandes estragos. E a transferência de momentum depende da velocidade relativa, não da absoluta (caso isso existisse).

E o que a inércia tem a ver com tudo isso? Bem, do ponto de vista de Voilson, a bola em sua mão tem momentum zero (massa vezes velocidade). Ela permanece naturalmente com a mesma velocidade sem fazer força alguma sobre seu ambiente. Do ponto de vista de Voilson, ela está realmente parada. Digamos que a bola tenha 100 g. Do ponto de vista de Planilson, o momentum da bola é de 25 kg m/s. Se a bola atingir Planilson e precisar parar em, digamos, 1 ms (milissegundo), precisará transferir os 25 kg m/s nesse tempo e aplicará sobre Planilson uma força de 25 kN (equivalente ao peso de umas duas toneladas e meia). Se atingir Voilson, não precisa transferir esse momentum horizontal, pois a velocidade horizontal em relação a Voilson é zero.

O mesmo ocorre com aviões. Antes de decolar, eles já possuem a mesma velocidade do solo (em relação a algum observador fora da Terra). Em relação ao solo, estão parados. Ao decolarem, adquirem alguma velocidade em relação ao solo. Mais tarde, essa velocidade relativa diminui e o avião aterrissa de maneira relativamente suave, assim como a bola na mão de Voilson.

Isso significa que movimentos da Terra não afetam os movimentos de objetos na superfície da Terra? De maneira nenhuma! Fiquei até curioso para saber de onde Didi tirou essa ideia absurda. Vejamos essa questão mais de perto.

Voltemos ao experimento de Voilson. A explicação que demos acima implica em que movimentos do avião não afetam os movimentos da bola jogada por Voilson? De maneira nenhuma! Imagine que, no momento em que Voilson joga a bola para cima, o avião se incline para um lado. Do ponto de vista de Planilson, a bola segue sua trajetória normal. Do ponto de vista de Voilson, a bola sofre um desvio para um lado e cai longe de sua mão. É como se surgisse do nada uma força horizontal perturbando a bola. O que acontece, porém, é que seu referencial deixou de ser horizontalmente inercial (sem forças fictícias na horizontal).

A Terra não é um sistema inercial porque gira, como podemos ver por inúmeros experimentos independentes entre si, incluindo o do pêndulo de Foucault e as fórmulas e resultados que geram para cada modelo e a comparação disso com o que se observa na prática. Mas o que conta em fenômenos físicos são sempre velocidades relativas. O movimento de giro da Terra afeta correntes atmosféricas e marítimas de maneira visível, assim como o faz com o pêndulo de Foucault.

Outro ponto perturbador do vídeo foi uma afirmação errada que costuma ser repetida à exaustão por terraplanistas que não param para entender o que estão repetindo: que a Terra gira a 1600 km/h no modelo padrão. Não é verdade. Em primeiro lugar, isso está próximo da verdade apenas no Equador. No texto “Ajuda a um Terraplanista”, mostramos como os cálculos com o modelo de Terra redonda geram corretamente os valores da aceleração da gravidade nos polos e no Equador, e como isso implica em que a água não é “espirrada” para fora da Terra, mas permanece estável com sua velocidade praticamente nula em relação ao solo. A gravidade é vertical em relação ao solo e tem valor muito maior que de uma “força centrífuga” fictícia nesse sistema não inercial.

A velocidade em km/h do solo em relação a um sistema inercial é menor do que a do Equador em latitudes diferentes de zero. Quando se fala em rotação da Terra, o correto é usar velocidade angular e não linear. E a da Terra é de uma volta por dia, ou seja, trata-se de uma rotação tão lenta que não chega a ser perceptível a olho nu.

O conceito de referencial também confunde terraplanistas ao analisar passagens bíblicas. Um exemplo famoso é o de Josué 10:13, 14. Lá é dito que, a pedido de Josué, o Sol e a Lua pararam no céu. Isso significa que o Sol e a Lua movem-se normalmente em relação à Terra. Isso entra em conflito com o que os cientistas atuais dizem, certo? Errado! No referencial do solo, este encontra-se parado, enquanto o Sol, a Lua e as estrelas movem-se no céu. Isso é o que os cientistas modernos dizem. Só que esse referencial não é inercial. Em outras palavras, descrever as leis físicas nele faz com que as leis físicas pareçam muito mais complexas do que elas realmente são. É como descrever a realidade a partir do referencial de um carrossel. Por isso, os físicos preferem, sempre que possível, usar referenciais inerciais, nos quais não aparecem aberrações como a força centrífuga, por exemplo. Em referenciais inerciais, distantes da Terra, ela gira em torno de si mesma e orbita o Sol. Mas isso não muda o fato de que, no referencial de quem está parado na superfície da Terra, é o Universo todo que gira ao redor da Terra, incluindo o Sol e a Lua. Resumindo, usar essa passagem de Josué para provar alguma coisa sobre o movimento da Terra apenas demonstra desconhecimento do assunto, tanto em termos de linguagem bíblica e seus referenciais quanto em termos de Física básica.

Resumo geral: Didi apresenta uma “explicação” do experimento de Foucault que deixa de fora tudo o que é mais essencial ao experimento e seus resultados, depois faz uma análise na qual comete vários erros em cada frase que fala, sendo que destaquei aqui os que me chamaram mais atenção no sentido de demonstrar desconhecimento de Física básica. Além disso, prende-se a uma abordagem puramente qualitativa sem usar de fato qualquer lei física formalmente para demonstrar o que diz. E os exemplos qualitativos estão errados ou não têm a ver com o problema em discussão. Essa demonstração de desconhecimento tem sido uma constante em todo o material terraplanista que já vi até o momento.

(Eduardo Lütz é físico e engenheiro de software)