quinta-feira, fevereiro 04, 2016

Curso bíblico O Resgate da Verdade (vídeos e Prezis)



Poucos anos atrás, fui encarregado pela Divisão Sul-Americana de produzir uma série de estudos bíblicos para universitários e pessoas de mente secularizada. Reuni um time de amigos estudiosos e criamos o curso O Resgate da Verdade, com 26 lições. Agora você pode ter acesso aos vídeos dessa série e às apresentações em Prezi, para você mesmo estudar os conteúdos e/ou utilizar em seus estudos com outras pessoas, ou mesmo em séries evangelísticas. Use e abuse desse material!

Clique aqui para assistir a todos os vídeos e aqui para ter acesso a todas as apresentações em Prezi. Tem também a versão em espanhol.

“DNA Lixo”: o software que controla organismos complexos

Lixo? Que nada! A ideia foi pro lixo
Há muito tempo o ser humano tem buscado desvendar e compreender o genoma humano. Em 1990, o Projeto Genoma Humano foi lançado e deu início a um marco na história da ciência.[1] Em 2000, ano em que foi divulgada uma prévia do mapeamento completo, houve um frenezi na comunidade científica que acreditava ter posto um fim ao mistério do mundo molecular. Logo os cientistas perceberam que ainda estavam longe de alcançar o objetivo inicialmente proposto. O DNA (deoxyribonucleic acid) ainda continuava um enigma a ser desvendado. Atualmente, estima-se que o genoma humano possua aproximadamente 3,2 bilhões de pares de bases de DNA, entretanto, desde 1972 – ano em que Susumu Ohno cunhou o termo “DNA lixo” –, acredita-se que apenas cerca de 2% das sequências de DNA representariam a suposta região funcional (éxons), ou seja, genes que codificam e regulam a produção de proteínas.[2-4] Por sua vez,  cerca de 98% das sequências de DNA têm sido consideradas “não codificantes”, a suposta região “não funcional” rotulada como “DNA lixo”. Entretanto, essa vasta região tem sido alvo de muita controvérsia.[5]

O biólogo evolucionista Jerry Coyne considera que grande parte de nosso DNA é parasitária. Ele escreveu em Why Evolution Is True: “Quando uma característica não é mais usada, ou se torna reduzida, os genes que fazem isso não desaparecem instantaneamente do genoma: a evolução para a ação delas, inativando-as, não as removendo do DNA. Disso nós podemos fazer uma predição. Esperamos encontrar, nos genomas de muitas espécies, genes silenciados, ou ‘mortos’; genes que foram úteis uma vez, mas não estão mais intactos ou expressos. Em outras palavras, deve haver genes vestigiais. Ao contrário, a ideia de que todas as espécies foram criadas do zero prediz que tais genes não existiriam. [...] Nosso genoma e os de outras espécies são verdadeiramente cemitérios bem preenchidos de genes mortos.”[6: p. 66, 67]

Portanto, a existência de grandes quantidades de DNA não codificante no genoma de eucariotos tem sido usada como um argumento contra o design inteligente (e o papel de um designer) e como um argumento para o processo aleatório da evolução. Como pode ser visto, foram formuladas hipóteses evolucionistas na tentativa de explicar a razão para a existência de DNA não codificante. Dentre elas, a principal hipótese afirma que o DNA não codificante seria um suposto “lixo” que consistiria de sequências produzidas ao acaso que teriam perdido sua capacidade de codificação ou genes parcialmente duplicados que seriam não funcionais. Porém, em 1999, um estudo examinou os genomas dos organismos fotossintéticos unicelulares conhecidos como Cryptomonas.[7] Esses organismos apresentaram ampla variedade de tamanhos celulares diferentes, com o núcleo sendo proporcional ao tamanho da célula. 

Os autores desse estudo descobriram que a quantidade de DNA não codificante era proporcional ao tamanho do núcleo, o que sugere que mais DNA não codificante foi necessário em núcleos maiores. Além disso, o nucleomorfo, um pequeno pedaço de DNA contido no interior do plastídio (organela celular de plantas ou algas) que codifica para si próprio e possui função fotossintética, não foi alterado em tamanho, apesar das mudanças no tamanho das células e no conteúdo nuclear. Esses resultados contrariam diretamente as hipóteses evolucionistas. De acordo com os autores, “a atual falta de quantidades significativas de DNA não codificante no nucleomorfo confirma que a seleção pode facilmente eliminar DNA nuclear sem função, refutando as hipóteses ‘lixo’ e ‘egoísta’ do DNA não codificante”.[7: p. 2.053]

Atualmente, o dogma central da biologia molecular também teve que ser revisto. Isso porque já se sabe que a direção unilateral “DNA que é copiado em RNA que codifica proteínas” não é a única via existente para gerar informações cruciais para o desenvolvimento e a manutenção do corpo. Existem diversos tipos de RNAs, e cada um deles exerce distintas funções (até mesmo a de codificar DNA, no caminho inverso do que se imaginava). Em 2003, a fim de identificar os elementos funcionais nas sequências do genoma humano, surgiu o Projeto Internacional ENCODE, um consórcio formado por cientistas distribuídos por 32 laboratórios nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha, no Japão, em Cingapura e na Espanha.[8]

Em 2012, os resultados dessa pesquisa abalaram as estruturas da biologia evolutiva.[9] No artigo assinado por todos os líderes do projeto e publicado na revista Science, foi comunicado ao mundo que ao menos 80,4% do genoma humano apresenta funções bioquímicas importantes (ocorre transcrição). Isso inclui 863 pseudogenes que são “transcritos e associados com cromatina ativa” (desconstruindo o argumento vestigial de Jerry Coyne). O biólogo John Mattick da Universidade de Queensland (Austrália) destacou que o ex-DNA lixo “tem um papel regulatório tão importante que pode ser comparado a um software que controla todo o sistema dos organismos complexos.”[10] Além disso, um dos líderes do projeto, Dra. Elizabeth Pennisi, afirmou que todos os livros didáticos estavam errados.[11, 12] Fato é que os resultados do ENCODE foram recebidos negativamente por biólogos evolutivos. Estava declarada a guerra, uma vez que a crença neodarwinista relativa aos vestígios evolutivos do DNA estava sendo posta em xeque.[12-15]

Mas qual seria exatamente o problema em se descobrir que a maior parte do genoma é funcional? Parece que a discussão toda é motivada justamente devido ao uso de uma definição mais abrangente do termo “função” por parte do ENCODE. Para os evolucionistas (neodarwinistas), a funcionalidade deve ser atribuída apenas a uma região “conservada” – isto é, sequência semelhante em comparação com os genomas de outros mamíferos − pela seleção “purificadora”, e que não pode estar sujeita a mutações deletérias.[12, 16] Em outras palavras, isso significaria que apenas cerca de 10% do nosso genoma está sob seleção de preservar a sequência de DNA.

Em 2014, esse mesmo argumento foi utilizado em uma pesquisa na tentativa de contrariar os resultados do projeto ENCODE.[17] Os resultados indicaram que apenas 8,2% do DNA humano teria um papel importante; o restante (91,8%) poderia ser considerado “DNA lixo”. Mas há um problema gritante com esse pensamento: ele assume que todas as sequências de DNA são o resultado de mutação sem direção e seleção para começar, e que função biológica só vem de seleção natural.[18] Jogue fora a hipótese de uma origem evolutiva das espécies e não haverá nenhuma razão para acreditar que só DNA conservado pode ser funcional. Afinal de contas, um agente inteligente poderia projetar de forma independente elementos genéticos funcionais, com sequências de DNA amplamente divergentes nos genomas de diferentes espécies; assim, nenhuma “conservação” seria necessária.

Diante disso, pesquisadores têm percebido que toda essa resistência aos resultados do ENCODE é causada por sua incompatibilidade em relação ao paradigma tradicional neodarwinista (Síntese Moderna).[19] Isso porque essa teoria defende que supostas mutações benéficas se acumulariam ao ponto de gerar alguma função – como, por exemplo, um gene que produz uma proteína responsável por um fenótipo –, e que seria conservada pela seleção natural. Mas, para gerar um só gene operante, muitas tentativas falhas ocorreriam, gerando e acumulando um monte de lixo.

O apego por parte de cientistas às suas antigas crenças evidencia o dogmatismo real e presente na comunidade científica que supera até mesmo o respeito ao progresso da ciência. Posso citar alguns exemplos para que fique evidente a doutrinação acadêmica existente por parte de cientistas evolucionistas quando contrariados pelos dados. O biólogo molecular Dr. Ford Doolittle, por exemplo, disse: “Eu vou sugerir que nós, como biólogos, defendamos a concepção tradicional de função: a publicidade ao redor do ENCODE revela a extensão do quanto essa concepção tem erodido.”[13: p. 5.294] Por sua vez, o geneticista brasileiro Marcelo Nóbrega, da Universidade de Chicago (EUA), afirmou: “Ninguém acredita que 85% do genoma é funcional. Há duas razões para que isso tenha se espalhado. A mais importante foi a irresponsabilidade dos membros do ENCODE ao divulgarem os resultados.”[20]

Para o biólogo Dr. Dan Graur, o ENCODE não oferece razões suficientes para “abandonar a compreensão prevalente entre biólogos evolutivos segundo a qual a maior parte do genoma humano é desprovida de função”.[12: p. 587] Mas o pensamento anticientífico não para por aí, vai além e sugere “que a maior parte do ‘DNA lixo’ nunca irá adquirir uma função”.[21: p. 154] Essa é uma sugestão bem audaciosa! Praticamente uma previsão do futuro. Até mesmo pelas redes sociais os neodarwinistas expressaram sua rejeição ao ENCODE [15, 22]. Ainda bem que diversos outros cientistas intelectualmente honestos não compactuam com essa ideia.[5, 16, 23, 24] Aliás, quando os cientistas optam por olhar para a função na pilha de “lixo”, eles geralmente a encontram;[25] e o ENCODE tem motivado essa busca.

Porém, imagine o que seria da ciência se a maior parte da comunidade científica se utilizasse dessa mesma suposição neodarwinista! Acredito que ocorreria o mesmo que tem acontecido durante o último século devido à crença (ainda hoje presente nos livros didáticos) representada pelos conceitos equivocados de eugenia e darwinismo social, órgãos vestigiais e “bad design”. Foi muito dinheiro gasto com pesquisas inúteis, deixando de lado as investigações sérias em regiões moleculares importantes que trariam grandes benefícios para as áreas biomédicas.

Atualmente, o mundo do ex-DNA lixo representa um mar ainda pouco explorado. Os íntrons apresentam relações muito importantes. Devido ao fato de os íntrons não estarem relacionados com a síntese de proteínas de forma direta, muitos grupos de cientistas optaram por descartar de suas análises as regiões intrônicas. Por outro lado, já se sabe que os íntrons participam da síntese de grande quantidade de RNA para diversas outras funções além da síntese protéica.

É inegável que a teoria da evolução tenha causado diversos danos à ciência. Essa é uma das principais razões pela qual nos manifestamos contra essa teoria falida. Contudo, Mattick e Dinger[5] apontam outro motivo pelo qual ainda há resistência em abandonar o conceito de “DNA lixo”: por pura obstinação e rejeição do movimento do design inteligente. Certamente isso contribui para que seja minimizada a possibilidade de pesquisas baseadas em design.

Mas vale lembrar que já em 1998 teóricos do design inteligente se opunham ao consenso da academia científica sobre o “DNA lixo”. O filósofo da biologia Dr. William Dembski fez a seguinte predição positiva sobre os dados científicos: “Do ponto de vista evolucionário, esperamos bastante DNA inútil. Se, por outro lado, os organismos são intencionalmente planejados, esperamos que o DNA, tanto quanto possível, exiba função. E, na verdade, as mais recentes descobertas sugerem que designar o DNA como ‘lixo’ meramente dissimula nosso conhecimento atual sobre função.”[26] Portanto, está aí a prova convincente de qual das duas teorias consegue fazer predições confiáveis baseadas unicamente nos dados científicos.

(Everton Fernando Alves é enfermeiro e mestre em Ciências da Saúde pela UEM; seu e-book pode ser lido aqui)

Referências:
[1] National Human Genome Research Institute. The Human Genome Project Completion: Frequently Asked Questions. Disponível em: https://www.genome.gov/11006943
[2] Ohno S. “So much ‘junk’ DNA in our genome.” Brookhaven Symposia in Biology 1972; 23(1972):366-70.
[4] International Human Genome Sequencing Consortium. Finishing the euchromatic sequence of the human genome. Nature. 2004 Oct 21;431(7011):931-45.
[5] Mattick JS, Dinger ME. “The extent of functionality in the human genome.” The HUGO Journal 2013; 7:2. Disponível em: http://www.thehugojournal.com/content/7/1/2
[6] Coyne JA. Why Evolution Is True. New York: Viking, 2009, p. 66-67.
[7] Beaton MJ, Cavalier-Smith T. “Eukaryotic non-coding DNA is functional: evidence from the differential scaling of cryptomonad genomes.” Proc Biol Sci. 1999 Oct 22; 266(1433): 2053–2059.
[8] ENCODE Project Consortium. The ENCODE (ENCyclopedia Of DNA Elements) Project. Science. 2004 Oct 22;306(5696):636-40.
[9] ENCODE Project Consortium. “An integrated encyclopedia of DNA elements in the human genome.” Nature. 2012 Sep 6;489(7414):57-74.
[10] Entrevista concedida por John Mattick. “Motor da evolução.” [set. 2010]. Entrevistador: Fábio de Castro. Agência FAPESP, 2010. Disponível em: http://agencia.fapesp.br/motor_da_evolucao/12804/
[11] Pennisi E. “ENCODE project writes eulogy for junk DNA.” Science. 2012 Sep 7;337(6099):1159, 1161.
[12] Graur D, Zheng Y, Price N, Azevedo RB, Zufall RA, Elhaik E. “On the immortality of television sets: ‘function’ in the human genome according to the evolution-free gospel of ENCODE.” Genome Biol Evol. 2013;5(3):578-90.
[13] Doolittle WF. “Is junk DNA bunk? A critique of ENCODE.” Proc Natl Acad Sci USA. 2013 Apr 2;110(14):5294-300.
[14] Bhattacharjee Y. “The Vigilante.” Science. 2014; 343(6177):1306-1309.
[15] Social Selection. “ENCODE debate revived online”, Nature. 2014; 509:137. Disponível em: http://www.nature.com/nature/journal/v509/n7499/full/509137e.html
[16] Kellis M, Wold B, Snyder MP, Bernstein BE, Kundaje A, Marinov GK, Ward LD, Birney E, Crawford GE, Dekker J, Dunham I, Elnitski LL, Farnham PJ, Feingold EA, Gerstein M, Giddings MC, Gilbert DM, Gingeras TR, Green ED, Guigo R, Hubbard T, Kent J, Lieb JD, Myers RM, Pazin MJ, Ren B, Stamatoyannopoulos JA, Weng Z, White KP, Hardison RC. “Defining functional DNA elements in the human genome.” Proc Natl Acad Sci USA. 2014 Apr 29;111(17):6131-8.
[17] Rands CM, Meader S, Ponting CP, Lunter G. “8.2% of the Human genome is constrained: variation in rates of turnover across functional element classes in the human lineage.” PLoS Genet. 2014 Jul 24;10(7):e1004525.
[18] Luskin C. “ENCODE Critics: Evolution Proves Our Genome Is Junky... Which Proves Evolution.” [Jul. 2015]. Junk DNA News. Evolution News and Views, 2015. Disponível em: http://www.evolutionnews.org/2015/07/the_encode_embr_2097581.html
[19] Livnat A. “Interaction-based evolution: how natural selection and nonrandom mutation work together.” Biol Direct. 2013 Oct 18;8:24.
[20] Entrevista concedida por Marcelo Nóbrega. “O enigma da cebola.” [out. 2014]. Entrevistador: Reinaldo José Lopes. Blog Darwin e Deus. Folha de S. Paulo, 2014. Disponível em: http://darwinedeus.blogfolha.uol.com.br/2014/10/28/o-enigma-da-cebola/
[21] Garrido-Ramos MA. “Satellite DNA in Plants: More than Just Rubbish.” Cytogenet Genome Res. 2015;146(2):153-70.
[22] Woolston C. Furore over genome function. Nature. 2014; 512(7512):9. Disponível em: http://www.nature.com/nature/journal/v512/n7512/full/512009e.html
[23] Spitale RC, Tsai MC, Chang HY. “RNA templating the epigenome: long noncoding RNAs as molecular scaffolds.” Epigenetics. 2011 May;6(5):539-43.
[24] Stamatoyannopoulos JA. “What does our genome encode?” Genome Res. 2012 Sep; 22(9):1602–1611.
[25] Matkovich SJ, Edwards JR, Grossenheider TC, de Guzman Strong C, Dorn GW 2nd. “Epigenetic coordination of embryonic heart transcription by dynamically regulated long noncoding RNAs.” Proc Natl Acad Sci USA. 2014 Aug 19;111(33):12264-9.
[26] Dembski WA. “Intelligent Science and Design.” First Things. 1998; 86:21-27. Disponível em: http://www.firstthings.com/article/1998/10/001-science-and-design

quarta-feira, fevereiro 03, 2016

Terra plana: a teoria conspiratória do momento

Um desserviço à ciência e à religião
Deu no portal UOL: “Nós sabemos: 2016 mal começou, mas já podemos ter a ‘teoria de conspiração do ano’. Não se sabe bem a razão, mas argumentos de que a Terra é plana – fato não só contestado por imagens tiradas do espaço, mas também por investigações matemáticas que datam desde a Grécia antiga – têm ganhado manchetes pelo mundo todo recentemente. [...] Quem são os crentes da Terra plana? [...] Eles acreditam basicamente, que há uma conspiração mundial envolvendo cientistas e agências espaciais para que todos acreditem que a Terra é esférica. É dito que estamos em um disco circular, não em um globo, com o Polo Norte no meio e a Antártida em toda a borda. [...] Em matéria do jornal inglês The Guardian, é citado que os seguidores dessa teoria são ‘quase como uma religião’. Não se sabe qual é realmente o tamanho do grupo. Mas, como em qualquer assunto, fanáticos fazem barulho. Principalmente na internet. Em grupos de Facebook, posts no Twitter, vídeos no YouTube, fóruns... [...] Inúmeros fatos são apontados pelos membros dos grupos. As alegações para isso vão desde ‘desaparecimento de navios’ a ‘horizonte reto’ (mas não citam que barcos ficam só parcialmente visíveis no horizonte por causa da curvatura terráquea).”

O livro Inventando a Terra Plana (São Paulo: Editora Unisa, 1999), de Jeffrey Burton Russel, historiador e pesquisador da Universidade da Califórnia, mostra convincentemente que a ideia da Terra plana foi uma elaboração mais ou menos recente. Embora hoje se saiba que os europeus renascentistas tenham supervalorizado a ideia de que houve um período de mil anos de trevas intelectuais entre o mundo clássico e o moderno, Russel acredita que o erro da Terra plana não havia sido incorporado à ortodoxia moderna antes do século 19. “[Russel] descobriu o fio da meada nos escritos do americano Washington Irving e do francês Antoine-Jean Letronne [responsáveis pela posterior propagação do mito da Terra plana]. Mas sua disseminação no pensamento convencional ocorreu entre 1870 e 1920, como consequência da ‘guerra entre a ciência e a religião”, quando para muitos intelectuais na Europa e nos Estados Unidos toda religião tornou-se sinônimo de superstição e a ciência tornou-se a única fonte legítima da verdade. Foi durante os últimos anos do século 19 e os primeiros anos do século 20 que a viagem de Colombo se tornou então um símbolo amplamente divulgado da futilidade da imaginação religiosa e do poder libertador do empirismo científico. [...] os pensadores medievais, da mesma forma que os clássicos que os antecederam, criam na redondeza da Terra” (p. 10).

Irving (1783-1859) retocou a história para parecer que a oposição à viagem de Colombo se deveu ao pensamento de que a Terra fosse plana. Isso foi provado falso. A oposição se deveu, na verdade, à preocupação com a distância que os navegadores teriam que percorrer. A esfericidade da Terra não foi tema de discussão naquela ocasião.

O fato é que nem Cristóvão Colombo, nem seus contemporâneos pensavam que a Terra fosse plana. Não há uma referência sequer nos diários do navegador (e de outros exploradores) que levante a questão da redondeza da Terra, o que indica que não havia contestação alguma a esse respeito, na época. Assim, segundo Russel, é comum a regra de Edward Grant de que no século 15 não havia pessoas cultas que negassem a redondeza da Terra. No entanto, esse mito permanece até hoje, firmemente estabelecido com a ajuda dos meios de comunicação e dos livros didáticos. Com que interesse?

Para Russel, o mito da Terra plana pode ser rastreado até o século 19, especialmente a partir de 1870, à medida que autores de livros-textos se envolveram na controvérsia em torno do darwinismo. “No início do século [20] a força dominante subjacente ao erro [da Terra plana] foi o anticlericalismo do Iluminismo no seio da classe média na Europa, e o anticatolicismo nos Estados Unidos” (p. 35).

Antes disso, na Divina Comédia, o poeta Dante Alighieri (1265-1321) já apresentava o conceito de uma Terra redonda. Os filósofos escolásticos, incluindo o maior deles, Tomás de Aquino (1225-1275), conhecedores de Aristóteles, igualmente afirmavam a esfericidade da Terra.

No entanto, como os escolásticos e filósofos medievais se baseavam em Aristóteles e este defendia a esfericidade da Terra, os iluministas tiveram que arranjar outros referenciais para dizer que o mito se baseava neles. E os encontraram em Lactâncio (245-325 d.C.) e Cosme Indicopleustes, autor de Topografia Cristã (escrito entre 547 e 549 d.C.). Só que, segundo Russel, Lactâncio tinha ideias muito estranhas sobre Deus e não foi levado em consideração na Idade Média (na verdade, foi considerado herege) – até que os humanistas da Renascença o “ressuscitassem”, apregoando sua suposta influência. Indicopleustes, partindo de escritos de filósofos pagãos e interpretando erroneamente textos bíblicos poéticos, defendeu a ideia da Terra plana. Era ignorado, ao invés de seguido.

Detalhe: a primeira tradução de Cosme para o latim não foi feita senão em 1706. Portanto, como poderia ele ter tido influência sobre o pensamento ocidental medieval?

Russel arremata: “[Lactâncio e Cosme] foram símbolos convenientes a serem usados como armas contra os antidarwinistas. Em torno de 1870, o relacionamento entre a ciência e a teologia estava começando a ser descrito através de metáforas bélicas. Os filósofos (propagandistas do Iluminismo), particularmente [David] Hume, haviam plantado uma semente ao implicar que estavam em conflito os pontos de vista científicos e cristãos. Augusto Comte (1798-1857) havia argumentado que a humanidade estava laboriosamente lutando para ascender em direção ao reinado da ciência; seus seguidores lançaram o corolário de que era retrógrado tudo o que impedisse o advento do reino da ciência. Seu sistema de valores percebia o movimento em direção à ciência como ‘bom’, de tal forma que o que atrapalhasse esse movimento era ‘mau’. [...] O erro [da Terra plana] foi, desta forma, incluído no contexto de uma controvérsia muito maior – a alegada guerra entre ciência e religião” (p. 67, 77).

O próprio Copérnico, no prefácio de seu clássico trabalho De Revolutionibus, usou Lactâncio para ilustrar como a ignorância dos opositores à ideia da Terra esférica era comparável à dos que insistiam no geocentrismo. Curiosamente, Copérnico não diz que Lactâncio era típico do pensamento medieval. Esse prefácio foi enviado para o papa a fim de obter aprovação eclesiástica. Copérnico não atacaria Lactâncio e sua ideia da Terra plana, se a igreja estivesse de acordo com esse pensamento. O problema, como já vimos, teve que ver com o geocentrismo aristotélico versus heliocentrismo, e não com o formato da Terra.

Com essa polêmica levantada pelos novos defensores da Terra plana, já há quem tente, pela milionésima vez, mostrar que a Bíblia sustenta essa ideia absurda. Nada mais falso, também. Na Bíblia não há qualquer sugestão de que a Terra poderia ser plana. Conforme explicam os teólogos Gerhard e Michael Hasel, “algumas passagens poéticas descrevem os ‘alicerces’ da Terra como descansando sobre ‘colunas’ (1Sm 2:8; Jó 9:6). No entanto, essas palavras são usadas apenas em poesia e são mais bem entendidas como metáforas. Elas não podem ser interpretadas como colunas literais. Até hoje, falamos metaforicamente das ‘colunas da igreja’, referindo-nos aos membros de confiança da comunidade de crentes. Então, as colunas da terra são metáforas que descrevem Deus como aquele que pode apoiar ou mover os fundamentos internos que mantêm a Terra no lugar e unida, porque ele é o Criador” (He Spoken and It Was, em preparo para publicação em português pela Casa Publicadora Brasileira).

Isso também ocorre com expressões como “os quatro ventos [ou cantos] da Terra”, o que não desmerece a Bíblia, uma vez que até mesmo cientistas ainda hoje usam expressões como “pôr do sol”, embora todos saibamos que não é o Sol que se põe.

Infelizmente, defensores de teorias conspiratórias como a da Terra plana prestam um desserviço à história da ciência e até mesmo à religião. Mais confundem do que ajudam, e tudo o que conseguem é cair no ridículo.

Michelson Borges

Pesquisa desafia tese da evolução ave-dinossauro

Fóssil de um Scansoriopteryx
Artigo científico publicado no Journal of Ornithology informa que uma análise com microscopia eletrônica digital de um fóssil de Scansoriopteryx, uma espécie pré-arqueoptérix do tamanho de um pardal datada do período Jurássico, fornece novas evidências que desafiam a hipótese amplamente aceita e trombeteada ao longo dos anos em publicações científicas e na mídia popular de que aves teriam evoluído a partir de dinossauros. Ao contrário das interpretações anteriores em que o  Scansoriopteryx foi considerado um dinossauro celurossauro terópode, a ausência de características fundamentais de dinossauros demonstra que ele não derivou de um ancestral dinossauro e não deve ser considerado como um dinossauro terópode.

Trata-se de um artigo científico com revisão por pares, mas duvido que será divulgado na grande imprensa, em revistas como Veja, Galileu e Superinteressante. É o tipo de assunto que mereceria uma capa na National Geographic, mas revistas como essas, comprometidas com o naturalismo filosófico e com o evolucionismo, geralmente não dão destaque (no máximo uma matéria interna ou uma nota) para pesquisas que colocam em xeque a história da evolução.

Em 2008, num estudo publicado na revista PLoS One, pesquisadores alegavam ter descoberto um dinossauro que respirava como as aves. O artigo é quase todo baseado em mera especulação, mas o estudo foi promovido pelos meios de comunicação populares como um fato irrefutável. Foi até capa de revistas! Mas uma pesquisa mais recente, publicada no Journal of Morphology, conduzida por cientistas da Universidade Estadual de Oregon, nos Estados Unidos, analisou a capacidade pulmonar das aves e sugeriu que é improvável que elas descendam de algum tipo de dinossauro. Segundo os pesquisadores, “as conclusões juntam-se a outras evidências que podem, finalmente, forçar muitos paleontólogos a reconsiderar a longa crença segundo a qual as aves modernas seriam descendentes diretos de muitos dinossauros carnívoros”.

Conforme informa o mestre em Saúde Pública Everton Fernando Alves, em artigo publicado aqui no blog, “as aves necessitam cerca de 20 vezes mais oxigênio do que os répteis, e é sua estrutura pulmonar única que lhes permite absorver tanto oxigênio. O fêmur delas fixo é o esteio dos pulmões e previne seu colapso. Acerca disso, os pesquisadores fazem a seguinte alegação: ‘Há muito que os cientistas sabem que o fêmur dos pássaros é fixo, ao contrário do fêmur dos animais terrestres, que é móvel. O que até hoje ainda ninguém tinha descoberto é que é o fato de o fêmur das aves ser estático que impede que seus sacos aéreos entrem em colapso cada vez que elas respiram.’ Como vemos, basta deslocar um pouco que seja a posição do fêmur da ave e ela morrerá.”

Mas, então, por que a persistência nessa relação dinossauro-ave? John Ruben cita algumas razões: “Francamente, há muita política de museu envolvida nesse assunto, muitas carreiras comprometidas com um ponto de vista particular, mesmo se novas evidências científicas levantem questões.”

É bem como escreveu Thomas Kuhn, em seu ótimo A Estrutura das Revoluções Científicas: alguns paradigmas só se sustentam pela teimosia dos que os defendem, e é preciso que muitas evidências contrárias se acumulem até que a comunidade científica admita que estava pensando de maneira errada sobre certo modelo.

Será que veremos esse dia chegar, no que diz respeito à teoria da macroevolução?

Michelson Borges 

terça-feira, fevereiro 02, 2016

Relógio do Apocalipse: faltam três “minutos” para o fim

O mundo é um barril de pólvora
Segundo o grupo de cientistas responsável pelo relógio simbólico, o mundo está agora tão perto de enfrentar uma catástrofe como na Guerra Fria. Esse relógio marca agora três minutos para meia-noite, indicando que vivemos uma situação tão perigosa quanto a da Guerra Fria, o último período da história em que o ponteiro dos minutos esteve tão avançado. O relógio do Apocalipse foi criado em 1947 para mostrar, simbolicamente, quanto tempo faltava para a civilização enfrentar uma catástrofe global. É gerido por um boletim de cientistas que ajudaram a desenvolver a bomba atómica e conta atualmente com 18 prémios Nobel entre os seus diretores e patrocinadores. Para atrasar o relógio, os especialistas indicam que o mundo deve parar de investir em armas nucleares.

Segundo o The Guardian, o acordo nuclear iraniano, as alterações climáticas, o terrorismo e a ciberguerra podem ter sido os fatores que motivaram essa decisão.

No anúncio [recente], o grupo de cientistas justificou apenas que “os líderes internacionais estão falhando com os seus mais importantes deveres”.

Desde a sua criação, o relógio do Apocalipse viu os seus ponteiros moverem-se 22 vezes em resposta a acontecimentos mundiais.


Nota: No relógio do Céu, certamente os ponteiros também estão próximos de indicar “meia-noite”. Mas, nesse caso, o resultado não será exatamente o fim, mas a solução de todos os problemas humanos e o começo da eternidade, por ocasião da volta de Jesus. Saiba mais sobre isso aqui, aqui e aqui. [MB]

Zica pode se transformar em epidemia global


Um dos sinais da proximidade do fim, apontados por Jesus, está em Mateus 24:7: "Porquanto se levantará nação contra nação, e reino contra reino, e haverá fomes, e pestes, e terremotos, em vários lugares."

segunda-feira, fevereiro 01, 2016

O conselho de Hawking para sair da depressão

Que consolo é esse?
Recentemente, como é de costume, uma declaração do famoso físico britânico Stephen Hawking ganhou a mídia e repercutiu mundo afora. Mas, desta vez, o assunto não foi buracos negros nem teorias mirabolantes sobre multiversos. O tema foi bem mais corriqueiro e comezinho: depressão. Na verdade, Hawking, que vive confinado a uma cadeira de rodas há décadas por conta de uma doença neurológica degenerativa, deu conselhos para pessoas que sofrem com depressão. Depois de falar sobre buracos negros, o cientista comparou a depressão a esses corpos, destacando que, não importa o quanto eles sejam escuros, não é impossível escapar deles. Hawking disse o seguinte: “A mensagem desta palestra é que os buracos negros não são tão negros quanto parecem. Eles não são as prisões eternas que pensávamos. As coisas conseguem escapar para fora de buracos negros e possivelmente para outro universo. Então, se você se sentir dentro de um buraco negro, não desista – há uma saída.”

Sinceramente, não vejo muita esperança nem consolo em pensar que, se existe saída de buracos negros, haverá também saída para os buracos negros da minha vida.

Há duas semanas, participei em Orlando, na Flórida, de um evento de saúde promovido pela Igreja Adventista mundial. O tema de estudo neste ano foi saúde emocional. Vários especialistas renomados nessa área apresentaram suas pesquisas. Entre esses pesquisadores, estava Harold Koenig, estudioso da relação entre espiritualidade e saúde. Koenig trabalha na Universidade Duke e apresentou várias evidências científicas atuais dos efeitos positivos de uma vida espiritual relevante sobre a saúde, e destacou os últimos avanços dos estudos neurofuncionais nessa área. Ele mostrou que religiosos têm telômeros mais longos, e depois me explicou que isso se deve ao fato de o envolvimento religioso reduzir o estresse que, por sua vez, é o fator que promove o encurtamento dos telômeros, reduzindo a longevidade. Resumindo: pessoas religiosas, que têm uma religiosidade sadia, vivem mais e melhor.

Koenig também me disse que as crenças religiosas ajudam a reduzir o estresse psicológico que provoca dor, por isso são mais esperançosas e otimistas. E apresentou números interessantes como evidência de suas afirmações: pessoas religiosas vivem uma média de 7 a 14 anos a mais.

Outro palestrante que desenvolve pesquisas sérias na área da saúde emocional é o Dr. Francisco Ramirez, médico especialista em estilo de vida com vários artigos científicos publicados. Ele me disse em entrevista que o estilo de vida insalubre tem levado muitas pessoas à depressão. Falta de exercício físico, descanso insuficiente, privação da luz solar, alimentação inadequada foram itens apontados por ela para a causa de muitos casos de depressão.

O médico Marcello Niek Leal, líder da área de Saúde da Igreja Adventista na América do Sul arrematou o assunto ao meu dizer que, “para ter uma boa saúde emocional, devemos experimentar uma visão integrada da saúde, equilibrando as dimensões física, mental e espiritual, criando uma cadeia retroalimentável de hábitos saudáveis que fortalecem o corpo, desenvolvem a mente e trazem paz ao espírito”.

Como já disse em outra postagem, a verdadeira religião tem que ver com a “religação” com Deus e uma vida harmoniosa em quatro áreas básicas: espiritual, mental, física e social. A base da religião de Cristo é o amor a Deus e ao próximo, o que sintetiza os Dez Mandamentos. Quando vivemos a verdadeira religião bíblica, com seu foco na graça, no perdão e na obediência nascida do amor, a saúde mental e física é uma consequência natural. Os cientistas ainda não sabem exatamente por que a religião traz saúde. Simples: porque fomos criados para crer. Negar essa dimensão humana é convidar a doença.

Pena que Hawking não reconheça isso.         

Michelson Borges

Mais antiga cópia dos Dez Mandamentos é exibida em Israel

Trecho do manuscrito do Decálogo
O mais antigo documento conhecido que reproduz integralmente os Dez Mandamentos está em exibição em Jerusalém, em uma mostra do Museu de Israel - informou na quarta-feira (6) o estabelecimento. O documento, escrito em hebraico e com mais de dois mil anos de idade, é geralmente mantido nas instalações da Autoridade de Antiguidades de Israel, fora de alcance ao público e em condições draconianas de conservação, similares à caverna onde foi encontrado. O documento já havia ganhado uma exposição excepcional em Nova York, em 2011, e em Cincinnati, em 2013. Mas seu acesso ao público é muito raro, até mesmo em Israel. Agora, o público pode apreciá-lo por ocasião da exposição intitulada “Uma breve história da humanidade”, montada no Museu de Israel com recursos oriundos do estabelecimento e inaugurada recentemente. O texto está protegido numa redoma dotada de um dispositivo climático devido à sua fragilidade.

O documento, de 45,7 cm de comprimento e 7,6 centímetros de largura, com as instruções morais que Moisés teria recebido [”teria” não; recebeu] de Deus no Monte Sinai, faz parte dos 870 manuscritos encontrados por um beduíno no noroeste do Mar Morto entre 1947 e 1956 perto de Qumran.

Muitos especialistas estimam que os Manuscritos do Mar Morto foram escritos pelos essênios, uma seita judaica dissidente que se retirou no deserto. Outros especialistas acham que poderiam vir de bibliotecas do Templo Judaico que estava sendo erguido em Jerusalém, e foram escondidos em cavernas com a aproximação dos romanos que destruíram o local em 70 d.C. [...]



domingo, janeiro 31, 2016

A pedofilia vai à escola

[Depois de bombardear as aulas de História {confira aqui}, o MEC leva a pedofilia às escolas.] Você já parou para pensar sobre o motivo dessa farta produção de literatura voltada à educação sexual nas escolas? Não vou nominar obras para não fazer publicidade de lixo pedagógico, mas há de tudo. O famoso kit gay não foi o primeiro nem o último material pernicioso. O Ministério Público chegou a intervir, em alguns casos, para impedir a distribuição. Há publicações que, explicitamente, estimulam experiências autoeróticas, heterossexuais e homossexuais. Um desses livrinhos vem com a recomendação, aos pequenos leitores, de que devem conservar o referido “material escolar” fora do alcance dos pais... A questão que me interessa aqui é a existência de uma pedagogia da educação sexual que anda a braços com a pedofilia. É estarrecedor. Todo esse material que de um modo ou de outro chegou a alunos ou a bibliotecas de escolas tem rótulo de coisa pedagógica. Quando suscita escândalo, é defendido com a afirmação de estar destinado a professores ou a adolescentes. Falem sério! Professores e adolescentes precisam de livro sobre sexualidade, com figurinhas para público infantil?

Estamos, portanto, diante de algo sistemático, reincidente e renitente, que passa por cima, atropelando (“problematizando”, para usar palavra da pedagogia marxista) a orientação dos pais. Essa educação sexual, se não está empenhada em antecipar o processo de erotização no desenvolvimento infantil, está dedicada a algo tão parecido com isso que se torna impossível perceber a diferença. Se não está dedicada a disseminar a ideia de que o corpo humano, já na mais tenra idade, é um parque de diversões eróticas, o produto de seu trabalho será inequivocamente esse. Se não pretende oferecer a crianças e adolescentes um cardápio de opções sexuais para escolherem como sanduíche no balcão do McDonalds, é a isso que levam suas propostas.

A simples ideia de que tais orientações encontrem guarida em receitas pedagógicas no ambiente acadêmico e educacional do país é repugnante. No entanto, já em 1998, no capítulo sobre Educação Sexual do documento intitulado “Parâmetros Curriculares Nacionais” elaborado pelo MEC, lê-se que (p. 292): “Com a ativação hormonal trazida pela puberdade, a sexualidade assume o primeiro plano na vida e no comportamento dos adolescentes. Toma o caráter de urgência, é o centro de todas as atenções, está em todos os lugares, na escola ou fora dela, nas malícias, nas piadinhas, nos bilhetinhos, nas atitudes e apelidos maldosos, no ‘ficar’, nas carícias públicas, no namoro, e em tudo o que qualquer matéria estudada possa sugerir.”

Ora, isso não parece exagerado? Talvez quem redigiu o texto acima padeça de tão solitário e totalizante apelo. Na faixa etária mencionada, os interesses são bem diversificados. Entre eles se incluem também os esportes, a escola, a turma de amigos, os jogos de computador e a própria família. Mais adiante, o texto afirma (p. 296): “Nessa exploração do próprio corpo, na observação do corpo de outros, e a partir das relações familiares é que a criança se descobre num corpo sexuado de menino ou menina. Preocupa-se então mais intensamente com as diferenças entre os sexos, não só as anatômicas, mas todas as expressões que caracterizam o homem e a mulher. A construção do que é pertencer a um ou outro sexo se dá pelo tratamento diferenciado para meninos e meninas, inclusive nas expressões diretamente ligadas à sexualidade, e pelos padrões socialmente estabelecidos de feminino e masculino. Esses padrões são oriundos das representações sociais e culturais construídas a partir das diferenças biológicas dos sexos, e transmitidas através da educação, o que atualmente recebe a denominação de ‘relações de gênero’. Essas representações internalizadas são referências fundamentais para a constituição da identidade da criança.”

Está aí a ideologia de gênero e a subsequente revogação que pretende promover da anatomia, da genética e dos hormônios, cujos efeitos estariam subordinados a padrões sociais. Tá bom! E o texto segue afirmando o direito das crianças ao prazer sexual, a naturalidade das manifestações e “brincadeiras” explícitas, de quaisquer natureza, às quais, na escola, se aplicaria apenas a jeitosa informação de que o ambiente não seria lá muito apropriado para isso. E adiciona: tais incontinências só deveriam ser levadas ao conhecimento dos pais quando “tão recorrentes que interfiram nas possibilidades de aprendizagem do aluno”. É o legítimo caso em que o pedagogo, com objetivos desviados, erra pelo que ensina e erra pelo que deixa de ensinar.

(Percival Puggina, Mídia Sem Máscara)

Nota: A sexualidade pura ensinada pela cosmovisão criacionista bíblica é desprezada por muitos (especialmente os marxistas culturais), quando, na verdade, seria a solução para este mundo corrompido e degenerado. Deus criou homem e mulher para uma relação sadia e para o correto exercício da sexualidade no tempo, no contexto e com a pessoa certos. O recato recomendado pelas Escrituras evitaria em muito a erotização precoce observada em nossa sociedade, na qual os estímulos sexuais estão por todos os lados. Os hormônios são liberados antes da hora e a escola tem que lidar com essa efervescência sexual, mas dizendo que é tudo normal e que as crianças devem dar vazão a esses instintos. Sim, instintos, afinal, a mesma escola ensina que somos apenas macacos pelados, fruto de uma evolução que prioriza a disseminação dos nossos genes por aí. O sexo perde sua aura de santidade, de instituição edênica, para virar mera diversão inconsequente. Bem, o crescente número de doenças sexualmente transmissíveis em jovens, o aumento alarmante da população de adolescentes grávidas e os casos de depressão e doenças emocionais relacionados à iniciação sexual precoce são apenas três consequências desse estado de coisas. Deus nos livre dessa educação que vai formar uma geração hedonista que desconhece sua história! [MB]