quarta-feira, fevereiro 12, 2014

Não amar é ser invulnerável?

Um dos alvos preferenciais dos esbirros ideológicos que patrulham a internet, o professor de filosofia Olavo de Carvalho postou em seu perfil no Facebook há alguns dias: “O humor é compatível com um certo sadismo, mas não com o ódio. A chalaça pueril, o hiperbolismo forçado e o grotesco, formas de expressão típicas do ódio, não são humorismo de maneira alguma, são a caricatura mórbida - ou até satânica - do humorismo. Só quem acha graça nisso é quem se reconhece nos maus sentimentos do artista (digamos que o seja), como um leproso que se alegra quando os dedos do vizinho começam também a cair.” Referia-se ele à escalada vertiginosa de boçalidades e baixarias do famigerado grupo Porta dos Fundos, especificamente contra os marcos civilizatórios e contra a religião cristã.

Lembrei-me da fala acima quando um amigo postou esta charge no Face:


Para quem a acha engraçada ou mesmo para quem apenas a lê, a impressão é que se trata de uma piada. Mas não é. É tão-somente militância ideológica anticristã, e para demonstrá-lo vamos desconstruir seus elementos e desvendar seu núcleo.

Para começar, uma piada demanda certa coerência lógica a ser subvertida de forma surpreendente ao final. Se tal coerência não se apresentar à partida, o resultado final já estará irreversivelmente comprometido. Depois, mesmo que essa unidade lógica preserve sua integridade, o final tem que dizer a que veio, o que é arriscado em se tratando, como veremos, de humor engajado.

Primeiro, Deus não atende vocalmente a chamados. Ele próprio estabelece Seus termos, que são extremamente rígidos. O Isaque do quadrinho ficaria a falar sozinho, como qualquer blasfemador.

Segundo, Isaque não possui a mais mínima motivação para ofender a Deus. O rapaz sabe ter sido fruto de um milagre determinado por Deus (seu pai e sua mãe tinham 99 e 90 anos quando ele foi concebido) e ainda se beneficiou grandemente com a defenestração do meio-irmão mais velho, Ismael - a mando do próprio Deus.

Terceiro, a troca de ofensas entre Deus e o menino é absolutamente ilógica, inverossímil sob qualquer hermenêutica e exegese. O deus desse quadrinho é mentalmente inferior ao de qualquer panteão, por primitivo e caricato que seja. 

Por último, por desforra, Deus exige a cabeça do moleque desaforado a Abraão. Eis, brevemente, a transcendente história que culminará não no monte Moriá, mas no Calvário.

Como os elementos cognitivos da pretensa piada naufragam de cara, resta desvendar a intensão nada sútil de seu proponente: Deus Todo-Poderoso Se comporta ali como uma criança birrenta e vingativa, não podendo ser levado a sério nem mesmo como personagem de ficção (o que extrapola até os bestiários de Richard Dawkins e tutti quanti). 

Pior: o riso barato dos apedeutas teológicos imprime em suas próprias mentes o meme de que a Revelação nada mais pode oferecer que não um mote para gracejos rasteiros. Essa lavagem cerebral é poderosíssima, pois condiciona mentes despreparadas a rejeitar, a priori, qualquer tipo de argumento religioso e ainda impedir que eles leiam o texto sagrado, com ou sem preconceitos. É uma estratégia dos diabos, ou melhor, do Diabo. Ao falsear o texto sagrado, o autor da blague não concede sequer um ponto de discussão. Como discutir algo que jamais foi proposto, uma vez que jamais poderia estar em questão? 

Eu disse a meu amigo que essa charge representa um espírito de época. De uma época que eu pude perceber já em meados de 1987. No início de agosto daquele ano, veio a falecer a filha única do poeta Carlos Drummond de Andrade, de nome Maria Julieta. No velório, o pai, devastado, desabafou: “Não tenho mais futuro. Acabou tudo para mim.” Lacerado por semelhante perda, C. S. Lewis escrevera algumas décadas antes: “Amar é estar vulnerável.” Doze dias depois, Drummond morreria de coração partido. 

Pois bem. Mal os cadáveres de pai e filha esfriaram, os humoristas do jornal Planeta Diário (que mais tarde se uniriam aos colegas da revista Casseta Popular para formar a Turma do Casseta e Planeta) estamparam em seu pasquim a foto melancólica do poeta desfilhado, tendo logo abaixo o refrão de um sucesso da época: “Julieta, tá, tá... Tá me chamando!”

Pude perceber ali que todos os parentes, colegas e amigos mais jovens que eu (eu tinha então 23 anos) estouravam de dar risada, enquanto os que eram mais velhos reagiam indignados à infâmia. Mais que isso, percebi que eu mesmo testemunhava uma fissura explicita entre duas gerações na maneira de enxergar, reagir e até contribuir para uma visão de mundo. Pareceu-me, então, com toda a força da evidência, que eu não poderia esperar da geração semicontígua à minha senão um narcisismo displicente, uma alienação risonha e uma futilidade laxista. De fato, ao tocar adiante suas existências, muitos deles optaram pela mais absoluta esterilidade de vida, pelo descompromisso e pela impossibilidade de esperar ou merecer um futuro. É exatamente este o nosso zeitgeist, o espírito da época em que vivemos.

É irônico como esperamos testemunhar o cumprimento das profecias, mas nos desconcertamos quando elas se materializam bem diante dos nossos olhos: “Não seja ingênuo. Tempos difíceis vêm por aí. À medida que o Fim se aproxima, os homens vão se tornando egocêntricos, loucos por dinheiro, fanfarrões, arrogantes, profanos, sem respeito para com os pais, cruéis, grosseiros, interesseiros, inescrupulosos, irredutíveis, caluniadores, sem autocontrole, selvagens, cínicos, traiçoeiros, impiedosos, vazios, viciados em sexo e alérgicos a Deus. Eles vão fazer da religião um espetáculo, mas nos bastidores se comportam como animais” (1 Timóteo 3:1-5, Bíblia Sagrada na versão A Mensagem, de Eugene Peterson).

(Marco Dourado, analista de sistemas formado pela UnB, com especialização em Administração em Banco de Dados)