sexta-feira, fevereiro 23, 2018

A notoriedade de Ellen White e suas contribuições para a ciência

Enquanto eu ainda estava deitado pela manhã, me veio à mente a ideia de escrever sobre um assunto um tanto quanto polêmico: a famigerada escritora norte-americana Ellen G. White (EGW). Quem acompanha meu trabalho sabe que eu nunca me interessei em escrever especificamente acerca dessa ilustre mulher. Aliás, vou abrir meu coração para você: eu não sou exatamente um “estudioso” das obras de Ellen tanto quanto devem ser os outros colunistas deste blog; não sei muito de sua biografia, conheço pontualmente assuntos tratados por ela em apenas alguns campos. Por isso acredito que eu seja a pessoa ideal, pelo menos entre os colunistas deste blog, para analisar o tema a ser discutido neste artigo.

Exemplos de preconceito ao se mencionar Ellen

Tenho observado de perto o preconceito gerado quando se menciona o nome de Ellen White em grupos e comunidades criacionistas nas redes sociais. Só para citar alguns poucos exemplos, são frequentes comentários do tipo: “Ellen White, é sério isso? Nem pretendo ler”, “Ellen White falou um monte de baboseira”, “Você acha que vou usá-la como base científica? Nunca!”, ou: “Usar Ellen White como base científica é forçar a barra.” E por aí vai.

Isso sempre me causou estranheza e despertou curiosidade. Aqui vai uma pergunta retórica: Se em grupos como esses são mencionadas fontes bibliográficas de autores cristãos diversos a fim de apoiar argumentos criacionistas, por que a simples menção aos escritos de EGW gera tanta revolta? Bem, essa foi a curiosa comoção causada, em um grupo de assuntos criacionista, por uma recente matéria postada neste blog, intitulada “Pesquisas com híbridos reforçam o que Ellen White escreveu no século 19”.

O autor da matéria, jornalista Michelson Borges, teve que se justificar quando confrontado por criacionistas não adventistas, fazendo a seguinte réplica:
“Não a coloquei como ‘base’ de nada. Apenas disse que uma afirmação que ela fez no século 19 aparentemente foi confirmada pela ciência, como muitas outras. Em anos recentes, os cientistas estão fazendo experiências de hibridização de espécies diferentes, coisa impensável poucos anos atrás, antes da era da engenharia genética. Curiosamente, uma escritora do século 19 tocou nesse assunto e, obviamente, foi mal compreendida na época. Hoje se constata que ela tinha razão. Só isso. Não a usei como ‘referência científica’ de nada. Pelo contrário: parti da descoberta científica e apontei para um texto antigo em que ela falava a mesma coisa. Se em lugar de ter sido EGW fosse Agostinho, ou Calvino, ou Lutero, ou mesmo, vá lá, Nostradamus, qual teria sido a reação ao post? Um dos conselhos importantes de Paulo é este: ‘Não desprezem as profecias. Analisem tudo, retenham o que for bom’ (1Ts 5:20, 21). A atitude de um pesquisador honesto da verdade é sempre conceder o benefício da dúvida e seguir as evidências, levem aonde levar.”

Contudo, é importante fazer aqui uma ressalva a fim de não cairmos em generalizações desnecessárias: nem todo criacionista não adventista apresenta essa postura de repulsa e preconceito. Dois bons exemplos podem ser vistos nos seguintes comentários equilibrados e de bom senso, escritos naquele mesmo grupo:

“O que importa é se a fonte é passível de verificação científica, seja ela Ellen White ou qualquer outro. Se ela é passível de observação, experimentação, formulação de hipóteses ou previsibilidade. Não sou adventista, mas vejo o quanto a Igreja Adventista tem contribuído no campo científico” (Zenaldo Marinho, secretário de Agricultura de Campina Grande).

 “Não sou adventista, porém acho que podemos usar qualquer autor iluminado por Deus em nossas citações. Se eu postar algo citado por Max Lucado, ficará melhor? Temos que ver se o problema é com a autora ou com a denominação a qual ela representa. O segundo é preconceito” (Alexandre Kretzschmar, pentecostal, autor do livro Onze de Gênesis).

Como afirma o professor adjunto do Departamento de Química da Universidade Estadual Vale do Acaraú, Dr. Draulio Sales, “independentemente de ser Ellen White ou qualquer outro escritor, faz parte de um pesquisador, independentemente de ser criacionista ou evolucionista, ler qualquer material para opinar sobre ele. Às vezes, queremos que os evolucionistas respeitem nossas leituras e posições (muitos também não querem ler), mas agimos com preconceito da mesma forma”.

Para Glauber Araújo, pastor, mestre em Ciências da Religião e editor de livros na Casa Publicadora Brasileira, “todo criacionista (adventista ou não) precisa conhecer e ter os escritos de Ellen White, considerando a forma como ela influenciou o surgimento desse movimento do qual hoje participamos. O historiador da ciência Ronald Numbers discute a questão da história e do surgimento do criacionismo, especialmente em seu esforço moderno de conciliar o livro de Gênesis com as teorias científicas. No capítulo em que ele fala sobre George McCready Price, é discutido o papel influenciador de Ellen White sobre Price, e a forma como ele tentou comprovar a posição criacionista de White usando o conhecimento que ele tinha de geologia. Embora Ellen White não seja aceita como profetisa por todos os criacionistas, se o link que Numbers faz entre Price e White é realmente válido, devemos colocar Ellen White como uma das principais influenciadoras do criacionismo moderno. Embora a produção literária de White não seja ‘científica’, no sentido estrito da palavra, seu poder de influência sobre o criacionismo americano não pode ser simplesmente descartado. Se a tese de Numbers realmente se confirma, um criacionista que nunca leu o que White falou sobre criacionismo seria a mesma coisa que um metodista que nunca leu John Wesley, ou um presbiteriano que nunca leu João Calvino”.

Talvez o problema esteja no preconceito em relação a ela ser ou não uma profetisa, e não em relação as suas declarações pertinentes que contribuíram com as diversas áreas do conhecimento humano. Segundo Leonardo Souza, estudante de Teologia do Instituto Adventista Paranaense (IAP), “não há nada de errado em demonstrar que a ciência atual confirma coisas que ela [Ellen White] já havia falado. Precisamos ter cuidado para que o preconceito contra as declarações proféticas dela não nos faça confundir as coisas como se ela fosse menos que qualquer outro autor devocional, com declarações extremamente pertinentes para várias áreas do conhecimento e reconhecidas por varias entidades não adventistas”.

A influência de Ellen nas diversas áreas do conhecimento

Influência na sociedade - Foi divulgada em novembro uma inusitada lista com os nomes dos 100 norte-americanos mais influentes de todos os tempos. A listagem é um trabalho da Smithsonian Magazine, uma publicação que pertence ao Smithsonian Institute, e inclui a escritora adventista Ellen White. (Saiba mais na matéria “Ellen White na lista de americanos mais influentes”.) Inclusive a Universidade de Oxford, uma renomada instituição de ensino, publicou uma obra sobre Ellen White intitulada Ellen Harmon White: American prophet.

Educação e saúde - “O sistema educacional adventista, as inúmeras clínicas e os hospitais de referência (como o de Loma Linda), bem como a ênfase criacionista que a IASD mantém, você acha que vêm em grande parte a partir dos conselhos de quem? No mínimo um pouquinho de respeito em relação a estas contribuições seria bem-vindo”, pediu Michelson Borges no referido debate no grupo criacionista.

“Principalmente em matéria de saúde e qualidade de vida, a igreja foi pioneira graças a ela, numa época em que se fechavam as janelas e se trancavam no quarto para curar gripe, ou praticavam sangria para curar s febre. É surpreendente todo esse conhecimento sendo escrito por uma mulher que não terminou a quarta série do primário”, disse Isaias de Almeida, bacharel em Teologia Faculdade Adventista da Bahia.

Geologia e paleontologia - Para os amantes de Geologia, Paleontologia e ciências naturais, existe um livro gratuito intitulado Geologia e Ciências Naturais: Declarações de Ellen White, editado pela Unaspress.

“O interessante é que cientistas criacionistas não adventistas chegaram às mesmas conclusões que Ellen White, inspirada por Deus, ao escrever sobre como se formou o petróleo, como se deu a formação praticamente instantânea de fósseis no dilúvio, a questão da geologia da Terra antes e após o dilúvio, etc.”, disse também Isaias.

Física, Cosmologia e mais saúde - Vejamos alguns comentários bem interessantes de pesquisadores acerca desse tema. O astrônomo Josué Cardoso dos Santos, embaixador da Osiris-Rex Sample Return Mission, coordenada pela Universidade do Arizona, diz:
“É importante ressaltar também outros aspectos, tais como o espaço aberto em Órion [ver a matéria “A beleza e os mistérios de Órion”], o sistema nervoso e tumores causados por determinados tipos de alimento que só foram descobertos nos séculos 20 e 21. No tempo dela, muitas dessas coisas eram loucura e impossíveis de se verificar. Por isso, é importante ressaltar e valorizar as contribuições dela e de tantos outros para a causa criacionista. Só podemos enxergar mais longe estando sobre os ombros de gigantes! Entendo quão relevantes foram as respostas e informações que a cosmovisão biblico-criacionista dela nos deram. Sem dúvida, proveu assim um embasamento e suporte para todos nós, de que é essa a mais fidedigna visão de mundo. Esse é um ponto sobre o qual qualquer criacionista pode concordar razoavelmente bem.”

O físico Dr. Cleomacio da Silva, professor adjunto da Escola Politécnica da Universidade de Pernambuco (UPE), faz a seguinte declaração: “As afirmações de Ellen White sobre Deus não violam Suas leis naturais, estão de acordo com estudos realizados por físicos, como Tipler. Como foi Tipler que disse, o mundo aplaudiu, mas, quando Ellen White fala, as críticas surgem. Estudei e estudo os escritos de Ellen White, e todas as suas afirmações são verdadeiras. Afirmo que, aos 53 anos, tenho vitalidade de um jovem, por seguir seus conselhos sobre saúde.”

Para finalizar, deixo mais um comentário pertinente do idealizador e mantenedor deste blog acerca da importância de lermos e pormos à prova, antes de rejeitarmos a priori por preconceitos, as informações úteis de Ellen White: “Precisamos conhecer bem o que rejeitamos, antes de rejeitar, e conceder o benefício da dúvida, especialmente quando as evidências são fortes. O fato é que, se ela realmente foi inspirada por Deus e eu a rejeitar sem conhecer seus escritos, estarei perdendo grandes oportunidades de ter contato com um conhecimento útil; se ela não foi inspirada, estudar o que ela escreveu representará apenas perda de tempo (ou não...). O que se exige do cristão é que, antes de descartar qualquer pretenso profeta, o submeta aos testes bíblicos, a fim de evitar dois problemas: (1) rejeitar um verdadeiro profeta ou (2) aceitar um falso. Para finalizar, algo que me chama a atenção: especialmente nossos irmãos pentecostais dão muito valor às profecias (o que não está errado, evidentemente) e aceitam muitas pessoas como sendo profetas hoje em dia (mesmo pessoas cujas profecias falham, o que é uma reprovação óbvia no primeiro requisito/teste). Mas, para alguns desses, quando se fala em Ellen White, é um Deus nos acuda! Não entendo isso, a não ser por uma coisa: preconceito. Meu conselho aos duvidosos é: em lugar de ficar assistindo a vídeos com críticas infundadas aos adventistas e a Ellen White ou reproduzindo ataques, vão à fonte. Leiam o que ela escreveu. Se estiver em desacordo com a Bíblia e a ciência, descarte. Mas, se estiver de acordo, agradeça a Deus pelo presente.”

(Everton Fernando Alves é mestre e Ciências pela UEM, autor dos livros Teoria do Design Inteligente e Revisitando as Origens e editor-chefe da revista Origem em Revista)