sexta-feira, julho 10, 2015

Dentes do siso: evidência de uma “atrofia” evolutiva?

Evolução ou uso inadequado?
Um dos exemplos que os evolucionistas utilizam para fundamentar suas alegações é o fato de que temos problemas com os dentes do siso. O “dente do siso” é um termo popular para os nossos terceiros molares, que por vezes não se desenvolvem adequadamente. Os terceiros molares são muitas vezes rotulados de “vestigiais” e tidos também como evidência para apoiar a suposta evolução humana a partir de um antepassado primata.[1-5] Esse ponto de vista foi inicialmente proposto por Darwin, que concluiu: “O molar posterior [dente do siso] foi tendendo a se tornar rudimentar nas raças humanas mais civilizadas. [...] Eles não cortam as gengivas até cerca do décimo sétimo ano, e eu tenho certeza de que eles são muito mais sujeitos à degradação, e são perdidos mais cedo do que outros dentes; mas isso é negado por alguns dentistas eminentes. Eles também são muito mais suscetíveis de variar, tanto na estrutura quanto no período do seu desenvolvimento, do que os outros dentes. Nas raças com mais melanina [negros], por outro lado, os dentes do siso são geralmente equipados com três dentes separados, e são geralmente sadios; eles também diferem dos outros molares em tamanho, menos do que nas raças caucasianas. Prof. Schaaffhausen aponta para essa diferença entre as raças pela ‘porção dental posterior da mandíbula sendo sempre ‘encurtada’ [...]. Eu fui informado pelo Sr. Brace que isso está se tornando uma prática comum nos Estados Unidos para remover alguns dos dentes molares de crianças, uma vez que a mandíbula não cresce suficientemente para o desenvolvimento perfeito do número normal.” [6: p. 20]

De forma geral, os evolucionistas acredita que a mandíbula humana encolheu de tamanho a partir da mandíbula do macaco (bem maior que a do ser humano), à medida que o homem evoluiu. Mas a evolução dos dentes se iniciou num momento em que os nossos supostos antepassados ​​hominídeos ainda estavam mastigando grandes tubérculos e outros alimentos a base de amido. Mais tarde, nossos ancestrais teriam começado a complementar sua dieta com carne crua. Posteriormente, ainda, as pessoas teriam descoberto que a carne cozida era bem melhor do que a carne crua. E, então, passaram a cozinhar.

Nesse processo, devido ao fato de os legumes e a carne cozida serem muito mais fáceis de mastigar, a mandíbula humana teria diminuído consideravelmente de tamanho, enquanto os dentes se mantiveram mais ou menos inalterados durante supostos milhões de anos. Isso teria causado uma rápida explosão no tamanho do cérebro humano. Em suma, a evolução teria produzido “um aumento no tamanho do cérebro às custas do tamanho da mandíbula”.[7: p. 3] Assim, a mandíbula teria se tornado pequena demais para os últimos dentes (terceiros molares) entrarem em erupção. Esse ponto de vista é geralmente explicado da seguinte forma:

“Nossos antepassados ​​tinham mandíbulas maiores, por isso havia espaço na boca humana para 32 dentes permanentes, incluindo os terceiros molares. Mas, agora, nossas mandíbulas são menores. O resultado: não há mais lugar na maioria das bocas para abrigar 32 dentes. Assim, os últimos dentes que desenvolvemos - dentes do siso - frequentemente tornam-se impactados ou bloqueados para a erupção.”[8]

Essa alegação de que os dentes do siso são uma parte do corpo humano que perdeu todo o propósito ainda aparece em diversas fontes bibliográficas. Por muitas décadas afirmou-se que os dentes do siso serviam apenas para gerar problemas, e que a mastigação não seria prejudicada caso eles fossem removidos cirurgicamente. Assim, a extração de dentes do siso foi durante muitos anos uma das intervenções cirúrgicas mais comuns no mundo ocidental.[9] Ademais, muitos dentistas foram aconselhados a extrair rotineiramente todos os dentes do siso, independentemente de eles estarem ou não causando problemas - alguns até mesmo removeram dentes do siso durante a adolescência, se houvesse a indicação de que eles poderiam mais tarde se tornar impactados.[10, 11]

Influenciados, portanto, pela alegação evolucionista de que os dentes do siso não serviam para nada, os dentistas não faziam esforços para proteger os dentes do siso da mesma forma como faziam com os outros dentes;[12] assim, a extração de bilhões de dentes ao longo da história pode ter sido desnecessária. Embora um cirurgião competente possa, sim, reduzir problemas graves mais tarde na vida pela remoção adequada dos terceiros molares, a remoção profilática de rotina é atualmente desaconselhada por muitos pesquisadores.[13]

Um dos motivos citados para a remoção dos dentes do siso é a possibilidade de cistos e tumores se desenvolverem no saco que envolve um dente do siso impactado. Essa anomalia (cistos), porém, é relativamente rara, geralmente fica em torno de 1% de todos os terceiros molares impactados, embora outro estudo verificasse que a taxa foi de 11%.[14, 15] Além disso, devido ao desenvolvimento do cisto ser extremamente lento, essa preocupação pode, muitas vezes, ser monitorada e tratada antes que acometa uma quantidade significativa de osso. Os tumores também são raramente um problema, e em um estudo revisado por Leff, o número é de “cerca de um em um milhão de dentes do siso impactados”.[10: p. 84]

Outro motivo frequentemente usado no passado para a extração incluía a crença de que os dentes do siso podem empurrar os outros dentes para frente, causando congestionamento. No entanto, a investigação nos últimos anos tem mostrado que os dentes do siso têm a mesma função de mastigação que os outros dentes, e que a crença de que os dentes do siso danificam a posição de outros dentes na boca é completamente infundada.[10] Como Leff conclui, “não há virtualmente nenhuma evidência” para apoiar a afirmação de que os dentes do siso empurram outros dentes para a frente.[10: p. 85] Aliás, pesquisas constataram que todos os dentes tendem a ir para a frente, pelo menos na meia-idade, independentemente se os dentes do siso forem ou não removidos.[16, 17]

Em outro estudo, Southard concluiu que o “deslocamento não pode ser evitado simplesmente pela extração de terceiros molares não irrompidos”,[18: p. 76] e que “a remoção desses dentes com a exclusiva finalidade de aliviar a força interdental e evitar, assim, a aglomeração é injustificada.”[18: p. 79] Samsudin e Mason encontraram em uma amostra de 423 pacientes agendados para remoção de dentes do siso que apenas 5% destes foram avaliados por ortodontistas como realmente necessitando de remoção por causa de superlotação.[19]

Como Daily observou em uma revisão de 145 estudos empíricos, a extração do terceiro molar com a finalidade de prevenir doença não é mais lógica do que a extração dos primeiros ou segundos molares para os mesmos fins.[20] O problema da superlotação dos dentes da frente geralmente ocorre por várias razões, tais como: a base do osso alveolar é muito pequena para o tamanho e a forma do dente, a falta de atrito, a maturação dos tecidos moles e a deriva mesial.[13, 21] Assim, é possível observar que a rotina de extração de dentes do siso é apenas um dos muitos exemplos em que as implicações da teoria da evolução têm contribuído para práticas médicas errôneas.

Por outro lado, pesquisas têm observado que há outras maneiras de resolver os problemas com os dentes do siso, em vez de apenas extraí-los.[20] Fato é que os dentes do siso têm uma função de mastigação assim como todos os outros, e não há nenhuma justificação científica para a crença de que eles não servem para nada. Então por que os dentes do siso causam um número significativo de problemas em humanos? Os cientistas descobriram que as dificuldades com os dentes do siso se manifestaram de forma diferente entre as comunidades humanas, e em momentos diferentes da história.

Ambos, egípcios pré-dinásticos e nubians (grupo étnico que habita a região sul do Egito), por exemplo, raramente tiveram problemas com dentes do siso, mas, muitas vezes, os problemas eram evidentes em pessoas que viveram em períodos posteriores a esses na história.[22] Os povos mongolóides apresentaram um percentual maior de agenesia (ausência) de terceiros molares do que outros grupos, e poucas pessoas nas sociedades primitivas tiveram problemas de dentes do siso.[23] Como observa Dahlberg, terceiros molares foram “muito úteis nas sociedades primitivas” para mastigar a dieta seguida para aquela época.[23: p. 171] Compreende-se, portanto, que os problemas com os dentes do siso raramente foram vistos em sociedades pré-industriais. Tem sido descoberto que a maneira como os alimentos sólidos deram lugar aos macios, ao longo dos últimos cem anos, em particular, afetou negativamente a forma como a mandíbula humana se desenvolveu. 

Entretanto, voltando à perspectiva evolucionista, um grande problema em sua explicação está na dificuldade em identificar qual a vantagem que uma mandíbula menor teria para a sobrevivência dos humanos modernos [24]. A evolução para uma mandíbula menor, na melhor das hipóteses, é um resultado da involução, isto é, a ação da disgenia (processo hereditário desvantajoso em uma espécie) causada ​​pelo acúmulo de mutações, provavelmente devido a alguma mudança que teria ocorrido em um passado recente nos seres humanos.[7, 25].

Porém, essa mudança não tem nada a ver com a macroevolução ou alguma “atrofia” evolutiva, e sim com a adaptação dentária a uma nova dieta. Muitos pesquisadores concluíram que a mudança na dieta para alimentos processados ​​e refinados nas sociedades modernas resultou em nosso uso reduzido de dentes do siso. Esse uso reduzido causou uma diminuição na demanda mastigatória (a teoria do desuso), resultando em mudanças no relacionamento entre os dentes e a mandíbula, o que poderia levar à falha dos dentes do siso em entrar em erupção na posição normal e à má oclusão (quando não há um encaixe perfeito).[26]

Em 2011, um estudo explicou como hábitos alimentares contribuem para o desenvolvimento da mandíbula.[27] Segundo essa pesquisa, quem consome alimentos mais sólidos, como caçadores, possui maxilar mais desenvolvido e maior, o que permite o nascimento e posicionamento normal dos dentes, sem problemas com o siso. Por sua vez, os agricultores, cujos alimentos são mais macios, possuem maxilar menor, causando problemas dentários como, por exemplo, a má oclusão.

Isso soa como macroevolução? Além disso, e como vimos, praticamente não há culturas “primitivas” com dentes impactados, porque sua dieta saudável exigia dentes do siso para moer e esmagar os alimentos crus e não processados. Acredita-se, também, que a má oclusão “é uma doença de civilização, e [está] confinada ao homem moderno, descendente de europeus”.[28: p. 46]

O último ponto a ser discutido – porém, não menos importante - diz respeito ao registro fóssil. Os documentos fósseis mostram excelentes padrões de dentes, bem projetados, encontrados em quaisquer animais desenterrados - sejam eles macacos ou dinossauros. Assim, o registro fóssil está em desacordo com o darwinismo. Segundo o zoólogo e escritor Frank Sherwin, se a evolução fosse verdadeira, especialistas em fósseis deveriam encontrar bilhões de criaturas fossilizadas com mandíbulas e dentes mal formados − testemunho para o conserto cego da evolução.[29] Cada vez que os dentes do siso ou qualquer outro tipo de dentes são encontrados no registro fóssil, eles estão bem formados e prontos para o uso. Portanto, o registro fóssil mostra que os dentes sempre foram dentes.

Em suma, as evidências sugerem que os problemas verificados com os dentes do siso na sociedade moderna não são devidos a mutações selecionadas naturalmente pelo ambiente, mas em grande parte, à adaptação a um novo padrão alimentar que não dá aos dentes o treino que eles exigem para assegurar a relação adequada com a boca.

(Texto traduzido e adaptado do original Bergman (1998) por Everton Fernando Alves, mestre em Ciências da Saúde pela UEM e diretor de ensino do Núcleo Maringaense da Sociedade Criacionista Brasileira [NUMAR-SCB]; seu e-book pode ser lido aqui)

Referências:
[1] Moore R. Evolution. New York: Tempo, Inc., 1962.
[2] Butler PM. “Tooth morphology and primate evolution.” In: Brothwell (Ed.). Dental Anthropology. Oxford: Pergamon Press, Oxford, 1963.
[3] Harris J, Weeks K. X-Raying the Pharaohs. New York: Charles Scribners & Sons, 1973.
[4] Kürten B (ed.). Teeth, Form, Function and Evolution. New York: Columbia University Press, 1982.
[5] Berra TA. Evolution and the Myth of Creationism. Stanford, California: Stanford University Press, 1990.
[6] Darwin C. The Descent of Man and Selection in Relation to Sex. New York: D. Appleton and Company, 1896; Capítulo 1. Disponível em: https://archive.org/stream/cu31924022544633#page/n43/mode/2up
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[30] Bergman J. “Are wisdom teeth (third molars) vestiges of human evolution?” Journal of Creation 1998; 12(3):297-304.