sexta-feira, agosto 12, 2016

Maquiavel pedagogo ou o ministério da reforma psicológica

O livro Maquiavel Pedagogo ou o Ministério da Reforma Psicológica, escrito em 1995 pelo francês Pascal Bernardin, e publicado em 2013 pela editora Eclesiae e Vide Editorial, com tradução de Alexandre Muller Ribeiro, é um livro fundamental para todo educador, tanto para um principalmente no trabalho educacional ou aqueles que estão recém-iniciando seus estudos em pedagogia, quanto para professores que já estão inseridos nesse trabalho e que percebem a necessidade de reavaliar seus métodos e objetivos a respeito da educação. Segue-se uma breve explanação de algumas partes da obra.

Maquiavel Pedagogo trata das estratégias psicológicas usadas por entidades globais, tais como a Organização das Nações Unidas (ONU), a United Nation Educational, Scientific and Cultural Organization (Organização para a Educação, a Ciência e a Cultura das Nações Unidas – Unesco), Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), entre outras, para implementar uma revolução pedagógica com o objetivo de inserir nas sociedades em todo o mundo novos comportamentos, estruturar uma nova ética, estabelecer novos padrões de vida e valores por meio das reformas educacionais e psicológicas apresentadas em seus documentos oficiais, que lançam diretrizes a serem seguidas pelas nações de todos os continentes.

Discretamente, nessa nova ética que busca estabelecer seus padrões de comportamento tidos como “progressistas”, está contida a velha e utópica visão de mundo comunista, cujos objetivos mais antigos, mas ainda presentes, são a desestruturação da família, abolição da propriedade privada e a propagação da descrença em Deus, facilmente percebida por uma leitura rápida do Manifesto Comunista, escrito por Karl Marx e Friedrich Engels. Tais objetivos nunca foram deixados de lado por aqueles que buscam implementar essa cosmovisão. O que mudou foram suas estratégias.

Como Antonio Gramsci percebeu posteriormente, seria preciso deixar de lado a luta armada e violenta (como ocorrida na Rússia) e infiltrar, de maneira lenta e gradual, o idealismo comunista, sem jamais declarar abertamente que isso está sendo feito, usando-se sempre, então, das vias pacíficas, democráticas e constitucionais, paralisando a consciência dos indivíduos e massificando toda a sociedade com uma propaganda subliminar e imperceptível, infiltrando-se em todas as instituições das sociedades. E desde então é isso o que tem acontecido. Afastando-se, então, da antiga tática da luta armada e violenta, usa-se, entre tantas áreas, a psicologia e a pedagogia, conforme demonstra Bernardin, e até mesmo a religião para se inserirem novos valores, modificar as atitudes e condutas e, assim, de modo sutil e perspicaz, alterar os comportamentos da sociedade.

Inicialmente, Bernardin vai demonstrando quais estratégias são usadas para se gerar essa mudança de comportamento em níveis locais e globais, principalmente através dos instrumentos da psicologia e das pesquisas realizadas nessa área, aplicadas, então, em salas de aula. Analisando documentos do Instituto Universitário de Formação de Mestres (IUFMs), uma instituição francesa criada no inicio dos anos 1990 para discutir e direcionar a formação de professores, com o objetivo de aproximar nessa formação a realidade das escolas, o autor destaca quais as técnicas de manipulação psicológica que permeiam esses e outros documentos, como é o caso das diretrizes apontadas pela Unesco e ONU em relação à educação. É importante ressaltar que tais pesquisas em psicologia não tinham como objetivo seu uso na educação e, por isso, essas entidades apontadas tiveram o trabalho de destacar, reelaborar, adaptar e aplicar então essas pesquisas nas práticas pedagógicas. Assim, o autor demonstra que as psicopedagogias “se valem de métodos ativos destinados a inculcar nos estudantes os ‘valores, as atitudes e os comportamentos’ definidos de antemão. Por essa razão foram criados os IUFMs, que se empenham em ensinar essas técnicas de manipulação psicológica aos futuros professores” (p. 10). Essas manipulações psicológicas, por sua vez, têm o aspecto disfarçado de modernas práticas de ensino e aprendizagem. Vale destacar que as reformas educacionais pelas quais o Brasil passou na década de 1990 receberam significativa influência dessas entidades.

Ao longo do livro fica claro que a escola mudou seu papel nas últimas décadas. Antes de ser um local onde se forma intelectualmente um indivíduo e se desenvolvem suas capacidades cognitivas, a escola se tornou o laboratório de uma engenharia social que testa e aplica novos métodos para a formação social de crianças e adolescentes e se inserem, por meio de tais métodos, os novos (e estranhos) “valores” morais e sociais que vemos emergir a cada dia. Por isso, percebe-se em todos os países que, desde a década de 1990 passaram a seguir as orientações dessas entidades, que o nível escolar continua e continuará decaindo. Cada vez mais se aprende menos na escola. Os conteúdos das disciplinas como Gramática, Matemática, Física, Biologia, etc., estão ficando em segundo plano, e as aulas têm sido constantemente um meio de se inserirem os valores de uma agenda de esquerda, com suas pautas como o aborto, o homossexualismo, a desestruturação dos valores familiares, o ateísmo, e todas as suas derivações e consequências resultantes. Você pode conferir um exemplo disso aqui.

Dos capítulos 1 ao 4 são apresentadas as técnicas psicológicas utilizadas. Têm-se, por exemplo, a “submissão à autoridade”, desenvolvida por Stanley Milgram; a tendência do ser humano ao “conformismo”, estudada por S. E. Asch; os efeitos da “norma do grupo” sobre o indivíduo, conforme demonstrada pelos trabalhos de M. Sherif; o fenômeno “pé-na-porta”, apresentado por Freedman e Freaser; o “porta na cara”, a teoria da “dissonância cognitiva”, desenvolvida por Festinger nos anos 1950, entre outras que são adaptadas e incorporadas nas práticas pedagógicas.

Alguns exemplos podem ser apresentados brevemente aqui: a tendência ao conformismo, por exemplo, foi estudada por Asch. O pesquisador fez o seguinte teste: é apresentada ao sujeito avaliado uma linha desenhada sobre uma folha (linha padrão). Juntamente com ela estão outras três linhas de tamanhos diferentes (linhas diferentes). Em seguida lhe é pedido para apontar qual das três linhas tem o mesmo tamanho da linha padrão. Mas juntamente com o sujeito avaliado estão outros indivíduos associados ao pesquisador e cuja tarefa consiste em responder à mesma questão, mas propositadamente de modo errado, ou seja, apontando a linha que não é do mesmo tamanho que a linha padrão. O sujeito avaliado desconhece essa associação dos pesquisadores. Nessa situação, o indivíduo testado tem duas alternativas: ou ele diz a resposta certa (que é fácil de responder), se opondo, assim, à opinião unânime do grupo; ou ele diz a resposta errada, se conformando, então, com os demais. Isso é repetido várias vezes. A pesquisa de Asch mostrou que aproximadamente três quartos dos indivíduos avaliados se deixaram influenciar, dando uma ou várias respostas erradas em razão da influência do grupo e, consequentemente, para não se opor aos outros.

Na ausência de pressões do grupo as respostas corretas chegaram aos 92%. Os indivíduos entrevistados depois da experiência diziam ter depositado uma confiança na maioria, afinal, todos diziam que tal linha era a igual e apenas ele dizia que não.

Tal experimento demonstrou que o indivíduo abre mão de sua percepção e entendimento por causa da adesão da maioria a uma resposta. Outros afirmaram conformar-se com a opinião do grupo para não parecerem inferiores ou diferentes. Com esse experimento, demonstrou-se ser possível mudar a percepção de um grupo minoritário de pessoas. O que ocorreu nessas experiências dos indivíduos é que ao aderirem às respostas erradas eles se sentiam libertos da pressão psicológica do grupo. Ocorre, porém, que na sociedade as pressões psicológicas são muito mais intensas e de múltiplos aspectos, e para aliviar o estresse psicológico vivenciado por se sentir diferente, inferiorizado, contrário ao pensamento e comportamento da maioria, os indivíduos acabam adotando ações e percepções apresentadas pelo grupo (ou sociedade) a fim de, assim, se livrarem de seus desconfortos psicológicos.

A técnica “porta na cara”, por sua vez, consiste em apresentar inicialmente a um indivíduo um pedido exorbitante, exagerado, que obviamente será recusado. Em seguida se faz um segundo pedido e este é, na maioria das vezes, aceito. Uma pesquisa pedia para alguns estudantes acompanharem um grupo de jovens delinquentes por duas horas em um zoológico. Quando formulada diretamente, essa solicitação teve adesão de 16,7%. No entanto, quando colocada após um pedido exorbitante, a taxa de adesão subiu para 50%. Em sala de aula, um professor pode propor inicialmente um trabalho que sabe ser absurdo e será amplamente rejeitado pelos alunos, mas, em seguida, disfarçando-se de democrático ou receptivo às sugestões dos alunos, o professor propõe então algo menos exorbitante e, assim, se tem adesão de boa parte da turma. Soma-se a isso que os que não aderirem de início irão aderir por pressão da maioria. Mas o objetivo principal do professor sempre foi estabelecer a segunda proposta apresentada.

Essas técnicas podem extorquir de alguém atos que contradizem seus valores, percepções e sentimentos. A criação de uma “dissonância cognitiva” em um indivíduo é outra técnica psicológica utilizada na educação, atuando em conjunto com muitas outras. “Uma dissonância cognitiva é uma contradição entre dois elementos do psiquismo de um indivíduo, sejam eles: valor, sentimento, opinião, recordação de um ato, conhecimento, etc.” (p. 23). As pesquisas mostram que um indivíduo em uma situação de dissonância cognitiva tem a forte tendência de reorganizar seu psiquismo com o objetivo de reduzir essa dissonância, isto é, o desconforto e o estresse que isso gera. “Se um indivíduo é levado a cometer publicamente (na sala de aula, por exemplo) ou frequentemente (ao longo do curso) um ato em contradição com seus valores, sua tendência será a de modificar tais valores, para diminuir a tensão que lhe oprime. Em outros termos, se um indivíduo foi aliciado a um certo tipo de comportamento, é muito provável que ele venha a racionalizá-lo. [...] Dispõe-se, assim, de uma técnica extremamente poderosa e de fácil aplicação, que permite que se modifiquem os valores, as opiniões e os comportamentos e capacita a produzir uma interiorização dos valores que se pretende inculcar. Tais técnicas requerem a participação ativa do sujeito, que deve realizar atos aliciadores os quais, por sua vez, os levarão a outros, contrários às suas convicções” (p. 24).

Essas e muitas outras técnicas que Bernardin expõe em seu livro são evidenciadas nas práticas pedagógicas sugeridas pelas entidades internacionais, conduzidas por professores e pedagogos (que também passam por capacitações para serem instrumentos desses interesses) e que são capazes de criar dissonâncias cognitivas e subsequentemente a alteração de valores nos educandos.

O autor identifica ao longo da exposição desses documentos as técnicas de manipulação psicológica, explícitas e implícitas, usadas na educação. Exemplos de tais práticas pedagógicas ou lúdicas que podem estar a esse serviço são a dramatização de um determinado assunto em sala de aula. Pesquisas mostram que o papel assumido pelo ator (estudante) tem grande capacidade de aliciá-lo a adotar tal comportamento dramatizado. Um exemplo recente disso pode ser analisado neste vídeo.

As discussões em grupos nas salas de aula, por sua vez, podem colocar em prática as técnicas que se aproveitam da tendência ao conformismo para aliviar a pressão psicológica sofrida por pensar diferentemente da maioria. Ou as avaliações com respostas de múltipla escolha, cujas alternativas já estão encaixadas dentro de uma perspectiva ideológica fazendo com que o aluno assinale uma resposta como certa mesmo que ela seja contrária aos seus valores e até mesmo às suas percepções em relação a determinado assunto. Técnicas de recompensa com boas notas, elogios públicos, redação de textos sobre determinados assuntos, e muitas outras, são alguns exemplos sobre a capacidade que as ferramentas da psicopedagogia têm para levar o sujeito da avaliação (estudante) a interiorizar as novas normas sociais, novos valores e comportamentos. Por meio desses mecanismos, o aluno, ao longo de um processo diário, vai imperceptivelmente aderindo a esses valores de uma agenda de esquerda, seja por pressão coletiva, em razão da autoridade do professor, ou, principalmente, para evitar o desconforto psíquico que ele experimenta. Outro exemplo recente disso você pode verificar aqui.

Todas essas questões no livro são muito bem documentadas com as citações de diversas publicações da ONU e da Unesco, entre outras, e que podem muito bem ser conferidas por qualquer um que se dispuser a investigar o assunto. Tais documentos estão traduzidos para o português e com uma rápida busca no Google pode-se lê-los na íntegra e averiguar, então, seus conteúdos carregados de uma ideologia globalista e seus valores pouco ou nunca antes vividos pelas sociedades.

No capítulo 5, “A Revolução Ética”, Bernardin demonstra de que modo tais objetivos de inserir novos valores éticos pretensamente de aplicação global, isto é, de cima para baixo, são aplicados em todos os países do mundo que aderem a essas diretrizes internacionais. Como, então, transmitir esses novos valores com mais ímpeto e eficácia às sociedades? Como inseri-los na vida pessoal dos indivíduos? Além das estratégias psicopedagógicas já destacadas, o autor demonstra, no entanto, que inicialmente se deve bloquear a transmissão dos antigos valores de uma geração a outra. Esse bloqueio é de fundamental importância para se inserir, então, esses novos valores.

Isso significa que instituições com as quais as crianças e os adolescentes têm contato mais direto e primário, tais como a família (juntamente com a instituição religiosa em que essa família participa), precisam então ser alteradas. A influência da família precisa ser neutralizada o máximo possível para que os antigos e tradicionais valores de seus pais e avôs não lhes sejam então transmitidos, deixando, então, esse papel quase que unicamente para a escola ou universidade com as suas estratégias adotadas para inserir novos valores disfarçados de pedagogia.

Não é de se admirar, portanto, que os velhos objetivos do pensamento marxista, apresentado no Manifesto Comunista, de desestruturar e destruir a família e a propriedade privada, assim como o papel da religião como fonte de valores morais, ainda estejam em curso. O que vemos a cada dia são os ataques diretos e indiretos contra a instituição familiar e suas bases, a mais antiga instituição existente na humanidade e por meio da qual a civilização tem sua continuidade.

Quando novas propostas de família são apresentadas, com novos formatos alternativos e quantitativos de membros, o que se tem é uma forma de se interromper a transmissão de valores, da propriedade privada e outros legados familiares. Além disso, outra forma de bloquear essa transmissão é que a escola não se limite a influenciar apenas a criança, mas também seus pais, de modo que quando não totalmente neutralizados em sua influência sobre os filhos, eles se tornem, então, objeto dessa revolução “ética” e passem a agir e garantir que estes novos valores sejam assegurados aos próprios filhos em um longo prazo de tempo. Enquanto isso, a contínua desestruturação da família para impedir que os valores sejam transmitidos é ainda uma fase para poder controlar os valores.

Como bem destaca Bernardin, “a ruina dos valores morais é tão somente uma consequência, escolhida deliberadamente e conscientemente assumida, de um projeto de subversão dos valores que não se pode realizar em um prazo muito breve. Desse modo, a escalada da criminalidade, da insegurança, da delinquência, do consumo de drogas, a desestruturação psicológica dos indivíduos que se seguiu ao aviltamento moral e à consequente destruição do tecido social são as consequências de uma política consciente. Portanto, a manobra destinada a modificar os valores articula-se assim: inicialmente, impedir a transmissão, especialmente por meio da família, dos valores tradicionais; face ao caos ético e social daí resultantes, torna-se imperativo o retorno a uma educação ética – controlada pelos Estados e pelas organizações internacionais, e não mais pela família. Pode-se, então, induzir e controlar a modificação dos valores. Esquema revolucionário clássico: tese, antítese e síntese, que explica a razão por que, chegada a hora, os revolucionários se fazem os defensores da ordem moral” (p. 66).

No capítulo 6, o autor demonstra, mais uma vez, por meio de documentos, os objetivos desses órgãos internacionais de promover a utopia do multiculturalismo, criando uma nova cultura que será capaz de englobar a todas conjuntamente por meio de um único idioma, conforme atesta o documento da Unesco: “Uma das questões que devem ser examinadas é a do desenvolvimento, para essa sociedade global, de uma língua internacional que reforce e promova uma cultura internacional. A Unesco deveria realizar um estudo específico sobre esse assunto” (p. 71). Tal perspectiva nada mais é do que uma forma de imposição de nova linguagem que ao longo do tempo faça desaparecer alguns conceitos primordiais e fundamentais da existência. Não lhe surpreende o fato de muitas pessoas, entre elas professores, já estarem escrevendo “alunxs”, ao invés de “aluno”, ou “professorxs”, ao invés de “professor”, a fim de neutralizar o sujeito? Ou, para ficar com o exemplo de George Orwell, em seu clássico 1984: “A cada ano, menos e menos palavras, e o campo da consciência mais e mais restrito.” Retira-se do uso ao longo do tempo palavras como “liberdade”, “Deus”, “comunidade”, “família”, “homem”, “mulher”, e se terá uma geração que, desconhecendo tais palavras, desconhecerão também seus conceitos e funções, juntamente com o que elas representam.

Outro capítulo interessante do livro é o 7, que investiga as tentativas de se reescrever a história e, assim, amputar das culturas todo o seu passado peculiar, isto é, suas próprias raízes, e impedir sua ligação e a de seus indivíduos com seu passado e, consequentemente, com o passado de seu povo. Como declarado na 4ª Conferência dos Ministros da Educação, da Unesco, promovida para tomar tais medidas para as futuras gerações, foram feitas as seguintes proposições: “Elaboração de um manual de história geral da Europa, bem como um manual de história universal, com a ativa participação dos comitês de historiadores dos países interessados” (p. 73). E como a própria Unesco reconheceu, as sociedades mais aptas para promover tais mudanças são aquelas mais maleáveis e abertas às novidades. “Tais sociedades se beneficiam da participação ativa dos cidadãos no processo de aprendizagem. Ao longo dessa aprendizagem, a história deverá ser reescrita e reinterpretada” (p. 75). George Orwell já expressou de modo singular o entendimento de que “quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente controla o passado”.

Ao longo de todo o livro é demonstrado como os professores e a própria pedagogia são vistos como instrumentos dessa revolução que busca transformar as sociedades e promover nos seus membros os comportamentos e conceitos de uma cosmovisão materialista comunista, porém, disfarçada pela ideia de progresso moral, social e intelectual, envolta em belos ideias de paz, harmonia entre os povos, direitos infindáveis, pacifismo, ecologismo, tolerância, ecumenismo religioso, etc.

Essa revolução global em curso se dá pela internacionalidade dessas entidades e por meio do poder conferido a elas para ditar as diretrizes e os objetivos da educação nos países, oferecendo normas, práticas pedagógicas, materiais de estudo, etc. O objetivo em longo prazo é apresentado pelos próprios documentos da Unesco: “O ponto mais importante é que deveria haver um currículo universal, internacional e padrão, estabelecido sob os auspícios das Nações Unidas. Em particular, esse currículo padrão deveria ser difundido a partir das séries de manuais escolares padronizados elaborados sob os auspícios das Nações Unidas. [...] Enquanto uma geração não tiver recebido os ensinamentos de um currículo internacional padrão, todos raciocinarão segundo os velhos esquemas mentais que, por fim, são fatais para a humidade. Assim, desejamos receber a anuência voluntária dos diferentes parceiros da educação, famílias, organizações profissionais, associações religiosas e culturais, administrações e exército. Para o bem de todos, desejamos receber seu apoio na internacionalização e padronização da educação” (p. 84).

O que se tem então é: diminuição da influência da família na formação intelectual e moral da criança/adolescente (vide propostas como, por exemplo, retirar a celebração de dia dos pais e dia das mães das escolas de São Paulo. Confira); o aumento da influência maciça da escola nessa formação e transmissão de valores, reestruturação da linguagem, o poder do Estado sob a escola, a reescrita da história, apoio voluntário de organizações e até mesmo da religião na adesão desses novos valores e comportamentos defendidos por uma agenda de esquerda, entre os quais podem ser destacados o ateísmo, as novas formas de família, a legitimação jurídica e moral do aborto, a promoção do multiculturalismo, o controle do conhecimento a respeito do passado, e todas as suas facetas.

Maquiavel Pedagogo expõe de modo claro quais são os reais objetivos dos sistemas educacionais que aderem às diretrizes internacionais ditadas pelas entidades mencionadas ao longo do livro. A educação em diversos países, entre eles o Brasil, não tem mais o papel de realizar uma formação intelectual, cognitiva do indivíduo, mas antes modificar os valores, as atitudes e os comportamentos, e realizar, assim, uma revolução psicológica, “ética” e cultural, retirando a autonomia nacional dos países de ter uma educação que condiga com sua realidade histórica, tradicional e cultural.

Nesse sentido, o livro é de fundamental importância para aqueles que não compactuam com esses valores de uma cosmovisão comunista e almejam conservar a boa educação baseada nos valores tradicionais. Destaco, assim, a importância desse livro para se ajudar a preservar a educação adventista das influências dessas diretrizes. Precisamos estar atentos a essas influências que se apresentam, estando disfarçadas como ideais de progresso, de evolução qualitativa e de melhoria social. O livro vale a pena ser lido e discutido por nossos educadores adventistas, contribuindo para que possam identificar essas estratégias e evitar que elas adentrem na Rede Adventista de Educação presente em mais de 160 países e com quase dois milhões de alunos e 90 mil professores. Só no Brasil, temos 450 unidades escolares e cinco instituições de ensino superior, e por isso precisamos estar atentos a essas tendências educacionais mundiais e nos conservarmos enquanto instituição que preza pelos valores divinos. 

Essas e muitas outras estratégias em curso, muitas delas com os objetivos já alcançados, são sutis e podem passar por despercebida essa introdução dos valores da agenda de esquerda em nossas escolas e universidades. A religião não está imune a tal influência.

Destaco, como exemplo, o que já aconteceu nas instituições católicas por meio da proximidade que uma parte de seus representantes teve nos últimos mais de quarenta anos com as políticas de esquerda na América Latina por meio da Teologia da Libertação. É notável como são maleáveis essas estratégias para atingir seus objetivos e inserir esses valores e comportamentos em todas as esferas da vida pessoal e social. Enquanto que na antiga União Soviética essa agenda pregava o ateísmo como “religião” oficial do governo, aqui na América Latina eles se mesclaram com a religião e praticamente tomaram conta das estruturas do catolicismo por meio de trabalhos dos teólogos da libertação, como Leonardo Boff, Frei Beto, entre outros, de modo que hoje o catolicismo tenta, aqui e ali, se limpar desses discursos esquerdistas em suas paróquias, colégios e faculdades, mas parece ser um trabalho de enxugar gelo, uma vez que até mesmo o seu próprio representante, o papa Francisco, tem sido um propagador de tais valores de uma agenda global esquerdista (confira). O exemplo do que aconteceu no catolicismo demonstra como tais estratégias se infiltram em todos os aspectos da sociedade e, por isso, deve chamar nossa atenção para evitarmos que isso ocorra também no adventismo.

A pedagogia, a psicologia, a ética e a religião são áreas do conhecimento e da vida humana de fundamental importância, porém, podem e são frequentemente usadas como instrumentos a serviço de valores que são incompatíveis com os valores éticos, educacionais e religiosos que, como adventistas do sétimo dia, preservamos e defendemos, e que são conservados e transmitidos não apenas no púlpito, mas também em nossas editoras, por meio de revistas, livros, lições de estudos das Escrituras, em nossos hospitais, na mídia, mas, principalmente, em nossas escolas, colégios e universidades.

O livro Maquiavel Pedagogo, portanto, é uma leitura indispensável para o educador atento às pressões sociais e governamentais colocadas tanto em nossas instituições de ensino quanto em nossas famílias, situando-o e auxiliando-o na identificação dessas estratégias e em como evitar uma adesão inconsciente a elas.  

BERNARDIN, Pascal. Maquiavel Pedagogo: ou o ministério da reforma psicológica. Tradução de Alexandre Muller Ribeiro. 1 ed. Ecclesiae e Vide Editorial. Campinas, SP: 2013.

(W. Felipe Oliveira é doutorando em Filosofia)