quarta-feira, novembro 20, 2019

O dia em que entrevistei nosso primeiro astronauta


Formado em Engenharia pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica e com Mestrado pela Naval Postgraduate School, em Monterey, Califórnia, o astronauta Marcos César Pontes é casado com Fátima e tem dois filhos. Com a suspensão temporária dos voos norte-americanos ao espaço, Pontes teve que se mudar para a Rússia em 2006, a fim de participar de sua primeira missão científica espacial brasileira, a bordo de uma nave Soyuz.

Pontes foi o primeiro astronauta brasileiro, sul-americano e lusófono a ir ao espaço, na missão batizada de “Missão Centenário”, em referência à comemoração dos cem anos do voo de Santos Dumont no avião 14 Bis. Em 30 de março de 2006, Pontes partiu para a Estação Espacial Internacional (ISS) a bordo da nave russa Soyuz TMA-8, com oito experimentos científicos brasileiros para execução em ambiente de microgravidade. Retornou no dia 8 de abril, a bordo da nave Soyuz TMA-7.

De 2011 a 2018, ele atuou como embaixador da ONU para o Desenvolvimento Industrial. Em 31 de outubro de 2018, Marcos Pontes aceitou o convite do presidente Jair Bolsonaro para ser ministro da Ciência e Tecnologia em seu governo.

Enquanto ainda estava na Cidade das Estrelas, próximo a Moscou, o astronauta concedeu esta entrevista ao jornalista Michelson Borges, originalmente publicada na revista História da Vida, da Casa Publicadora Brasileira/Educação Adventista.

O senhor sempre dá valor à família. Por quê?

Meus pais, meus mestres! Gosto sempre de dizer que, apesar de ter estudado praticamente minha vida toda para atingir os “graus” da formação acadêmica, todas as coisas mais importantes que aprendi, até hoje, foram ensinadas por eles.

A família sempre foi para mim algo de extrema importância. Acredito ser a estabilidade familiar o primeiro passo fundamental para o crescimento do indivíduo em todos os aspectos. Agradeço muito a Deus a oportunidade de conviver com pessoas tão maravilhosas.

De onde veio seu gosto por voar?

Quando criança, foram inúmeras as visitas ao Aeroclube de Bauru, para ver a Esquadrilha da Fumaça, e à Academia da Força Aérea (AFA), onde meu tio sargento servia como membro da equipe de manutenção de aeronaves. Decolava ali, entre a poeira levantada pelos motores dos T/6 no estacionamento do aeroclube e o cheiro de combustível de aviação nos hangares da AFA, o sonho de voar que me sustenta nessa jornada até hoje. Em fevereiro de 1981, iniciei o curso da AFA. Ainda nesse primeiro ano, durante um dos meus fins de semana em Bauru (onde nasci), tive o meu primeiro vôo a bordo do Uirapuru PP-KBS. Foi uma incrível experiência e a confirmação pessoal de que estava no caminho certo.

Como o senhor recebeu a notícia de que participaria de uma seleção de astronautas da Agência Espacial Brasileira?

Soube que haveria uma seleção através de um e-mail do meu irmão. Eu estava iniciando meu doutorado nos Estados Unidos. A princípio achei um tanto difícil que eu pudesse ser selecionado entre tantos excelentes candidatos disponíveis, porém estava ali um caminho para tornar realidade algo que até então era apenas um “sonho distante”. Portanto, mandei minhas fichas de inscrição. Seleções preliminares, exames médicos e a entrevista se seguiram. Imagine como se sentiu aquele garoto simples do interior, só pelo fato de estar participando dessa seleção!

Como foi sua aprovação para treinamento na Agência Espacial Norte-americana (NASA)?

Após selecionado pela Agência Espacial Brasileira (AEB), em junho de 1998, como parte dos seus direitos de participação na Estação Espacial Internacional (EEI), o Brasil me enviou para treinamento na NASA. A seleção foi feita pela AEB, com a assessoria da NASA e de vários setores técnico-científicos brasileiros como, por exemplo, a Academia Brasileira de Ciências. Após dois anos de curso, concluí a fase essencial de treinamento, sendo declarado “astronauta” pela NASA em dezembro de 2000. Tornei-me, assim, o único astronauta profissional formado e treinado completamente pela NASA, em atividade e pronto para voo espacial, com nacionalidade oficial de um país do hemisfério sul do planeta.

O que é preciso para ser astronauta?

Existem requisitos de saúde e de formação acadêmica. Então, primeiro, cuide muito bem de sua saúde. Fique longe de drogas, cigarros, bebidas, etc. Faça esportes. Relaxe de vez em quando. Sorria muito! Estude muito também. O estudo nos dá condições de ser o que quisermos na vida. Acredite nos seus sonhos. Lembre-se que você é que é responsável por fazer com que eles se tornem realidade. Mais ninguém. Assim, ouça primeiro a voz do seu coração. Depois as pessoas que sempre estarão do seu lado: os seus pais. Depois os amigos de verdade. Finalmente, ouça o que as pessoas que não gostam de você têm a dizer, aprenda com isso a se defender e a se tornar cada vez melhor. Depois de tudo isso, tenha MUITA persistência.

Em termos de formação, ela pode ser bastante diversificada. Engenharia, física, medicina, química são algumas das possibilidades. Áreas como letras, direito, administração, etc., estão fora da lista das possíveis opções para a carreira de astronauta. Cursos de pós-graduação, mergulho, pilotagem, paraquedismo e outras atividades ligadas à profissão contam pontos para a seleção. Além disso, é necessário ser qualificado no exame médico, no exame físico, psicológico, bom senso de relacionamento e gostar de trabalho em equipe.

Que desafios enfrentou em sua mudança para a Rússia?

Acho que a adaptação ao clima exige um pouco. A quantidade de exames e testes iniciais também. Quando cheguei a Star City, no dia 13 de outubro de 2005, o treinamento não parou. A razão da pressão na agenda foi devido ao tempo disponível. O treinamento usual para uma missão espacial numa espaçonave Russa (Soyuz) sempre foi realizado num período de 8 a 13 meses. No meu caso, devido à data de decolagem prevista, 22 de março, o mesmo treinamento teve que ser comprimido e completado com sucesso em cinco meses! Foi uma situação nova. Um treinamento em tempo recorde, nunca antes realizado. A Agência Espacial Russa concordou em encarar esse desafio devido à minha experiência de sete anos de treinos anteriores na NASA. A rotina diária iniciava às 6 horas da manhã e se encerrava às 23 horas. O dia a dia era composto de aulas, treinamento em simuladores, testes e exames, preparação física e estudo. Além disso, havia treinamentos específicos de sobrevivência, testes de equipamentos, execução de experimentos científicos, etc., realizados em momentos oportunos fora do Centro. Os fins de semana e feriados eram usados para “colocar os atrasos em dia”.

Em termos comparativos com o programa na NASA, a diferença básica era a língua. Ambos são parceiros do Brasil no Projeto da Estação Espacial Internacional. A espaçonave Soyuz russa é o veículo de abandono de emergência da Estação Espacial Internacional (EEI). Portanto, eu já conhecia de forma resumida seus sistemas, além, logicamente, do conhecimento sobre os sistemas da EEI. Contudo, precisava também conhecer a fundo seus procedimentos desde a decolagem, fase de voo não prevista em situação de emergência na EEI. Logicamente, a filosofia e metodologia do treinamento seguiram o mesmo padrão, velho conhecido meu na NASA, durante sete anos. Mas o detalhamento dos sistemas, as sobrevivências específicas para o veículo, e muitas outras áreas de estudo e treinamento eram voltados para o Soyuz e ministrados em russo, o idioma que tive que dominar, pelo menos o suficiente para a operação dos sistemas e check-lists.

Em termos de relacionamento, não houve qualquer dificuldade, pois tanto a NASA quanto o Roskosmos (Agência Espacial Russa) são lugares onde as pessoas trabalham motivadas por um objetivo comum e, em se tratando de uma tripulação (comigo irão um russo e um americano), não importa a nacionalidade do companheiro: a vida de cada um de nós está na competência e dedicação dos outros membros. Assim, somos considerados irmãos nesse momento.

A nave Soyuz o levará até a EEI. Qual sua missão lá?

Na Soyuz, temos espaço para três tripulantes. A tripulação será, em princípio, composta por um russo, um americano e eu (brasileiro). Em termos de funções, sou um astronauta treinado como “especialista de missão”, cujas tarefas no espaço envolvem todas as atividades, excluindo a pilotagem do veículo em situações nominais, o que é função do comandante, sempre da nacionalidade do veículo. Assim, no caso dos ônibus espaciais, são sempre americanos; e no caso do Soyuz, são sempre russos. Além de todas as atividades técnicas de manutenção e montagem de equipamentos a bordo da EEI, obviamente teremos a parte científica. Nessa primeira missão brasileira estarei levando e executando experimentos científicos de instituições de pesquisa e universidades brasileiras. Esses experimentos ainda estão sendo selecionados pela gerência técnica do projeto da EEI da AEB, que está a cargo do Dr. Raimundo Mussi. A comunicação com o Brasil será feita por meio de sistemas de transmissão e recepção de voz, imagem e dados do setor russo e dos outros países. Esses sinais são recebidos pelos links de solo e retransmitidos pelos centros de controle na Rússia e nos Estados Unidos para os pesquisadores, rádios e TVs no Brasil.

Nesse aspecto, especificamente sobre essa missão científico-espacial, é necessário deixar claro que me foi confiada a missão de ir ao espaço e levar, além de experimentos científicos e a nossa bandeira, muitos sonhos, ideais, esperanças, orgulho e tantos outros sentimentos de uma nação inteira. Logicamente a missão foi criada pela administração oficial, o governo. Contudo, depois de ser impregnada nos desejos do povo brasileiro, essa missão deixa de ser um compromisso institucional com o governo, mas uma responsabilidade com o Brasil, com os brasileiros. Assim, não é uma missão para a minha satisfação pessoal, ou feita apenas para mandar um astronauta ao espaço, cumprindo a ordem de uma autoridade. Portanto, na execução operacional, cabe a mim cumpri-la até o final, custe o que custar, contra todos os obstáculos, mesmo com o meu sacrifício, se necessário. Esse é o meu compromisso com meu país. Esse é o espírito que eu gostaria que o meu país tivesse por mim.

No momento do voo, estarei fisicamente sozinho, mas levando a bandeira brasileira, que tanto me orgulha; estarei levando comigo toda uma nação. Pelas centenas de e-mails e outras mensagens de muito carinho e apoio que recebo diariamente, tenho plena certeza de que essa missão irá representar para cada brasileiro algo especial. Um momento que ficará para sempre como uma lembrança viva, nos momentos de maior dificuldade, de que o nosso país é um país que tem capacidade de sobra; que devemos nos orgulhar pelo que é nosso e pelo que somos: uma nação forte, com tecnologia, empresas e pessoas capazes, que fazem a cada dia uma história cotidiana de sucesso, a ser contada por gerações. Uma história de raça, garra, pioneirismo e amor ao Brasil. 


[Os três astronautas decolaram no dia 29 de março de 2006, às 23h30min (horário de Brasília), no Centro de Lançamento de Baikonur, no Cazaquistão. Eles seguiram, na nave Soyuz TMA-8, para a Estação Espacial Internacional, levando 15 quilos de carga da Agência Espacial Brasileira, incluindo oito experimentos científicos criados por universidades e centros de pesquisas brasileiros. A missão, realizada com sucesso, teve duração de dez dias, sendo dois dias a bordo da Soyuz e oito na ISS.]

Quando olha para a vastidão do espaço, o que lhe vem à mente?

O quão pequenos e frágeis nós somos perante Deus. Contudo, da mesma forma, penso no quanto somos importantes, cada um de nós, para Ele como partes preciosas de Sua criação.

Consegue ver a mão de Deus nas obras da criação, especialmente nos planetas, nas estrelas e nas galáxias?

Sem dúvida! Algumas pessoas me perguntam como convivo com a ciência e a religião dentro de mim. Não existe nenhum conflito entre religião e ciência. A fé é como a luz de um farol a nos guiar durante a noite de nosso conhecimento. Nos momentos mais críticos de nossas vidas, normalmente, de uma forma ou de outra, estamos sozinhos. Mas se temos dentro de cada um de nós a confiança em Deus, teremos a direção e a força necessárias para enfrentar qualquer situação.

segunda-feira, novembro 18, 2019

A batalha solitária de um cosmólogo contra a teoria do Big Bang


O portal G1 publicou uma matéria curta, porém interessante, sobre desabafos feitos por James Peebles. Esses comentários feitos pelo Nobel de Física de 2019 vêm como um bálsamo para quem conhece de perto o modelo do Big Bang, que consiste em um sistema de equações que descreve o desenvolvimento do espaço-tempo desde pouco depois de sua criação. Essas equações são uma consequência de leis físicas conhecidas. O título da matéria é sensacionalista e enganoso, mas os comentários do cientista são lúcidos e ao ponto. Peebles não combate a “Teoria do Big Bang”, mas esse nome popular por passar uma ideia completamente falsa do modelo ao qual deveria se referir.

Quase tudo o que as pessoas costumam dizer sobre Big Bang baseia-se em boatos que passam bem longe de refletir o que o modelo realmente diz. O próprio nome popular do modelo ajuda a aumentar a confusão ao transmitir a ideia de que se trata de uma explosão de material que alguma vez esteve concentrado em um ponto do espaço. Além disso, muitos vão além nesse telefone sem fio e imaginam que, de acordo com a “teoria” do Big Bang, essa grande explosão teria criado estrelas, galáxias, planetas e até seres vivos. Nada mais longe da verdade. Apenas alimento para argumentos do espantalho, uma das falácias mais comuns em comentários sobre ciência.

Peebles comenta que lutou contra essa “nomenklatura” mas acabou desistindo. Todos continuam chamando o modelo de “Teoria do Big Bang” e não parece ser possível reverter essa tendência.

Aproveitamos essa oportunidade para, mais uma vez, desmentir conceitos enganosos nessa área. É útil fazer diferença entre modelo e teoria, entre o que o modelo diz e o que ele não diz, bem como alguns prerrequisitos gerais, como a diferença entre uma teoria científica e uma não científica, e ainda o conceito de Matemática usado no processo. Faremos apenas um resumo relâmpago dessas coisas.

Matemática

Impossível definir por ser muito fundamental, mas, de um ponto de vista de consistência lógica, ela necessariamente transcende o mundo natural, inclusive o tempo. Todas as leis da realidade estão contidas na Matemática. Nós inventamos linguagens para lidar com pequenas porções da Matemática, porém, mesmo fazendo isso, percebemos que apenas estamos observamos partes minúsculas de algo infinito.

Ciência

O conceito de ciência proposto na “revolução” científica tem muito pouco a ver com a noção que predomina atualmente. Há uma tendência de chamar de ciência tudo o que se faz na pesquisa em universidades, bem como o conjunto de pessoas que trabalha em qualquer área da pesquisa, assim como as áreas em si. Apesar da irracionalidade de um conceito inconsistente assim, esse tipo de noção subsiste por várias razões, tais como:

  • Seu papel em elevar o status de alguém ou de uma ideia.
  • Controle político, isto é, a autoridade que confere a um grupo de pessoas para afirmar o que é verdade ou não com base em uma lista mais ou menos arbitrária, ao invés de regras fundamentais.
  • Vícios de linguagem.
  • Facilidade de promover qualquer especulação ao status de “teoria científica”.
  • Facilidade de negar o status de “teoria científica” a qualquer ideia que não seja aceita em determinado meio social.

O conceito original corresponde mais ou menos ao que hoje chamamos de “hard science” (ciência dura). Trata-se de um conjunto infinito de métodos matemáticos (alguns dos quais a humanidade já conhece) que podem ser aplicados de maneira fundamental, sistemática e coerente a qualquer área da pesquisa. Não que cada método se aplique a tudo, mas existem muitos métodos aplicáveis a cada área do conhecimento.

Estruturas matemáticas

São regiões do conhecimento delimitadas por axiomas bem definidos. Nesse contexto, axiomas são itens de uma definição, nunca verdades autoevidentes, óbvias, fundamentais ou universais.

Um bom exemplo são os axiomas de Euclides na Geometria. Eles delimitam uma parte da Geometria que chamamos de Geometria Euclidiana Bidimensional.

Como os axiomas que definem algo são válidos para o que definem, podemos provar com segurança suas consequências naquele contexto. As afirmações que podem ser provadas como consequência de axiomas chamam-se teoremas.

Podemos combinar diferentes axiomas para definir diferentes estruturas matemáticas. Podemos adicionar axiomas a estruturas existentes para definir estruturas mais específicas, aproveitando todos os teoremas da estrutura original, o que representa grande economia de esforço para os pesquisadores.

Se os axiomas escolhidos forem incompatíveis entre si, a estrutura matemática resultante corresponde ao conjunto vazio, isto é, nada se encaixa em sua definição.

É importante não confundir a natureza da Matemática com o processo humano dinâmico de brincar de montar estruturas matemáticas pela combinação de axiomas. Esse processo é apenas uma estratégia para explorar o infinito território matemático.

Teorias e modelos científicos

São a associação entre uma estrutura matemática e um objeto de estudo. Não precisam referir-se a algo do mundo físico.

Como é possível fazer essa associação? Ao escolher um assunto a ser estudado, precisamos defini-lo. Isso é feito por uma série de cláusulas, isto é, itens de uma definição. Cada cláusula corresponde a um axioma. O conjunto de axiomas corresponde a uma estrutura matemática.

Colocando-se dessa forma, parece fácil e até inevitável construir teorias científicas. Mas, para ser científica, uma teoria deve fazer essa associação explicitamente, de maneira a permitir conferir sua consistência (se não há axiomas conflitantes), sua precisão, sua exatidão, aproveitamento de teoremas da estrutura matemática e assim por diante.

Um grande bônus gerado pelo uso de teorias e modelos científicos consiste em que, uma vez feita a associação entre uma estrutura matemática e um objeto de estudo, teoremas da estrutura matemática frequentemente nos revelam aspectos não imaginados do objeto de estudo, muitas vezes contrários a crenças e expectativas dos pesquisadores. Essas são as descobertas teóricas.

Muitas descobertas teóricas têm ocorrido quando se aplica essa metodologia científica. Exemplos: spin, antimatéria, regras de seleção de orbitais eletrônicos, “princípio” da incerteza, “princípio” da exclusão, buracos negros, ondas gravitacionais, entrelaçamento quântico, tunelamento quântico, curvatura do espaço-tempo, quarks, dilatação do tempo, contração do espaço, big bang e muitas outras coisas. O interessante é que essas descobertas teóricas vão sendo confirmadas uma a uma com o tempo, mesmo em seus detalhes finos.

No caso do spin e das regras de seleção, por exemplo, já havia evidência experimental, mas nenhuma explicação para sua existência até a descoberta da associação de uma estrutura matemática com o mundo quântico que revelou que essas coisas decorrem de teoremas relativamente simples. Em muitos outros casos, ninguém suspeitava de certo fenômeno, até alguém se deparar com um teorema e perceber seu significado físico.

Essa é a forma mais profunda de conhecimento intelectual que existe.

Teoria científica jamais deve ser confundida com uma especulação ou conjectura.

Teoria científica

Consiste em um conjunto de leis, geralmente expressas como equações diferenciais. Essas leis servem de axiomas para a associação entre uma área de estudo e uma estrutura matemática.

Exemplos:

  • Teoria da Mecânica de Newton (três equações diferenciais)
  • Teoria Eletromagnética de Maxwell (quatro equações diferenciais)
  • Teoria Especial da Relatividade (três leis de Newton e mais duas)
  • Teoria Geral da Relatividade (cinco leis da Relatividade Especial e mais uma equação diferencial tensorial)

Modelo científico

Trata-se da aplicação de uma teoria científica a um caso particular. Por exemplo, podemos utilizar a Teoria Eletromagnética de Maxwell para modelar e construir um circuito eletrônico.

Big Bang

Nome enganoso inventado por Fred Hoyle para ridicularizar a ideia de que o Universo foi criado.

Podemos aplicar a Relatividade Geral ao Universo como um todo, o que resulta em um sistema de equações diferenciais que, combinadas com equações da Termodinâmica, dizem que o tempo teve um início e que o espaço vem se expandindo desde então. Esse sistema de equações é que recebeu o nome enganoso de “Teoria do Big Bang”.

Big Bang é um modelo científico que descreve a expansão do espaço ao longo do tempo. Esse modelo não fala em explosão, nem em origem da matéria, nem em origem e evolução de estrelas, nem galáxias e muito menos vida. Por outro lado, esse modelo fornece informações valiosas que precisam ser levadas em conta por outros modelos, como o de nucleossíntese.

Embora não seja o caso de Peebles, existem muitas pessoas que argumentam contra a “Teoria do Big Bang”. Quando observamos esses protestos, entretanto, vemos que o que essas pessoas combatem é um espantalho, uma versão completamente falsa do que seria o Big Bang.

Se você deseja argumentar contra o Big Bang, evite passar vergonha expondo sua ignorância sobre o assunto. Procure antes se informar sobre o modelo com quem sabe deduzir, usar e interpretar suas equações diferenciais, ao invés de repetir boatos que circulam entre leigos.

Eduardo Lütz

Existe um nervo cuja única função é endurecer os mamilos


O corpo humano é cheio de facetas curiosas e divertidas, de certa forma. Em termos de prazer sexual, pode-se dizer que ele foi muito bem desenhado – no caso do clitóris, por exemplo, a única função do dito cujo é dar prazer às mulheres mesmo, diferentemente do pênis, que abriga o canal urinário e libera espermatozoides. Assim como o famigerado e nem sempre encontrado clitóris, há um nervo específico que funciona apenas para deixar os mamilos endurecidos. A descoberta recente foi publicada na revista Nature Neuroscience – e não para por aí: a mesma pesquisa revelou a existência de um neurônio cuja única tarefa é criar arrepios!

Tanto o endurecimento dos mamilos quanto os arrepios são sensações que aparecem de maneira involuntária e em contextos além do sexual, como quando estamos com frio ou medo. No cérebro, quem controla essas manifestações corporais inconscientes é o chamado sistema nervoso simpático.

Esse último estudo constatou que o sistema nervoso simpático é formado por diversos tipos de células neuronais, responsáveis por funções específicas, e essa descoberta só foi possível depois de uma análise minuciosa no perfil genético dos neurônios de ratinhos recém-nascidos.

Acontece que a estrutura que torna os mamilos eretos é desenvolvida já nos primeiros dias de vida, assim como o músculo responsável por deixar os pelos em pé e, consequentemente, provocar arrepios. Assim que esse músculo é formado, os neurônios começam a se dividir, de modo que cada tipo de célula neural se encarregue de realizar determinada tarefa, mais específica.

“Nós mostramos que o sistema nervoso simpático é composto de muitos tipos de neurônios que regulam funções específicas no organismo”, disse um dos autores do estudo, Alessandro Furlan, em declaração publicada no IFL Science. Segundo ele, os mamilos enrijecidos dependem do trabalho de neurônios que se dedicam apenas a isso. Não é incrível?



quarta-feira, novembro 13, 2019

Artista no fundo oceânico

Em 1995 uma estrutura geométrica com padrão circular, apresentando cumes e vales radialmente alinhados, e com cerca de dois metros de diâmetro, foi encontrada no fundo do mar - no Japão, próximo ao sul da Ilha Amami Oshima. Qual seria a origem dessa estrutura? Eram formações que apareciam e em pouco tempo desapareciam, sem que houvesse a chance de descobrirem o responsável pela construção e compreender sua função. Por algum tempo ela foi chamada pelos mergulhadores de "círculo misterioso”. Teria sido produzida por organismos vivos ou seriam consequência de fenômenos naturais?

Estrutura geométrica encontrada no fundo do mar, no Japão [1]


Em 2011 o construtor dessa arte foi encontrado - o macho de uma espécie de baiacu do gênero Torquigener sp. com cerca de 12 cm de diâmetro.


Macho Torquigener sp. cavando um vale. Fotografia tirada por K. Ito [2]


Um estudo chamado "Role of Huge Geometric Circular Structures in the Reproduction of a Marine Pufferfish" foi publicado no periódico da Scientific Reports no ano de 2013, por Kawase, Okata e Ito, buscando compreender tanto a função dessa formação quanto a maneira como ela é construída.

Foram realizadas observações regulares (uma a três vezes na semana), de abril a setembro de 2011 e 2012; e posicionadas no fundo do mar câmeras fotográficas e de vídeo para a análise dos padrões de comportamento em frente as estruturas circulares.

Descobriu-se que essas formações são ninhos cercados por picos e vales radialmente alinhados. Observaram-se dez processos reprodutivos, desde a preparação para a desova até os cuidados com os ovos (tudo sendo realizado pelos machos).

Mas como o macho constrói essa estrutura geométrica?

Inicialmente ele cria uma forma circular básica e cava vales no fundo arenoso; depois, nada em vários ângulos (direção radial), de fora para dentro do círculo - formando picos e vales, usando suas barbatanas (nadadeiras) peitorais, anais e caudais.

Após isso, move-se para dentro produzindo concavidades e convexidades nos vales, sem usar as nadadeiras.

Ao centro dessa estrutura formada por picos e vales radialmente alinhados, há areia plana. No estágio intermediário de construção o macho adquire um comportamento de refinamento dela, a partir de movimentos repetitivos, possibilitando sua definição. Depois, ele nada em direção circular, agitando a areia da zona central (ninho), achatando a superfície e aumentando sua largura. Passa pela zona interna, movendo-se para fora e agitando partículas finas que fluem para a área central.

Na fase final, a estrutura circular é concluída com o uso da nadadeira anal.

Forma-se um padrão irregular na parte central - ninho, nela a areia escolhida é composta por partículas finas. Depois, o macho decora os picos e os vales ao redor com conchas e corais fragmentados.

É nessa fase que a fêmea visita o ninho; ela aparece algumas vezes, até que decide por liberar ou não os ovos na área central.


Estrutura geométrica produzida pela espécie de baiacu do gênero Torquigener sp.: a) estágio inicial; (b) estágio intermediário; (c) etapa final; e (d) após a desova. Fotografia de Y. Okata em 23, 27, 29 de junho e 6 de julho de 2012, respectivamente.

Ao observar tais condições, percebeu-se que as fêmeas avaliam a estrutura do ninho ao visitá-lo, mas os fatores específicos (altura dos picos, quantidade e qualidade das partículas, etc.), que irão afetar sua decisão no momento de colocar os ovos ou abandonar o espaço, ainda são desconhecidos.

Depois que os ovos são depositados, o macho fertiliza-os e permanece por seis dias cuidando deles. Nessa ocasião, a preocupação dele volta-se apenas para os ovos, não mais para a manutenção do ninho e de toda a estrutura ao redor.

Com o passar dos dias, tudo o que ele construiu (com muito gasto de energia e dedicação) vai desmoronando, suavizando e ficando mais plano com a ação das correntes de água. A área do ninho, que é construída com o uso seletivo de areia fina, começa a ser naturalmente substituída por areia grossa.

Percebe-se, assim, que a estrutura tem o objetivo de atrair a fêmea para depositar os ovos e originar novas gerações da espécie. Ela é completada e mantida intacta até a visita e fertilização dos ovos por ela, depois, a manutenção é deixada de lado. Após a eclosão dos ovos os machos vão embora, e, algum tempo depois, começam a construção de um novo ninho, em uma nova localidade.

Essa postura - atrair a fêmea com intuito reprodutivo, por meio da construção dos ninhos - é classificada como seleção sexual. Esse conceito foi introduzido por Darwin no livro A Origem das Espécies (1859), podendo ser definido como um tipo de seleção natural, atuando diretamente na variação entre os organismos do mesmo sexo, pela sua habilidade de conquistar parceiros, objetivando a transferência dos genes para gerações seguintes, ou seja, fins reprodutivos, e não por questões diretas de sobrevivência.

A seleção sexual pode ser classificada de duas formas: intrassexual - quando os machos monopolizam o acesso às fêmeas, conquistam esse direito pela competição direta com outro macho, tornando-se dominantes sobre um grupo, acasalando com o maior número possível delas. Esse tipo de seleção acaba selecionando os machos com características importantes para o embate (exemplo: chifres).

Na segunda classificação – interssexual -, a estratégia do macho é tornar-se mais atraente para a fêmea; isso pode ocorrer através do desenvolvimento de colorações distintas em penas/pelos, por exemplo. Nesse caso, a fêmea escolhe se quer ou não copular com ele. Essa seria a melhor classificação para a espécie de baiacu aqui descrita – o macho constrói ninhos elaborados para atrair a fêmea, ela visita o local e decide (por critérios ainda não conhecidos) se escolherá ou não esse macho, depositando assim os ovos.

O custo para a construção de toda a estrutura geométrica é muito alto, o macho dispende de sete a nove dias para concluir o processo. Nesse caso, parece obvio que ele deveria aproveitá-la para construir uma nova na mesma localidade, gastando menos tempo e energia.

Se o foco de toda essa construção é o ninho, por que o baiacu gasta tanto tempo e energia para produzir a estrutura radial composta por picos e vales? Na natureza, se algo ainda parece sem função é porque ainda há descobertas para serem realizadas, sempre há uma razão de ser para elas. Essa estrutura que rodeia a área central é importante para a coleta e depósito das partículas finas de areia no ninho, os picos impedem a dispersão das partículas finas agitadas. Um único ciclo de construção consome grande proporção de partículas de areia fina disponível para o ninho; assim, os vales podem não conter a quantidade de areia fina necessária para a reestruturação de vários ciclos reprodutivos. Com isso, os machos constroem novos ninhos, onde haja a disponibilidade suficiente de partículas de areia fina.

Pensando um pouco no processo de construção do ninho, essa estrutura geométrica foi erguida com elevado gasto de energia, tendo como objetivo atrair a fêmea para a reprodução. Mas de que modo esse comportamento teria sido selecionado pela seleção sexual? Embora a fêmea possua critérios para a escolha do ninho (ainda desconhecidos), quando ela toma a decisão de depositar ou não seus ovos nele, ela possibilita que o macho escolhido transmita seus genes para as gerações futuras; assim, essa característica vai sendo selecionada e levada adiante, ou seja, características específicas vão sendo fixadas no gene dos filhos/netos/bisnetos.

Mas e a origem desse comportamento? Ele não é constituído por uma única ação, mas um conjunto delas, resultando nessa estrutura geométrica incrível! O baiacu só é capaz de realizar tal ação porque ela está registrada em sua carga genética. Como seria antes de esse comportamento ter se constituído? Qual era o comportamento utilizado pelos machos para a reprodução? Será que os longos milhões de anos sugeridos pelo processo evolutivo seriam capazes de desenvolver tal comportamento? Seria possível constituí-lo em etapas? Tudo parece ficar confuso e estranho quando tentamos compreender esse processo pelas lentes do evolucionismo.

Moema Patriota

Referências:
Peixes baiacu fazem arte com areia no Japão: https://hypescience.com/peixes-baiacu-no-japao-fazem-arte-com-areia/ [1]
Role of Huge Geometric Circular Structures in the Reproduction of a Marine Pufferfish: https://www.nature.com/articles/srep02106 [2]
Tese de Doutorado: "Seleção Sexual e modelagem visual em Ameivula ocellifera." LISBOA, Caroline M.C.A.
Cristas, Chifres e Seleção Sexual: http://cienciahoje.org.br/coluna/cristas-chifres-e-selecao-sexual/
A seleção sexual: https://pt.slideshare.net/mobile/popecologia/seleo-sexual

terça-feira, novembro 12, 2019

Convenção terraplanista é realizada em auditório maçom e causa polêmica

[A notícia a seguir foi divulgada pelo site Gaúcha ZH; meus comentários seguem entre colchetes. – MB]

Na frente do Teatro Liberdade [que pertence à maior Loja Maçônica de São Paulo; confira aqui], um homem gravava, por volta das 8h20 da manhã de domingo (10), vídeos com pessoas em uma aglomeração. Ao fim de cada entrevista, ele puxava o bordão “a Terra é”, ao que os mais próximos respondiam “plana!”. Todos ali esperavam o início da primeira Convenção Nacional da Terra Plana, a FlatCon. Com um público de cerca de 400 pagantes, segundo os organizadores, o evento reuniu pessoas de diferentes profissões e regiões do país, todos com a crença em comum de que a Terra não é redonda. Outro denominador comum é o YouTube como fonte de informações.

[Desta vez, os participantes não sabiam onde seria realizado o evento, e essa informação só foi fornecida horas antes, já que a locação anterior – um auditório de colégio católico – foi cancelada pela instituição, ao saber do teor do encontro.]

[Continue lendo.]

quinta-feira, novembro 07, 2019

Videoaulas sobre o engano das falácias

Falácia significa erro, engano ou falsidade. Normalmente, falácia é uma ideia errada que é transmitida como verdadeira, enganando as pessoas. No âmbito da lógica, falácia consiste no ato de chegar a uma determinada conclusão errada a partir de proposições falsas. A filosofia de Aristóteles abordou a chamada “falácia formal” como um sofisma, ou seja, um raciocínio errado que tenta passar como verdadeiro, normalmente com o intuito de ludibriar outras pessoas. De acordo com a lógica filosófica aristotélica, a “falácia informal” difere-se da formal, principalmente pelo fato de a primeira usar de raciocínios válidos, a princípio, para chegar a resultados que sejam inconsistentes e com premissas falsas. Ao contrário das falácias formais, que são mais fáceis de identificar, as falácias informais, por apresentar uma forma lógica válida, podem ser de difícil identificação.
Falácia também pode ser sinônimo de ardil ou logro; uma atitude que tem como objetivo obter vantagem sobre outra pessoa, enganando-a. Muitas vezes está relacionada com falta de honestidade.
Com origem no termo latim fallacia, essa palavra indica a característica ou propriedade de algo que é falaz, ou seja, engana ou ilude.

terça-feira, novembro 05, 2019

Uma pregação desesperada em favor da evolução

Evolução é um fato? É um dos melhores exemplos de boa ciência que temos à nossa disposição? Quando li a reportagem abaixo, tive uma forte reação que mesclou revolta e indignação. Passado algum tempo de digestão, resolvi escrever um comentário crítico sobre algumas das distorções que a mídia pseudocientífica se esforça para apregoar como ciência, mas que é, na verdade, uma cruzada darwinista que tenta impôr com veemência a teoria do naturalista inglês Darwin como um fato científico indiscutível. Vamos a ela [meus comentários estão destacados entre colchetes]:

Como nós sabemos que a evolução está de fato acontecendo?

Fonte: BBCpor Chris Baraunik

A evolução é uma das grandes teorias em toda a ciência [penso ser difícil dizer isso sem alto grau de subjetividade, assim como acho difícil comparar a TE com a gravitação universal ou o modelo atômico de Bohr]. Ela explica a vida: especificamente, como a primeira forma de vida gerou toda a gigantesca diversidade que nós vemos hoje, das bactérias até aos carvalhos e às baleias azuis [na realidade uma das grandes fragilidades da teoria da evolução é a ausência completa de explicação para o surgimento da primeira célula viva, haja vista a complexidade irredutível da mais simples forma de vida concebível e das condições contraditórias e mutuamente excludentes do ambiente para que isso ocorresse de forma espontânea].

Para os cientistas, a evolução é um fato [quais cientistas? todos eles? quais as evidências? essa é uma afirmação baseada em estatística ou apenas uma bravata?]. Nós sabemos que a vida evoluiu com a mesma certeza de que sabemos que a Terra é aproximadamente esférica, que a gravidade nos mantém sobre ela, e que as vespas no piquenique são chatas [simplesmente ignoram as inúmeras evidências em contrário - vide os materiais disponíveis neste site. Um engodo de retórica também].

Não que você não saiba que a mídia, em alguns países, rebaixa-a a “apenas uma teoria”, ou a despacha como uma mentira [sugestivamente os países teocráticos e atrasados, quem sabe].

Por que os biólogos estão tão certos sobre isto [e os bioquímicos, químicos, físicos etc.? agora "todos os cientistas" reduziram-se apenas aos biólogos...]? Qual é a evidência? A resposta mais simples é a que existem tantas coisas que é difícil saber por onde começar [mais outra bravata sem muito fundamento, como veremos adiante]. Mas aqui está um resumo muito apressado da evidência de que a vida, de fato, evoluiu [sic - na verdade, o texto abaixo mostrará a fragilidade das "certezas" até agora declaradas].

Pode ajudar se primeiro se disser o que a teoria da evolução de Darwin diz de fato. A maior parte de nós tem a ideia geral: organismos mudam ao longo do tempo, apenas os aptos sobrevivem, e de alguma forma os macacos se tornaram em seres humanos.

A teoria da evolução de Darwin diz que cada novo organismo é sutilmente diferente dos seus pais, e estas diferenças podem, às vezes, ajudar a procriação ou a impedir. Como os organismos competem por comida e parceiros, os que possuem características avantajadas produzem mais prole, como aqueles com características desvantajosas podem não produzir nenhuma. Então, dentro de uma dada população, características vantajosas se tornam comuns e as desvantajosas desaparecem [estas características observadas por Darwin na reprodução dos tentilhões e dos cães, por exemplo, explicam variações dentro da espécie e, em nenhum momento, a teoria da evolução explica como informação complexa e útil poderia surgir por mutações nos seres vivos].

Dado tempo suficiente, estas mudanças se acumulam e levam ao aparecimento de novas espécies e novos tipos de organismo, uma pequena mudança de cada vez [novamente: como? como um ser simples poderia dar origem a um mais complexo, que possui mais informação genética e cujas mutações intermediárias não seriam úteis para produzir um órgão irredutivelmente complexo, por exemplo? Parece que todas essas dificuldades foram jogadas no chapéu mágico do "dado tempo suficiente"]. 

Passo a passo, vermes se tornaram peixes, peixes vieram para a terra e desenvolveram quatro patas, estes animais quadrúpedes produziram pelos e – eventualmente – alguns deles começaram a andar em duas patas, chamaram-se a si mesmos “humanos” e descobriram a evolução [o registro fóssil é surpreendentemente silente nessas transições imaginárias aqui descritas. Existem, sim, seres intrigantes como o ornitorrinco e os peixes blênios, mas esses animais continuam apresentando questões impeditivas para a sua origem evolutiva e que podem ser encaixadas com facilidade no modelo criacionista].

Isto pode ser difícil de se acreditar [é mesmo! aqui eu estou de completo acordo]. Uma coisa é constatar que você não é idêntico aos seus pais: talvez seu cabelo tenha uma cor diferente, ou você seja mais alto, ou tenha uma natureza mais alegre [e continuo sendo um humano, como eles]. Mas é muito mais difícil de se aceitar que você é descendente, por incontáveis gerações, de um verme.

Muitas pessoas certamente não aceitam isso. Mas esqueça todo o drama por um momento. Ao invés disso, comece onde Charles Darwin começou: na sua porta.

O livro de Darwin, Sobre a Origem das Espécies, publicado em 1859, começa por convidar o leitor a olhar o que lhe é familiar. Não às inexploradas ilhas tropicais ou florestas distantes, mas à fazenda e ao jardim. Lá, você pode facilmente ver que os organismos passam suas características para sua prole, mudando a natureza daquele organismo ao longo do tempo [a mudança de natureza da prole nunca foi observada por Darwin. Cães continuaram sendo cães, plantas continuaram sendo plantas, e aves continuaram sendo aves. Não houve nem mesmo aumento de complexidade dentro da própria espécie. "Mudar a natureza do organismo" é uma licença poética muito descabida aqui].

Darwin destacou o processo de cultivo [de plantas] e criação [de animais]. Por gerações, fazendeiros e jardineiros têm, propositalmente, criado animais para serem maiores ou mais fortes, e plantas para produzirem melhores colheitas [vide comentário anterior].

Criadores [de animais e vegetais - breeders] trabalham exatamente como Darwin imaginou que a evolução trabalha [não, não trabalham. Eles escolhem deliberadamente as características desejadas e imaginadas para o propósito final: melhorar sua economia. Isso não ocorre de maneira cega e desajudada, como na teoria da evolução]. Suponha que você deseja criar galinhas que põem mais ovos. Primeiro, você deve encontrar aquelas que põem mais ovos do que as outras. Então você precisa chocar os ovos delas e assegurar-se de que as galinhas resultantes se reproduzam. Essas galinhas devem também pôr mais ovos [se isso não tiver um benefício imediato, para a TE, as galinhas mais poedeiras são descartadas - justamente o contrário do que ocorre com a atuação dos criadores de raças de animais, porque exaurem mais rapidamente os recursos através da postura. E essa característica da seleção natural é impeditiva na evolução de órgãos complexos].

Se repetir o processo com cada geração, eventualmente você terá galinhas que põem muito mais ovos do que as selvagens põem [mas não terá galinhas amamentando seus pintainhos nem latindo para cuidar da sua casa]. Uma galinha da selva – o parente selvagem mais próximo da galinha doméstica – pode pôr 30 ovos por ano, quando as galinhas da fazenda podem produzir dez vezes esta quantidade. Estas mudanças de geração a geração são chamadas “descendência com modificação”.

Uma galinha jovem pode ser em muitos sentidos similar aos seus progenitores: será reconhecível como uma galinha, e definitivamente não um tamanduá, e provavelmente será mais parecida com os seus pais do que será com outras galinhas [!!!]. Mas não será idêntica [talvez porque o Criador não desejasse um planeta de clones, que seria bastante entendiante].

“É isto que a evolução é”, diz Steve Jones, da University College London, no Reino Unido. “É uma série de erros que se acumulam” [principalmente nas universidades e museus].

Você pode pensar que a reprodução pode apenas fazer umas poucas modificações, mas parece não haver fim para estas ["parece não haver fim para estas" - opa! estamos mais modestos aqui! este tom está infinitamente mais brando do que as bravatas iniciais da reportagem!]. “Não há nenhum caso registrado de um ser mutável cessando de variar sob cultivo”, escreveu Darwin. “Nossas plantas mais antigas cultiváveis, como o trigo, ainda produzem novas variáveis: nossos animais domésticos mais antigos ainda são capazes de rápido desenvolvimento ou modificação” [até aqui nenhuma evidência de variação inter-espécies ou de acréscimo de informação. A variação dentro de uma mesma espécie sendo usada como explicação para a macroevolução parece ser um clássico exemplo do problema da indução].

A criação [breeding], argumentou Darwin, é essencialmente a evolução sob a supervisão humana. Ela nos mostra que as minúsculas mudanças de geração a geração podem se somar. “É inevitável”, diz Jones. “Está fadado a acontecer” [Ler comentários acima. Problema da indução. Eu tomo um exemplo muito modesto e faço uma generalização absurda, com evidências fracas e ambíguas, não explico os problemas inerentes e lanço-os no chapéu mágico do tempo].

Ainda, é um passo sair da criação cuidadosa de galinhas que põem mais ovos para a evolução natural de novas espécies. De acordo com a teoria evolucionária, aquelas galinhas são ultimamente descendentes dos dinossauros, e se você for ainda mais para trás, dos peixes [só me explique como, por favor].

A resposta é simplesmente que a evolução toma muito tempo para fazer grandes mudanças [olha o chapéu mágico aí, gente!]. Para se ter uma evidência disto, você deve olhar para os registros mais antigos. Você deve olhar para os fósseis.

Fósseis são as reminiscências de organismos que morreram há muito, preservados em rocha. Porque as rochas são depositadas em camadas, uma sobre a outra, o registro fóssil é, geralmente, estabelecido em ordem de data: os fósseis mais antigos estão no fundo [a diferença das taxas de flutuabilidade dos cadáveres também é uma explicação para a ordenação do registro fóssil].

Percorrendo o registro fóssil, fica claro que a vida mudou ao longo do tempo [na realidade, a vida era diferente muito tempo atrás. Não há transição clara e inconfundível entre um tipo de organismo e outro, sem que haja ao menos grandes doses de especulação e subjetividade].

Os fósseis mais velhos de todos são reminiscências de organismos simples como bactérias, com coisas mais complicadas como animais e plantas apenas aparecendo muito mais tarde [vide a taxa de flutuabilidade dos corpos]. Entre esses fósseis animais, os peixes aparecem muito antes que os anfíbios, pássaros e mamíferos. Nossos parentes mais próximos, os macacos, são encontrados apenas nas rochas mais rasas e recentes [os corpos de mamíferos flutuam por mais tempo na água, e há também uma teoria sobre zoneamento ecológico que pode explicar esses fósseis].

“Eu sempre penso que o caso mais convincente de evolução está no registro fóssil”, diz Jones. “É notável que uma página em cada seis no livro A Origem das Espécies lida com o registro fóssil. [Darwin] soube que este era um caso irrefutável de que a evolução aconteceu” [o registro fóssil, conforme apregoado pela TE, está completo em apenas dois lugares: os museus e os livros de história. Nenhum sítio fóssil, por mais completo e impressionante que seja, como, por exemplo, o folhelho Burgess, apresenta a cadeia evolutiva como preconizada na teoria. Darwin, na realidade, disse que uma contraprova de sua teoria seria a existência de registros fósseis sem explicação para seu surgimento - do que tivemos plena evidência a posteriori, como na Explosão Cambriana, por exemplo].

Ao estudar cuidadosamente os fósseis, os cientistas têm sido capazes de ligar muitas espécies extintas com aquelas que sobrevivem hoje, às vezes indicando que uma descende da outra [com muita subjetividade e não sem deixar larga margem para questionamento].

Por exemplo, em 2014 pesquisadores descreveram os fósseis de um carnívoro de 55 milhões de anos de idade chamado Dormaalocyon, que pode ser um ancestral comum dos leões, tigres e ursos de hoje. As formas dos dentes do Dormaalocyon evidenciam isto [pela forma dos dentes eu poderia também estabelecer a evolução do Tião Macalé a partir de um furador de papel].

Ainda, você pode não estar convencido. Estes animais podem todos ter dentes similares, mas leões, tigres e Dormaalocyons são ainda espécies distintas. Como nós realmente sabemos que uma espécie evoluiu em outra?

O registro fóssil é de muita ajuda aqui, porque este está incompleto [realmente, um registro fóssil incompleto beneficia muito a TE, pois na incompletude estão os seres imaginários que constituem os fósseis de transição - que nunca serão encontrados, porque nunca existiram de verdade]. “Se olhar para a maioria dos registros fósseis, o que você vê atualmente é uma forma que dura mais ou menos um longo tempo e depois a nova penca de fósseis que você tem é bem diferente do que tinha antes”, diz Jones [surpresa! dura mais ou menos certo tempo com a mesma forma e de repente muda rapidamente! não seria esperado justamente o oposto, conforme axiomas da TE?].

Mas conforme temos escavado mais e mais restos, um tesouro de “fósseis de transição” tem sido descoberto. Estes “elos perdidos” são intermediários entre as espécies familiares [os fósseis "de transição" descobertos são apenas assumidos e classificados como de transição. Em vários casos, alguns deles relatados neste site, ficou claro que a transição imaginada inicialmente não se observou. Um exemplo clássico é o do homem de Neanderthal, tido anteriormente como um precursor do Homo sapiens, mas agora classificado como uma espécie paralela. Mas há ainda muitos outros casos semelhantes]. 

De fato, antes nós dissemos que as galinhas são, em última instância, descendentes dos dinossauros. Em 2000 um time liderado por Xing Xu, da Academia de Ciências Chinesa, descobriu um dinossauro pequeno chamado Microraptor, que possuía penas semelhantes às das aves modernas e pode ter sido capaz de voar [sempre há um alto grau de subjetividade nessa reconstituição fóssil. É importante ao leitor saber que os fósseis por vezes são apenas marcas deixadas em rochas por seres que viveram há muito tempo, sendo, na maioria das vezes, evidências de pequenos fragmentos ou partes de corpos que já não estão presentes. A recomposição desses fósseis é um trabalho duro e que, em diversas ocasiões, apresenta lacunas que são preenchidas por dedução e indução. Já houve caso de uma espécie de dinossauro que nunca existiu de fato - o Brontossauro - que teve a cabeça montada na cauda ao invés do pescoço, e de um Apatossauro que teve a cabeça de outro animal montada em seu corpo. Dúvidas sobre esses dois animais persistiram até 1970, após durarem quase 100 anos. Aí vem a mídia pseudocientífica e adiciona as "certezas" que os próprios cientistas não têm. A paleontologia é um ramo fantástico da ciência, mas está longe de ser cheia de certezas e provas contundentes, como alegado].

É também possível observar a evolução de novas espécies enquanto ela ocorre. Em 2009, Peter e Rosemary Grant, da Universidade Princeton em New Jersey, descreveram uma nova espécie de tentilhão que veio à existência em uma das ilhas Galápagos: as mesmas ilhas visitadas por Darwin. Em 1981, um único tentilhão-da-terra chegou na ilha chamada Daphne Maior. Este era incomumente grande e entoava um trinado algo diferente do trinado dos pássaros locais. Ele era capaz de se reproduzir, e sua prole herdou suas características diferenciadas. Após algumas gerações, eles estavam isolados em termos reprodutivos: eles pareciam diferentes dos outros pássaros, e cantavam de forma diferente, então podiam apenas reproduzir-se entre si. Este pequeno grupo de pássaros formou uma nova espécie: eles se “especiaram” [e continuou sendo uma espécie de tentilhão, que não acrescentou informação ao seu DNA. Isso é plenamente aceito hoje no criacionismo, sem ferir qualquer princípio bíblico ou admitir a TE].

Essa nova espécie é apenas sutilmente diferente de seus antecessores: seus bicos são diferentes e trinam unusualmente. Mas é possível olhar muito além nas mudanças enquanto elas acontecem.

Richard Lenski, da Universidade Estadual de Michigan, está no cargo do experimento evolucionário mais extenso do mundo. Desde 1988, Lenski tem acompanhado 12 populações de bactérias Escherichia coli em seu laboratório. As bactérias são deixadas à sua própria sorte em containers de armazenamento, com nutrientes para se alimentarem, e a equipe de Lenski regularmente congela pequenas amostras. “Nós tentamos fazer isso todo dia”, ele diz.

As E. coli não são mais as mesmas como elas eram em 1988. “Em todas as 12 populações, as bactérias evoluíram para crescer muito mais rapidamente do que o seu ancestral”, disse Lensky. Elas se adaptaram ao mix específico de [nutrientes] químicos que ele dá a elas.

“É uma demonstração muito direta da ideia de Darwin sobre a adaptação através de seleção natural. Agora, cerca de 20 anos depois no experimento, a linhagem típica cresce 80% mais rápido do que o seu ancestral” [note que agora não se fala de evolução, mas de "adaptação", o que é bem diferente e nada sutil. É esperado que populações de bactérias com abundância de alimento e sem predadores presentes cresçam mais - isso se dá com praticamente todos os animais, até com os humanos].

Em 2008, a equipe de Lenski reportou que as bactérias deram um gigantesco passo adiante [há bastante entusiasmo aqui, como veremos abaixo]. A mistura em que elas vivem incluem um químico chamado citrato, o qual a E. coli não pode digerir [meia-verdade: a E. coli pode, sim, digerir citrato anaerobicamente. Toda a estrutura genética para isso já está presente na bactéria]. Mas 31.500 gerações no experimento, uma das 12 populações começou a se alimentar de citrato. Isto seria como os humanos de repente desenvolverem a capacidade de comer cascas de árvore [nesse caso, os seres humanos deveriam ter desenvolvido uma capacidade totalmente nova de digerir resina, o que não é comparável ao fato de a E.coli ter começado a digerir citrato. Na realidade, de acordo com informações divulgadas pelo site creation.com, a mídia pseudocientífica tenta dar a ideia de que a E. coli de Lenski teria começado a metabolizar o citrato, também conhecido como óxido cítrico ou TCA, mas isso simplesmente não é verdade. A E. coli comum sempre pôde metabolizar o TCA de forma anaeróbica. A mutação que ocorreu no experimento de Lenski apenas alterou uma propriedade do DNA da E. coli que Michael Behe chama de "o limite da evolução": um benefício adaptativo que depende de uma única mutação para acontecer e que, por isso mesmo, seria extremamente improvável de ocorrer para casos mais complexos, onde muitas mutações precisariam ser observadas de forma mais ou menos simultânea e cumulativa para proporcionar uma vantagem competitiva. Destaca-se que o experimento de Lenski equivale a alguns milhões de anos em gerações humanas, só que no mundo das bactérias. Portanto, seria esperado que as mutações da E. coli no experimento de Lenski fossem muito mais expressivas caso a TE de Darwin estivesse assim correta, mas isso não foi observado. Em outras palavras, o experimento de Lenski simplesmente mostrou o contrário: não foi possível observar a evolução significativa que se esperaria caso a teoria darwinista fosse uma verdade, como afirma a reportagem da BBC].

O citrato sempre esteve lá, disse Lenski, “então, todas as populações tiveram a oportunidade de evoluir a habilidade de usá-lo... Mas apenas uma das 12 populações achou uma forma de fazer isso”.

Neste ponto, o hábito de Lenski de regularmente congelar amostras da bactéria se provou crucial. Ele foi capaz de voltar atrás nas amostras mais antigas, e traçar as mudanças que levaram a E. coli a se alimentar de citrato.

Para fazer isso, ele teve que olhar sob o capô. Ele usou uma ferramenta que não estava disponível nos dias de Darwin, mas que revolucionou o nosso entendimento da evolução como um todo: genética.

Todos os seres vivos carregam genes, na forma do DNA.

Genes controlam como um organismo cresce e se desenvolve, e eles são passados dos pais para seus descendentes. Quando uma mamãe galinha põe um monte de ovos, e passa essa característica para sua prole, ela o faz através de seus genes.

Ao longo do último século os cientistas catalogaram os genes de diferentes espécies. Isso resultou em que todas as formas de vida armazenam informação em seu DNA da mesma forma: elas todas usam o mesmo “código genético” [e... ??? como isso poderia validar a TE?].

E mais ainda, organismos podem compartilhar os mesmos genes. Milhares de genes encontrados no DNA humano podem ser encontrados também no DNA de outras criaturas, incluindo plantas e mesmo bactérias [o que é altamente esperado se considerarmos que um único Criador tenha produzido todas as formas de vida conhecidas. Teria Deus de jogar fora todas as fôrmas de cada uma das criaturas e começar cada espécie do zero para ser reconhecido como Criador? Um artista, artesão, engenheiro ou arquiteto não reutiliza elementos de suas obras anteriores para criar as novas? Não seria essa uma evidência favorável a um único Autor da vida?].

Esses dois fatos implicam que toda a vida moderna descendeu de um único ancestral comum, o “último ancestral universal”, que viveu bilhões de anos atrás [sic].

Ao comparar quantos genes os organismos compartilham, nós podemos entender como eles estão relacionados. Assim, os humanos compartilham mais genes com os símios como chimpanzés e gorilas do que com outros animais, a um percentual de 96%. Isso sugere que eles são os nossos parentes mais próximos [essa é uma falácia de um método de classificação de seres vivos chamado de cladístico. Você pode classificar chapéus, carros, obras de arte e qualquer coisa com esse método. A TE usa essa classificação para inferir que há descendência ou ancestralidade comum entre os seres. Mas isso significaria a possibilidade de inferir que um Porsche é descendente de um Fusca que sofreu mutações aleatórias ao longo de milhões de anos, ou que a estátua do Moisés de Michelangelo descende da estátua do Davi do mesmo autor].

“Tente explicar isso de qualquer outra forma do que o fato de que essas relações são baseadas em uma sequência de mudanças ao longo do tempo”, diz Chris Stringer, do Museu de História Natural de Londres. “Nós temos um ancestral comum com os chimpanzés, e nós e eles divergimos desde então, daquele ancestral comum” [problema da indução, mais uma vez].

Nós também podemos usar a genética para traçar os detalhes das mudanças evolucionárias.

“Você pode comparar diferentes tipos de bactérias e encontrar os genes que eles compartilham”, diz Nancy Moran da Universidade do Texas em Austin. “Uma vez que você reconhece estes genes... você pode olhar para como eles evoluíram em diferentes tipos de populações” [mais uma inferência, que é fruto de ambiguidade causal. Há outra explicação para essa semelhança, conforme comentário acima].

Quando Lenski voltou através das suas amostras de E. coli, ele descobriu que as bactérias comedoras de citrato tiveram várias mudanças no seu DNA que as outras bactérias não apresentaram. Estas mudanças são chamadas mutações.

Algumas delas aconteceram muito antes de as bactérias desenvolverem sua nova habilidade. “Em si mesmas, [estas mutações] não conferiram a habilidade de crescer no citrato, mas criaram o ambiente para mutações subsequentes que então conferiram aquela habilidade”, disse Lensky [os dados do experimento de Lensky não foram publicados com nível de detalhe suficiente para entender o que realmente aconteceu no genoma da população da E. coli no experimento. De acordo com o site creation.com, o que pode ter ocorrido foi uma mutação que equivaleria, a título de comparação, a uma quebra em uma fotocélula que acende a luz da casa apenas quando o sol vai embora, mantendo a partir desse defeito a luz da casa acesa em todo o tempo, dia ou noite. Isso se referindo ao fato de que a E. coli pode transportar o citrato em condições anaeróbicas, mas agora o transporta em qualquer situação - aeróbica ou anaeróbica. Outra possibilidade seria uma mutação em um gene que controla o transporte de tartrato. Esse gene poderia ter "pifado" e permitido que outras substâncias fossem transportadas para dentro da célula, diminuindo a especificidade no processo de transporte. Seria como o caminhão do lixo agora passar na sua rua e pegar, além do seu lixo, seu jornal, suas rosas e seu gato. Em ambos os casos aventados, teria havido uma degeneração da capacidade de transporte celular da bactéria, e não uma melhoria. Isso é esperado em mutações aleatórias que têm, via de regra, o efeito de aumentar a entropia - ou a desordem, e não organizar ou acrescentar novas informações úteis ao genoma. Exatamente o contrário do que se quer dar a entender na reportagem].

Essa complexa cadeia de eventos ajudou a explicar por que apenas uma população evoluiu essa habilidade [só que a reportagem não fala que a E. coli não precisa e nunca precisou de citrato para sobreviver, mesmo no experimento, pois havia glicose à disposição, e que a bactéria reduziu sua capacidade de digerir glicose em 20%, o que é contraproducente pensando na sobrevivência da E. coli em longo termo].

Isso também ilustra um ponto importante a respeito da evolução. Um passo evolucionário particular pode ser extremamente improvável, mas se houver organismos suficientes sendo empurrados a dá-lo, um deles provavelmente irá fazer – e só precisa de um.

A E. coli de Lenski nos mostra que a evolução pode dar aos organismos novas habilidades radicais. Mas a evolução não faz as coisas ficarem melhores sempre. Seus efeitos são, ao contrário, ao menos aos nossos olhos, aleatórios [o experimento de Lenski na realidade mostra, sim, que a mídia apologética do evolucionismo pode ter habilidades radicais de contar metade da verdade e fazer um tremendo marketing favorável com algo que é justamente uma complicação para os darwinistas].

As mutações que levam a mudanças nos organismos são raramente para melhor, diz Moran. De fato, a maioria das mutações não têm impacto ou têm impacto negativo na forma como um organismo funciona [incluindo o experimento de Lenski, ao que tudo indica].

Nota: Mais uma vez vemos a infeliz tendência de distorcer a realidade para apregoar uma doutrina estranha que demanda tanta fé quanto precisa ter o mais singelo religioso. O tom ácido e desafiador do início do artigo da BBC foi abrandado ao longo do caminho, e as "provas" apresentadas em favor da evolução se mostraram, na melhor das hipóteses, dúbias e perfeitamente possíveis de conciliação com a ideia de um Criador que projetou com cuidado todas as coisas. 

É óbvio que existe, sim, adaptação dos seres vivos. O problema é generalizar essa adaptação, que foi observada por Darwin e tantos outros, aplicando-a ao surgimento de seres extremamente complexos e dotados de gigantescas quantidades de informações genéticas específicas e úteis. Ainda mais, sem explicar satisfatoriamente como isso teria acontecido, jogando tudo no chapéu mágico do tempo. E o pior de tudo: tentando desafiar e ridicularizar quem não engole esse sapo.

De acordo com o Dr. Ariel Roth, 40% dos cientistas acreditam em um Deus que responde às suas orações, e esse percentual se manteve praticamente inalterado em pesquisas realizadas por cerca de uma década, mostrando que a teoria da evolução não está conseguindo converter mesmo os mais céticos de nós ao ateísmo. Longe de ser uma unanimidade entre indivíduos cerebrados, como alguns evolucionistas querem nos fazer acreditar, homens e mulheres de conhecimento reconhecem que há Alguém maior por trás do Universo maravilhoso que nos cerca. 

Embora os criacionistas não tenham todas as respostas para as perguntas do tipo como que nos cercam, temos, sim, plena evidência científica de que podemos racionalmente crer em um Criador que é representado com muita clareza na Bíblia Sagrada. 

"Diz o tolo em seu coração: 'Deus não existe'" (Salmo 14:1).

Referências:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Problema_da_indu%C3%A7%C3%A3o
Roth, A. (2001) Origens: relacionando a ciência com a Bíblia. Casa Publicadora Brasileira.
Darwin, C. (2018). A origem das espécies. Edipro.
https://www.npr.org/2012/12/09/166665795/forget-extinct-the-brontosaurus-never-even-existed
https://creation.com/bacteria-evolving-in-the-lab-lenski-citrate-digesting-e-coli