sexta-feira, agosto 10, 2018

Estromatólitos: evidências da hidrologia pré-diluviana (parte 2)

Recentemente, a equipe de pesquisa do ICR apresentou uma interpretação da geografia pré-diluviana baseada em estudos de sedimentos do Dilúvio e suas relativas camadas estratigráficas. Montamos o mapa usando dados de mais de 1.500 colunas estratigráficas de três continentes.[10] Escolhemos uma configuração semelhante à do supercontinente Pangeia, pois se encaixa melhor nos dados empíricos. Usando esse mapa, a equipe plotou a localização de muitos dos locais conhecidos com fósseis de estromatólitos ao redor do mundo (figura ao lado). Nosso estudo estratigráfico cobre apenas áreas da América do Norte, América do Sul e África, até o momento, mas esperamos que as localizações dos estromatólitos sejam semelhantes no restante do globo. Uma análise do mapa mostra que os estromatólitos não parecem seguir nenhum padrão ambiental específico. Suas localizações são encontradas em regiões pré-diluvianas que são interpretadas como mares rasos, terras baixas e terras altas. 

Antes da recente descoberta de estromatólitos em terra, essa interpretação teria se mostrado incoerente. Mas agora, com registros de estromatólitos encontrados vivendo em água doce, água salgada e também em terra, não é nenhuma surpresa pensar que os estromatólitos antes do dilúvio existiam em todos os tipos de ambientes. 

Deus nos revela em Gênesis 2:6 que antes da grande inundação “brotava água da terra e irrigava toda a superfície do solo” (Nova Versão Internacional). Se nossa interpretação baseada nos dados estiver correta, a presença de estromatólitos fósseis confirma a hidrologia pré-diluviana, como descrita no livro de Gênesis. O planeta devia ter grande abundância de nascentes, para permitir o florescimento de estromatólitos em todos os continentes e em todos os ambientes. As nascentes regavam tanto as terras baixas quanto as terras altas, provendo águas ricas em minerais nas quais os estromatólitos prosperavam. 

Deus também criou o ambiente perfeito para o crescimento das bioconstruções, nos mares rasos pré-diluvianos. Estes eram provavelmente alimentados pelas fontes de água que proveram condições hipersalinas semelhantes às encontradas atualmente em Shark Bay, na Austrália. 

A história dos estromatólitos se encaixa melhor em uma criação recente e um posterior dilúvio, como descrito na Bíblia. A maioria dos cientistas criacionistas concorda que Deus fez os estromatólitos como parte da criação original, provavelmente no terceiro dia da semana da criação, quando Ele fez as plantas. Os estromatólitos aparentemente se proliferaram em ambientes pré-diluvianos e cresceram extensivamente durante os cerca de 1.650 anos que separaram a criação e o dilúvio. Além disso, os criacionistas propõem que a natureza catastrófica do dilúvio redesenhou a superfície da Terra, e destruiu os ambientes pré-diluvianos onde os estromatólitos anteriormente se proliferavam.[11]

Atualmente, são apenas ambientes específicos que permitem o desenvolvimento e crescimento das esteiras microbianas, seja em terra ou no oceano. O dilúvio também destruiu a maior parte do registro estratigráfico anterior a ele, que continha a maioria dos estromatólitos. Apenas algumas exposições de rochas dessa época são encontradas ao redor do mundo, nas rochas do Arqueano e Proterozóico. É claro que muitas provavelmente permanecem cobertas pelos sedimentos pós-diluvianos, e outras foram, sem dúvida, destruídas pelas altas pressões e temperaturas associadas ao movimento rápido das placas e aos eventos de vulcanismo que ocorreram durante o evento da grande inundação. Mas, mesmo assim, há restos suficientes preservados para indicar sua abundância. 

Essas descobertas recentes ajudam a demonstrar a exatidão e a confiabilidade da Palavra de Deus. Algumas pessoas argumentam que existem erros na Bíblia e que sua representação sobre a história da Terra não deve ser levada a sério, por não se tratar de um livro científico. Mesmo assim, vez após vez a ciência verdadeira vem demonstrando a verdade contida no relato bíblico. Quando a Bíblia trata sobre cência, sempre se mostra correta, até o mínimo detalhe. 

(Texto original: Tim Clarey, PhD. Tradução e adaptação: Hérlon Costa e Thiago Soldani)

Referências:
1) Neuendorf, K. K. E., J. P. Mehl, Jr., and J. A. Jackson, eds. 2005. Glossary of Geology, 5th ed. Alexandria, VA: American Geological Institute, 636. 
2) Proemse, B. C. et al. 2017. Stromatolites on the rise in peat-bound karstic wetlands. Scientific Reports. 7: 15384. 
3) Wicander, R., and J. S. Monroe. 2016. Historical Geology: Evolution of Earth and Life Through Time, 8th ed. Boston, MA: Cengage Learning. 
4) Lowe, D. R. 1994. Abiological origin of described stromatolites older than 3.2 Ga. Geology. 22 (5): 387-390. 
5) Hladil, J. 2005. The formation of stromatactis-type fenestral structures during the sedimentation of experimental slurries—a possible clue to a 120-year-old puzzle about stromatactis. Bulletin of Geosciences. 80 (3): 193-211. 
6) Mueller, P. A., and A. P. Nutman. 2017. The Archean-Hadean Earth: Modern paradigms and ancient processes. In The Web of Geological Sciences: Advances, Impacts, and Interactions II. M. E. Bickford, ed. Boulder, CO: Geological Society of America Special Paper 523, 75-237. 
7) Tomkins, J. P. and T. Clarey. Cellular Evolution Debunked by Evolutionists. Creation Science Update. Posted on ICR.org September 29, 2016, accessed March 10, 2018. 
8) Awramik, S. M. and K. Grey. 2005. Stromatolites: biogenecity, biosignatures, and bioconfusion. Proceedings of the SPIE. 5906: 1-9. 
9) Frazer, J. Stromatolites Defy Odds by A) Living B) on Land. Scientific American. Posted on blogs.scientificamerican.com December 21, 2017, accessed January 4, 2018. 
10) Clarey, T. 2018. Assembling the Pre-Flood World. Acts & Facts. 47 (4): 11-13. 
11) Purdom, G. and A. A. Snelling. 2013. Survey of Microbial Composition and Mechanisms of Living Stromatolites of the Bahamas and Australia: Developing Criteria to Determine the Biogenicity of Fossil Stromatolites. In Proceedings of the Seventh International Conference on Creationism. M. Horstemeyer, ed. Pittsburgh, PA: Creation Science Fellowship. *Dr. Timothy Clarey é pesquisador associado ao Institute for Creation Research e obteve seu Ph.D em Geologia pela Western Michigan University. Para citar este artigo: Tim Clarey, Ph.D. 2018. Stromatolites: Evidence of Pre-Flood Hydrology. Acts & Facts. 47 (5).

Instituição evoteísta faz ataque silencioso ao criacionismo


Este blog reconhece o esforço de todas as entidades e organizações que estão defendendo a fé cristã bíblica por meio de uma apologética consistente e racional. Reconhecemos também o grande trabalho que essas mesmas entidades têm feito nos campi seculares tão desafiadores. Precisamos mesmo mostrar a uma sociedade cada vez mais relativista e “desigrejada” que o cristianismo oferece, sim, respostas apropriadas para as grandes questões, e que a Bíblia pode e deve ser o fundamento de uma cosmovisão útil para o entendimento da realidade que nos rodeia. Autores como William Lane Craig, Ravi Zacharias, Alvin Plantinga, Lee Strobel e outros têm dado tremenda contribuição nesse sentido. Ocorre que alguns desses autores e algumas dessas entidades acabam “escorregando” aqui e acolá. Talvez a maior “pisada de bola” seja o ensino da evolução teísta e a alegorização dos primeiros capítulos de Gênesis. Já tratamos aqui no blog das sérias implicações desse tipo de ensino (confira aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui). No texto a seguir, originalmente postado no blog “Raciocínio Cristão”, o mestre em Ciências e colunista deste blog Everton Fernando Alves expressa educadamente sua preocupação com uma dessas entidades. [MB]

Recentemente, escrevi a matéria “Oavanço do evolucionismo teísta no Brasil” para fins de esclarecimento quanto ao perigo real do intento de harmonizar o evolucionismo com a Bíblia e de que forma essa cosmovisão evoteísta acaba por minar todas as afirmações bíblicas. Ademais, abordei o avanço dessa proposta no Brasil, principalmente por meio da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência (ABC2).

É válido mencionar, antes de adentrarmos o tema, que a ABC2 vem fazendo um bom trabalho quando o assunto é explorar as ciências humanas. Poucas organizações cristãs no Brasil têm focado o historicismo nessas áreas. A ABC², então, tem se tornado referência sobre esse problema grave para a fé cristã, uma vez que esse tema está relacionado a ideias que vão contra as crenças cristãs dentro da Academia. Portanto, para quem tem interesse em filosofia e epistemologia, a ABC² se torna destaque devido às suas contribuições para esses campos de estudo.

O problema, como o próprio título da matéria diz, é em relação à aceitação e divulgação do modelo evolucionista teísta, por meio de materiais bibliográficos e audiovisuais que a associação tem produzido que, por outro lado, deturpam claramente a Palavra de Deus. Há uma tendência crescente de infiltrar esse tema cada vez mais no meio protestante, uma vez que o catolicismo já o abraçou de vez. Ademais, as publicações da ABC2 têm cada vez mais sido usadas para atacar o criacionismo bíblico literal. É aí que mora o perigo!

Para fins didáticos, defino “evolucionismo teísta” como sendo um modelo conceitual que reconhece, até certo ponto, que Deus é o Criador e mantenedor do Universo e da vida. No entanto, rejeita a interpretação literal do livro de Gênesis quanto à origem da vida e declara que, embora a narrativa afirme a criação especial, ela não é exata, pois os cientistas “demonstraram” que os organismos surgiram por evolução. Por isso, Deus teria criado o ser humano utilizando-Se, para tanto, não da criação ex nihilo (do nada), mas, sim, dos mecanismos evolutivos a partir de animais inferiores.

Histórico de advertências sobre o trabalho da ABC2

Ao longo dos últimos anos, proponentes do criacionismo e do design inteligente vêm expondo, publicamente, a má teologia, a má filosofia e a má ciência presentes no modelo evoteísta. Até onde sei, temos, por exemplo, o caso do professor Christiano P. da Silva Neto, presidente da Associação Brasileira de Pesquisa da Criação, que em um breve artigo intitulado “Emergência: grave ameaça à fé cristã”, adverte os criacionistas a ficar vigilantes com essa proposta promovida pela ABC2:

“Durante os anos de 2016 e 2017 entramos em contato com mais de 20 igrejas que estavam recebendo a ABC2 para encontros de fins de semana. Nenhuma delas tinha conhecimento de que estavam abrigando uma organização evolucionista. Algumas, ao serem informadas a esse respeito, cancelaram a programação; outras preferiram manter o acordo que haviam firmado.

“Curiosamente, os livros utilizados pela organização, escritos por conhecidos evolucionistas teístas, foram publicados pela Editora Ultimato, de Viçosa, cujo fundador, hoje falecido, esteve na cerimônia de fundação de nossa associação, em 1979, parabenizando-nos pela realização.

“Não temos a menor ideia do que tem motivado essas pessoas para o trabalho que realizam. Sabemos, entretanto, que eles nos consideram, a nós criacionistas, como perniciosos para o desenvolvimento da fé cristã. Nós, porém, estamos convictos de que a ABPC é, no sentido teológico, um ministério, isto é, uma atividade para a qual fomos devidamente convocados pelo nosso Deus Criador. Através do trabalho que realizamos revelamos o fato de que a natureza e as Escrituras, na pureza de sua narrativa da criação, falam a mesma linguagem sobre nossas origens.”

De igual modo, em 2016, a Sociedade Criacionista Origem & Destino, por meio de seu atual presidente, Johannes Janzen, veio a público com uma matéria intitulada “A morte no mundo e a evolução teísta” criticar o evolucionismo teísta promovido pela ABC2 e o problema filosófico e teológico da entrada da morte em nosso planeta:

“Os escritos do BioLogos têm sido amplamente divulgados no Brasil, principalmente através da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência. BioLogos, através de teólogos como Tim Keller, defende a evolução teísta. [...] A Bíblia ensina que a morte entrou no mundo através de Adão (Romanos 5:12). A evolução teísta precisa argumentar que Adão entrou no mundo através da morte. Na visão bíblica, Adão é o pai da morte. Na visão do evolucionismo teísta, a morte é o pai de Adão. A diferença é fortíssima. Essa monstruosidade, de acordo com a teologia do BioLogos, não possui conexão com o pecado humano. Criaturas fofas sempre morreram, muitas delas dolorosamente. E Deus chamou isso de ‘bom’.”

Por sua vez, em 2017, Enézio de Almeida filho, pioneiro e fundador do movimento do design inteligente no Brasil, também alertou publicamente seus leitores ao postar no blog Desafiando a Nomenklatura Científica uma matéria intitulada “Contra a Associação Brasileira Cristãos na Ciência, este livro critica o teísmo evolucionista científica, filosófica e teologicamente”.

Problemas filosóficos e científicos no modelo evolucionista teísta

Quanto ao problema da suposta “harmonização” da Bíblia com o modelo evolutivo, o astrofísico e matemático Eduardo Lütz, palestrante da Sociedade Criacionista Brasileira, afirma em entrevista ao blog Criacionismo:

“É uma tentativa de união de duas coisas incompatíveis. Isso só pode ser feito pela descaracterização de uma das componentes. A componente que tem sido descaracterizada é a Bíblia. Além disso, não se trata de tentar harmonizar Bíblia e Ciência por dois motivos. Primeiro, porque desautorizar afirmações bíblicas não pode fazer parte da harmonização de qualquer coisa com a Bíblia. Segundo, porque evolução darwiniana não é Ciência. É uma estrutura conceitual específica o suficiente para ser filosoficamente atraente e vaga o suficiente para que possamos encaixar nela virtualmente qualquer coisa e depois dizer que tudo é evidência de que a ideia estava certa. Não há uma formalização matemática fundamental e geral desse modelo conceitual, apenas pequenos modelos aqui e ali para tratar de temas periféricos. Ciência é uma caixa de ferramentas matemáticas das quais Darwin não fez uso para montar seu esquema filosófico.”

De fato, Lütz tem razão quando afirma que sempre, quando há uma tentativa de “harmonizar” a Bíblia com um falso tipo de ciência, uma das componentes é descaracterizada; na verdade, quando a proposta evolucionista teísta está no cerne dessa tentativa, curiosamente é a Bíblia que acaba sendo descaracterizada. Podemos ver essa situação sendo admitida em uma matéria no site da ABC2 intitulada “Novos livros da Série Ciência e Fé Cristã”, que trata de um dos seus livros recém-lançado:

“AlisterMcGrath mostra como a fé cristã se adaptou ao darwinismo e pergunta se há um lugar para o design tanto no mundo da ciência como no mundo da teologia.”

Diante disso, fico a pensar: Que audácia, né?

Problemas teológicos no modelo evolucionista teísta

Como vimos no texto anterior, essa proposta é perigosa, pois retira a autoridade e integridade bíblicas, desfaz todo o significado da redenção em Cristo e acaba por derrubar toda a mensagem bíblica posterior; em relação a isso, podemos comparar esse processo com aquela brincadeira de empilhar peças de dominó e empurrar apenas a primeira, o que faz com que todas as demais peças caiam por terra.

Um dos pilares da doutrina da salvação é a criação especial; conforme a interpretação literal que o texto exige, qualquer interpretação que não seja essa é forçar o texto a dizer o que ele não diz. Quer um exemplo? Por que Jesus teria que morrer numa cruz pela humanidade “caída” se essa humanidade, de fato, não tivesse caído em pecado como o texto diz? Esse Jesus teria morrido em vão, certo?

E quanto às menções no Novo Testamento que reiteram a historicidade dos primeiros onze capítulos de Gênesis? Jesus Cristo e Seus apóstolos referiram-se ao relato de Gênesis como factual e não como alegórico. Jesus fez menção aos eventos dos primeiros capítulos de Gênesis (Mateus 19:4 e 24:37) como fato e não alegoria. Além de Cristo, o próprio Deus Pai atestou a historicidade do livro de Gênesis (Êxodo 20:11).

O apóstolo Paulo nos diz que a morte surgiu por causa do pecado (e não que a morte fosse o resultado de erros e acertos ao longo de bilhões de anos por meio de seleção natural agindo sobre mutações aleatórias e sobrevivência do mais apto). Podemos ver isso em Romanos 5:12-21, onde nos é apresentada uma descrição literal da entrada do pecado e da morte no planeta por meio de Adão e a solução para esse problema em Cristo (ver também 1 Coríntios 15:21, 22, 45; 2 Coríntios 11:3; 1 Timóteo 2:13, 14).

Pedro também foi outro apóstolo que entendia os eventos descritos em Gênesis como sendo reais (2 Pedro 2:5 e 3:6). E, para finalizar, Judas, também disse o seguinte: “Quanto a estes foi que também profetizou Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que veio o Senhor entre Suas santas miríades” (Judas 1:14).

O ataque silencioso, quase imperceptível contra o criacionismo

Em um artigo traduzido e publicado no site da ABC2, intitulado “O Deus das ondas gravitacionais”, a autora faz o seguinte comentário acerca dos criacionistas:

“Um criacionista acredita que a teoria da evolução é insidiosa porque, à sua maneira de pensar, se aceitarmos a ideia de que a vida surgiu a partir da ‘sopa primordial’ e evoluiu para os seres humanos, como podemos reivindicar que ela foi criada por um Criador divino? Esse tipo de raciocínio surge com tanta frequência que o apelidamos de o ‘Deus das lacunas’. Para os cristãos, o problema de raciocínio com o ‘Deus-das-lacunas’ é que ele coloca a ciência e a fé uma contra a outra.”

Nada mais longe da verdade. Isso porque criacionistas entendem, a partir de Romanos 1:19 e 20 e outras evidências escriturísticas, que tanto a Bíblia quanto o livro da natureza (e a verdadeira ciência) nunca entram em contradição, pelo contrário, ambos nos levam a conhecer mais sobre o Criador e Sua forma de agir neste mundo; por outro lado, a “ciência” a que ela está se referindo, um tipo falso de ciência fundamentado em pressupostos filosóficos naturalistas, baseado em um ínfimo agregado de dados frágeis e contestáveis, essa, sim, de fato, não é possível ser harmonizada com a Bíblia e, por conta disso, estará sempre em caminhos opostos à Palavra de Deus. Por outro lado, em vez de Deus-das-lacunas, poderíamos utilizar a mesma estratégia e rotular o modelo evolucionista como o “Darwin-das-lacunas” ou “milhões e milhões de anos-das-lacunas”, que é o que tem supostamente preenchido as contas acerca da origem da vida a partir da perspectiva evolutiva; porém, essa conta, na realidade, nunca fecha.

Outra matéria traduzida e publicada no site da ABC2 intitulada “Escritura, Ciência e Hermenêutica” vai além, parte para o ataque e diz o seguinte quanto à forma de interpretação literal dos criacionistas:

“Não é de se estranhar que invenções semiteológicas como o criacionismo científico são concebidas a partir desse tipo de ‘química’ teológica e frequentemente entram em contradição com o mundo acadêmico.”

Seria ingenuidade ou simplesmente desonestidade intelectual? Vale a pena lembrar-lhes, caso desconheçam realmente fatos básicos da História da Ciência, que o criacionismo científico aceito pelos pais da ciência foi o trampolim para a verdadeira revolução científica. (Para quem quiser saber mais, recomendo alguns artigos: aqui e aqui.)

Se não bastasse, em entrevista ao site da ABC2, Guilherme de Carvalho, vice-presidente da instituição, quando questionado se a teoria da evolução é incompatível com a cosmovisão cristã, afirmou:

“Eu mesmo me descrevo como criacionista evolucionário [...] e aceito a HNE [História Natural Evolucionária].”

Em seguida, quando questionado se a teoria da evolução não levaria à incredulidade e à apostasia, o vice-presidente da ABC2 não poupou palavras ao atacar o criacionismo:

“Temo que o ‘criacionismo-da-Terra-jovem’ seja não o salvador, mas o responsável pela alienação de muitos cientistas em relação à fé cristã, e de muitos jovens cristãos aspirantes à ciência. Certamente muitos falham em manter a ousadia cristã diante da oposição secular; mas para vários o problema é antes o sentimento de não poderem honestamente abandonar a ciência moderna em favor de um criacionismo científico com credenciais questionáveis. O fato é que a identificação desnecessária de uma fé genuína com o criacionismo científico torna a solução do dilema algo impossível para muitos jovens universitários. E assim eles ganham mais uma razão para abandonar a igreja. O que acontece, na minha opinião, é que o criacionismo científico torna-se involuntariamente aliado dos naturalistas e neoateístas, quando concorda com eles sobre a absoluta incompatibilidade entre a biologia evolucionária e a fé evangélica.”

No caso, percebo uma incoerência e uma manobra estranha e desesperada em virar o jogo contra os criacionistas a fim de conseguir espaço para o evoteísmo nas igrejas evangélicas. “Criacionismo com credenciais questionáveis”? De onde você tirou isso, senhor vice-presidente da ABC2? Qual é sua real intenção?

Bom, quanto à questão de o criacionismo ser aliado dos naturalistas e neoateístas, o fato é que a biologia evolucionária (ciência histórica baseada no naturalismo filosófico), conforme classificado pelo próprio biólogo evolutivo Ernst Mayr, ao contrário da biologia funcional/observacional, é caracterizada por cenários imaginários e narrativas hipotéticas nas quais a experimentação não ocorre. Portanto, neste caso específico, concordamos com o senhor vice-presidente da ABC2, ao ele afirmar que há uma absoluta incompatibilidade entre biologia evolucionária (histórica) e a fé evangélica.

quinta-feira, agosto 02, 2018

Dawkins condena doutrinação religiosa, mas prega para crianças


Primeiro Richard Dawkins produziu sua obra-prima ateísta Deus, um Delírio, com sua filosofia e teologia profundas como um pires e a contradição revelada em poucas páginas de leitura. Enquanto na capa chama a crença em Deus de um delírio, dentro do livro admite que não é possível provar cem por cento que Deus não exista. Portanto, a propaganda enganosa em forma de literatura deveria se chamar Deus, Quase um Delírio, ou algo assim. Certa vez, Dawkins foi entrevistar outro ateu famoso, mas não tão engajado, o físico Stephen Hawking, e eu me diverti com uma das perguntas que Hawking fez ao conterrâneo: “Por que você anda tão obcecado com Deus?” E não é que é verdade? Dawkins afirma que Deus não existe, mas vive incomodado com Deus e tenta fazer com que todos adotem a descrença dele. É um evangelista do ateísmo. Um pregador da descrença. Na entrevista, ele diz que é mal-intencionado e cômodo observar a natureza e dizer que “Deus fez”. Só que Dawkins se esquece – ou faz de conta – que os primeiros cientistas, os fundadores do método científico foram motivados justamente pela vontade de descobrir como Deus criou o Universo. Ignora ou deixa de lado a constatação de que outro inglês, Sir Isaac Newton, um dos “pais da ciência” e descobridor do cálculo, acreditava em Deus e publicou tanto sobre física e matemática quanto sobre teologia bíblica. Mas Dawkins não quer que ninguém saiba disso; não quer que as pessoas saibam que a fé cristã é bastante racional e que é possível desafiar o ateísmo com bons argumentos apologéticos. E a melhor forma de fazer isso é focar nas novas gerações, escrevendo seus delírios para as crianças.

É exatamente isso o que o biólogo inglês está fazendo agora. Em seu Twitter ele disse que está empenhado na redação de dois livros ateístas para crianças. Logo ele, que já condenou a doutrinação religiosa, agora está querendo doutrinar os pequenos com suas ideias de militante ateu. Na verdade, Dawkins já escreveu um livro com foco no público mais jovem. Trata-se do A Magia da Realidade, livro ricamente ilustrado em papel cuchê, com capa dura e cheio de doutrinação ateia e afirmações metafísicas. Além disso, até um retiro ateu para crianças ele já organizou (confira).


Infelizmente, com certeza, serão mais dois livros ateus a fazer coro com tantos outros já publicados por grandes editoras brasileiras. Digo infelizmente porque nos Estados Unidos a discussão é bem mais aberta e equilibrada, com ótimos livros publicados por ambos os lados: crentes e descrentes. Algo bem diferente da nossa realidade aqui nas terras de Vera Cruz.

Esse anúncio de Dawkins nos faz pensar mais uma vez no grande desafio de produzir materiais e conteúdos infantis para fazer frente a toda essa doutrinação anticriacionista. As crianças já estão sendo ensinadas a acreditar que Adão e Eva fazem parte de um conto da carochinha; que gênero é algo que se escolhe, não uma criação divina; que casamento é a união entre duas ou mais pessoas independentemente do sexo. Agora só falta mesmo o último prego no caixão: fazer com que elas creiam que Deus não existe e que, portanto, tudo realmente é permitido.

A advertência de Jesus continua ecoando no século 21: “Qualquer que fizer tropeçar um destes pequeninos que creem em Mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho, e se submergisse na profundeza do mar” (Mateus 18:6).

Michelson Borges

Terra nova em um universo antigo

Sentimos que há divergências no pensamento cristão sobre uma questão que envolve o livro de Gênesis e nossas origens. Alguns defendem que o Universo e a Terra são jovens, que sua idade é de cerca de seis mil anos. Outros defendem que o Universo é antigo, mas a vida na Terra é jovem. E aí existe uma confusão de termos e muitos acabam rejeitando pensamentos mesmo antes de compreendê-los. Muitos até acham que são teorias opostas, que se contradizem e mal sabem que uma é o upgrade da outra. O projeto Onze de Gênesis e este blog defendem o Universo antigo, porém não vemos nenhum problema na defesa da Terra jovem. Longe de estarmos em cima do muro, vemos que este debate é uma oportunidade de crescimento para o criacionismo. Neste texto, vamos defender a ideia do Universo antigo.

Antes de mais nada, queremos deixar claro que não estamos defendendo a interpretação alegórica de Gênesis. Rejeitamos as teorias do intervalo ativo, da lacuna (hiato) e do caos e restauração. Defendemos a literalidade do texto bíblico e cremos que a semana da criação ocorreu em um período recente (vida jovem) e de dias literais de 24 horas. Ou seja, qualquer tentativa de figuração do texto de Gênesis não é a visão que o projeto Onze de Gênesis e este blog defendem. Também cremos que Deus é soberano e pode ter criado tudo pronto e funcional; que Seu poder pode ter formado todas as coisas com aparência de antigas e isso encerra nossa discussão.[1] Deus fez e ponto final! Sidlow Baxter, quando comenta sobre Gênesis, diz: Pelo fato de ter sido colocado logo no início dos 66 livros, Gênesis nos faz dobrar os joelhos em obediência reverente diante de Deus, por exibir diante dos nossos olhos, e trovejar em nossos ouvidos, aquela verdade que deve ser aprendida antes de todas as outras em nosso trato com Deus, em nossa interpretação da história e em nosso estudo da revelação divina, a saber, a soberania divina.[2]

Porém, discutir as questões da criação é algo maravilhoso. Renova e fortalece nossa fé. Para entendermos as duas propostas, elaboramos um infográfico:

Comparando os modelos da terra jovem e do intervalo passivo
Após retirarmos todas as interpretações alegóricas das declarações preliminares, restam-nos os dois modelos bíblicos de interpretação. Infelizmente, às vezes os rótulos tendem a atrapalhar essa discussão. Quando assumimos que somos da “turma” do universo antigo, parece que defendemos a teoria darwinista; alguns entendem que estamos endossando os “milhões de anos” evolutivos e contrapondo os dias literais de Gênesis. Mas, na verdade, quem defende o universo antigo pode crer em uma Terra jovem (terraformação). Vamos definir os dois pensamentos:

Modelo da Terra jovem - Defende que o Universo, incluindo o sistema solar, e todas as manifestações de vida, e todos os exércitos celestiais foram criados em um tempo recente. Cerca de seis mil anos atrás.
Universo e planeta Terra com seis mil anos de idade.
Modelo do universo antigo (ou intervalo passivo) - Defende que o Universo (espaço-tempo) foi criado anteriormente em algum momento indeterminado do passado. Mas Deus modelou a Terra, ou seja, preparou a Terra para a vida em um tempo recente - cerca de seis mil anos atrás.
Universo em um tempo anterior indeterminado e terraformação recente com seis mil anos de idade.
Então, aqui já identificamos o problema. O problema é quando o Universo começou a existir? Pois da semana da criação em diante existe concordância com os termos. Quais as evidências e os problemas para um universo jovem? Quais as evidências e problemas para um universo antigo?

Quem defende que o Universo é jovem tem afirmado que a palavra “céus” em Gênesis 1 significa “espaço sideral” ou “Universo”, e que a palavra “terra” se refere ao nosso planeta Terra. Porém, essas passagens não são suficientes para se afirmar tal coisa. A palavra “céus” pode significar Universo (de acordo com o pensamento atual) ou significa apenas atmosfera (conforme definido em Gênesis 1:8). Levando isso em conta, não podemos fazer afirmações sobre a criação do Universo com base em Gênesis 1. O termo “universo” nem existia quando o livro de Gênesis foi escrito. O escritor estava concentrando sua narração nos acontecimentos deste planeta. O foco era a Terra e a ação de Deus neste lugar.
Interpretação dos termos “céus” e “terra” em Gênesis 1.


Porém, temos outro texto que parece conflitar com a ideia de um universo antigo. Em Êxodo 20:11 lemos: Em seis dias fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto abençoou o Senhor o dia do sábado, e o santificou.

Perceba que não há referência ao Universo nesses versos. Achar que “céus” seja uma referência ao Universo é um anacronismo, isto é, atribuir significados atuais a palavras do texto bíblico. É preciso buscar o sentido nos próprios textos bíblicos. Gênesis 1:8 explica o que está sendo chamado de “céus”: a expansão que separa as águas de cima das debaixo. Se não apelarmos para hipóteses mirabolantes e lembrarmos que a Bíblia fala nas águas de cima como sendo a fonte de onde vem a chuva, fica bem claro que “céus” é a atmosfera. E em Gênesis 1:10 é dito que “terra” é a porção seca. Então basta ler o texto e usar as definições que ele mesmo traz para entender que “céus e terra” não significa “Universo e planeta Terra”, mas “atmosfera e solo”, isto é, “céus e terra com todo o seu exército” é simplesmente o planeta Terra com tudo o que ele tem.
Em defesa do universo antigo existem textos como Provérbios 8, que volta no tempo até falar de uma época em que nem sequer o princípio do pó deste mundo existia. Outro texto interessante é Jó 38 e Hebreus 11:3.

Mas o fato é que não podemos estabelecer pelo texto bíblico quando o Universo foi criado; isso passa a ser uma questão de preferência intelectual na hora da interpretação. Ambos os modelos possuem textos ambíguos sobre quando o Universo foi criado.

No entanto, aqui estão outros argumentos que ajudam a sustentar a ideia do universo antigo. Vou enumerar os argumentos que creio sejam válidos para defender esse pensamento:

1. UMA TERRA SEM FORMA E VAZIA (Gn 1:2)
Um planeta sem forma antes da semana da criação nos chama a atenção. Quando Deus criou isso? E aqui, logicamente, não verificamos que havia algo antes da terraformação? Deus começa o ato criativo, em dias literais, com um planeta sem ordem e vazio. E Deus começa a criar a ordem lógica para a vida existir nesse planeta. Organiza a rotação do planeta, organiza a atmosfera, a porção seca, as plantas, o Sol se torna visível, os animais e o ser humano são criados. Existe uma ordem lógica olhando desse ponto de vista. Além disso, existe algo intrínseco nesse argumento: a presença de fótons. E sem fótons não há matéria.

A água, como qualquer outra substância, é feita de moléculas. Moléculas são feitas de átomos conectados por forças eletromagnéticas. A própria estrutura do átomo existe por causa de forças eletromagnéticas, pois é esse tipo de interação que mantém a eletrosfera (nuvem eletrônica) presa ao núcleo do átomo. As interações eletromagnéticas consistem em fótons virtuais e reais. Não existem interações eletromagnéticas sem fótons. Sem interações eletromagnéticas, não há átomos, nem moléculas e nem matéria como a conhecemos.

Antes da semana da criação havia matéria. Isso indica que o universo físico já era existente.

2. ÁGUA LÍQUIDA
Água em forma líquida indica que o Sol já existia antes da semana da criação. Muitos defendem que essas águas mencionadas aqui estavam em estado gasoso ou sólido, mas o texto bíblico é claro. A palavra hebraica mayim (מים) se refere a água em estado líquido.[3]

3. SOL, LUA E ESTRELAS NO QUARTO DIA
No quarto dia da criação é mencionado o aparecimento do Sol e da Lua, mas não o das estrelas, por exemplo – o texto em hebraico diz que Deus fez o luminar grande para dominar o dia e o pequeno para dominar a noite e as estrelas, não fala em criação das estrelas. Algumas traduções em português acrescentaram o termo para dar sentido ao texto. O texto também fala que os astros “apareceram” do ponto de vista do observador. A mesma coisa ocorreu com a terra seca, que apareceu quando as águas se juntaram (Gn 1:9). Ou seja, tanto a terra seca quanto as estrelas existiam e só foram reveladas.

Uma densa nuvem no primeiro dia da semana da criação ocultava o Sol, a Lua e as estrelas. Embora presentes, não eram visíveis a partir da Terra. Podemos comparar com um dia nublado, e a retirada completa desses gases (poeiras) foi no quarto dia. Por isso que os luminares são mencionados somente no quarto dia.
4. FORÇAS FÍSICAS
A criação do Sol no quarto dia não se encaixa no restante da sequência lógica. Quando um item B depende de um item A, Deus cria primeiro A e depois B. Por exemplo, plantas precisam de ar. Então Deus prepara a atmosfera antes da criação das plantas. Animais terrestres precisam de terra seca. Então Deus faz emergir a terra seca antes de criar os animais terrestres. O ciclo noite-dia depende do Sol, assim como a manutenção da temperatura adequada na Terra e o próprio ciclo de noite e dia são condições importantes para as plantas. Deus poderia sustentar as plantas pelo Seu poder, mesmo sem atmosfera, mas isso seria desnecessário, pois bastaria criar a atmosfera antes das plantas. O mesmo vale para o Sol. A Lua é importante para estabilizar a rotação da Terra para que o ciclo noite-dia seja regular.

5. UNIVERSO JOVEM E FALSOS ARGUMENTOS
Como falamos acima, biblicamente pode ser uma questão de interpretação e gosto literário. O problema é quando o cristão desinformado tende a defender esse ponto de vista usando argumentos falaciosos. Isso faz com que o trabalho criacionista seja envergonhado por opositores e caiamos em descrédito. Você já deve ter ouvido frases do tipo: “Se a evolução é verdadeira, por que não estamos mais evoluindo?”, ou: “Dinossauros foram criados por evolucionistas e seus fósseis foram produzidos para enganar os cristãos!” Quando não estudamos, não nos informamos, corremos o perigo de cair em uma espécie de “fideísmo do ridículo” e isso é péssimo para a reputação cristã. Enumeramos alguns argumentos estranhos usados por quem defende o universo jovem:

  • Existe material interestelar com temperaturas não tão baixas (nuvens de poeira, nebulosas). Se o Universo fosse antigo, esse material já estaria muito frio.
  • Se levarmos em conta a velocidade das estrelas em cada galáxia, constataremos que as galáxias não são estáveis e não podem durar muito, pois as estrelas se dispersarão pelo espaço ao longo do tempo.
  • Galáxias chocam-se entre si. Se o Universo fosse antigo, todas as galáxias já teriam se chocado.
  • Galáxias espirais não podem ser antigas, pois as espirais se desfazem depois de algum tempo.[4]
Imagens de galáxias colidindo capturadas pelo Telescópio Espacial Hubble.
Existem outros argumentos que, como esses, podem parecer razoáveis para os leigos, mas soam absurdos para quem conhece mais detalhes desses assuntos.

Note que interessante: um fenômeno que demora bilhões de anos para acontecer é usado como “evidência” de que o Universo é jovem. Evolucionistas têm acusado criacionistas de desonestidade intelectual quando se deparam com argumentos assim. Podemos culpá-los por isso?

6. CRIAÇÃO EM DUAS ETAPAS
Para fins didáticos, podemos dizer que a criação se deu em dois estágios. Primeiro Deus criou o Universo (espaço e tempo) e depois criou a vida. Portanto, o relato da criação apresenta a ação de Deus em dois estágios: o primeiro, criando a matéria (Gn 1:1, 2); e o segundo, dando forma a essa matéria e trazendo à existência seres viventes (Gn 1:3-31). Para alguns teólogos,[5] a ideia de uma criação em duas etapas não é nova. Na criação do homem, Deus usou o pó da terra (matéria pré-criada) para formar Adão e lhe deu o fôlego de vida. Para criar Eva, Deus usou a costela de Adão. Entendemos o Criador como um oleiro ou arquiteto, que faz uso de material existente para modelar a obra que tem em mente.

Esse processo criativo em duas etapas é usado em diversos momentos nas Escrituras: a criação de um “novo coração” (S1 51:10), de uma “nova aliança” (Jr 31:33), ou do “novo céu e nova Terra” (Is 65:17; 66:22; Ap 21-22). Se cremos que Deus realizará uma criação escatológica envolvendo duas etapas, usando matéria já existente para criar os renovados céus e Terra, não seria anormal Deus ter seguido a mesma estratégia em Gênesis 1 e 2.

7. DEUS CRIOU COM A APARÊNCIA DE ADULTO
De fato, Deus é poderoso para criar tudo pronto, com a aparência de adulto. Mas não é apenas a aparência de antigo que encontramos no Universo. Recebemos imagens animadas nos mostrando eventos que ocorreram muito antigamente. Por exemplo, em 1987 testemunhamos a explosão de uma supernova em uma galáxia satélite da Via Láctea, a Grande Nuvem de Magalhães. Essa explosão aconteceu a 168 mil anos-luz de distância. Isso significa que a luz, trazendo as imagens do evento, demorou 168 mil anos para chegar até nós. Também recebemos uma rajada de neutrinos pouco depois, exatamente como esperado no caso de uma explosão de supernova. Se a velocidade da luz tivesse variado significativamente nesse período, isso teria consequências bastante fáceis de se observar. Mas essas consequências não existem. Se o Universo tivesse apenas seis mil anos de idade, ele não apenas teria aparência de idade, mas memórias falsas do passado. Se as coisas são assim, tudo o que observamos no espaço profundo é uma “mentira” elaborada por Deus para nos fazer pensar que o Universo é antigo. É o suprassumo da teoria da conspiração, sendo que nesse caso o vilão conspirador é o próprio Criador.

A hipótese de que o Universo é jovem com aparência antiga e imagens falsas de um passado que não existiu equivale a Deus criar Adão não apenas com um organismo adulto, mas com memórias falsas de infância.

CONCLUSÃO
Os dois modelos não são opostos; um é um upgrade do outro. Ambos são literais e descrevem uma vida jovem. Não podemos usar o texto bíblico para provar que o Universo é antigo ou novo, apesar de sabermos que Deus é poderoso para fazê-lo recentemente com aparência de adulto. A interpretação do texto bíblico é uma questão de preferência intelectual de quem estuda. Porém, o Universo não parece ser recente. E ignorar as informações científicas sobre o assunto é perigoso no sentido de cairmos em descrédito. Assim como não ignoramos dados de outras áreas do conhecimento, por que ignoraríamos os da astronomia?

(Alex Kretzschmar e Eduardo Lütz)

Referências
1. SMITH, Ralph, Teologia do Antigo Testamento. p. 172.
2. BAXTER, Sidlow, Examinais as Escrituras. V. 1, p. 29.
3. Dicionário Hebreu e Inglês do NTC, © 1997 Achiasaf Publishing House, Ltd.
4. Humphreys, Russell. 2005. Evidence for a Young World. Acts and Facts, Impact Article #384, Institute for Creation Research.
5. DEODATO, Isaac, Gênesis Analogia e Interpretações Bíblicas. Edição 2, 2017, São Paulo.