terça-feira, junho 13, 2017

As duas revelações (parte 3): a Idade Média e a Revolução Científica

Comumente se acredita que a Idade Média, também conhecida como Idade Escura, foi uma época de trevas e superstição, uma época em que houve pouco progresso no conhecimento e na qualidade de vida. Os pensadores racionalistas dos séculos 17 e 18 rejeitaram aquela visão de mundo baseada no poder da Igreja e do rei.[1] [2] Junto com o abuso de poder pela Igreja e pela Monarquia, porém, um grande número deles rejeitou a religião e o Deus bíblico, acreditando que foram eles a causa daquele tipo de mundo. Foi a religião da Idade Média fruto dos ensinamentos bíblicos? Estava ela seguindo as instruções deixadas por Cristo e os apóstolos? A Igreja Cristã fundada por Cristo e os apóstolos foi perseguida em seu início pelos imperadores romanos. A mudança ocorreu quando o imperador Constantino, aparentemente, se converteu ao Cristianismo.

“A adesão de Constantino ao Cristianismo assegurou a exposição de todos os seus súditos à religião e ele obteve não pouco domínio. Ele também estabeleceu o domingo como um feriado romano oficial de modo que mais pessoas pudessem comparecer à igreja e tornou as igrejas isentas de impostos. No entanto, muitas das mesmas coisas que ajudaram o Cristianismo a se espalhar subtraíram dele seu significado pessoal e promoveram corrupção e hipocrisia. Muitas pessoas eram atraídas à Igreja por causa do dinheiro e das posições favoráveis que Constantino disponibilizava para elas, ao invés do que pela piedade. [...] Constantino acreditava que a Igreja e o Estado deviam ser tão íntimos quanto possível. De 312 a 320, Constantino foi tolerante com o paganismo, mantendo deuses pagãos nas moedas e retendo seu título pagão de sumo sacerdote, ‘Pontífice Máximo’, a fim de manter a popularidade com seus súditos, indicando que possivelmente ele nunca entendeu a teologia do Cristianismo. De 320 a 330, ele começou a atacar o paganismo por meio do governo, mas, em muitos casos, persuadia o povo a seguir as leis combinando a adoração pagã com o Cristianismo.”[3]

A religião cristã manteve-se relativamente pura e fiel aos ensinamentos de Cristo e dos apóstolos enquanto era perseguida, mas quando obteve o favor do Estado, ela começou a fazer concessões em troca de favores. A pureza da mensagem foi obliterada em favor da popularidade e do poder. A religião cristã absorveu muito do paganismo.

O cardeal Gibbons explica o que aconteceu com a Igreja nesse tempo: “Constantino concedeu à Igreja Romana munificentes doações de dinheiro e estado real, os quais aumentaram por subvenções adicionais de imperadores subsequentes. Consequentemente, o patrimônio dos pontífices romanos logo se tornou bastante considerável. [...] Um acontecimento que ocorreu no reinado de Constantino pavimentou o caminho para a jurisdição parcial que os pontífices romanos começaram a experimentar sobre Roma e que eles continuaram a exercer até que obtiveram plena soberania nos dias do rei Pepino da França. No ano 327, o imperador Constantino transferiu o trono do império de Roma para Constantinopla, a atual capital da Turquia. [...] Abandonada a si mesma, Roma se tornou uma presa tentadora para aquelas numerosas hordas de bárbaros do Norte que então devastavam a Itália. [...] Sem poder obter auxílio do imperador no leste ou do governador em Ravena, os cidadãos de Roma recorreram aos papas como seus únicos governadores e protetores, e como sua única salvação dos perigos que os ameaçavam. [...] ‘Em pouco tempo encontramos este colossal império se despedaçando e a Cabeça da Igreja Católica dispensando leis para a Cristandade na própria cidade na qual os césares imperiais haviam promulgado seus editos contra o Cristianismo!’”[4]

A Igreja obteve o favor do mundo. As profecias do Apocalipse revelam que a Igreja desse período se corrompeu e se tornou “prostituta”, forma como a Bíblia representa o povo de Deus quando este faz aliança com os poderes do mundo (Apocalipse 17:1-6; Apocalipse 19:1, 2; Isaías 1:1, 4 e 21; Ezequiel 23:1-5 e 11; Oseias 1:1, 2). A mensagem e os mandamentos de Deus na Bíblia foram misturados e, muitas vezes, modificados para se adaptar às tradições e à autoridade humanas.

Diz o cardeal Gibbons: “Uma regra de fé ou um competente guia para o Céu deve ser capaz de instruir em todas as verdades necessárias para a salvação. No entanto as Escrituras, somente, não contêm todas as verdades que um cristão é levado a crer, nem prescrevem explicitamente todos os deveres que ele é obrigado a praticar. Para não mencionar outros exemplos, não está cada cristão obrigado a santificar o domingo e se abster nesse dia de desnecessária obra servil? Não está a observância dessa lei entre os mais proeminentes de nossos deveres sagrados? Mas você pode ler a Bíblia de Gênesis a Apocalipse e não encontrará uma única linha autorizando a santificação do domingo. As Escrituras requerem a observância religiosa do sábado, um dia que nós nunca santificamos. A Igreja Católica corretamente ensina que nosso Senhor e Seus apóstolos inculcaram certos deveres religiosos importantes que não foram registrados pelos escritores inspirados. [...] Devemos, portanto, concluir que as Escrituras sozinhas não podem ser um suficiente guia e regra de fé porque elas não podem, em tempo nenhum, estar dentro do alcance de cada inquiridor; porque elas não são por si mesmas claras e inteligíveis, mesmo em questões da mais alta importância e porque elas não contêm todas as verdades necessárias para a salvação.”[4]

E ele prossegue afirmando o que é considerado seguro para a salvação das pessoas: “A Igreja tem autoridade de Deus para ensinar a respeito da fé e moralidade, e em seu ensino ela é preservada de erro pela especial guia do Espírito Santo. Essa prerrogativa de infalibilidade é claramente deduzida dos atributos da Igreja já mencionados. [...] Quando uma disputa surge na Igreja com relação ao sentido da Escritura, o assunto é referido ao Papa para adjudicação final. O Soberano Pontífice, antes de decidir o caso, reúne ao redor de si seus veneráveis colegas, os cardeais da Igreja; ou ele convoca um conselho de seus juízes de fé associados, os bispos da Cristandade; ou ele recorre a outras luzes que o Espírito Santo possa sugerir-lhe. Então, após deliberação madura e com oração, ele pronuncia juízo e sua sentença é final, irrevogável e infalível.”[4]

Contudo, na Bíblia, é declarado inequivocamente que ela provê a sabedoria necessária para a salvação, que nada deve ser acrescentado a ela e que se alguém falar algo que não está de acordo com ela, essa pessoa não tem iluminação (direção do Espírito Santo): “E que desde a infância sabes as sagradas letras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus. Toda Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente preparado para toda boa obra” (2 Timóteo 3:15-17).

“Toda palavra de Deus é pura; Ele é um escudo para os que nEle confiam. Nada acrescentes às Suas palavras, para que Ele não te repreenda e tu sejas achado mentiroso” (Provérbios 30:5, 6).

“A Lei e ao Testemunho! se eles não falarem segundo esta palavra é porque não têm iluminação” (Isaías 8:20).

“Deixai-vos pois do homem cujo fôlego está no seu nariz; porque em que se deve ele estimar?” (Isaías 2:22).

E Jesus falou claramente aos sacerdotes de Seu tempo quando eles instituíram preceitos que não estavam nas Escrituras e que se opunham à lei que o próprio Deus havia dado: “E vós, por que transgredis o mandamento de Deus por causa da vossa tradição? Pois Deus ordenou: Honra a teu pai e a tua mãe; e, Quem maldisser a seu pai ou a sua mãe, certamente morrerá. Mas vós dizeis: Qualquer que disser a seu pai ou a sua mãe: O que poderias aproveitar de mim é oferta ao Senhor; esse de modo algum terá de honrar a seu pai. E assim por causa da vossa tradição invalidastes a palavra de Deus. Hipócritas! bem profetizou Isaías a vosso respeito, dizendo: Este povo honra-Me com os lábios; o seu coração, porém, está longe de Mim. Mas em vão Me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homem” (Mateus 15:3-9).

Os racionalistas dos séculos 17 e 18 rejeitaram toda religião e o Deus cristão, e idealizaram um mundo fundado sobre a razão humana que viveria um progresso constante em meio a liberdade, igualdade e fraternidade. Eles imaginaram que a causa para a opressão e a tirania estava na existência da religião e da monarquia. Não perceberam que a causa para a corrupção está no coração humano que se desviou de Deus no início da história da humanidade. De forma que o ser humano pode se desviar de Deus e seguir seus impulsos dentro da religião ou fora dela. Na prática, o resultado é o mesmo.

Os pioneiros da Revolução Científica nunca viram oposição entre a Ciência e a Religião, pelo contrário, era sua religião que os levava a apreciar melhor os fenômenos da natureza. Copérnico foi um cônego da Igreja até o fim de sua vida e dedicou sua obra De Revolutionibus Orbium Coelestium ao papa Paulo III.[5] O caso de Galileu com a Igreja foi mais uma questão política de desconsiderar a autoridade do Papa do que uma controvérsia entre Ciência e Religião. Galileu nunca abandonou a religião até o fim de sua vida.[6] Newton passou grande parte de sua existência estudando a Bíblia e suas profecias. Ele produziu uma extensa obra sobre esses temas e a Universidade de Oxford disponibilizou seus escritos religiosos em um site denominado The Newton Project.[7]

Giordano Bruno é por muitos considerado um mártir da Ciência. Ele foi condenado pelo tribunal da Inquisição e morreu queimado em 1600.[8] Contudo, ele foi mais um filósofo do que cientista. Hilary Gatti escreveu que ele tinha uma “bem conhecida e claramente expressa aversão pela nova matemática, que ele via como uma abstração esquemática tentando aprisionar as vicissitudes vitais da matéria em fórmulas estáticas de validade universal”.[9] E Alessandro G. Farinella declara que, “com relação à doutrina de Bruno sobre conhecimento, os termos e as referências que ele emprega se aproximam, na maior parte, especificamente, da linguagem neoplatônica. O mundo é considerado como um todo dividido em uma série de graus, que a tradição neoplatônica encapsulava na imagem da schala naturae, graus que estão presentes nos processos e funções cognitivos. Bruno enfatiza que tais funções são espontaneamente despertadas na alma quando a atenção do sujeito está livre do peso e corporalidade do conhecimento sensorial.”[10]

A Catholic Encyclopedia afirma o seguinte sobre o motivo de sua condenação pela Inquisição: “Bruno não foi condenado por sua defesa do sistema copernicano de astronomia, nem por sua doutrina da pluralidade de mundos habitados, mas por seus erros teológicos que eram os seguintes: que Cristo não era Deus, mas meramente um pouco comum mágico habilidoso, que o Espírito Santo é a alma do mundo, que o Diabo será salvo, etc.”[11]

A Encyclopaedia Britannica, como mencionado anteriormente, declara que a descoberta de Newton do Cálculo alavancou o desenvolvimento de todas as ciências e tecnologias atuais. O estudo das leis básicas da Física depende do Cálculo, assim como as da Química, da Biologia e de outras áreas de conhecimento da natureza.

É comum que pessoas que lidam com diferentes áreas de estudo da natureza não tenham consciência plena das leis que regem os fenômenos básicos com os quais elas lidam diariamente, pois, normalmente, usam aplicações dessas leis sem pensar expressamente sobre isso. Basta pensar que a descoberta do Cálculo tornou possível a dedução de relações que geram fórmulas usadas em diversas áreas e que levaram ao desenvolvimento dos microscópios eletrônico e de tunelamento, entre outros; os exames de tomografia, ressonância magnética e ultrassonografia; os equipamentos de laboratório; a exploração do espaço; os computadores e a internet, os celulares; enfim, tudo o que facilita as pesquisas e produz os confortos modernos.

Além disso, é bastante comum o pensamento de que a Relatividade e a Mecânica Quântica invalidaram as leis de Newton quando se consideram velocidades próximas à da luz, campos gravitacionais muito intensos ou fenômenos microscópicos. O que ocorreu, na verdade, foi que essas novas teorias podem ser entendidas como especializações da Mecânica de Newton, pois coincidem com ela acrescida de postulados que tornam o sistema mais específico. O que se fazia anteriormente com as leis de Newton era acrescentar-lhes postulados implicitamente, postulados esses baseados apenas em noções filosóficas que não faziam parte da teoria newtoniana em si, tais como a ideia de que o tempo é absoluto e de que as grandezas físicas podem ser bem representadas por números. A Relatividade e a Mecânica Quântica apenas contradizem esses conceitos extras, não a Mecânica de Newton em si.

Notemos, portanto, que enquanto os filósofos racionalistas idealizavam um mundo de progresso fundado na razão humana e na liberdade à parte de Deus, o homem, que com sua descoberta do Cálculo foi o principal responsável pelas maravilhas do mundo moderno, passou grande parte do seu tempo entre o estudo da Bíblia e da natureza. As duas revelações de Deus foram estudadas diligentemente por ele e isso o habilitou a transformar o mundo!

(Continua...)

(Graça Lütz é bióloga e bioquímica)
  
Referências: 
[1] ENCYCLOPEDIA, N. W. Age of enlightenment. http://www.newworldencyclopedia.org/entry/Age_of_Enlightenment
[2] OF PHILOSOPHY, S. E. Enlightenment. https://plato.stanford.edu/entries/enlightenment/ 20 8 2010
[3] GRIESMER, J., B., P., MCCARTY, E., MOSBO, E. M., FERGUSON, C., GRUPP, A. N. Constantine converts to christianity. http://www.thenagain.info/WebChron/EastEurope/ConstantineConverts.html
[4] GIBBONS, J. C. The faith of our fathers. John Murphy Company Publishers, 1917.
[5] Nicolaus copernicus biography.com. http://www.biography.com/people/nicolaus-copernicus-
[6] FERGUSON, K. Historical notes: Galileo insulted the pope, not the church. http://www.independent.co.uk/news/people/historical-notes-galileo-insulted-the-pope-not-the-church-1084369.html  31 3 1999
[7] ILIFFE, R., MANDELBROTE, S. The newton project. http://www.newtonproject.ox.ac.uk/texts/newtons-works/religious
[8] AQUILECCHIA, G. Giordano bruno italian philosopher. https://global.britannica.com/biography/Giordano-Bruno 22 12 2016
[9] GATTI, H. Giordano bruno and renaissance science. Cornell University Press, 2002.
[10] FARINELLA, A. G. Giordano bruno: Neoplatonism and the wheel of memory in the de umbris idearum. Renaissance Quarterly, v. 55, p. 596-624, 2002.
[11] ENCYCLOPEDIA, C. Giordano bruno. http://www.newadvent.org/cathen/03016a.htm