sexta-feira, junho 09, 2017

As duas revelações (parte 2): revelação da revelação na natureza

É relativamente comum encontrar cristãos que temem dar crédito à Ciência por acreditar que isso seria colocar a sabedoria humana acima da sabedoria de Deus. Geralmente, dizem que precisamos confiar na Bíblia como a revelação de Deus. Por outro lado, com frequência, se apoiam em textos produzidos por teólogos, filósofos e outros para compreender o sentido das Escrituras. Será que a Bíblia é a única revelação que temos de Deus? Foi a primeira? Se acreditamos que houve um Criador, não devemos acreditar que as obras criadas revelam algo sobre Ele? Que elas possam apresentar Sua assinatura pessoal? E que o processo de entender e desvendar a natureza deveria revelar Sua assinatura? A Bíblia está repleta de apelos para que se observe a natureza para melhor compreender as lições espirituais. Vejamos o que está escrito no livro mais antigo da Bíblia:

“Mas, pergunta agora às alimárias, e elas te ensinarão; e às aves do céu, e elas te farão saber; ou fala com a terra, e ela te ensinará; até os peixes o mar to declararão. Qual dentre todas estas coisas não sabe que a mão do Senhor fez isto?” (Jó 12:7-9).

“Quem é este que escurece o conselho com palavras sem conhecimento? Agora cinge os teus lombos, como homem; porque te perguntarei, e tu Me responderás. Onde estavas tu, quando Eu lançava os fundamentos da terra? Faze-mo saber, se tens entendimento. Quem lhe fixou as medidas, se é que o sabes? Ou quem a mediu com o cordel? Sobre que foram firmadas as suas bases, ou quem lhe assentou a pedra de esquina, quando juntas cantavam as estrelas da manhã, e todos os filhos de Deus bradavam de júbilo?” (Jó 38 e 39).

Esses dois capítulos inteiros (12 e 38) apontam para as obras da natureza como forma de se entender a justiça de Deus. Foi a resposta de Deus a Jó depois da longa discussão teológica entre ele e seus amigos sobre a justiça divina.

Outros livros do Antigo Testamento nos convidam a considerar a grandeza de Deus através dos mundos e sóis que Ele criou:

“Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das Suas mãos. Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite. Não há fala, nem palavras; não se lhes ouve a voz. Por toda a terra estende-se a sua linha, e as suas palavras até os confins do mundo” (Salmo 19:1-4).

“A quem, pois, Me comparareis, para que Eu lhe seja semelhante?, diz o Santo. Levantai ao alto os vossos olhos, e vede: quem criou estas coisas? Foi aquele que faz sair o exército delas segundo o seu número; Ele as chama a todas pelos seus nomes; por ser Ele grande em força, e forte em poder, nenhuma faltará” (Isaías 40:25, 26).

O rei Salomão, considerado o homem mais sábio de seu tempo, não estudou os filósofos da época, mas realizou pesquisas em Botânica e Zoologia:

“A sabedoria de Salomão era maior do que a de todos os do Oriente e do que toda a sabedoria dos egípcios. Era ele ainda mais sábio do que todos os homens, mais sábio do que Etã, o ezraíta, e do que Hemã, Calcol e Darda, filhos de Maol; e a sua fama correu por todas as nações em redor. Proferiu ele três mil provérbios, e foram os seus cânticos mil e cinco. Dissertou a respeito das árvores, desde o cedro que está no Líbano até o hissopo que brota da parede; também dissertou sobre os animais, as aves, os répteis e os peixes. De todos os povos vinha gente para ouvir a sabedoria de Salomão, e da parte de todos os reis da terra que tinham ouvido da sua sabedoria” (1 Reis 4:30-34).

Os provérbios e os cânticos que ele escreveu estão repletos de conselhos e imagens extraídos da natureza. Abaixo estão uns poucos exemplos:

“O Senhor pela sabedoria fundou a terra; pelo entendimento estabeleceu o céu. Pelo seu conhecimento se fendem os abismos, e as nuvens destilam o orvalho” (Provérbios 3:19, 20).

“Mas a vereda dos justos é como a luz da aurora que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito” (Provérbios 4:18).

“Vai ter com a formiga, ó preguiçoso, considera os seus caminhos, e sê sábio; a qual, não tendo chefe, nem superintendente, nem governador, no verão faz a provisão do seu mantimento, e ajunta o seu alimento no tempo da ceifa” (Provérbios 6:6-8).

“O Senhor me criou como a primeira das Suas obras, o princípio dos Seus feitos mais antigos. Desde a eternidade fui constituída, desde o princípio, antes de existir a Terra. Antes de haver abismos, fui gerada, e antes ainda de haver fontes cheias d’água. Antes que os montes fossem firmados, antes dos outeiros eu nasci, quando Ele ainda não tinha feito a Terra com seus campos, nem sequer o princípio do pó do mundo. Quando Ele preparava os céus, aí estava eu; quando traçava um círculo sobre a face do abismo, quando estabelecia o firmamento em cima, quando se firmavam as fontes do abismo, quando Ele fixava ao mar o seu termo, para que as águas não traspassassem o seu mando, quando traçava os fundamentos da terra, então eu estava ao Seu lado como arquiteto; e era cada dia as Suas delícias, alegrando-me perante Ele em todo o tempo; folgando no seu mundo habitável, e achando as minhas delícias com os filhos dos homens” (Provérbios 8:22-31).

“Quem subiu ao céu e desceu? Quem encerrou os ventos nos seus punhos? Mas amarrou as águas no seu manto? Quem estabeleceu todas as extremidades da terra? Qual é o Seu nome, e qual é o nome de Seu filho? Certamente o sabes!” (Provérbios 30:4).

“A sanguessuga tem duas filhas, a saber: Dá, Dá. Há três coisas que nunca se fartam; sim, quatro que nunca dizem: Basta; o Seol, a madre estéril, a terra que não se farta d’água, e o fogo que nunca diz: Basta” (Provérbios 30:15, 16).

“Há três coisas que são maravilhosas demais para mim, sim, há quatro que não conheço: o caminho da águia no ar, o caminho da cobra na penha, o caminho do navio no meio do mar, e o caminho do homem com uma virgem” (Provérbios 30:18, 19).

“Quatro coisas há na terra que são pequenas, entretanto são extremamente sábias; as formigas são um povo sem força, todavia no verão preparam a sua comida; os querogrilos são um povo débil, contudo fazem a sua casa nas rochas; os gafanhotos não têm rei, contudo marcham todos enfileirados; a lagartixa apanha-se com as mãos, contudo anda nos palácios dos reis. Há três que andam com elegância, sim, quatro que se movem airosamente: o leão, que é o mais forte entre os animais, e que não se desvia diante de ninguém; o galo emproado, o bode, e o rei à frente do seu povo” (Provérbios 30:24-31).

“Eu sou a rosa de Sarom, o lírio dos vales. Qual o lírio entre os espinhos, tal é a minha amada entre as filhas. Qual a macieira entre as árvores do bosque, tal é o meu amado entre os filhos; com grande gozo sentei-me à sua sombra; e o seu fruto era doce ao meu paladar” (Cântico dos Cânticos 2:1-3).

“Pois eis que já passou o inverno; a chuva cessou, e se foi; aparecem as flores na terra; já chegou o tempo de cantarem as aves, e a voz da rola ouve-se em nossa terra. A figueira começa a dar os seus primeiros figos; as vides estão em flor e exalam o seu aroma. Levanta-te, amada minha, formosa minha, e vem” (Cântico dos Cânticos 2:11-13).

“Desci ao jardim das nogueiras, para ver os renovos do vale, para ver se floresciam as vides e se as romanzeiras estavam em flor” (Cântico dos Cânticos 6:11).

Quando aqui na Terra, frequentemente Cristo utilizava exemplos da natureza para extrair lições espirituais. Mandava olhar às aves e aos lírios do campo para compreender o cuidado de Deus (Mateus 6:26-30), apelava ao conhecimento das árvores e seus frutos para se avaliar o caráter de uma pessoa ou ensino (Mateus 7:16-20). Suas parábolas estavam repletas de comparações da natureza para ilustrar verdades espirituais: ovelhas, semeadura, colheita, vinha, o crescimento da semente, os movimentos do vento, etc.

O discurso de Paulo em Atenas foi eminentemente criacionista, afirmando que os homens podem encontrar evidências de Deus nos próprios processos da vida humana, que são maravilhosos:

“O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há, sendo ele Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens; nem tampouco é servido por mãos humanas, como se necessitasse de alguma coisa; pois Ele mesmo é quem dá a todos a vida, a respiração e todas as coisas [...] para que buscassem a Deus, se porventura, tateando, O pudessem achar, o qual, todavia, não está longe de cada um de nós; porque nEle vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois dEle também somos geração” (Atos 17:24-27).

Em Romanos, ele segue nessa linha afirmando que as coisas criadas ensinam sobre Deus:

“Porquanto, o que de Deus se pode conhecer, neles se manifesta, porque Deus lho manifestou. Pois os Seus atributos invisíveis, o Seu eterno poder e divindade, são claramente vistos desde a criação do mundo, sendo percebidos mediante as coisas criadas, de modo que eles são inescusáveis” (Romanos 1:19, 20).

O texto acima não diz meramente que a natureza aponta para o Criador, mas diz que “os atributos invisíveis de Deus” podem ser “percebidos mediante as coisas criadas”. Um exemplo disso é a descoberta do princípio da ação mínima pelo matemático e filósofo francês Maupertuis. Ele extraiu seu princípio do estudo da Bíblia e da utilização das regras matemáticas da natureza. Esse princípio permite deduzir as leis físicas mais fundamentais.[*]

Considerando que a natureza e a Bíblia são revelações do mesmo Criador, não deve haver contradições entre elas, e o estudo da natureza não trará conhecimentos que estejam em oposição às Escrituras.

Podemos concluir, então, que a revelação escrita aponta para a revelação na natureza, e a revelação na natureza aponta para Deus? Que ao evitar entender ou observar a natureza estaremos perdendo importantes mensagens que Deus deixou escritas ali para nós? Que a revelação de Deus tem duas pernas, e ao rejeitarmos uma estaremos nos movendo com uma perna só?

(Continua...)

(Graça Lütz é bióloga e bioquímica)

Referência: 

[*] DE MAUPERTUIS, P. L. M. Translation: Derivation of the laws of motion and equilibrium from a metaphysical principle. https://en.m.wikisource.org/wiki/