segunda-feira, julho 20, 2015

Projeto capilar humano: o músculo pilo-eretor

Vestigiais ou úteis? Que diz a ciência?
O pensamento evolutivo assume que o ser humano compartilha um ancestral comum com os outros primatas. Em 1871, Charles Darwin observou que os primatas são normalmente muito peludos, enquanto o ser humano não possui tantos pelos. Para ele, essa “nudez” humana podia ser explicada por meio da seleção sexual, isto é, os humanos perderam a maior parte de seus pelos a fim de atrair sexualmente seus parceiros.[1] Seguindo esse raciocínio, Darwin afirmou que a ausência de pelos no corpo foi uma característica selecionada sexualmente porque homens preferem mulheres com menos pelos, e porque “as mulheres em todas as raças têm menos pelos do que os homens”.[1: p. 559] Diante disso, ele concluiu que as mulheres foram as primeiras a perder seus pelos do corpo, e passaram essa característica igualmente para sua prole feminina e masculina.

Portanto, a partir do momento em que homens e mulheres supostamente evoluíram de ancestrais símios, eles teriam perdido seus pelos porque não precisavam mais deles para se acasalar. É por isso que arrepios são vistos como vestígios rudimentares de nossos supostos parentes peludos, que se estufavam até parecer maiores diante dos predadores, ou serviam para gerar calor (termorregulação) em circunstâncias particularmente frias.

Esse argumento confuso é aplicado já na fase embrionária. O biólogo evolucionista Jerry Coyne afirma que os finos pelos (lanugem ou lanugo) que recobrem o embrião humano seriam “apenas” um legado de nossos ancestrais primatas, expressando algumas de suas fases evolutivas.[2] Muitas vezes, essa lanugem ainda é visível em bebês prematuros.

Porém, as evidências demonstram que essa explicação do Dr. Coyne não está correta. Os pelos lanugo estão presente em embriões humanos pois servem a um propósito importante: sem lanugo, a pele embrionária não formaria de forma eficaz a camada protetora de que ela precisa enquanto estiver no útero.[3] Essa camada protetora, vérnix caseoso, é uma substância gordurosa branca que tem a função de proteger o feto de maceração pelo líquido amniótico.

Além disso, o vérnix caseoso facilita o nascimento do feto devido à sua natureza escorregadia e protege a pele de ser danificada pelas unhas.[4] Assim, os pelos lanugo servem para fixar (ancorar) essa camada protetora na superfície externa da pele enquanto ela está se formando. A propósito, se realmente houvesse um estágio embrionário refletindo um ancestral “peludo”, como o Dr. Coyne alega, a ciência deveria revelar que em algum momento no útero tínhamos um maior número de folículos pilosos do que mais tarde na vida. No entanto, esse não é o caso.

Por mais surpreendente que possa parecer, o número de folículos pilosos é o mesmo em todas as fases da nossa vida.[5, 6] O ex-professor de anatomia David Menton diz: “Os seres humanos têm três tipos básicos de fios de cabelo, que podem crescer a partir de [um mesmo] folículo, dependendo de influências hormonais ou de outros controles: os pelos lanugo, a penugem e o cabelo terminal.”

Em adultos, é visto que o corpo do homem, assim como o da maioria dos mamíferos, é coberto de pelos, exceto a palma das mãos e a planta dos pés.[7] Mas o homem, ao contrário de outros mamíferos, tem pelos incolores e minúsculos chamados pelos velos cobrindo todas as partes do corpo. Isso dá aos humanos a aparência de ser “sem pelo”, com exceção das áreas do couro cabeludo, rosto, axilas, peito e regiões genitais. Então, devido ao fato de o ser humano possuir poucos cabelos terminais (longos) em comparação com os minúsculos pelos velos é que surge a ideia de vestigialidade presente na literatura científica.

Desde 2004, a revista Discover mantém uma lista intitulada “Useless body parts” que, embora reconheça a função das sobrancelhas e da barba em homens, considera os pelos corpóreos como inúteis: “Sobrancelhas ajudam a manter o suor longe dos olhos e o cabelo facial [barba] masculino pode desempenhar um papel na seleção sexual, mas, aparentemente, a maior parte dos pelos deixados no corpo humano não tem nenhuma função.”[8]

Livros didáticos também têm mantido o argumento vestigial para os pelos, como pode ser visto aqui: “Pelos do corpo são outra característica humana sem função. Parecem ser uma relíquia evolucionária da pele que manteve aquecidos nossos antepassados ​​distantes (e que ainda aquece nossos parentes evolutivos mais próximos, os grandes macacos).” [9: p. 292]

Outro ponto controverso está relacionado ao músculo pilo-eretor (pilorum arrectores) - fibras musculares lisas -, responsáveis por causar pequenas elevações da pele conhecidas como “arrepios”. Motivados pelo paradigma naturalista, os neodarwinistas não enxergam nenhuma razão para que os humanos ainda tenham arrepios. Em uma lista chamada “Some more of God’s greatest mistakes”,[10] a qual é promovida por Jerry Coyne [11], podemos ver a seguinte alegação: “Desde que os humanos (especialmente mulheres) têm, geralmente, pouco pelo no corpo, é inútil ter o mesmo sistema de músculos (pilorum arrectores) e nervos simpáticos, que na maioria dos mamíferos levanta os pelos em resposta ao frio ou ao medo. No entanto, temos arrepios (cutis anserina [o nome científico]). Além do mais, se nossa pele é feita para ser principalmente nua, por que temos os minúsculos pelos [penugem] ineficazes (e músculos e nervos separados para eles) em tudo?”

No entanto, além do que ocorre em primatas, os arrepios em humanos também servem como um indicador de fortes experiências emocionais (frio e medo).[12] Ademais, a contração do músculo pilo-eretor durante os arrepios funciona como um sistema de termorregulação, produzindo e mantendo o calor do corpo; além disso, os pelos levantados fazem com que uma camada de ar fique parada sobre a pele, funcionando como isolante térmico.[13] Pesquisas indicam que o músculo pilo-eretor é importante também na integridade e ancoragem da unidade folicular (fios de cabelo), bem como na secreção do conteúdo sebáceo, útil na prevenção do ressecamento da pele e regeneração epitelial.[14, 15]

Longe de não apresentar um reflexo de design, os pelos no braço, no rosto ou em qualquer outro lugar do corpo têm funções que eram, até então, desconhecidas. Em 2001, um estudo descobriu que os pelos pubianos e axilares em humanos possuem uma função importante.[16] Regiões genitais e axilares apresentam muitos folículos pilosos (estrutura que origina o pelo), que, por sua vez, contêm glândulas sudoríparas apócrinas que produzem esteroides voláteis que atuam como feromônios − sinais químicos que instigam a atração sexual. 

Os pelos são embebidos em feromônios e essas secreções são, inicialmente, inodoras, mas acabam se transformando num odor forte a partir do momento em que bactérias penetram nas secreções, interagindo com elas e produzindo ainda mais feromônios.[16] Aí, então, um parceiro em potencial pode sentir o cheiro e o corpo o usa como um indicador de que a outra pessoa está pronta para ser atraída.

Em 2011, foi descoberto também que folículos pilosos, juntamente com as dobras e glândulas produtoras de óleo na pele, formam um habitat para os microrganismos comensais vitais para a capacidade da pele de combater os agentes patogênicos nocivos.[17, 18]

Em 2012, um estudo demonstrou que os pelos finos (penugem) ajudam a detectar e remover os parasitas indesejados do nosso corpo.[19] Os pesquisadores recrutaram 29 voluntários e rasparam uma área que continha pelos em um dos braços deles. Os cientistas, então, testaram quanto tempo os voluntários levaram para detectar percevejos colocados em cada braço e quanto tempo levou para que os parasitas encontrassem um bom lugar para se alimentar.

Os resultados mostraram que os pelos do corpo aumentaram a capacidade das pessoas em detectar os percevejos (aqueles com braços peludos). Nos braços visivelmente sem pelos, os indivíduos demoraram a perceber que havia um intruso parasita. Os pelos também prolongaram o tempo que os parasitas gastaram para encontrar lugares para se alimentar, presumivelmente porque atrapalharam o movimento deles.

Em 2012, foi descoberto que a barba masculina bloqueia 90-95% dos raios ultravioleta (UV), retardando assim o processo de envelhecimento e reduzindo o risco de câncer de pele.[20] Além disso, os pelos faciais bloqueiam o pólen e a poeira, reduzindo os sintomas de alergias sazonais, e retêm a umidade e protegem contra o vento, mantendo o homem com um aspecto mais jovem. Além do mais, o ato de se barbear é geralmente a causa de pelos encravados e infecções bacterianas que levam à acne.[21, 22]

Em 2014, um estudo analisou a estrutura e a função dos folículos pilosos da sobrancelha e concluiu que, embora eles compartilhem a mesma estrutura básica de folículos pilosos de outras partes do corpo, os pelos da sobrancelha apresentam funções distintas. Os pelos, por exemplo, são utilizados como um recurso estratégico do organismo para proteger os olhos da umidade da chuva ou do suor que escorre da testa.[23] O suor resultante da transpiração da pele é composto de substâncias que, em contato com a superfície do globo ocular, poderiam causar irritação. Além do mais, os pelos da sobrancelha apresentam função imunológica e social, tais como na expressão facial em humanos, no papel linguístico durante a comunicação verbal e não verbal, no reconhecimento facial e na percepção da direção do olhar de outras pessoas.[23-26]

Em relação à cabeça, um estudo também revelou que a cobertura de pelos da orelha reduz a exposição aos raios ultravioleta em até 81% em comparação com as orelhas sem pelos.[27] De igual modo, pesquisadores analisaram o papel protetor do cabelo na cabeça humana e descobriram que o cabelo protege o couro cabeludo e o pescoço da radiação ultravioleta e de possível melanoma.[27, 28]

E os carecas? Por que eles perdem os cabelos? O ex-professor de anatomia David Menton explica que os humanos nunca perdem um folículo piloso.[5, 6] Os folículos continuam a produzir cabelos ao longo de toda a vida em um ser humano. Na puberdade, porém, muitos começam a ficar carecas porque alguns folículos que antes produziam cabelos terminais (longos) começam a substituí-los por pelos velos, quase invisíveis. Assim, o ser humano não perde os cabelos com a idade, eles apenas ficam menores; e mesmo pequenos, eles ainda protegem o couro cabeludo.[28]

Como vimos, as evidências sugerem que ambas as estruturas e as funções de pelos e/ou cabelos apresentam sinais de complexidade e intencionalidade. O cabelo humano é tão complexo que os pesquisadores não o entendem completamente, muito menos podem explicar sua origem por processos evolutivos ao acaso.

(Everton Fernando Alves é mestre em Ciências da Saúde pela UEM e diretor de ensino do Núcleo Maringaense da Sociedade Criacionista Brasileira [NUMAR-SCB]; seu e-book pode ser lido aqui)

Referências:
[1] Darwin C. The decent of man, and selection in relation to sex. 2ª ed. London: John Murray, 1874. Disponível em: http://darwin-online.org.uk/converted/published/1874_Descent_F944/1874_Descent_F944.html
[2] Coyne JA. Why Evolution is True. New York: Viking, 2009, p. 80.
[3] Brauer PR. Human embryology: the ultimate USMLE step 1 review. Philadelphia, PA: Hanley & Belfus, 2003, p. 95.
[4] Tortora GJ, Grabowski SR. Principles of Anatomy and Physiology. 10ª ed. Nova Jersey: John Wiley and Sons, 2003, p. 154.
[5] Wieland C. “Blind fish, island immigrants and hairy babies.” Journal of Creation 2000; 23(1):46–49. http://creation.com/blind-fish-island-immigrants-and-hairy-babies
[6] Menton D. “The Amazing Human Hair” [Jul. 2007]. Human Body. Answers Magazine, 2007. Disponível em: https://answersingenesis.org/human-body/the-amazing-human-hair/
[7] Menton D. “Vestigial Organs – Evidence for Evolution?” Capítulo 24. In: Ham K. The New Answers Book 3. Green Forest, AR: Master Books, 2010. Disponível em: https://answersingenesis.org/human-body/vestigial-organs/vestigial-organs-evidence-for-evolution/
[8] Selim J, Aguilera-Hellweg M. “Useless Body Parts” [Jun. 2004]. Living World. Discover Magazine, 2004. Disponível em: http://discovermagazine.com/2004/jun/useless-body-parts
[9] Audesirk G, Audesirk T, Byers BE, Biology: Life on Earth with Physiology. 8th edition. San Francisco: Benjamin Cummings, 2007.
[10] Oolon Colluphid. Oolon Colluphid’s Guide to Creation. Lista: “Some more of God’s greatest mistakes”; disponível online até o momento da publicação deste artigo. Link: http://oolon.awardspace.com/SMOGGM.htm#goosebumps
[11] Coyne J. “Bad design: a theological or a scientific argument?” [Dez. 2009]. Site: Why evolution is true, 2009. Disponível em: https://whyevolutionistrue.wordpress.com/2009/12/10/bad-design-a-theological-or-a-scientific-argument/
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