quarta-feira, fevereiro 08, 2017

Gênesis 1: Universo jovem ou vida jovem?

Como entender o que o Gênesis diz?
Têm sido propostos dois modelos para a criação do Universo:

Modelo da Terra Jovem: o primeiro modelo, em geral, defende a criação da Terra – incluindo a sua modelagem para ter as condições necessárias para a existência da vida, bem como a própria vida em todas as suas manifestações – em seis dias, na semana da Criação, juntamente com a criação do Universo e do nosso Sistema Solar. Nesse primeiro caso, a semana da Criação corresponde, portanto, ao período da criação do Universo, juntamente com a modelagem da Terra para abrigar a vida, tendo os demais planetas e luas do Sistema Solar (criados nessa semana simultaneamente com a Terra) permanecido sem forma e vazios.[1: p. 23]

Modelo do intervalo passivo: em seu livro Origens, o zoólogo e paleontólogo Dr. Ariel Roth, ex-diretor do Geoscience Research Institute, nos informa que esse modelo é considerado uma variação do criacionismo da Terra Jovem.[2: p. 330] O modelo defende que Deus criou o Universo (espaço-tempo), estrelas e sistemas planetários, incluso a matéria da Terra (partículas elementares) em eras anteriores (época indeterminada), mas preparou a Terra para a vida e criou a vida somente poucos milhares de anos atrás, em seis dias (note a semelhança com o modelo geral da Terra Jovem).[3]

Nesse segundo caso, a semana da Criação relatada em Gênesis corresponde, portanto, somente ao período de modelagem da Terra (que sucedeu o período indeterminado desde a criação do Universo) para ter as condições necessárias para a existência da vida, bem como a própria vida em todas as suas manifestações.[4, 5] Nesse segundo caso, ainda, os demais planetas e luas do Sistema Solar teriam permanecido em seu estado original, sem forma e vazios, como eram desde o início da época indeterminada que precedeu a semana da Criação.[1: p. 23]

Richard Davidson, professor de Antigo Testamento da Universidade Adventista de Andrews, afirmou em artigo publicado na Revista da Sociedade Teológica Adventista que “várias considerações [o] levam a preferir o ‘intervalo passivo’ em relação ao modelo ‘sem intervalo’ [Terra jovem].”[6: p. 21; 7] Ademais, outros teólogos adventistas também concordam que um padrão de criação divina em dois estágios emerge de uma análise escriturística.[3, 5, 8, 9]

Dr. Ruben Aguillar, professor de Antigo Testamento da Faculdade Adventista de Teologia do Centro Universitário Adventista de São Paulo (UNASP) comenta sobre a relação do verso 1 de Gênesis com o modelo do intervalo passivo: “uma das palavras da Bíblia Hebraica bem estudadas e que ao mesmo tempo provoca interpretações polemicas é aquela com a qual começa o relato do Gênesis: bereshith, ‘no princípio’. A primeira sílaba é uma preposição inseparável traduzida sem dificuldades como ‘em’. Na língua portuguesa aparece acrescido com o artigo ‘o’ e que resulta em “no”. O termo reshith, traduzido como ‘principio’, encontra sua raiz no vocábulo r’osh, ‘cabeça’. Segundo o léxico hebraico, esse termo significa também: ‘começo’, ‘tempo primordial’, ‘estado primordial’, ‘tempo remoto’, ‘primeiro da sua classe’ em relação a tempo. Auxiliado pelas alternativas de tradução que o léxico apresenta o primeiro verso de Gênesis pode ser assim traduzido: ‘no tempo primordial Deus criou’, ou também ‘no tempo remoto Deus criou’; que concede ao verso um sentido de antiguidade de maior profundidade em termos de expressão temporal.”[10: p.15]

Professor Aguillar acrescenta que a análise do verso 2 de Gênesis reforça um entendimento coerente acerca da criação em dois estágios: “a ideia do intervalo passivo se fortalece ao analisar o verso 2 no texto hebraico, onde aparecem as palavras tohu vabohu, ‘sem forma e vazia’, sobre as quais está inserido o acento gramatical rebi’a. Os acentos na língua hebraica tem a função de relacionar uma palavra com as outras. Essa relação pode ser de união ou de separação. O acento rebi’a, que aparece nas palavras mencionadas é disjuntivo, da segunda classe superior, ou seja, a sua função é fazer separação ou indicar pausa. Observando através dessa lente, pode-se ver que a frase ‘estava sem forma e vazia’ faz separação entre as frases ‘no princípio criou Deus os céus e a terra’ do verso 1, com as que descrevem a semana da criação.”[10: p.13]

Para fins de esclarecimento, é importante mencionar que o modelo do intervalo passivo, citado acima, não deve ser confundido com o modelo do intervalo ativo (também chamado de Ruína-Restauração), proposto por Thomas Chalmers (1780-1847), famoso teólogo escocês, o qual defendia – sem qualquer evidência direta, científica ou escriturística – que a vida teria sido criada por Deus na Terra em passado distante pré-adâmico.[2: p. 330; 11] Segundo a página ADVindicate, editada pelo geólogo Monte Fleming, doutorando em Geologia pela Universidade de Loma Linda, esse modelo ainda diz que, após Satanás ter sido julgado, ele teria sido arremessado à Terra e destruído essa vida pré-adâmica supostamente existente. Essa destruição teria finalmente sido seguida pela criação descrita em Gênesis 1 e 2.[11]

Um problema frequentemente associado a ambos os modelos criacionistas (Terra Jovem e Intervalo Passivo) devido à ignorância, primeiro por parte de seus defensores leigos; depois, por parte de seus opositores, diz respeito à questão da criação da “luz” durante a semana da Criação.[2: p. 308] Muitas pessoas se utilizam do argumento de que Deus teria “criado” os luminares somente no quarto dia (Gênesis 1:14). Mas uma análise alternativa nos mostra que Deus poderia já ter criado a luz no primeiro dia (Gênesis 1:3); portanto, nesse sentido, o sistema solar já existia.

O erguimento parcial de uma densa nuvem no primeiro dia da semana da criação iluminou a Terra, porém, o Sol, a Lua e as estrelas, embora presentes, não eram visíveis a partir da Terra. A luz era semelhante à de um dia muito nublado. Uma retirada completa da cobertura de nuvens, no quarto dia, fez com que o Sol, a Lua e as estrelas, preexistentes, se tornassem plenamente visíveis da superfície da Terra. Daí os luminares serem mencionados somente no quarto dia. Ou então o Sol e a Lua podem ter sido criados no quarto dia, ao contrário das demais estrelas, que são mencionadas de forma parentética por Moisés, indicando que elas já existiam.

Os dois primeiros versos do livro de Gênesis também possibilitam uma segunda interpretação aceita, diga-se de passagem. por uma parcela significativa de adventistas criacionistas.[2: p. 309-310] A ideia aqui é a de que a declaração “Deus criou os céus e a Terra”, no verso 1 de Gênesis, diz respeito a um pequeno resumo ou introdução sobre o relato da criação da Terra e arredores que viria a seguir, acompanhada pela descrição, no versículo 2, de que “a Terra era sem forma e vazia e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas”. Isto indicaria materialidade anterior à semana da Criação, embora não estivesse diretamente relacionado a questões sobre o Universo (espaço-tempo). Essa descrição se aplica coerentemente a uma Terra pré-existente, sinalizando, indiretamente, que o Universo foi criado antes da semana da criação, juntamente com o tempo.

A maioria das traduções bíblicas propicia, de fato, uma afirmação ambígua, em vista de que o hebraico dos manuscritos bíblicos dá margem a mais de uma interpretação. No entanto, a descrição de uma Terra vazia, envolvida em trevas originais, é reforçada por descrições semelhantes em outras passagens bíblicas que falam de uma Terra original envolvida em “escuridão” (Jó 38:9) com uma veste de nuvens, e de uma Terra que “surgiu da água” (2 Pedro 3:5).

Em artigo publicado na Revista Adventista pelo pastor e mestre em Ciências da Religião Glauber Araújo vemos a explicação de que “acreditar que o Universo seja mais antigo do que a vida em nosso planeta não tem que ver com o pensamento evolucionista, mas com as evidências bíblicas”.[12: p.20] Isso corrobora o que ponderou John Lennox, declarado criacionista e professor de matemática da Universidade de Oxford, no livro Seven Days That Divide the World: “É logicamente possível crer nos dias de Gênesis como de 24 horas (ou uma semana terrestre) e crer que o Universo é antigo. E [...] isso não tem nada que ver com ciência. Tem que ver com o que o texto está de fato nos dizendo” (p. 53).

O professor Richard Davidson [13: p. 51], no livro He Spoke and It Was, afirma ainda que as “análises recentes do discurso de Gênesis 1 [...] indicam que a gramática do discurso desses versículos aponta para uma criação em dois estágios. A história principal não começa antes do versículo 3. Isso implica uma condição anterior dos ‘céus e Terra’ em seu estado ‘sem forma e vazio’, antes do início da semana da criação”.

Partindo dessa visão, Provérbios 8:26 diz que houve uma época em que nem sequer o princípio do pó deste mundo existia. O livro de Hebreus 11:3 diz que Deus criou as eras (tempo, eternidade). Ainda sobre o tempo, o astrofísico Eduardo Lütz afirma que “o tempo é um dos atributos do Universo. Existe uma profunda conexão entre a criação do tempo e a criação do Universo, não tem como separá-los. Se o tempo não teve um início, Deus não criou o que chamamos hoje de Universo, pois o tempo depende do Universo para existir”. Em outras palavras, segundo o astrofísico, “tempo pode existir sem matéria, mas matéria não pode existir sem tempo”.

O livro de Jó também aponta nessa direção. Ali encontramos dois textos que claramente sugerem a existência de outros seres criados além de nós (leia mais sobre isso aqui). Em primeiro lugar, quando Satanás compareceu perante o Senhor (Jó 1:6, 7), o texto faz referência a outros “filhos de Deus”, dando a entender que nosso planeta não era o único habitado.[12] É claro que, como afirma o astrofísico Eduardo Lütz, “a identidade dos ‘filhos de Deus’ em Jó 38:7 não é relevante para o argumento de que a Bíblia sugere a existência do Universo antes da criação da Terra. É apenas uma curiosidade tocada de passagem. Mas o que conta é que alguém criado por Deus comemorava ‘quando’ Ele lançava os fundamentos da Terra”. Em outras palavras, segundo Lütz, Jó 38:7 contradiz a interpretação de que a Terra tem a mesma idade do Universo, mas não contradiz Gênesis 1: “Não há qualquer base bíblica para se afirmar que o Universo tenha cerca de seis mil anos de idade ou que Gênesis 1 se refira à criação do Universo. Muito pelo contrário. Certos textos bíblicos (como Jó 38:4-7) sugerem que, quando o Criador ‘lançou os fundamentos da Terra’, já existiam até mesmo seres inteligentes em outras partes do Universo [como plateia]. E, mesmo que não aceitemos isso por alguma razão obscura, pelo menos precisamos reconhecer que Gênesis 1 não nos dá qualquer informação sobre quando e como o Universo foi criado.”[14: p. 6, 7]

Ao longo do meu trabalho de pesquisa e divulgação do criacionismo, tenho percebido que boa parte dos criacionistas da “Terra jovem” não consegue aceitar a interpretação de que apenas a “vida no planeta Terra seja jovem”, sendo o Universo e a matéria (partículas elementares) do planeta antigos. Mas, sem querer ser polêmico, percebemos que uma análise escriturística em conjunto com os dados atuais do conhecimento científico nos mostra que essa possibilidade existe, é razoável e deve ser introduzida na discussão sobre as origens.

Essa posição está em consonância com a declaração emitida pela Sociedade Criacionista Brasileira (SCB), órgão máximo sobre criacionismo no Brasil, em sua análise editorial, como se segue: “À luz dos conhecimentos atuais, a criação dos céus e da Terra é algo posterior à criação do Universo.” [1: p. 18] Logo, a SCB conclui: “A criação de nossa Terra de maneira nenhuma deve ser confundida com a criação do Universo.”[1: p. 23]

Em suma, portanto, a principal distinção entre a interpretação do “intervalo passivo” e a interpretação “sem intervalo” é devida à questão de quando se deu o início absoluto dos “céus e da Terra” (Gênesis 1:1).[3] Enquanto o último interpreta Gênesis 1:1, 2 como parte do primeiro dia da criação de sete dias, o primeiro interpreta Gênesis 1:1, 2 como uma unidade cronológica separada por uma lacuna no tempo do primeiro dia da criação, como descrito em Gênesis 1:3. Segundo o que nos diz o astrofísico Lütz, “não tem como provar pela Bíblia que o Universo seja jovem. Também não tentamos provar pela Bíblia que o Universo seja ‘muito’ antigo. Apenas mostramos fortes indicações de que o Universo é mais velho do que a Terra”.

Diante do exposto, a pergunta que fica é a seguinte: Você se considera um criacionista da Terra jovem convencional ou um criacionista do intervalo passivo?

(Everton F. Alves é mestre em Ciências [Imunogenética] pela UEM e diretor de ensino do Núcleo Maringaense da Sociedade Criacionista Brasileira [NUMAR-SCB]; seu e-book pode ser lido aqui)

Nota do autor: o NUMAR-SCB não tem uma posição definitiva sobre o assunto, e nem poderia bater o martelo sobre a questão de o universo ser antigo (conforme apontam as evidências escriturísticas) ou jovem (também apoiado em evidências tanto científicas quanto escriturísticas), uma vez que não se tem um consenso na comunidade teológica e, mais especificamente, na criacionista. O objetivo do texto é o de apenas apresentar ao nosso público esse modelo criacionista da Terra jovem, mas que aceita um "intervalo passivo" antes da semana da Criação literal descrita em Gênesis, e que já vem sendo discutido e aceito há décadas em outros países. Achei válido, de igual modo, inseri-lo nas discussões sobre as nossas origens aqui no Brasil. Mas é válido frisar que essa é uma área em que ainda são necessários mais estudos.

Referências:
[1] Editores. Antes da semana da criação: vida em outros planetas do sistema solar? Revista Criacionista 2003; 32(69):18-23.
[2] Roth AA. Alternativas entre a Criação e a Evolução. Capítulo 21, pp.328-41. In: Roth AA. Origens. 2. Ed. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2016.
[3] Sanghoon J. Interpretations of Genesis 1:1. Journal of Asia Adventist Seminary 2011; 14(1): 1-14.
[4] Coffin HG. Origin by Design. Hagerstown, MD: Review and Herald, 1983, 292–293.
[5] Widmer M. Older than creation week? Adventist Review 1992; 169(4):454-62.
[6] Davidson RM. The Biblical Account of Origins. Journal of the Adventist Theological Society 2003; 14(1):4-43.
[7] Davidson RM. In the Beginning: How to Interpret Genesis 1. Dialogue 1994; 6(3):9-12.
[8] Terreros MT. What is an Adventist? Someone Who Upholds Creation. Journal of the Adventist Theological Society 1996; 7(2):147–149.
[9] Moskala J. Interpretation of Bereʼšît in the context of Genesis 1:1-3. Andrews University Seminary Studies 2011; 49(1):33-44.

[10] Aguilar R. Os Céus, o Intervalo e a Semana da Criação. Parousia. 2010; 9(1):7-18.
[11] Brent Shakespeare. Esboço das teorias propostas para Gênesis 1:1-2. Advindicate (14/03/2013). Disponível em: http://advindicate.com/articles/2996
[12] Glauber Araújo. A Idade da Terra. Revista Adventista. Abril de 2016, pp. 20-23.
[13] Davidson RM. The Genesis account of origins. In: Klingbeil G. (Ed.). He spoke and it was: divine creation in the Old Testament. Oshawa: Pacific Press Publishing Association, 2015.
[14] Lütz E. O criacionismo e a grande explosão inicial. Revista Criacionista 2003; 32(69):5-17.