quarta-feira, novembro 01, 2017

Charles Darwin: pai da eugenia?

“Num período futuro, não muito distante se formos medir em séculos, as raças humanas civilizadas irão, com quase certeza, exterminar e substituir, ao redor do mundo, as raças mais selvagens” (Charles Darwin, 1809-1882).

A citação acima nos causa estranheza, e o leitor não a encontrará na obra mais famosa de Darwin, A Origem das Espécies. Ela pertence a outra, menos conhecida, A Descendência do Homem (1871), que poderia ser considerado a continuação do tema do A Origem, só que voltado para os seres humanos, com implicações que já podemos imaginar, e que veremos adiante.

A “eugenia” era a teoria predileta dos nazistas, segundo a qual apenas os homens e as mulheres mais saudáveis, inteligentes e fortes deveriam ter filhos, de forma a criarem uma raça perfeita; os que não estivessem dentro dos padrões exigidos deveriam ser eliminados.

A Descendência... e outras obras cujas ideias trouxeram consequências nefastas para a humanidade são analisadas no ótimo 10 Livros que Estragaram o Mundo, de John Wicker, publicado no Brasil pela Vide Editorial. O capítulo 7 é todo dedicado a Darwin e ao seu A Descendência do Homem.

Sem exageros, esse outro livro de Charles Darwin força até seu maior defensor a encarar um fato desagradável: se é verdade tudo o que ele disse em seu livro mais conhecido, então, por consequência, os seres humanos devem garantir que os mais aptos entre eles se reproduzam, e os inaptos sejam eliminados. As tentativas de dissociar o nome de Darwin dos movimentos eugênicos datam de um pouco depois da Segunda Guerra Mundial, quando Hitler já havia legado uma péssima reputação à teoria da seleção natural aplicada aos seres humanos. “Mas é impossível desligar Darwin da eugenia”, afirma John Wiker. “Trata-se de uma conexão direta e lógica entre ela e seus argumentos sobre a evolução.”

É senso comum que os argumentos de Darwin a respeito da seleção natural, expostos no A Origem das Espécies (1859), podem ser resumidos como “a sobrevivência do mais apto” – ainda que tal termo não apareça na primeira edição do livro; Darwin tomou-o posteriormente de Herbert Spencer, um dos primeiros e mais ferrenhos defensores do darwinismo social.

Curiosamente, Darwin não escreveu nada a respeito dos seres humanos no A Origem das Espécies. Ele esperou quase uma década e aí então o escreveu sobre isso em A Descendência do Homem. Por que ele omitira os seres humanos na discussão sobre a evolução em seu best-seller? Nele, Darwin evita a questão: “E quanto a nós, seres humanos, que também apresentamos variações e também nos reproduzimos, como os animais, isso tudo não se aplica a nós?”

Bem prudentemente (no sentido grosseiro do termo, assinala Wiker), Darwin evitou misturar os seres humanos ao seu argumento em A Origem das Espécies. Ele sabia que, se fizesse isso, sua teoria seria rejeitada; ela já era controversa o bastante. Havia 50 anos, ou mais, que a evolução vinha sendo associada a partidários políticos radicais, bradada por revolucionários franceses e ateus de sarjeta (você leu corretamente: Darwin não “descobriu” a evolução; ela já era uma opinião que corria pelos círculos mais radicais há pelo menos um século – se não dois – antes de Darwin, e pode-se traçar suas origens em Epicuro, filósofo da Grécia antiga). Mas Darwin não estava pregando para a assembleia dos radicais; ele queria que sua teoria fosse ouvida pelos baluartes conservadores da elite científica da Inglaterra.

Foi o próprio primo de Darwin, Francis Galton, quem primeiro esclareceu as óbvias conclusões do Origem para a raça humana, num artigo em duas partes na revista Macmillan’s Magazine, em 1865, e depois de modo mais completo, em seu livro Hereditary Genius (1869). Darwin o seguiu imediatamente com o seu A Descendência do Homem. A conclusão mais óbvia foi a eugenia. Galton cunha esse termo,* mas é Darwin quem estabelece seus fundamentos e tira dele suas implicações nefastas.

Sejamos claros quanto a isso. O aspecto pernicioso do A Descendência do Homem, de Darwin, a sordidez mais profunda desse livro, é a eugenia: a ideia de que a “sobrevivência do mais apto” deveria ser aplicada aos seres humanos. A eugenia é uma ciência prática, que aplica a noção de que os seres humanos deveriam ser criados como cavalos de corrida – ou, mais precisamente, animais de fazenda. Os melhores podem se reproduzir; os piores (ou “inaptos”) devem ser eliminados. Uma ideia que os nazistas aplicariam de modo particularmente efetivo. Da maneira como eles entendiam, a própria natureza favorece os mais fortes e renega os mais fracos; a sociedade não deveria proteger artificialmente os mais fracos de sua própria destruição, e sim colaborar com a seleção natural, varrendo os mais fracos da existência por meios mais eficazes ainda.

Não é uma acusação abstrata que Darwin seja o pai dessa noção maligna. Atenção para as palavras do próprio na parte 1, capítulo 5, página 168 de A Descendência, ao descrever os efeitos prejudiciais da caridade civilizada. Segundo Darwin, ao contrário de nós, civilizados, os selvagens curvam-se ao princípio da sobrevivência do mais forte – e é melhor para eles:

“Entre os selvagens, os mais fracos física ou mentalmente são logo eliminados; e aqueles que sobrevivem geralmente são portadores de um estado vigoroso de saúde [...]. Nós homens civilizados, por outro lado, fazemos o máximo que podemos para reprimir esse processo de eliminação; construímos asilos para os imbecis, os mutilados e os doentes; instituímos leis para beneficiar os pobres; e nossos médicos gastam suas habilidades mais extremas para salvar a vida de qualquer um, até o último instante. [...] E eis que os membros mais fracos de uma civilização propagaram suas crias. Ninguém que já tenha se dedicado à criação de animais domésticos pode duvidar que isso é extremamente ofensivo à raça humana. É surpreendente o quão cedo a ausência de cuidados, ou o mau direcionamento dos cuidados pode degenerar a raça de um animal doméstico; mas, exceto no caso da procriação da própria espécie, raramente um homem é tão ignorante ao ponto de permitir que seus piores animais se reproduzam.”

Darwin não poderia ter sido mais direto. “O mau direcionamento dos cuidados” é a causa da recaída evolucionária da civilização (Ibid., Parte 1, cap. 5, p. 177):

“Se [...] várias limitações [...] não forem capazes de prevenir que os desocupados, os viciados e outros membros inferiores da sociedade cresçam em maior escala e rapidez que a classe dos melhores homens, a nação irá regredir, como já ocorreu várias vezes ao longo da história do mundo. Devemos nos lembrar de que o progresso não é uma lei invariável.”

Aqui Wiker faz um leve desvio histórico e assinala que, embora os atuais livros de biologia do ensino médio deixem de fora as implicações eugênicas do darwinismo, em sua seção sobre a evolução, nem sempre foi esse o caso. Veja um texto de Biologia do ensino médio de 1917:

“O APERFEIÇOAMENTO DO HOMEM – Se o estoque de animais domésticos pode ser aperfeiçoado, não é de todo injusto que nos perguntemos se a saúde e a vitalidade do homem e da mulher das futuras gerações não poderiam ser aperfeiçoadas se eles se submetessem às leis da seleção natural.”

“EUGENIA – Quando duas pessoas se casam, há certas coisas que não só os esposos como também todos da sociedade devem exigir. A mais importante delas é a imunidade quanto a doenças embriológicas que podem ser transmitidas às futuras gerações. A tuberculose, aquela peste branca pavorosa que ainda é responsável por quase um sétimo das mortes, a epilepsia e a debilidade mental são obstáculos não só injustos como também criminosos demais para serem repassados para a posteridade. A ciência de ser bem-nascido chama-se eugenia.”

O livro continua, alertando os alunos a respeito da família Jukes, cujos notórios defeitos mentais e morais foram passados por gerações em um estado de degradação ainda mais notório. Dos 480 descendentes do par original, “33 eram sexualmente imorais, 24 foram confirmados como bêbados, três eram epilépticos e 143 eram débeis mentais”. O livro segue:

“O PARASITISMO E SEU CUSTO PARA A SOCIEDADE – Centenas de famílias como essa descrita acima existem hoje, ainda espalhando suas doenças, imoralidades e crimes por todas as partes do país. O custo dessas famílias para a sociedade é bem severo. Assim como certos animais ou plantas tornam-se parasitas de outros animais ou outras plantas, essas famílias tornaram-se parasitas da sociedade. Eles não só ameaçam a sociedade porque corrompem, roubam ou espalham doenças, mas eles são ainda protegidos e cuidados pelo estado com o dinheiro público. [...] Eles tomam muito da sociedade, mas não dão nada em troca.”

“A SOLUÇÃO – Se tais pessoas fossem animais inferiores, provavelmente poderíamos matá-los e assim prevenir que se proliferassem. A humanidade não irá permitir que isso aconteça, mas nós temos a saída de colocá-los em asilos separados por sexo, ou em outros lugares, e de várias formas podemos prevenir que se casem entre si e continuem perpetuando uma raça tão baixa e degenerada. Soluções como essas foram testadas com sucesso em países da Europa e agora estão obtendo sucesso aqui nos Estados Unidos também.”

Parece um texto escrito por um biólogo proto-nazista... mas os trechos são do livro A Civic Biology,[1] de George William Hunter (p. 261-263). Esse era o livro de biologia de ensino médio que estava em questão no famoso Julgamento de Scopes, em 1925.[2] Era o livro pró-evolucionista que as forças progressistas lideradas pelo advogado Clarence Darrow defendiam contra os “fundamentalistas” representados pelo advogado William Jennings Bryan. Seria esclarecedor ouvir esses trechos acima sendo ditos pelo ator Spencer Tracy (no papel que faz referência a Clarence Darrow, o advogado progressista) naquela megapeça de propaganda hollywoodiana, O Vento Será Tua Herança.[3] Pena que foram cortados!

O ponto aqui é que o pensamento pró-eugenia não foi algo anexado a Darwin por brutamontes alemães fardados da década de 1930; ao contrário, era e é uma implicação direta da teoria evolucionista de Darwin, que ele mesmo enfatiza em seu livro A Descendência do Homem. Na segunda metade do século 19 e na primeira metade do século 20, a eugenia era famosa não apenas na Alemanha, como também em muitas partes da Europa e da América, considerada uma implicação legítima dos estudos de Darwin, porque ele próprio fez essa dedução e, portanto, constava nos livros e materiais didáticos de biologia – inclusive na América.

Para sermos justos com Darwin, ele recuou e não sugeriu explicitamente o extermínio direto (como fez Hunter em A Civic Biology, ainda que relutantemente), mas não porque a misericórdia seja algo incondicionalmente bom. Afinal de contas, a misericórdia é nada mais que um subproduto de forças evolutivas cegas, meramente um “resultado acidental do instinto de compaixão, originalmente adquirido como parte dos instintos sociais” (The Descent of Men, parte I, cap. 5, p. 168).

Traduzindo: Darwin acreditava que a moralidade não era nem algo natural, nem dado por Deus, mas resultado da seleção natural. Quaisquer ações, atitudes ou paixões que contribuíssem para a sobrevivência de um indivíduo ou grupo eram naturalmente selecionadas. Como os que andam em bando podem facilmente sobrepujar os solitários, o “instinto social” é naturalmente selecionado. Dentro do instinto social, há um “subtraço”: a compaixão, que nos faz ficar tristes ou desconfortáveis com o sofrimento ou o extermínio alheio. Segundo Darwin, em algum lugar do mundo a compaixão contribuiu mais para a sobrevivência do que a selvageria e, conforme a lei da seleção natural, “aquelas comunidades, nas quais se via um grande número de membros dotados de compaixão, eram [portanto] as que floresciam melhor e carregavam o maior número de crias” (Ibid., parte I, cap. 3, p. 82).

Mas lembre-se de que a compaixão não é considerada algo essencialmente bom; veio de variações genéticas aleatórias e indiferentes, tão moral quanto ser ruivo, ter olhos azuis ou mandíbula proeminente. Para Darwin, aquilo que chamamos de “moral” são simples traços que, de algum modo, contribuíram para a sobrevivência dos nossos antepassados. O estranho é: Darwin chegou a dizer que não podemos “restringir nossa compaixão, se a isso formos forçados pela dura racionalização, sem que deterioremos a parte mais nobre de nossa natureza”. Estranho, porque a evolução não visava a nenhum fim nobre, mas ao uso de traços específicos em circunstâncias específicas; ainda que a compaixão tenha ajudado a unir certo grupo de pessoas, poderia se tornar um perigo para eles quando a carga de “inaptos” suportada se torna tão pesada que os prejudique seriamente num conflito com outro grupo de pessoas que não carrega esse fardo da compaixão.

Por alguma razão, Darwin não estava disposto a arcar com as consequências da própria teoria. “Portanto, devemos suportar sem reclamar”, ele escreve, com um ar melancólico, “os efeitos sem dúvida maléficos da sobrevivência e da propagação dos mais fracos.” No entanto, sugere que “os membros mais fracos e inferiores da sociedade” poderiam pelo menos se conter e não “se casarem livremente como o vento”, ou melhor ainda, poderiam “abster-se do casamento” completamente.

Como qualquer um familiarizado com a história do movimento pró-eugenia sabe, o encanto de Darwin com a compaixão foi logo abandonado, e a dura racionalização prevaleceu. Em todo caso, isso não significa que Darwin saiu de moda. Os argumentos pró-eugenia, ferrenhos o quanto fossem, continuaram bem conformados aos princípios darwinistas e eram defendidos por algumas das mentes mais celebradas da Europa e da América.[4]

A eugenia darwiniana guarda outra reviravolta interessante. Nós frequentemente ouvimos falar de sua antipatia quanto à escravidão, e portanto assumimos que ele jamais assumiria posições racistas. De fato, parecia que o racismo seria anulado pelo avanço evolutivo da compaixão. Nas inspiradoras palavras de Darwin (The Descent of Men, parte I, cap. 3, p. 103):

“Conforme o homem vem avançando gradualmente em poder intelectual, tornando-se capaz de traçar as consequências mais remotas de suas ações; conforme vem adquirindo o conhecimento suficiente para rejeitar costumes nocivos e superstições; conforme vem respeitando mais e mais não apenas o bem-estar, como também a felicidade de seus colegas de espécie; conforme vem se habituando, através de boas experiências, boa instrução e bons exemplos, a tornar sua compaixão ainda mais tenra e difundida, o bastante para abarcar todas as raças humanas, os deficientes físicos e mentais e outros membros inúteis da sociedade, até finalmente alcançar os animais inferiores – assim aumenta mais e mais o padrão de sua moralidade.”

Por mais belas que soem tais palavras, há dois poréns. Primeiro: há poucos conceitos morais tão escorregadios quanto o de compaixão. No melhor dos casos, pode substituir a bondade nas ações humanas pela mera simpatia (“mas mesmo um ladrão pode ser bem educado”, lembra Wiker). No pior dos casos, ele apaga todos os limites entre os seres humanos e todos os outros seres viventes. Ao tentar tratar todos os seres vivos como partes de um todo moral, acaba invertendo toda a ordem moral e ainda arrasta junto dela a ordem natural. O resultado é o ativista dos direitos dos animais que, transbordando de compaixão pelos chimpanzés, destrói clínicas e clínicas de pesquisa médica.

Esse aspecto escorregadio da compaixão escora-se no argumento central do livro A Descendência do Homem: o pressuposto de que os seres humanos não são senão mais uma espécie animal dentro do espectro evolutivo. Se somos apenas mais uma espécie animal e nossos traços “morais” são como qualquer outro traço evolutivo, então não somos moralmente diferentes de nenhuma outra espécie animal. E, de fato, conforme o argumento de Darwin em inúmeras passagens, os animais possuiriam algo como traços morais também, que difeririam dos nossos em grau, mas não em natureza.

Seja considerando-nos amorais ou considerando os animais como sujeitos morais, a diferença moral entre os seres humanos e o restante dos animais torna-se esfumaçada, se não completamente apagada. É o que levou os ativistas dos direitos animais à conclusão de que, se os seres humanos têm direitos, os animais também têm. A lógica é simples: a compaixão é o traço moral mais importante; ter compaixão é sentir-se mal com o sofrimento alheio; animais não só sofrem, como também dão sinais de que sentem compaixão; portanto, eles são tão morais quanto nós, e se nós temos direitos, eles também devem tê-los. Bem que alguém poderia pensar que, se nós cometemos falhas morais, então os animais também devem cometê-las; no entanto, os ativistas dos direitos animais não estendem a culpa moral ao resto do reino animal. Wiker jocosamente lamenta que nem ao menos um desses ativistas vá às fazendas para protestar contra o tratamento brutal que os galos dão às suas companheiras galinhas...

O segundo porém vem do próprio Darwin. No esquema darwiniano, a compaixão é apenas um dos variados efeitos da seleção natural. A raça é outro deles. As diferentes raças de homens são como as diferentes raças de cachorro. Elas são o resultado de desenvolvimentos evolutivos divergentes. Compreende-se de modo mais adequado as distintas raças humanas – Darwin nos informa – considerando-as como “subespécies”, ou seja, em algum lugar da transição entre raças distintas e espécies distintas (Ibid., parte I, cap. 7, p. 235).

Para Darwin, conforme o tempo passar, a diferença entre as raças humanas levará à evolução de espécies totalmente diferentes. Não que isso vá ocorrer quando os chineses tornarem-se uma nova espécie, enquanto os ingleses e os africanos se tornarão outras, mas sim quando houver a eliminação de algumas raças pelas mãos de outras, de acordo com a lei da sobrevivência do mais forte. É uma das leis da evolução a de que espécies e subespécies mais parecidas entre si são as mais propensas a entrarem em conflito, e, portanto, numa série de espécies ou subespécies parecidas que se tome de um espectro maior – composto, digamos, das espécies A, B, C, D, E, F, G e H –, as “do meio” serão espremidas para fora do combate pelas duas mais distantes e distintas (no caso, A e H), que sobreviverão como as mais aptas. Essa mesma regra aplica-se às raças humanas também, e devemos nos lembrar de que, para Darwin, as raças humanas existem dentro de um espectro evolutivo mais amplo, no qual se incluem os gorilas, os orangotangos, os chimpanzés e cia.

Aí vem a pior parte. A evolução se dá através da competição, e a competição traz a extinção. De fato, Darwin nota que “a extinção segue-se prioritariamente à competição de tribo com tribo, raça com raça [...]. Quando nações civilizadas entram em choque com bárbaros, o combate é curto, exceto quando uma condição climática favorece a raça dos nativos” (Ibid., parte I, cap. 7, p. 238). Não é uma reclamação moralista; é uma descrição científica notável, pronunciada sem o menor traço de exaltação. E é também uma profecia (Ibid., parte I, cap. 6, p. 201):

“Num período futuro, não muito distante se formos medir em séculos, as raças humanas civilizadas irão, com quase certeza, exterminar e substituir, ao redor do mundo, as raças mais selvagens. Ao mesmo tempo, os macacos antropomórficos [ou seja, os que mais se parecem com homens] [...] sem dúvida serão exterminados. O intervalo será maior, então, pois que se estenderá entre o homem num estado mais civilizado ainda – esperamos – do que o caucasiano de hoje e, no outro extremo, algum macaco inferior, como um babuíno, ao invés de, como é hoje, o negro, o aborígene australiano e o gorila.

Entendeu? No ranking das raças humanas, encontramos no topo o caucasiano, e na extremidade inferior, pendendo no limite da humanidade, “o negro, o aborígene australiano”, que, na escala evolucionária, estão a um fio de cabelo do gorila antropomórfico. Ao puxar para cima o supercaucasiano, a evolução também extermina todas as “espécies intermediárias”, e então a seleção natural dará conta do negro, do aborígene australiano e do gorila.

“O problema com as profecias científicas, especialmente as pseudoprofecias científicas” – alerta John Wiker – “é que elas são muito frequentemente tomadas como destino inevitável.” Não é bom apoiar-se na opinião de Darwin a respeito da compaixão para tentar isentá-lo da culpa pela eugenia atroz e racista praticada pelos nazistas. Após ler A Descendência do Homem, não se pode dizer que Darwin não tinha a intenção de que a teoria biológica da evolução fosse aplicada aos seres humanos. Tampouco se pode desconsiderar suas palavras maliciosas, e dizer: “Ele foi apenas um homem de seu tempo”; foi Darwin quem moldou o seu tempo – e, como podemos ver nos capítulos seguintes do 10 Livros, moldou também o tempo daqueles que o sucederam.

(Adaptado por Roberto Felippe Santiago do capítulo 7 de 10 Livros que Estragaram o Mundo)

[1] G. W. Hunter (1873-1948), “Biologia civilizacional”, em tradução livre. Foi publicado nos EUA primeiramente em 1914 (pela American Book Company), mas foi em 1925 que o estado americano de Tennessee impôs que os professores de ensino médio de suas escolas públicas utilizassem-no em suas aulas de biologia. O livro ficou conhecido justamente pelas seções – polêmicas, para dizer o mínimo – em que tratava do evolucionismo – NT.

[2] Em 1925, meses antes de o estado americano de Tennessee impor que os professores de ensino médio da rede pública usassem o livro de G. W. Hunter, A Civic Biology, em suas aulas de biologia (v. nota anterior), o mesmo estado havia aprovado uma lei, conhecida como The Butler Act (algo como “a Lei Butler”), pela qual proibia o ensino da Teoria da Evolução em todas as universidades e escolas públicas de Tennessee que fossem total ou parcialmente bancadas pelos fundos estatais, e instituía a penalização dos infratores; em suas seções, a lei especificamente proibia o ensino de qualquer teoria que negasse o relato bíblico do Gênesis a respeito da criação do homem e, ao invés disso, ensinasse que o homem evoluiu de espécies animais inferiores – a penalização para os infratores variaria entre U$100 e U$500 (o texto integral da lei, em inglês, pode ser conferido aqui, junto de sua revogação, que veio em 1967). A União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU, em inglês), em resposta à instituição dessa lei (que, diziam, feria as liberdades dos professores), bancou o professor substituto de biologia John Scopes para que ele atentasse contra a Lei Butler e usasse o A Civic Biology em suas aulas sobre evolucionismo, o que ele fez, sendo em seguida acusado pelo estado, num processo-teste programado mesmo para ser um mega-acontecimento com transmissão nacional pelo rádio, no qual ele seria representado pela bancada progressista da ACLU, liderada pelo famoso advogado Clarence Darrow, e o estado seria representado por outro famoso advogado, três vezes candidato a Presidente da República, William Jennings Bryan. No fim, o veredicto primeiro da corte foi que John Scopes era culpado e teria de pagar U$100 pela infração; no entanto, o veredicto foi logo revisto e, por uma questão técnica menor (a de que era obrigação do júri, e não da corte, estabelecer o valor da multa), Scopes foi inocentado. O caso, porém (que ficou conhecido como “The Monkey Trial”), já tinha atingido seu objetivo de popularizar a questão criacionismo x evolucionismo em nível nacional e teve repercussões assombrosas, chegando a ser considerado como um dos maiores responsáveis pelo costume que se criou no país de se ridicularizar as argumentações religiosas contrárias à Teoria da Evolução (cf. Edward J. Larson, Summer for the Gods: The Scopes Trialand America’s Continuing Debate over Science and Religion, New York: Basic Books, 1997) – NT.

[3] O título do filme, em inglês, é Inherit the Wind (1960), que originalmente é uma peça que representa o Julgamento de Scopes. Foi escrita em 1955 e ganhou várias adaptações no cinema e na televisão. Nessa de 1960, o celebrado ator americano Spencer Tracy interpreta uma personagem chamada Henry Drummond, que é a representação do advogado Clarence Darrow. O jornalista polêmico H. L. Mencken (v. nota anterior) também está representado no filme pela personagem E. K. Hornbeck, interpretada pelo celebrado Gene Kelly (de Cantando na Chuva) – NT.

[4] Aqueles que ainda querem acreditar que a eugenia só foi cozida mais tarde por Hitler e alguns de seus comparsas simiescos da S.S. devem ler: Richard Weikart, From Darwin to Hitler: Evolutionary Ethics, Eugenics, and Racism in Germany, New York: Palgrave Macmillan, 2004; Edwin Black, War Against the Weak: Eugenics and America’s Campaign to Create a Master Race, New York: Four Walls Eight Windows, 2003; e Stefan Kühl, The Nazi Connection: Eugenics, American Racism, and German National Socialism, Oxford: Oxford University Press, 1994.

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