Li
a matéria de capa da Superinteressante de junho e percebi os mesmos erros que o
pastor Luis Gustavo Assis apontou no texto dele.
E acrescentaria outros, como a questão do incesto envolvendo as filhas de Ló
(que a revista, se não me engano, atribui a Noé). O que me chamou a atenção foi
a interpretação do suposto homossexualismo entre Davi e Jônatas. Vamos
desdobrar a visão dos autores transportando-a da dupla de amigos da Bíblia para
os tempos atuais. O texto citado pela Super
para inferir a suposta paixão homossexual de Davi é este: “Eu choro por você,
meu irmão Jônatas; como eu o estimava! Como era maravilhoso o seu amor para
mim, melhor ainda do que o amor das mulheres” (2Sm 1:26, BLH).
1.
A língua hebraica possui um único termo para os diversos tipos de amor, ao
contrário do idioma grego (ágape -
amor divino, filos - amor fraternal, eros - amor sexual, storge - amor familiar). Assim, o texto original não especifica
qual tipo de amor seria, embora a própria expressão usada por Davi para se referir
a Jônatas (“meu irmão”) e as demais passagens no primeiro livro de Samuel deem
a entender que seria um amor entre fraternal e familiar.
2.
Preferir uma coisa a outra não as coloca na mesma categoria. Que eu goste mais
de ler do que correr na esteira não faz da leitura um tipo de exercício físico.
Para exemplificar melhor, indico este link que mostra uma entre várias pesquisas
feitas com homens britânicos, demonstrando o desinteresse deles pelo ato
sexual: “Uma pesquisa realizada entre dois mil ingleses, sobre as atividades
que as pessoas mais gostavam de praticar na cama, trouxe um resultado espantoso
(por ordem de preferência): (1) dormir; (2) conversar; (3) assistir TV; (4) usar
internet; (5) ler; (6) ouvir música; (7) conversar ao telefone; (8) trabalhar;
(9) jogos; (10) sexo.”
Alguém
poderia dizer: “Ah, mas os britânicos podem gostar de fazer sexo em outro lugar
que não a cama.” Ok. Vejamos outra pesquisa (clique aqui): “Mais de 50% dos ingleses sofrem de ‘tensão
pré-partida’, um fenômeno que afeta quase todas as suas atividades do dia a dia,
é o que revelou uma pesquisa divulgada na sexta-feira. [...] Finalmente, 10%
afirmam que o ritmo da vida sexual vai diminuir em função da Copa, e 25%, ou
seja, um inglês em cada quatro, garantiram que preferem ver um jogo a fazer
amor.”
Novamente
se poderia dizer: “Ah, mas esse fenômeno é sazonal, pois a Copa do Mundo dura
apenas um mês a cada quatro anos.” Ok. Mais outra pesquisa, agora
feita fora do calendário da Copa do Mundo e envolvendo os homens de todo o
continente: “Estudo realizado em 17 países da Europa pelo Centro Europeu de
Investigação de Assuntos Sociais aponta que 60% dos europeus preferem ver um
jogo de futebol a ter relações sexuais.
“Os
suecos são os mais fanáticos por esporte e menos interessados por sexo. 95% deles
responderam que nunca ou quase nunca trocariam uma partida de futebol por uma
relação sexual. Os espanhóis aparecem em segundo lugar na lista dos que deixam
o sexo para depois. 72% afirmaram que entre o futebol e as relações sexuais,
preferem ver os jogos, mesmo que seja pela televisão.
“Além
de optarem pelo futebol ao invés do sexo, 88% dos pesquisados admitiu [sic] que
já abraçou ou beijou um desconhecido durante a celebração de um evento
esportivo. A título de curiosidade, vale a pena informar que uma pesquisa
anterior já havia indicado que mais da metade das mulheres britânicas preferem
comer chocolate a fazer sexo.”
E
por aí vai. Outras pesquisas apontando resultados similares não envolvem apenas
sexo versus futebol, mas sexo versus videogames, celulares e outros
elementos da vida moderna.
Concluo
que, pela lógica dos articulistas da Superinteressante,
se um europeu típico disser algo como: “Eu choro por ti, meu amado Barcelona;
como eu te adoro! Como é maravilhoso o prazer que você me dá, melhor ainda do
que o amor das mulheres”, devemos entender que esse torcedor se excita
(homo)sexualmente ou até se masturba ao ver seu time do coração entrar em campo
- que dizer de um gol, de um vitória ou um título? Ah, sim, e essa
(homo)sexualidade poderia acabar sendo sublimada, inclusive, através de “beijar
e abraçar um desconhecido durante a celebração de um evento esportivo”.
A
Super, lógico, jamais daria uma
barrigada dessas, muito menos como matéria de capa - mesmo em se tratando de
seu filhote mais escatológico-adolescente, a revista Mundo Estranho. Senão pelo senso de ridículo, mas porque uma ilação
como essa não atenderia sua agenda neoateísta de atacar o Cristianismo.
(Marco Dourado, analista de sistemas formado pela UnB, com especialização em Administração em Banco de Dados)